Bíblia - Tradição - Magistério

A Autoridade Bíblica

Os protestantes se dividem em duas linhagens diferentes: protestantes ortodoxos tradicionais, que seguem o ensino dos “Pais de Igreja” protestante, Lutero, Calvino, Zwinglio e Knox; e  protestantes modernistas ou liberais. A forma mais clara para distinguir os dois está na sua atitude em relação à Bíblia. Os modernistas reduzem a Bíblia a um livro humano. Chamam esta visão Bíblica de “alta crítica”. São os “desmistificadores” porque eles  acham que desmistificam a Bíblia. Vamos deixa-los de lado por enquanto e explorar o diálogo entre protestantes ortodoxos e Católicos.

Devemos explorar quatro perguntas: como os protestantes ortodoxos experienciam a Bíblia, como eles pensam que os católicos a experimentam, o que eles crêem sobre a Bíblia, e o que eles acham que os Católicos crêem sobre ela. É importante começar com a experiência, a espiritualidade da Bíblia, pois esta é a chave para o seu entendimento.

Como, então, os protestantes experienciam a Bíblia? Primeiro de tudo, ela é sagrada. É a palavra de Deus ao homem, não palavras do homem sobre Deus. Nela Deus falou e continua a falar, não somente à humanidade, mas também a cada indivíduo.

Segundo, ela é o que os católicos chamariam de sacramental: isto é, ajuda a efetivar o que significa. Não faz isto por poder próprio (ex operato de opere) mas somente pelo poder da fé do leitor; então, em termos católicos, não é um sacramento, mas um sacramental.

Terceiro, é a verdade ? não somente verdade como correção lógica, mas verdade como alimento, alimentação, substância sólida. Os protestantes ecoam as palavras de Jr 15,16: “Acharam-se as tuas palavras, e eu as comi; e as tuas palavras eram para mim o gozo e alegria do meu coração; pois levo o teu nome, ó Senhor Deus dos exércitos“.

Quarto lugar, é correta e segura, uma pedra num mundo de gelatina, um absoluto numa época de relativismo, uma âncora num mar tempestuoso. Para os protestantes, a Escritura mais propriamente que Pedro é a pedra onde a Igreja está fundada.

Quinta e mais importante de todas, é o lugar onde encontramos Cristo. O Cristo, a palavra de Deus, vem a nós pelas Escrituras, a palavra de Deus. Não é nenhuma coincidência que o mesmo título seja dado ao homem e ao livro, pois o tema principal deste livro é este homem (cf Jo 5,39).

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Tudo isto é bem…católico, você diria. Então como os protestantes acham que experimentamos a Bíblia? A suspeita protestante clássica é que os católicos temem a Bíblia; que a Igreja proibiu a  sua leitura durante séculos porque se assim fosse permitido o povo teria visto como as doutrinas católicas eram “antibíblicas”.

Isto é simplesmente uma inverdade histórica, naturalmente, mas ainda é largamente acreditada pelos protestantes, por incrível que pareça. A fé está moribunda, apesar do forte estímulo do Vaticano II e de todos os mais recentes papas para que os leigos católicos leiam a Bíblia regularmente. Este estímulo ganhou mais respeito dos protestantes que qualquer outra coisa vinda de Roma desde a reforma protestante.

Os protestantes afirmam que tememos a Bíblia porque Lutero descobriu seu efeito. A reforma realmente começou quando Lutero experimentou o poder libertador do evangelho na sua Bíblia, mas não na sua Igreja; quando a graça substituiu a culpa e a fé substituiu o legalismo na sua vida, na ocasião de sua leitura do Novo Testamento, especialmente a carta aos Romanos. Foi onde achou sua doutrina chave, a justificação pela fé.

Exploraremos esta doutrina em outros tópicos. Por enquanto, basta dizer que o catolicismo não é um legalismo, embora isto seja freqüentemente noticiado pelos protestantes; que lemos e cremos na mesma Bíblia, incluindo seu ensino claro de que nós somos salvos pela graça libertadora de Deus, não por trabalhar na nossa ida ao céu. Os protestantes simplesmente não conseguem acreditar no que ouvem quando nós os contamos isto, como disse o Papa aos bispos luteranos alemães.

A crença dos protestantes ortodoxos sobre a Escritura pode ser resumida em três pontos principais: A Escritura é inspirada, infalível e suficiente. Primeiro, ela é inspirada. Cada um de seus livros tem pelo menos dois autores, um humano e um divino. O autor primário é Deus, cujo Espírito inspirou e guiou cada autor humano como um instrumento para dizer exatamente o que Deus quis revelar ao mundo.

Segundo, é, portanto, livre de erro, ou infalível, pois Deus não comete erros. Os fundamentalistas insistem em infalibilidade histórica, científica, embora pareça a outros protestantes um detalhismo desnecessário fazer a autoridade divina da Bíblia depender de se os soldados do exército de Senaquerib  foram contados corretamente.

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É o terceiro ponto, a suficiência somente da Escritura (Sola Scriptura), que separa protestantes de católicos. Os protestantes não acreditam em qualquer doutrina que claramente não encontram na Escritura (ex., transubstanciação, Assunção de Maria, os sete sacramentos).

O que os Protestantes pensam sobre nós em relação às Escrituras? Que é secundária à Igreja e que a Igreja ensina coisas bem diferentes dela. Dizem que nós, assim como os fariseus condenados por Jesus, confundimos tradição humana com revelação divina, “a doutrina que ensinam são preceitos dos homens. . . E assim invalidais o preceito de Deus em nome de vossa tradição” (Mc 7,7-13). Sua informação é equivocada, mas seus motivos são fortes. Aliás, dado este erro, sua crítica é admirável. Mas vamos agora examinar este erro.

Vimos (1) – a experiência protestante da Escritura, (2) – a idéia protestante da experiência católica da Escritura, (3) – a crença protestante sobre a Escritura, e (4) – a idéia protestante da crença católica sobre a Escritura. O primeiro e o terceiro pontos são amplamente corretos e admiráveis; mas o segundo e o quarto são equivocados. Os católicos podem concordar, e concordam, com todos os pontos protestantes positivos sobre a Escritura, porém corrige os negativos. Estes são a Sola Scriptura e os equívocos sobre as doutrinas e atitudes católicas. Deixe-nos agora resumir como deve ser uma correção fraternal.

Há pelo menos quatro erros na doutrina da Sola Scriptura. Primeiro, separa a Igreja e a Escritura. Mas elas são um só. Não existem dois cavalos rivais na corrida da autoridade, mas apenas um cavaleiro (a Igreja) e um cavalo (a Escritura). A Igreja como escritora, canonizadora e intérprete da Escritura não é outra fonte de revelação, mas a autora, guardiã e mestra da única fonte, a Escritura. Nós não somos ensinados por um professor sem livro nem por um livro sem professor, mas por um professor, com um livro, a Escritura.

Segundo, a Sola Scriptura é auto-contraditória, pois diz que devemos acreditar somente na Escritura, mas ela mesma nunca diz isto! Se acreditarmos somente no que a Escritura ensina, não acreditaremos na Sola Scriptura, pois a Bíblia não ensina Sola Scriptura.

Terceiro, a Sola Scriptura transgride o princípio de causalidade, que diz que um efeito não pode ser maior que sua causa. A Igreja (os apóstolos) escreveram a Escritura, e os sucessores dos apóstolos, os bispos da Igreja, decidiram sobre o seu cânon, a lista de livros a serem declarados inspirados e infalíveis. Se a Escritura é infalível, então sua causa, a Igreja, também deve ser infalível.

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Quarto, há o argumento prático que o livre-exame leva ao denominacionalismo. Deixe quinhentas pessoas interpretar a Bíblia sem a autoridade da Igreja e logo haverá quinhentas denominações. Mas o denominacionalismo é um escândalo intolerável para padrões Bíblicos?veja Jo 17,20-23 e 1 Cor 1,10-17.

Quinto, a Sola Scriptura não existia, pois a primeira geração de cristãos não possuiu o Novo Testamento, só a Igreja a ensiná-los.

Finalmente, devemos esclarecer dois equívocos:

Primeiro, a Igreja Católica não reivindica ser divinamente inspirada para adicionar quaisquer novas doutrinas, somente afirma que protegeu, conservou e interpretou divinamente as que já existiam, o depósito da fé. Não afirma adições mas rejeita subtrações.

Segundo, todas as doutrinas da Igreja derivam da Escritura. São Tomás de Aquino identifica a  sacra doctrina, o ensino sagrado ou revelação divina, com a Escritura.

Mesmo as doutrinas marianas preenchem estes dois critérios. Por exemplo, os cristãos acreditam na assunção de Maria desde o início, e não somente a partir de 1954, quando o dogma foi definido. E as doutrinas Marianas são baseadas no que a Escritura conta-nos sobre Maria.

Nossas respostas às objeções protestantes devem vir de duas frentes, pois as objeções vêm de duas frentes: experienciais e doutrinais. As objeções protestantes surgem de argumentos de amor e medo ? amor às Escrituras e medo que católicos percam ou deixem este amor. Somente amando e vivendo a Escritura podemos provar aos protestantes que nós somos irmãos e, portanto, não devemos permanecer separados. O Ecumenismo e o caminho à união começam aqui, com a Escritura como nosso mapa comum nesta estrada. Como ousamos saber e amar menos que qualquer protestante? Ela ? a Bíblia ? é o nosso Livro!

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Tradução para o Veritatis Splendor por Rondinelly Rosa Ribeiro.