Obras

15ª conferência dos padres do deserto

O Abade Nésteros e a Ciência Espiritual 

* * *

Diálogo entre o Abade Nésteros

e os monges Cassiano e Germano 

NÉSTEROS: 

Existem neste mundo muitas espécies de ciências, e sua variedade corresponde à das artes e profissões. Nenhuma, entretanto, existe que não seja ensinada conforme uma ordem e um método próprios, pelos quais podem adquiri-las os que as procuram.

Se, portanto, estas artes só se aprendem mediante linhas certas e particulares, quanto mais a disciplina e a profissão da nossa vida religiosa, que visa contemplar os arcanos das coisas invisíveis e busca não vantagens presentes, mas o prêmio da eterna recompensa, exige uma ordem e um método bem determinado!

Dupla é a ciência da vida religiosa: a primeira, a prática, isto é, a ativa, consuma-se no trabalho de emendar os costumes e se purificar dos vícios. A segunda, a teorética, consiste na contemplação das coisas divinas e no conhecimento das significações mais sagradas.

Quem quiser chegar à teorética tem que primeiro, necessariamente, adquirir a ciência ativa, empenhando-se com todo o zelo e virtude. A ciência prática podemos possuí-la sem a teorética, mas a teorética não pode, absolutamente, ser conseguida sem a ativa. São como dois degraus ordenados e distintos para que a humildade humana possa subir para as alturas. Se eles se sucedem da maneira que dissemos, é possível chegar ao cume. É, pois, em vão que tende à visão de Deus quem não evita o contágio dos vícios:

“O Espírito de Deus
detesta o fingimento
e não habita num corpo
escravo do pecado”.

Sab. 1, 5 e 4

A perfeição da vida ativa consiste em dois pontos. O primeiro é o modo de conhecer a natureza dos vícios e o método de curá-los. O segundo é discernir a ordem das virtudes e formar com a sua perfeição a nossa alma. De que maneira, na verdade, poderia atingir o plano das virtudes quem não pôde compreender a natureza dos vícios nem se esforçou para extirpá-los? Saibamos, no entanto, que nos custará duas vezes mais a pena e o suor para expulsar os vícios do que para adquirir as virtudes. Isto nós não compreendemos por uma conjectura pessoal, mas é o que nos ensina a palavra daquele que é o único a conhecer as forças e a condição da sua criatura:

“Eis que eu hoje te estabeleci
sobre as nações e sobre reinos,
a fim de que arranques e destruas,
ponhas a perder e dissipes,
edifiques e plantes”.

Jr. 1, 10 

Para expelir o que é nocivo, ele designou quatro coisas necessárias; para tornar-se perfeito nas virtudes e adquirir tudo o que diz respeito à justiça, somente duas.

A prática que, conforme dissemos, consiste em dois pontos, divide-se em muitas profissões e ocupações. Alguns, com efeito, dirigem toda a sua intenção para a vida secreta do deserto e para a pureza do coração. Outros dedicaram a sua solicitude e zelo a instruir irmãos e à cura vigilante dos cenóbios. Outros se comprazem no pio serviço de hospitalidade e de caridade prestada a estrangeiros em hospitais. Outros ainda, escolhendo o cuidado de enfermos, ou a mediação em favor dos miseráveis e oprimidos, ou que se aplicaram ao ensino ou, ainda, à distribuição de esmola aos pobres, tiveram um lugar eminente entre os maiores e mais santos, por sua afeição e bondade.

É útil e conveniente a cada um que conforme o propósito de vida que escolheu ou a graça que recebeu, embora louvando e admirando as virtudes dos outros, não se afaste, de modo algum, da profissão que abraçou uma vez por todas, sabendo que, segundo o Apóstolo, um é o corpo da Igreja, mas muitos são os seus membros. Costuma acontecer aos que ainda não estão bem firmes na profissão que abraçaram que, ouvindo louvores referentes a outros que vivem em situações diferentes e praticam outras virtudes que as suas, de tal modo se inflamam que desejam imitá-los imediatamente em sua disciplina. Os esforços que a fraqueza humana envida em tais circunstâncias são necessariamente vãos, pois é impossível que um só e mesmo homem brilhe ao mesmo tempo em todas as virtudes acima enumeradas. Ao pretender todas juntas, acontece inevitavelmente que enquanto vai atrás de todas, não consegue nenhuma integralmente.

Muitos são os caminhos que levam a Deus. Cada um, portanto, siga o que ele tomou até o fim, com irrevogável fidelidade, para ser perfeito em qualquer profissão.

Mas, voltemos à exposição da ciência que constituiu o exórdio desta conversação. Como dissemos acima, a prática se divide em muitas profissões e atividades. A teorética, por seu lado, se divide em duas partes: a interpretação histórica e a inteligência espiritual. É por isto que Salomão, ao enumerar a graça multiforme da Igreja, acrescentou:

“Todos os que estão junto dele,
têm uma dupla vestimenta”.

Prov. 31, 21 

Quanto à ciência espiritual, ela compreende três gêneros: a tropologia, a alegoria e a anagogia, dos quais se diz nos Provérbios:

“Quanto a ti,
escreve estas coisas
em tríplices letras
sobre a largura de teu coração”.

Prov. 22, 20 

A história abraça o conhecimento das coisas passadas e visíveis, que o Apóstolo narra deste modo:

“Está escrito que Abraão teve dois filhos,
um da escrava e o outro da mulher livre.
O que nasceu da escrava,
nasceu segundo a carne;
o que nasceu da livre,
em virtude da promessa”.

Gal. 4, 22-23 

O que se segue, pertence à alegoria, porque aí se diz que as coisas que aconteceram realmente prefiguravam um outro mistério:

“Estas mulheres”,

continua ele,

“são as duas Alianças.
Uma, a do Monte Sinai,
gerando na escravidão,
e é Agar.
O Sinai é um monte da Arábia,
que simboliza a Jerusalém de agora,
que é escrava com seus filhos”.

Gal. 4, 24-25 

A anagogia se eleva dos mistérios espirituais aos segredos do céu, mais sublimes e sagrados, como se vê no que o Apóstolo acrescenta:

“Mas a Jerusalém do alto é livre,
e é ela que é nossa mãe.
Porque está escrito:

`Alegra-te,
estéril que agora dás à luz,
irrompe em gritos,
tu que não geravas,
porque os filhos da abandonada
são mais numerosos
do que os daquela que tinha esposo'”.

Gal. 4, 26-27 

A tropologia é a explicação moral relativa à purificação da vida e à formação ascética, como se por estas duas Alianças compreendêssemos a prática e a ciência da teorética. Ou que quiséssemos tomar Jerusalém ou Sião pela alma humana, segundo estas palavras:

“Louva, Jerusalém,
o teu Senhor; louva o teu Deus, Sião”.

Salmo 147, 12 

Deste modo, portanto, as quatro figuras, se assim quisermos, se reúnem em uma só, de maneira que a mesma e única Jerusalém pode ser entendida em quatro acepções diferentes. Segundo a história, é a cidade dos Judeus; segundo a alegoria, a cidade celeste; segundo a tropologia, é alma humana, que é, sob esse nome, freqüentemente increpada ou louvada pelo Senhor. Destes quatro gêneros de interpretação diz o bem aventurado Apóstolo:

“Agora, pois, irmãos,
se eu venho a vós falando em línguas,
que proveito vos trago,
a não ser que vos fale em revelação,
ou em ciência,
em profecia
ou em doutrina?”

1 Cor. 14, 6 

A revelação se refere à alegoria, pela qual aquilo que a narrativa histórica esconde se torna manifesto pelo sentido espiritual.

A Ciência, também lembrada pelo Apóstolo, representa a tropologia. Esta nos faz discernir, mediante um exame prudente, a utilidade ou decência das coisas que dependem do juízo prático.

A Profecia, que o Apóstolo pôs em terceiro lugar, significa a anagogia, que transfere o discurso para as coisas futuras e invisíveis.

A Doutrina expõe simplesmente a ordem da história, em que não há nenhum sentido mais oculto do que aquele que soa nas próprias palavras.

Se, portanto, sois solícitos em chegar à luz da ciência espiritual, não por vício de vaidade e jactância, mas pela graça da purificação, inflamai-vos, primeiro, do desejo daquela bem-aventurança da qual se diz:

“Bem aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus”,

Mat. 5, 8

A fim de que possais alcançar também aquela outra da qual fala o anjo a Daniel:

“Os que tiverem sido doutos,
refulgirão como o esplendor do firmamento,
e os que instruem a muitos para a justiça,
brilharão como as estrelas
nas eternidades sem fim”.

Dan. 12, 3 

E noutro profeta:

“Acendei em vós a luz da ciência,
enquanto é tempo”.

Os. 10, 12 

Guardando esta diligência que eu sinto em vós pela leitura, apressai-vos, com todo o zelo, para possuir o mais depressa possível a plenitude da ciência prática, isto é, moral. Sem ela é impossível ter a pureza teorética de que falamos. E esta só a conseguem, como se fosse, por assim dizer, um prêmio, aqueles que, depois de muito servir numa vida de obras e trabalhos, se tornam perfeitos, não pelo efeito das palavras de seus mestres, mas pela virtude de seus próprios atos.

Não é na meditação da Lei que eles adquirem a inteligência, mas como o fruto das suas obras. Com o salmista, eles cantam:

“Pelos vosso mandamentos,
eu tive a inteligência”.

Salmo 118, 104 

E, depois de terem eliminado as suas paixões, dizem com confiança:

“Eu salmodiarei,
e terei a inteligência
no caminho imaculado”.

Salmo 100, 1-2 

Se, portanto, quereis preparar no vosso coração o sagrado tabernáculo da ciência espiritual, purificai-vos do contágio de todos os vícios e despojai-vos das preocupações deste século. É, com efeito, impossível que a alma, envolvida mesmo ligeiramente pelas preocupações do mundo, alcance o dom da ciência, se torne fecunda em sentidos espirituais e guarde com tenacidade as santas leituras.

Observai, pois, antes de tudo, o empenho em ordenar à vossa boca um completo silêncio, a fim de que não as anulem por uma vã exaltação nem o vosso zelo na leitura, nem o vosso esforço animado por tanto desejo.

E nisso está o primeiro passo na ciência prática: receber os ensinamentos e as palavras de todos os antigos de coração atento e boca, por assim dizer, muda, e conservá-los com solicitude na alma.

A quem, somente em vista do louvor humano, insiste no esforço da leitura, é impossível merecer o dom da verdadeira ciência. Os que são prisioneiros desta paixão estão forçosamente escravizados a outros vícios, sobretudo a soberba. Sê, portanto, em tudo

“pronto para escutar,
mas lento para falar”,

Tg. 1, 19 

Para que não se aplique a ti o que nota Salomão:

“Se vires um homem veloz na palavra,
fica sabendo que no insensato
há mais esperança do que nele”.

Prov. 29, 20 

Urge que não vos deixeis levar pelo exemplo daqueles que adquiriram habilidade em discutir e uma certa afluência verbal. Eles podem dissertar com elegância e facúndia sobre tudo que quiserem e passam por ter a ciência espiritual aos olhos dos que não são capazes de perceber o que eles são. Pois uma coisa é ter facilidade em falar e certo brilho no discurso, e outra é entrar até o coração e a medula das palavras celestes e contemplar, com o olhar mais puro do coração, os mistérios mais profundos e escondidos. Isto não o pode nenhuma ciência humana nem erudição secular possuir, mas somente a pureza da alma, pela iluminação do Espírito Santo.

Se, por conseguinte, queres chegar à ciência verdadeira das Escrituras, apressa-te a conseguir, primeiro, uma invariável humildade de coração. É ela que te levará à ciência, não a que enche de vento (1 Cor. 8,1), mas a que ilumina, pela perfeição da caridade. É impossível a uma alma impura obter a ciência espiritual.

Depois disto, eliminadas as preocupações e os pensamentos terrenos, esforça-te, de toda maneira, por dedicar-te assiduamente à leitura sagrada, de modo que a meditação contínua impregne a tua alma e a forme à sua própria imagem, fazendo dela, por assim dizer, uma arca da aliança (Heb. 9, 4-5), com as duas tábuas de pedra, isto é, a eterna firmeza dos dois Testamentos: a urna de ouro, símbolo de uma memória oura e sem mancha, que conserva com tenacidade o maná escondido, vale dizer, a eterna e celeste doçura dos sentidos espirituais e do pão dos anjos, e a vara de Aarão, quer dizer, o estandarte da salvação de nosso sumo e verdadeiro pontífice Jesus Cristo. Todas estas coisas são protegidas por dois querubins, isto é, a plenitude da ciência histórica e espiritual. Porque Querubim significa “plenitude de ciência”.

Devemos, por conseguinte, ter todo o empenho em aprender de cor a série das Sagradas Escrituras e em repassá-las na memória, sem cessar. Esta meditação contínua nos produzirá um duplo fruto. Primeiro, enquanto a atenção da mente está ocupada em ler e em preparar as leituras, não se deixará cativar pelos laços dos maus pensamentos. Em segundo lugar, à medida em que cresce, por este esforço, a renovação de nossa mente, começa também a mudar a face das Escrituras, e a beleza de uma compreensão mais sagrada aumenta com os nossos progressos; elas se acomodam à capacidade dos sensos humanos, aparecendo terrena para o homem carnal, e divina para os espirituais.

Para mostrar melhor, por meio de um exemplo, o que tentamos afirmar, basta citar um testemunho da Lei de Moisés. Por ele, vou provar que todos os preceitos celestes se estendem a todo o gênero humano, mas segundo a medida do estado de cada um de nós.

Está escrito na Lei:

“Não fornicarás”.

O homem ainda prisioneiro das paixões e obscenidades da carne guardará proveitosamente este preceito, tomando-o simplesmente em seu sentido literal. Mas aquele que já se desprendeu da ação torpe e do afeto impuro, cumpre-lhe observá-lo em seu sentido espiritual, tendo cuidado para não cair em uma forma mais sutil do pecado de fornicação que consiste na divagação dos pensamentos. Todo pensamento que afasta, por pouco que seja, de Deus, e não somente os pensamentos torpes, mas também qualquer pensamento inútil é, aos olhos do perfeito, uma fornicação impura.

CASSIANO:

Ao ouvir tais coisas, fui tomado por uma viva compunção.

“Tudo o que acabais de desenvolver
com tanta abundância”,

disse-lhe eu,

“trouxe-me um desespero ainda
maior do que o que eu sentia até agora”.

Pois, além daquelas servidões da alma que todos experimentam, há um obstáculo a mais para a minha salvação. Seja pelo zelo de meu pedagogo, seja por minha contínua dedicação à leitura, minha mente está agora como que infectada pelas obras dos poetas, por fábulas frívolas e por histórias de guerras de que fui imbuído desde pequeno em meus primeiros rudimentos de estudos, que me ocupam mesmo à hora da oração. Quando salmodio, eis que a minha alma, iludida por estas fantasias, não consegue aspirar à contemplação das coisas celestes.

NÉSTEROS

Do próprio mal que te faz desesperar da purificação poderá sair um remédio bastante rápido e eficaz. A condição única é que transfiras para a leitura a meditação das Escrituras espirituais a diligência e o zelo que, segundo dizias, tiveste pelos estudos seculares.

É, com efeito, inevitável que tua mente fique ocupada com aqueles poemas até que ela tenha conquistado, com igual zelo e assiduidade, outros objetos que repasse em si mesma e possa dar à luz, em lugar dos pensamentos terrenos e infrutíferos, outros espirituais e divinos. O espírito humano não pode ficar vazio de pensamentos. Se, portanto, ele não for ocupado com as coisas espirituais, forçosamente continuará embaraçado por aqueles que antes aprendera.

A fim de que a ciência espiritual tome em ti força e perpétua solidez, e não a desfrutes só por pouco tempo, como os que não a possuem por seu esforço e apenas entram em relação com ela pelo testemunho alheio percebendo-a, por assim dizer, como um vago perfume no ar, mas para que ela seja de certo modo entranhada no teu coração e aí considerada pelo teu olhar e como que apalpada, convém que observes com toda a diligência o seguinte. Acontecerá que, por acaso, conheças muito bem o que ouvires em uma conferência. Neste caso, não recebas com ar de desprezo e fastio o que já conheces. Ao contrário, confia isto ao teu coração com a mesma avidez que devemos ter sempre para ouvir as desejáveis palavras da salvação. Por mais freqüente que nos seja a exposição de assuntos sérios, jamais uma alma que tem sede da verdadeira ciência experimentará a saciedade da aversão. Eles lhe serão novos cada dia, e também cada dia desejados. E quanto mais a alma sedenta beber desta ciência, tanto mais avidamente a escutará ou dela falará. É evidente indício de mente morna e soberba o receber com desgosto e negligência o remédio de palavras salutares, mesmo à custa de uma excessiva assiduidade em fazê-las escutar pois, se recolheres estas verdades com todo o cuidado e forem guardadas no mais fundo da alma e marcadas com o selo do silêncio, elas serão como um vinho aromático que alegrará o coração do homem. Amadurecidas por longas reflexões e ao ritmo demorado da paciência, elas se derramarão do vaso de tua alma com uma fragrância de perfume. Acontecerá então que ser-te-á dada a bem-aventurança que o mesmo profeta promete:

“O Senhor fará que não mais
se separe de ti o teu mestre,
e os teus olhos verão o teu preceptor.
E teus ouvidos escutarão a voz
daquele que te avisará,
gritando atrás de ti:

`Eis o caminho,
anda por ele,
sem desviar para a direita
nem para a esquerda'”.

Is. 30, 20-21

Como, aliás, já dissemos, é de todo impossível que alguém possa conhecer ou ensinar estas coisas a não ser que as tenha experimentado. E ainda que tenha a presunção de ensinar, o seu discurso há de ser, fora de dúvida, ineficaz e inútil, limitando-se a atingir as orelhas dos ouvintes sem conseguir penetrar no seu coração. Impossível, com efeito, a uma alma impura, por mais assídua que seja à leitura, adquirir a ciência espiritual.

GERMANO:

Esta afirmação não nos parece absolutamente fundada na verdade. Como pode acontecer que muitos judeus e também hereges e até católicos que deixam se envolver por vícios diversos chegam a um conhecimento perfeito das Escrituras ao passo que, ao contrário, uma imensa multidão de santos homens de coração purificado de toda mancha de pecado se contenta com uma fé bem simples e ignora os segredos de uma ciência mais profunda? Como fica esta tua sentença que reserva aos corações puros a ciência espiritual?

NÉSTEROS:,

 

Já antes dissemos que tais homens só têm uma certa perícia em discorrer, unida a uma feliz elocução, mas que são incapazes de entrar no âmago das Escrituras e no mistério de seus sentidos espirituais. A verdadeira ciência só a possuem os verdadeiros adoradores de Deus, e não aquele povo ao qual se diz:

“Porque rejeitaste a ciência,
eu também te rejeito,
para que não exerças as funções
do meu sacerdócio”.

Os. 4, 6

Se está dito que em Cristo

“estão escondidos
todos os tesouros da sabedoria”,

Col. 2, 3

como se poderá crer que obteve a verdadeira ciência aquele que despreza ir ao encontro de Cristo ou que, tendo-o encontrado, o desonra por obras impuras?

“O Espírito de Deus foge do fingido
e não habita num corpo
escravo do pecado”.

Sab. 1, 4-5

Não se pode, pois, chegar à ciência espiritual senão seguindo a ordem que um dos profetas exprimiu de modo muito feliz:

“Semeai para vós em vista da justiça,
colhei a esperança da vida,
acendei em vós a luz da ciência”.

Os. 10, 12

O salmista também determina que essa ordem deve ser observada:

“Bem aventurados os que são imaculados
em seus caminhos,
que andam na Lei do Senhor;
bem aventurados os que perscrutam
os seus tesouros”.

Salmo 118, 1-2

Ele não disse primeiro que são bem aventurados os que perscrutam os testemunhos do Senhor, acrescentando depois que são bem aventurados os que são imaculados em seu caminho. Aqueles a quem te referiste, portanto, não podem possuir, dada a sua impureza, esta ciência. Só possuem uma ciência pseudônima, isto é, falsa, que não merece este nome. Desta é que nos fala o bem aventurado Apóstolo:

“Ó Timóteo, guarda o depósito,
evitando as novidades profanas
em teus discursos
e as oposições de uma ciência
de falso nome”.

Quanto àqueles, pois, que parecem adquirir certa aparência de ciência ou que, entregando-se com ardor a ler os volumes sagrados e a decorá-los de memória sem porém, abandonar os vícios da carne, os Provérbios têm esta expressão feliz:

“Como anéis de ouro
no focinho de um porco,
assim é a beleza de uma mulher
de maus costumes”.

Prov. 11, 22

Esta verdadeira ciência espiritual está tão longe da erudição secular manchada pela impureza dos vícios carnais que às vezes, como sabemos, floresceu maravilhosamente até em homens desprovidos do dom da palavra e iletrados. É o que se comprova, do modo mais claro, nos Apóstolos e também nos santos varões. Deles é que está escrito nos Atos dos Apóstolos:

“Vendo a constância de Pedro e João,
e verificando que eram homens iletrados
e de baixa condição,
ficaram cheios de espanto”.

Atos 4, 13

Se, pois, te preocupas em chegar a respirar o seu perfume incorruptível, trabalha primeiro, de todas as tuas forças, para obter do Senhor a pureza da castidade. Pois ninguém possui a ciência espiritual enquanto se deixa dominar pelas paixões carnais, e sobretudo pela fornicação.

Quando, portanto, chegares, através desta disciplina e nessa ordem, à ciência espiritual, terás também tu, fora de qualquer dúvida, uma doutrina que não será estéril nem vã, mas cheia de vida e de frutos. Então poderás lançar nos corações dos teus ouvintes a semente da palavra de salvação, que o orvalho abundante do Espírito Santo virá em seguida fecundar. Segundo a promessa do profeta,

“A chuva será dada à tua semente,
onde quer que semeares a terra;
e o pão dos frutos da tua terra
será muito abundante e substancial”.

Is. 30, 23

Guarda-te, portanto, quando a tua idade mais madura te puser em condições de ensinar o que aprenderes mais por uma experiência laboriosa do que pela leitura, de te deixares levar pelo amor da vanglória, prodigalizando ao acaso o teu saber a almas impuras. Cairias naquilo que o sapientíssimo Salomão condena, ao dizer:

“Não conduzas o ímpio
às pastagens do justo,
nem te deixes seduzir
pela saciedade”.

Prov. 24, 25

Pois, com efeito,

“Não há necessidade de sabedoria
onde falta o juízo”.

Prov. 18, 3

Evita, pois, com a maior cautela possível, deixar-te levar pelo amor da vanglória, para não dissipar o dinheiro do seu Senhor, para tirar um proveito temporal, em vez de aplicá-lo de maneira que o Senhor, ao voltar, como está escrito,

“recebesse com juros
o que lhe pertence”.

Mat. 25, 27

Consta serem duas as causas que tornam ineficaz a doutrina espiritual. Ou aquele que ensina não experimentou o que diz, e nesse caso todos os esforços que faz para instruir não passam de ruído vazio de palavras; ou então é o ouvinte que é mau e cheio de vícios, e o seu coração endurecido permanece fechado à santa e salutar doutrina do homem espiritual. Algumas vezes, porém, a providência do nosso Deus,

“que quer salvar todos os homens
e conduzi-los ao conhecimento
da verdade”,

1 Tim. 2, 4

Tem concedido, em sua pródiga liberalidade, que aquele que não se mostrou digno da pregação evangélica por uma vida irrepreensível obtenha, entretanto, a graça da ciência espiritual em vista da salvação de muitos.

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