Maria Santíssima

A Santíssima Virgem e o Apóstolo João

No que diz respeito a Nossa Senhora, o apóstolo São João se encontra em situação privilegiada, ao confiar-lhe Jesus o cuidado de Sua Mãe quando está para morrer na Cruz. Ela estará desde então a seu lado. A João, como a nenhum outro, pôde falar a Santíssima Virgem de tudo aquilo que guardava no seu Coração (Lc 2,51).

Em Maria, diz o Evangelho, o Verbo Se fez carne. O próprio Filho do Eterno Pai faz-Se Filho do Homem, para que assim os filhos dos homens cheguem a ser filhos de Deus. O Canto da consolação,(Is 40,1-11) – falava da vinda de Deus aos que sofriam, pois Deus guiaria pessoalmente o Seu povo num novo êxodo para a Terra Prometida. Ao dizer que o Verbo Se fez carne, a figura da Mãe de Deus oculta-se discreta entre linhas. É o papel ordinário de Maria no Evangelho: passar despercebida, especialmente nos momentos de glória do Filho. Depois, como nenhuma outra criatura, participará do triunfo glorioso de Cristo, e será também, São João quem no-La descreve em todo o seu esplendor: «Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher ves¬tida de sol, e sobre a sua cabeça uma coroa de doze estrelas» (Ap 12,21)

Em João 2,1-11 narram-se as bodas de Caná, e em 19,25-27 a presença de Maria Santíssima no Calvário. Ambos os relatos tem entre si um claro paralelismo: a Virgem é designada como a Mãe de Jesus, e o Senhor chama-lhe «Mulher». Também, tanto em Caná como no Calvário, se fala da hora de Jesus. No primeiro caso, como de algo que ainda não tinha chegado, e, no segundo, como de uma realidade já presente. Essa «hora de Jesus» marcará toda a Sua vida até culminar na Cruz (Jo 7,30; 8,20).

«Quando Ele realizou tudo o que julgou conveniente realizar – afirma Santo Agostinho-, então é quando chegou a hora assinalada: por Sua vontade e não pela necessidade, pelo Seu poder e não por exigência alguma» (In Ioam Evang.8,12).

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Por seu lado, diz o Doutor Angélico que «se entende a hora da Paixão não como imposta pela necessidade, mas determinada pela divina Providência» (Comentário sobre S. João,2,3)

O que à primeira vista aparece no relato das bodas de Caná é a delicada caridade da Virgem Santíssima e a sua fé absoluta no poder de Jesus. Além disso, no fundo, significa que Maria intervém aqui, tal como no Calvário, intimamente vinculada à Redenção messiânica. Assim, Jesus ao converter em vinho a água destinada às purificações rituais dos judeus, insinua o começo dos tempos messiânicos. Com efeito, o vinho simboliza nos oráculos proféticos os tempos do Messias, quando os lagares estarão repletos de bom vinho (Am 9,13), e no monte Sião se celebrará um banquete de manjares suculentos e de vinhos olorosos (Is 25,6).

O próprio Jesus fala do fruto da videira que se beberá no Reino (Mt 26,29), e contrapõe o vinho novo ao vinho velho (Mc 2,22). Por outro lado, o banquete das bodas de Caná evoca o banquete dos desposórios de Yahwéh com a filha de Sião, que significa a Antiga Aliança, (Is 54,4-8) assim como os desposórios de Cristo com a Igreja significam a Nova Aliança (Ef 5,25) aludidos também em algumas parábolas . Assim, pois, a figura da Santíssima Virgem e as palavras que se referem a ela há que contemplá-las à luz do sentido messiânico de toda a perícopa.

São João contempla a Maternidade divina de Maria em toda a sua plenitude, sendo Mãe não só da Cabeça mas também de todos os membros do Corpo Místico de Cristo. Por isso, em vez do nome de Maria, no quarto Evangelho utilizam-se os títulos de «Mãe de Jesus» e de «Mulher», que têm um significado peculiar, relacionado com a sua maternidade espiritual; neste sentido chama Jesus em Caná a Sua Mãe «Mulher» (Jo 2,4).

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E igualmente em 19,25-27, onde o Evangelho fala da presença de Nossa Senhora no Calvário; aqui, como em Caná, as palavras do Senhor têm um sentido mais profundo do que à primeira vista poderia parecer. Depois de ter confiado a João o cuidado de Maria, Jesus dá por consumada a Sua missão antes de morrer (19,28); então «já» estava tudo cumprido e não antes.

A proclamação de Maria como Mãe do discípulo amado entra, pois, a fazer parte da obra salvífica, que, nesse momento, fica consumada. Portanto, além de um ato de piedade filial, trata-se de algo mais transcendente: a maternidade espiritual de Maria. Este é o momento em que a corredenção da Virgem Mãe adquire toda a sua força e sentido. Agora sim que advertimos como Maria esteve unida com Jesus, agora a maternidade divina de Nossa Senhora atinge toda a sua magnitude, agora a Virgem Santíssima é constituída Mãe espiritual de todos os crentes. O discípulo amado representa aqueles que seguirão o Mestre e no apóstolo João recebem Maria Santíssima como Mãe.

A palavra «Mulher» implica, além disso, certa solenidade e ênfase: a maioria dos autores inclinam-se à ver neste título uma clara alusão ao «proto-evangelho» (Gen 3,15),onde se fala do triunfo da mulher e da sua linhagem sobre a serpente. Tal alusão, além de estar avalizada pelo próprio texto (o uso do termo «Mulher»), é confirmada pelas interpretações dos Santos Padres, que falam do paralelismo entre Eva e Maria, semelhante ao que se dá, entre Adão e Cristo (Cfr Rom 5,12-14). Efectivamente, na Morte de Cristo temos o triunfo sobre a serpente, pois Jesus ao morrer redime-nos da escravidão do demônio.

“Mors per Evam, vita per Mariam, a morte veio-nos por Eva, a vida por Maria” (S. Jerônimo, Epistola ad Eustochium, PL 22,408).

«A primeira Eva _ ensina Santo Ireneu – desobedeceu a Deus, a segunda, pelo contrário, obedeceu-Lhe; assim a Virgem Maria pôde ser advogada da virgem Eva» (Adversus haereses,5,19,1).

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Nossa Senhora «cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça» (Lumem Gentium, n.61). Assim Ela «continua no céu a exercer a sua missão maternal com os membros de Cristo, pela qual contribui para gerar e aumentar a vida divina em cada uma das almas dos homens redimidos» (Credo do Povo de Deus, n.o 15. )

Comenta Orígenes: «Atrevemo-nos a dizer que a flor das Escrituras são os Evangelhos e a flor dos Evangelhos é o de São João. Mas ninguém saberá compreender o seu sentido se não repousou no peito de Jesus e recebeu Maria como Mãe. Para ser como João, é preciso poder, como ele, ser mostrado por Jesus como outro Jesus. Com efeito, se Maria não teve outros filhos além de Jesus, e Jesus diz a Sua Mãe: ‘Eis aí o teu filho’ , e não ‘eis aí outro filho’, então é como se Ele dissesse: Aí tens Jesus, a quem tu deste a vida’. Efectivamente, qualquer pessoa que se identificou com Cristo já não vive para si, mas Cristo vive nele (cfr GaI2,20), e visto que nele vive Cristo, dele diz Jesus a Maria: ‘Eis aí o teu filho: Cristo’» (In Ioann. Comm., 19,26-27. 138 Rom 6,1-14.)

Recebemos pelo Batismo, pela participação na Morte e Ressurreição de Cristo (Rom 6,1-14), o dom da filiação divina (Jo 1,12-13), mas para chegar a viver essa identificação com Jesus «é preciso unirmo-nos a Ele pela fé, deixando que a Sua vida se manifeste em nós, de maneira que se possa dizer que cada cristão é, não já alter Christus, mas ipse Christus, o próprio Cristo!» (Cristo que passa, n. 104).

Fonte: Introdução ao Evangelho segundo São João – Bíblia de Navarra – Edições Theologica – Braga – 1994 – pag.1109 – 1113.