Vaticano II

A CRISE PÓS-CONCILIAR

O Concílio Vaticano II é muito apontado como responsável pela situação que vive a Igreja hoje. Há diversos trabalhos relacionando a Igreja no pré e no pós-concílio, muitas vezes citando números oficiais sobre batismos, matrimônios e vocações.Um fato inegável é que, após o Concílio Vaticano II, a Igreja entrou numa crise profunda. Tão inegável quanto o fato que, após a independência das Ilhas Salomão, dois papas morreram em menos de 3 meses. A inexistência de correlação entre a independência das Ilhas Salomão e as mortes de Paulo VI e João Paulo I é óbvia, mas entre as decisões do Concílio Vaticano II e a crise da Igreja não é. Pretendo, neste artigo, investigar algumas causas da decadência hodierna da fé.

A década de 60 foi uma década turbulenta, com diversos acontecimentos globais de grande escala e influência. Mais importante para nosso estudo, foi a década da efusão da “Nova Esquerda”, e quando as idéias sociais de Gramsci e da Escola de Frankfurt encontraram espaço na sociedade.

Antes de mais nada, recomendo a leitura do livro “A Nova Era e a Revolução Cultural”, de Olavo de Carvalho (disponível gratuitamente no seguinte endereço web: http://www.olavodecarvalho.org/livros/neindex.htm ). Também recomendo que escute as palestras do Pe. Paulo Ricardo chamadas “Marxismo Cultural” e “Marxismo e Revolução Sexual” (também disponíveis gratuitamente, em http://www.padrepauloricardo.org/ ). Também recomendo pesquisas sobre “Marxismo Cultural” e “Marxismo Ocidental” em bibliotecas e na Internet.

O caráter anti-cristão (mormente anti-católico) do Marxismo é óbvio após qualquer leitura de Marx ou de seus seguidores. Contudo, isso fica ainda mais claro nas obras do chamado “Marxismo Ocidental”. Para um aprofundamento, recomendo novamente as obras do parágrafo anterior (e as fontes citadas nelas), mas definirei, em poucas palavras e em linhas gerais, o que vejo como principal.

A Escola de Frankfurt percebeu que só seria possível que as idéias marxistas fossem amplamente aceitas caso o pensamento ocidental (firmado na moral cristã, na filosofia grega e no direito romano) ruísse. Cada base do pensamento ocidental confrontava, em algum aspecto, o Marxismo. Portanto, dever-se-ia destruir o Cristianismo (e, claro, as outras bases, mas o Cristianismo é nosso foco aqui). Não me delongo, mas é claro (e isso é aceito também por muitos protestantes) que, destruída a Igreja Católica, estaria destruído o Cristianismo in toto. Considero a tese da Escola de Frankfurt em grande parte correta.

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Poucos anos depois, Antonio Gramsci postulou que, para o Marxismo sobejar politicamente, precisaria antes ter a “hegemonia”, a saber, dominar os termos, o universo simbólico, as idéias e a produção científica e cultural. As idéias divulgadas e ensinadas, portanto, deveriam estar próximas ou fazer parte do corpo de crenças marxista.

O estudo dessas novas teorias levou os militantes comunistas a terem dois objetivos principais: dominar todas as formas de divulgação de idéias (e isso inclui o clero católico, responsável pela formação moral de quase todo o Ocidente) e destruir espiritualmente a Igreja (e, com isso, o Cristianismo). Conclusão óbvia: os militantes marxistas deveriam se infiltrar na Igreja, e ocupar espaços no clero. Ao mesmo tempo, influenciariam a cultura geral, formando o pensamento de fiéis e padres incautos.

Os locais de ação procurados eram claros: reitorias de seminários, assessorias episcopais, cargos importantes nas cúrias: tudo que lhes permitisse uma difusão e infecção do povo de Deus por idéias anti-cristãs. Fora da Igreja cátedras universitárias, redações jornalísticas e ancoragem de meios de comunicações, tudo que lhes permitisse formar opiniões e interpretar os fatos a partir das chaves de leitura marxistas.

Os anos 60 foram a explosão de tudo isso: revolução sexual, degradação moral da sociedade, descrédito das tradições, “novidadismo”, questionamento e conseqüente desrespeito das autoridades. Ao mesmo tempo, cada vez mais surgiam padres e religiosos que não tinham compromisso com Cristo, mas sim, com a destruição de Sua Igreja, e incautos que, sob um discurso envolvente, acreditavam em mentiras.

As diversas mudanças sociais fizeram que o Beato João XXIII, papa, de veneranda memória, convocasse um Concílio Ecumênico e Pastoral para realizar um “aggiornamento“, ou seja, fazer a Igreja encarar a nova situação social (mas não adaptá-la a ela, como dizem certos críticos do Concílio).

Não é escopo deste trabalho investigar a letra do Concílio, mas é certo que tudo por ele definido encontra eco na Tradição da Igreja (recomendo uma pesquisa sobre a “Hermenêutica da Continuidade”). Pode-se questionar a efetividade de certas medidas pastorais, mas jamais dizer que o Concílio rompe com a Tradição anterior.

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Brevemente após as sessões do Concílio, uma mídia cada vez mais ágil e global noticiava as decisões. Por ser um Concílio pastoral, o Vaticano II não tinha a linguagem precisa dos dogmas e anátemas, como nos dois concílios que o antecederam (Vaticano e Trento). Isso permitiu que inimigos da Igreja, pessoas mal formadas, ou ignorantes da tradição da Igreja e de suas verdades fundamentais e imutáveis interpretassem as decisões do Concílio com chaves de leitura deveras heterodoxas. Para piorar a situação, mal intencionados de diversas espécies espalharam mentiras sobre o Concílio. É de notável conhecimento que, no Brasil, espalhou-se o absurdo de que os seminários deveriam ser fechados — por ordem do Concílio — e que, em breve, a figura do sacerdote deixaria de existir.

Ao fim do Concílio, foi criada uma outra idéia errada, chamada de “espírito do Concílio”. A partir dessa hermenêutica, padres e bispos tomaram decisões que, muitas vezes, violavam frontalmente princípios do próprio Concílio Vaticano II, mas que supostamente fariam parte de um ideal que o moveu. O “espírito do Concílio”, para essas pessoas, nada mais era que o Modernismo, que sempre foi condenado pela Igreja e, portanto, não poderia ser a idéia por trás de um Concílio legítimo e ecumênico.

As mentiras a respeito do Concílio Vaticano II, a implementação por muitos bispos e padres de idéias por demais heterodoxas, se juntaram ao caldo cultural e político da década de 60. Muitos jovens foram desacreditados da Igreja, de Jesus Cristo, de Deus. Outros, envoltos num hedonismo sem limites, ficaram presos numa animalesca dicotomia de prazer e dor. Ainda outros, mantendo-se próximos à Igreja, foram deturpando a sua fé, caindo nas besteiras e heresias que lhes ensinavam, mas acreditando-se fiéis. Ainda hoje vemos muitos desse último tipo.

O resultado foi devastador: seminários foram fechados, vocações desapareceram; envoltos em idéias materialistas e egoístas, as pessoas passaram a ter menos filhos: as famílias diminuíram e, conseqüentemente, o número de batismos e vocações; os professores e artistas de tevê tornaram-se mais influentes na (de)formação moral das pessoas que seus párocos. A piedade cristã arrefeceu, a obediência ao Santo Padre foi esquecida, Jesus foi transformado num hippie (em muitos casos, num socialista avant-la-lettre emasculado). A liturgia sofreu, em nome das mais estapafúrdias desculpas, profanações sem fim. A Igreja perdeu força política no combate às idéias anti-humanas, embora tenha mantido, em grande parte, sua credibilidade entre a população. Nada disso é novidade ou surpresa, vemos isso olhando para os lados, em nossa vida eclesial. Raras paróquias estão livres desses problemas.

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O maior evento da Igreja, numa época turbulenta, pode parecer responsável pelos problemas que surgem após, e muitos, muitas vezes bem intencionados e com verdadeiro amor à Igreja, criticaram o Concílio ou o culparam das tragédias. Acredito que não se deva culpar o Concílio, mas inserir os fatos, como tentei fazer, no contexto histórico, social e cultural da época em que ocorreram. Pode-se até acusar o Concílio de inepto, mas creio que responsabilizá-lo pela crise é ir muito além do aceitável.

O Marxismo é só uma ponta de um iceberg muito maior (o que mais uma vez mostra que é, no mínimo, um simplismo ingênuo acusar o Concílio de causar a crise), que seria o pensamento “modernista”, nascido da mentalidade gnóstica ou revolucionária, Modernismo confrontado pela Igreja desde sua gênese, e Gnosticismo que nasce como uma deformação pagã do Cristianismo. É impossível, no espaço de um artigo, entrar por todos esses meandros. As idéias modernistas vicejando há séculos, a heresia gnóstica que sempre retorna, o advento do Marxismo clássico e ocidental (o que mais explorei) podem ser indicados como causas da crise que perpassa a Igreja e, para animar nossa confiança, foram combatidos por todos os recentes Pontífices Supremos. A batalha é longa, mas devemos sempre nos lembrar da promessa de Jesus:  portae inferi non praevalebunt.