Artigos (por Carlos Martins Nabeto)

Ainda as Inquisições protestantes…

INTRODUÇÃO

É muito comentada a Inquisição católica das Idades Média e Moderna, mas pouco se fala sobre a Inquisição promovida pelos protestantes. Com efeito, muitos deles atualmente falam e escrevem a respeito da Inquisição sem exato conhecimento de causa, movidos por paixões e sentimentos anticatólicos; porém, “quem tem telhado de vidro, não deve atirar pedras no telhado do vizinho”!

Ora, o Protestantismo, que tanto gosta de acusar a Igreja Católica, teve também sua própria Inquisição, a qual foi muito mais violenta e cruel, com procedimentos muito mais injustos, às vezes sem julgamento nem apelação ou tribunais próprios (como restou demonstrado em outros artigos publicados no Veritatis Splendor). O que será acrescentado aqui não se dá pelo falso prazer de narrar desgraças, mas visa demonstrar a verdade àqueles que menos tem o direito de criticar a Inquisição católica.

Ademais, é de se notar que a Reforma Protestante, com sua doutrina da “Sola Scriptura” contribuiu em muito, principalmente para a “caça às bruxas”, como bem observa o professor de História Moderna da Universidade do Texas, Brian P. Levack:

“A Reforma Protestante não apenas fez da Bíblia a única fonte da verdade religiosa, como também fez com que as Sagradas Escrituras fossem traduzidas para os principais idiomas europeus. Ao mesmo tempo, houve uma nova insistência [protestante] na interpretação literal das Escrituras. O efeito global desse fenômeno foi que, na medida em que a Reforma foi se alastrando, cada vez mais europeus tornaram-se capazes de ler [privadamente] a Bíblia, passando a interpretar literalmente as passagens sobre bruxaria. Uma das mais importantes era Êxodo 22,18: ‘A feiticeira não deixarás viver’ (…) e o texto [foi] usado por pregadores e juízes [protestantes] para sancionar uma campanha intransigente contra as bruxas” (A Caça às Bruxas na Europa Moderna, p. 107).

Conhecemos muito bem o pensamento dos primeiros protestantes em relação ao Catolicismo e à Igreja Católica: era tão variado como continua sendo ainda hoje, de modo que dispensa maiores comentários (os leitores do site Veritatis Splendor sempre têm a oportunidade de conhecê-los e relembrá-los nas centenas de artigos aqui mantidos). Mas talvez constitua alguma novidade o pensamento deles acerca do assunto bruxaria:

– “Sabendo que homem ele é (certo teólogo que não concordava com Calvino), desejaria que ficasse na podridão de alguma cova e asseguro-vos: para cumprir o meu dever, se isto tivesse ao meu alcance, não deixaria de o mandar queimar” (Calvino, Suiça)

– “Não acreditar na bruxaria é, com efeito, não acreditar na Bíblia” (John Wesley, Inglaterra)

– “Temos aqui [em Êxodo 22,18] um preceito (=ordem, mandamento) da Lei de Deus sobre certa espécie de malfeitores que se encontram dentro da Igreja visível” (James Hutcheson, Escócia).

– “Negar a possibilidade, ou melhor, a existência real da bruxaria e feitiçaria é contradizer categoricamente a palavra revelada de Deus” (William Blackstone, Inglaterra).

Outros casos interessantes do período da Reforma Protestante:

– Lutero certa vez declarou que as bruxas eram “prostitutas do Diabo” e que deveriam ser todas queimadas.

– Calvino também afirmou que as bruxas “tinham que ser eliminadas”, com base em Êxodo 22,18, muito embora, assim como Lutero, sua preocupação não fosse tanto com as bruxarias, mas com o poder de Satanás (e isso foi o suficiente para fazer seus seguidores começarem a caçar bruxas e feiticeiras nos territórios reformados)[1].

– O pr. David Meder, da Turíngia, dedicou nada menos que oito sermões sobre Êxodo 22,18 objetivando estimular os juízes seculares a agirem contra as bruxas.

– O bispo reformado Paládio, da Dinamarca, processava as pessoas de religiões “retrógadas” (entenda-se: bruxas e feiticeiras).

Passemos agora a uma descrição mais pormenorizada dos fatos, considerando tanto os casos de bruxaria quanto as inquirições promovidas contra os católicos e/ou outros reformados, em terras sob o domínio protestante.

NA ALEMANHA

Quando Lutero se levantou, no princípio, contra a Igreja, o Papa concedeu a ele diversas chances para se corrigir dos seus erros; só o excomungou quando percebeuque não havia mais chances de arrependimento. Em resposta, Lutero queimou a bula de excomunhão em praça pública e acendeu a revolta de muitos príncipes alemães contra o Papa e a Igreja

Sob o patrocínio de Lutero, os príncipes luteranos seqüestraram as propriedades da Igreja Católica, incluindo mosteiros e conventos (o que em breve seria imitado também por Henrique VIII, na Inglaterra), ao que deram o nome de “secularizações”. Em 1525, o ganancioso grão-mestre da Ordem Teutônica filiou-se ao luteranismo e tomou para si (isto é, secularizou) os bens desta Ordem, proclamando-se Duque da Prússia.

Em 9 de março de 1522, Lutero condenou, a partir do púlpito da igreja de Vitemberg, as “visões e revelações do alto” dos profetas de Zwickau, Storch e Marcos Stübner, como obras diabólicas. Três dias depois, condenou como heréticas também as novas teses teológicas de Carlstadt. Isto veio a justificar as guerras de intolerância religiosa na Alemanha.

Em 1525, Lutero publica “Contra as Hordas dos Camponeses Assassinos e Saqueadores”, em que vocifera aos príncipes:

“O rebelde (católico, anabatista e outros que se recusavam a seguir Lutero e os príncipes que o apoiavam) é bandido de Deus e do Império. Qualquer um que o enforque faz boa obra e qualquer um é seu juiz e carrasco”.

“Esmagai, degolai e trespassai de todo modo! Matar um revoltoso é abater um cão danado. Cobertos pelo Evangelho e chamando uns aos outros de ‘irmãos em Jesus Cristo’, os camponeses cometem o mais horrível dos crimes: acompanham Satanás, sob o disfarce da Palavra de Deus (…) Tomba pela causa de Deus, como verdadeiro mártir, quem sucumbe defendendo a autoridade; assim obedeceu à Palavra de Deus. Ao contrário, quem tomba nas hostes dos camponeses é condenado às chamas eternas do Inferno, pois sustenta a espada contra a Palavra de Deus e como agente do Diabo. (…) Vamos, caros senhores! Batei, trespassai e degolai como podeis!”

E, em relação ao líder dos camponeses, Muntzer, afirmava:

“O diabo encarnou-se em Muntzer; nele e em seus camponeses. É preciso esganá-los como cães danados!”

Com efeito, milhares de católicos e anabatistas foram massacrados, de forma direta (sem tribunal, sem julgamento, sem apelação), com o apoio de Lutero, na denominada “Guerra dos Camponeses” (1524-1525), em vista de suas posições político-religiosas contrárias às dos príncipes luteranos.

Por seu turno, Tomás Muntzer pregava também uma luta a ferro e fogo contra o clero católico, de forma que os camponeses chegaram a saquear e incendiar os mosteiros e castelos, além de assassinar seus adversários mais odiados.

Atribui-se ainda ao reformador alemão a responsabilidade direta pela decapitação dos chamados “seis hereges” de Reinhardsbrunn.

Lutero e Melanchton fulminaram a razão como “noiva ou prostituta do Diabo, que deve ser calcada sob os pés ou ter lama atirada em seu rosto, a fim de se tornar mais odiosa”; por volta de 1530, Lutero declarou:

– “As escolas superiores merecem ser destruídas até aos alicerces. Desde que o mundo é mundo, não houve instituição mais diabólica, mais infernal”

– “As altas escolas, estas escolas diabólicas, fazem grande alarde de suas luzes naturais e as guindam até aos céus, como se fossem não só úteis, senão indispensáveis à manifestação da verdade cristã. Assim, hoje é coisa perfeitamente estabelecida que todas essas escolas são invenção do demônio para obscurecer o Cristianismo”.

Em conseqüencia de tudo isso, o sistema astronômico de Copérnico (o mesmo que baseou a posição de Galileu) foi condenado por ser “contrário às Escrituras”.

Conflitos ferozes também surgiram entre luteranos, zwinglianos e calvinistas.

NA SUIÇA

Em Genebra, na Suiça, João Calvino, a convite de Farel, recebeu o encargo de pregar e implantar a sua doutrina protestante. Tal missão foi pessoalmente assumida com grande energia, impondo severa disciplina a todos os cidadãos. Todos os negócios cívicos passaram a ser controlados por uma espécie de polícia estatal da igreja que criara, o Consistório. Este era constituído por pregadores e anciãos, aos quais competia vigiar a pureza da fé, inquirir os suspeitos de defecção e julgá-los. Bihlmayer-Tuechle escreve:

“Com o objetivo de controle, faziam-se várias vezes no ano visitas a domicílio e, conforme o caso, recorria-se também às denúncias e à espionagem paga. Os transgressores eram colhidos pela admoestação, deploração e excomunhão (exclusão da ceia sagrada) e obrigados a fazer penitência pública. Os grandes pecadores, como os sacrílegos, os adúlteros e os adversários obstinados da nova fé, eram entregues ao Conselho da cidade para o castigo. Foram pronunciadas muitas condenações à morte (58 até 1546) e mais ainda ao exílio. A tortura foi usada de forma mais rigorosa. A cidade teve que submeter-se, embora à contragosto, à disciplina férrea de Calvino. Todas as festas religiosas desapareceram, exceto os domingos. O culto foi reduzido à pregação, à oração e ao canto dos Salmos. Quatro vezes por ano era distribuída à comunidade a sagrada ceia, com pão e vinho ordinário. A vida da sociedade genebrina adquiriu o teor de uma seriedade taciturna; as vestes de luxo, os bailes, o jogo de cartas, o teatro e os divertimentos semelhantes eram severamente condenados. Naturalmente a ‘teocracia’ instaurada por Calvino com tanta habilidade e energia não persistia sem adversários. Os velhos fautores da liberdade e a alegre aristocracia genebrina julgaram por demais opressor o jugo religioso; mas ele (Calvino) os reduziu ao silêncio mediante duras punições. Outras dificuldades foram suscitadas contra a sua teologia, mas soube dominá-las [com força] todas. (…) Em 1555, Calvino havia conquistado a vitória sobre todos os seus inimigos. Nenhum pôde mais abalar-lhe a posição de ditador religioso, e em certo sentido também político, na sua ‘Roma protestante’, onde afluíam os emigrados protestantes da França, da Itália e da Inglaterra. Então as ‘ordonnances’ foram atuadas plenamente e ao mesmo tempo aperfeiçoadas” (História da Igreja, vol. 3, pp. 74s).

Amy Perrin, capitão-geral da cidade e genro de Francisco Favre, por ocasião de um casamento promoveu um baile. Sabedor disto, o Consistório abriu um inquérito e convocou a todos, inclusive os dançarinos e dançarinas. Calvino então censurou, com veemência, a dança, jurando punir os culpados. O litígio agitou a cidade inteira por muito tempo. A esposa do capitão Perrin continuou a dançar e foi chamada a comparecer novamente perante o Consistório; tendo o ministro Abel Poupin se sentido injuriado por suas respostas, mandou encarcerá-la. A opinião pública se abalou contra Calvino e este, enraivecido, mandou fazer uma busca na casa de Jacques Gruet, amigo da família Favre; aí foram encontrados os rascunhos de um cartaz agressivo que seria afixado na cidade, escarnecendo a Bíblia e o Cristianismo. Em razão disso, Gruet foi preso, julgado e condenado à morte por decapitação, ficando seu corpo exposto em praça pública aos 26 de julho de 1547.

Pierre Ameaux, membro do Conselho Menor e fabricante de cartas de baralho, havia perdido muitos clientes em razão do rigor do puritanismo calvinista, pois a população tinha medo de jogar. Proferiu, então, injúrias públicas contra Calvino e por isso foi preso e encarcerado. Aos 8 de abril de 1546 foi emitida a sentença: deveria dar a volta na cidade vestido de camisola, com a cabeça coberta e uma tocha acesa na mão; após isto deveria comparecer perante o Tribunal e, de joelhos, dar graças a Deus e à Justiça, confessando ter falado indevidamente.

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O médico Jerônimo Bolsec, monge carmelita apóstata, proveniente de Paris, que ousara sublevar-se contra a doutrina de Calvino sobre a predestinação, foi exilado em 1551.

O humanista e médico espanhol, Miguel Servet, que Calvino tinha denunciado antecedentemente à inquisição [católica] de Lion, foi queimado vivo [pela inquisição protestante] em 27 de outubro de 1553, por ter negado o dogma da Santíssima Trindade[2].

Em outras cidades da Suiça, o calvinismo absorveu as idéias e os seguidores do reformador Zwínglio de Zurique. Este afirmava, entre coisas, que Deus era o responsável pelo mal no mundo. Negando a autoridade do papa e a eficácia dos sacramentos, seus seguidores passaram a invadir os templos católicos, profanar o Santíssimo Sacramento e a queimar tudo. Propagou-se destruindo muitíssimos monumentos artísticos do Catolicismo. Quando Zwínglio morreu em campo de batalha, Lutero – que era seu inimigo declarado – rendeu graças a Deus e se alegrou muito!

Fidélis de Sigmaringen, advogado e benfeitor dos pobres, fez-se frade capuchinho e foi enviado para a região de Rezia, onde grande parte da população tornara-se calvinista. Os bons resultados da sua pregação provocou a hostilidade dos adeptos de Calvino. Estes, fingindo querer converter-se à fé católica, convidaram-no para pregar em Gruesch. Ao subir no púlpito da igreja local, logo avistou um cartaz preso à parede com os dizeres: “Esta á a tua última prédica”. Mesmo assim, iniciou sua pregação e logo foi disparado contra ele um tiro, que não o atingiu. Frei Fidélis não se abalou e continuou a pregar intrépido. Ao terminar, dirigiu-se para a porta da igreja; ali foi cercado por um bando de homens que o trucidaram a golpes de punhal e barras de ferro, além de amputar-lhe a perna esquerda.

NA INGLATERRA

Na Inglaterra, tendo Henrique VIII rompido com a Igreja Católica e se autoproclamando “único Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra”, a não aceitação desta pretenção sob juramento levava à morte. Um grupo de católicos (entre eles o cardeal João Fisher e o chanceler Tomás Moro), foi martirizado em 1535 por se negar a prestar o juramento. Henrique VIII se apoderou das propriedades da Igreja, particularmente dos mosteiros. Monges cartuxos foram arrastados até Tyburn, onde foram enforcados e esquartejados.

Isto porque claramente apontava o “Ato de Supremacia”[3] de 1534:

“…o nosso Soberano senhor, seus herdeiros e sucessores, reis deste reino [da Inglaterra], terão pleno poder e autoridade para, de tempos em tempos, visitar, reprimir, estabelecer, reformar, ordenar, corrigir, restringir e emendar todos aqueles erros, heresias, abusos, ofensas, desprezos e monstruosidades, quaisquer que sejam, que por autoridade e jurisdição espiritual devem ou podem legalmente ser reformados, reprimidos, ordenados, restabelecidos, corrigidos, restringidos ou emendados para o maior agrado do Deus Onipotente, o aumento em força da religião de Cristo, e para a conservação da paz, unidade e tranqüilidade deste reino, não se opondo a isto qualquer uso, costume, lei ou autoridade estrangeiras, prescrição ou qualquer outra coisa ou coisas em contrário”

Após um efêmro retorno ao Catolicismo, durante o reinado de Maria, a católica, Isabel, filha adulterina de Henrique VIII com Ana Bolenha, reintroduziu um protestantismo mixado com elementos católicos. Em junho de 1559, o não-comparecimento ao novo culto inglês acarretava pesada multa, enquanto que a celebração da Missa ocasionava prisão perpétua. Mais tarde, tanto o comparecimento quanto a celebração da Missa eram punidos com a morte, acontecendo o mesmo com a recusa de se prestar o juramento do ato de supremacia real. Estas e outras leis penais aprovadas pelo Parlamento nos anos seguintes fizeram com que pessoas de todas as posições morressem pela Fé Católica que, durante mil anos, fora a Fé da Inglaterra.

Observa o historiador Bihlmayer-Tuechle:

Os 42 Artigos de Eduardo VI, reduzidos a 39, foram elevados à categoria de norma confessional (1563) da igreja nacional inglesa. A obrigação de prestar o juramento de supremacia foi estendida a todos os membros da Câmara Baixa, aos mestres e aos procuradores públicos; enfim, a todas as pessoas suspeitas de adesão à antiga religião [católica romana], às quais, em caso de recusa repetida, era cominada até a pena de morte. Numa primeira fase, é verdade, foram aplicadas somente penas consistentes na privação dos bens ou da liberdade, ainda que não raro, em medida realmente draconiana. Mais tarde, porém, quando Pio V (1570) fulminou Isabel com a excomunhão e a deposição, desvinculando os súditos do juramento de fidelidade, foram emanadas novas e severíssimas leis e posto em atuação o patíbulo. Foi uma época tremendamente dolorosa para os fiéis católicos da Inglaterra que, amaldiçoados e perseguidos como inimigos do Estado e réus de alta traição, envolvidos na hostilidade suscitada pelo contraste político entre a Espanha e Inglaterra, viram-se oprimidos pela dura crueldade de uma justiça sanguinária. Tiveram que pagar a caro preço as conjuras tramadas contra Isabel e as tramas urdidas para a libertação da prisioneira Maria Stuart. Não é, pois, para se maravilhar que o seu número [de fiéis] fosse continuamente diminuído.

O perigo ameaçava sobretudo os sacerdotes; quem lhes dava hospitalidade era punido com a pena de morte. Para não deixar extinguir-se toda cura pastoral na Inglaterra, foi necessário providenciar à ereção de Institutos no exterior para a formação de padres. Guilherme Allen, cônego de York e desde 1587 ‘cardeal da Inglaterra’, fundou em 1568 em Douai um colégio inglês e o papa Gregório XIII erigiu outro em Roma em 1579. Numerosos jovens de ilustres famílias inglesas realizaram nestes colégios os seus estudos teológicos e mais tarde dirigiram-se secretamente como missionários para a Inglaterra, indo não raro ao encontro da morte certa. (…)

Quando Filipe II da Espanha, para vingar a morte de Maria Stuart, tentou em vão conquistar a Inglaterra com a sua Armada, a perseguição encarniçou-se mais ainda. Mais de 100 pessoas caíram vítimas dela. Globalmente sofreram a morte pela fé 124 sacerdotes e 61 leigos. Numerosos fiéis de ambos os sexos definharam por longos anos em horríveis masmorras. Aqueles que se abstinham do culto anglicano, ‘os recusantes’, foram colhidos por enormes penas pecuniárias. Sob o regime de coação religiosa da igreja nacional anglicana tiveram que sofrer não só os católicos, mas também os puritanos e os presbiterianos, os quais se opunham também ao ato de uniformidade (não conformistas, dissenters)”.

Vemos então que quem se recusasse a prestar o juramento de supremacia era punido como réu de alta traição. A punição assim se dava: o “traidor” era colocado sobre uma grade e arrastado até o local do suplício; aí era estendido sobre um cepo; abriam-lhe o ventre, recortavam-lhe as entranhas em ritmo lento, para prolongar a agonia; a seguir, arrancavam-lhe o coração e esquartejavam o corpo, ficando as diversas partes expostas ao público.

Edmundo Campion (jesuíta e ex-aluno de Douai), Cuthbert Mayne (clérigo de Douai), Margarida Clitherow e Ana Line (católicas convertidas) foram mortos por abrigar sacerdotes.

Por volta do ano 1588, as leis de perseguição contra os católicos, até então ainda maioria, foram reforçadas. Empreenderam-se todos os esforços para apresentar a causa protestante como nacional e patriótica e para tachar os católicos de desleais e traidores da pátria.

Por outro lado, havia indivíduos descontentes, achando que as reformas eclesiásticas deveriam ir bem mais longe, tornando-se independentes do Anglicanismo oficial (p.ex. congregacionalistas, quackers). Duramente perseguidos, esses separatistas emigraram para a Holanda em 1608, onde enfrentaram dura luta econômica para sobreviver. Conscientes de que não poderiam permanecer nem na Holanda, nem na Inglaterra, resolveram – após 12 anos de exílio nos Países Baixos -, transferir-se para os Estados Unidos da América, onde a fiscalização era muito mais branda.

NA ESCÓCIA

Disputas religiosas entre presbiterianos e episcopais culminaram na Revolução de 1640 e em prolongados conflitos posteriores.

NA FRANÇA

A revolução luterana conduziu a um conflito cruel e sangrento na Alemanha, mesmo entre os próprios protestantes. Em meados do século XVI ela afetou profundamente a França, quando o calvinismo se tornou uma força tanto política quanto religiosa, criando um “Estado dentro do Estado” e provocando a Guerra Religiosa de 1559 a 1598.

Durante esses 40 anos de luta civil, traições e assassinatos eram ocorrência diária. Mas onde quer que as forças calvinistas triunfassem, os templos católicos eram cruelmente destruídos (mais de 20 mil ao todo) e seus tesouros artísticos e vasos sagrados eram saqueados. Sacerdotes, monges e frades católicos foram assassinados aos milhares, muitas vezes por ex-sacerdotes e ex-frades convertidos ao calvinismo.

No que diz respeito à bruxaria, o francês Jean Bodin, simpatizante da causa luterana, não se mostrava nem um pouco indulgente com as pessoas “dominadas pelo Diabo”, de modo que publicou sua “Demonomania dos Feiticeiros”, em que defende a tortura contra os endemoniados e até o interrogatório das crianças de tenra idade. Célebres são os seus “quinze crimes imperdoáveis” cometidos pelas bruxas e feiticeiras:

1. Renegam a Deus e a todas as religiões.

2. Blasfemam contra o Criador e o maldizem.

3. Homenageiam, adoram e oferecem sacrifícios ao Diabo.

4. Prometem entregar os seus filhos a Satanás, também chamado Príapo, Moloque e Saturno.

5. Sacrificam os seus filhos não batizados, enfiando-lhes no crânio uma grossa agulha.

6. Consagram seus filhos a Satanás, antes mesmo de nascerem.

7. Prometem atrair todas as pessoas para o serviço do demônio.

8. Juram pelo nome dele (do Diabo) sem cessar.

9. São incestuosos, pois Satanás lhes fez compreender que toda bruxa e todo feiticeiro perfeitos só podem ser gerados pela união sexual do pai com a filha e da mãe com o filho.

10. Vivem matando pessoas e fervendo a carne das crianças não batizadas.

11. Devoram a carne humana e bebem sangue; desenterram os mortos e apoderam-se dos cadáveres dos enforcados (=suicidas?).

12. Matam com a ajuda de venenos e sortilégios.

13. Geralmente liquidam o gado, os bois, as vacas e os bezerros.

14. Causam a fome, arruínam as colheitas e provocam a esterilidade.

15. Copulam com o Diabo.

NA HOLANDA

A Holanda foi profundamente dominada pelo calvinismo e sob a liderança de Guilherme de Orange, além do estímulo de pregadores, os elementos mais violentos se rebelaram e passaram a saquear as igrejas católicas, destruindo as imagens e lançando as relíquias sagradas aos ventos. Em 1566, atacaram conventos e mataram monges e sacerdotes. Combatidos por Felipe II, Guilherme recrutou um exército mercenário junto aos príncipes protestantes da Alemanha, que invadiu os Países Baixos e saqueou tudo o que puderam junto à população católica.

Guilherme passou a provocar rebelião aberta em todas as províncias e apoiado por aventureiros protestantes provindos da Alemanha, França e Inglaterra, conquistou Bruxelas, Antuérpia e Gand, iniciando uma horrível perseguição aos católicos. Finalmente, em 1578, Guilherme declarou-se abertamente calvinista. Posteriormente, nas províncias da Holanda e Zelândia, o culto católico foi proibido e os sacerdotes duramente punidos. As igrejas católicas foram saqueadas e as sagradas espécies profanadas.

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Escreve Kervin de Lettenhove, historiador protestante:

“Os calvinistas foram os mais abomináveis piratas de todos os tempos (…) A sua cupidez era sem igual. Queriam fazer ressoar em toda parte o seu grito de guerra: ‘A palavra de Deus segundo Calvino!’. Saqueavam igrejas e conventos [católicos] e infligiam aos religiosos [católicos] um trato tal que poucos paralelos se encontram na história dos povos” (Les Huguenots et les Gueux, vol. 2, p. 408).

Ao devastarem o mosteiro de Tene Rugge, os invasores encontraram um ancião que não conseguira fugir. Intimiram-no a exclamar: “Viva os calvinistas!”. Tendo-o recusado, foi condenado ao massacre. Antes de lhe tirarem a vida, amputaram-lhe as orelhas, sendo uma afixada à porta da cidade e outra à porta da igreja.

Alguns dias depois, prenderam e mataram o pároco Henrique Bogaart, de Hellevoetsluis, após ter-lhe amputado mãos e pés.

Um sacerdote de prenome Vicente, de 85 anos de idade, caiu também nas mãos dos algozes. Meteram-lhe na cabeça uma coroa de espinhos e puseram-lhe ao ombro uma cruz confeccionada às pressas. Depois, atrelaram o padre a uma carroça para que a puxasse. Por fim, deram-lhe o golpe mortal.

Ao ver um monge cartuxo sendo levado ao suplício, uma mulher perguntou: “Que mal fez esse homem?”. Respondeu o carrasco com furor: “É um monge, um papista”.

Ao invadirem a cidade de Brielle, os calvinistas decapitaram ou queimaram vivos 84 sacerdotes; outros 19 morreram durante a tortura.

O cônego Bervout Hanszoon recusou a ceder alojamento à concubina de um dos carrascos. Em razão disso, mais candente se tornou a sanha dos calvinistas. Sem processo prévio, foi condenado à morte: foi atirado em um poço cheio de lama, onde lutou durante horas contra a morte (que finalmente prevaleceu). Outros 3 sacerdotes foram executados do mesmo modo.

NA ITÁLIA

Por ocasião do Saque de Roma pelas tropas luteranas mercenárias, em 1527, foi dada a ordem: quem for encontrado nas ruas deve morrer. Os soldados protestantes assaltaram, saquearam, incendiaram, trucidaram e esmagaram as suas vítimas. Até mesmo crianças foram atiradas pelas janelas ou jogadas contra as paredes. A basílica de São Pedro, no Vaticano, foi profanada; o túmulo do papa Júlio II foi aberto e lhe foi retirado do dedo o anel pontifício; as capelas e naves laterais foram transformadas em estábulos; bulas pontifícias e antigos manuscritos converteram-se em colchões para soldados e cavalos, ou como fonte de calor. A cruz de Constantino foi arrastada na lama; cibórios, cálices, crucifixos, relíquias, paramentos e vestes litúrgicas foram parar nas tabernas, entre soldados bêbados e prostitutas; as tapeçarias de Rafael foram furtadas.

Freiras, mães e filhas foram estupradas e maltratadas, nos conventos, nas casas e nas igrejas, às vezes sobre o altar do Santo Sacrifício. Quem resistia era degolada ou lançada ao Tibre. Muitos pais, para não verem tal cena, mataram suas próprias esposas e filhas; muitas religiosas e leigas se atiraram às águas do Tibre ou arrancaram seus olhos.

Fidalgos, burgueses e comerciantes foram obrigados a despejar em vias públicas, com as próprias mãos, as fezes das latrinas, para que provassem não ter escondido nas fezes moedas e outros objetos de valor. Centenas de cadáveres apodreceram nas ruas de Roma ou foram levados pelas correntezas do Tibre. O cheiro da cidade era insuportável.

Apoderando-se do cardeal Caetano – o mesmo que em 1518 convidara Lutero a se retratar na Dieta de Augsburgo – este foi conduzido a pontapés pelas ruas e só libertado após o pagamento do resgate. Desta maneira, os adeptos de Lutero recorriam à violência a fim de inflingir humilhação àqueles que anteriormente não aceitaram Lutero.

O capitão Wilhelm de Sandezell, paramentado com as vestimentas pontifícias, chegou a ordenar que seus homens, vestidos de púrpura e chapéus cardinalícios, lhe beijassem o pé para, a seguir, proferir a bênção com um copo de vinho na mão. Por fim, adentrou ao Vaticano para ironicamente proclamar Lutero como papa.

O nobre alemão Gattinara, ao comunicar os fatos ao imperador Carlos V, relatou:

“Neste exército [que assaltou Roma] não há nem comandante, nem soldados, nem obediência, nem regras (…) Os comandantes fazem o que podem, mas os soldados se comportam como verdadeiros luteranos”

O saque durou oito longuíssimos dias… Após isto, ratos, gatos, cachorros e cavalos foram sacrificados pela população faminta; e para piorar, algum tempo depois chegou a peste para aumentar o número de doentes e mortos.

Nas palavras do contemporâneo e tolerante Erasmo de Roterdan, teólogo e humanista liberal:

“Roma sofreu mais [agora] do que com os gauleses e os godos. Roma, a única! Lá ninguém se sentia estrangeiro, mesmo vindo do mais remoto canto do mundo. (…) Não foi só a cidade [de Roma] que perdeu, mas o mundo inteiro”.

NOS ESTADOS UNIDOS

Em 1620, chegaram aos E.U.A., em Plymouth, os puritanos, perseguidos na Europa pelos próprios governantes protestantes. Aqui encontraram também outros grupos protestantes não-conformistas (presbiterianos, batistas etc.) com os quais logo entraram em rivalidade. No Estado de Massachusetts, p.ex., onde se firmaram como igreja oficial até 1833, passaram a perseguir todos os demais grupos reformados…

Na Vila de Salem, uma Colônia puritana da Baía de Massachustts (Nova Inglaterra), atual Danvers, tornou-se famosa pelo julgamento e a condenação à morte de várias pessoas acusadas de feitiçaria.

Como bem resume na Internet a “Valois HP”:

“Em janeiro de 1692, Elizabeth Parris de nove anos e Abigail Willams de onze, começaram a exibir comportamento estranho, como blasfêmias, gritos, ataques apoplécticos convulsivos, estados de transe etc. Logo outras meninas de Salem começaram a demonstrar comportamento semelhante e, incapazes de determinar qualquer causa física para os sintomas e comportamentos, os médicos concluíram que as meninas estavam sob influência de Satanás.

Orações e jejuns comunitários foram organizados pelo Reverendo Samuel Parris, pai de Betty e tio de Abigail Willians. Para descobrir a identidade das bruxas, Jonh, um índio, assou um bolo feito com centeio e urina das garotas enfeitiçadas e, pressionadas para identificar a fonte de suas aflições, as meninas nomearam três mulheres, inclusive Tituba, escrava do reverendo Parris, além de Sarah Good e Sarah Osborne.

Embora Osborne e Good tenham alegado inocência, Tituba confessou ter visto o Diabo, o qual aparecia para ela “às vezes como um porco e às vezes como um grande cachorro”, tendo ainda Tituba testemunhado que havia uma conspiração de bruxas em Salem.

Em 1º de março, os magistrados John Hathorne e Jonathan Corwin examinaram Tituba e as outras duas mulheres na casa de reuniões de Salem. Tituba confessou a feitiçaria praticante. Nas semanas seguintes outras pessoas da cidade testemunharam que eles tinham sido prejudicados pelas bruxarias e, tendo continuado a caça às bruxas, foram feitas acusações contra diversas pessoas, principalmente mulheres cujo comportamento estava perturbando de alguma maneira a ordem social e as convenções do tempo. Alguns acusados tinham registros criminais, inclusive de feitiçaria, mas outros eram devotos e pessoas consideradas na comunidade.

Martha Carey foi acusada de feitiçaria em 12 de março. A enfermeira Rebecca foi denunciada em 19 de março. Martha Carey foi examinada pelos magistrados em 21 de março e Rebecca em 24 de março. E seguiram-se várias acusações e exames dos supostos feiticeiros.

Abigail Hobbs, Bridget Bishop, Giles Corey e Mary Warren foram examinados em 19 de abril. Só Abigail Hobbs confessou.

Sarah Osborne morreu na prisão de Boston em 10 de maio.

Em 27 de maio o recém chegado governador, sir William Phips, fundou um Tribunal especial de Oyer e Terminer composto de sete juízes para julgamento dos casos de bruxaria. Compuseram o Tribunal: William Stoughton, Nathaniel Saltonstall, Bartholomew Gedney, Peter Sergeant, Samuel Sewall, Wait Still Winthrop, John Richards, John Hathorne, and Jonathan Corwin.

Os julgamentos foram baseados nas confissões, em atributos sobrenaturais como marcas etc., e com base nas reações das meninas atingidas pela bruxaria. Foi considerado inclusive que o diabo poderia assumir o aspecto de uma pessoa inocente. Em 2 de junho Bridget Bishop foi o primeiro a ser considerado culpado e condenado à morte. Nathaniel Saltonstall abandonou o tribunal insatisfeito com seus procedimentos, sendo Bishop enforcado em Salem em 10 de junho de 1692, afirmando: “Eu não sou nenhum bruxo. Eu sou inocente. Eu não entendo nada disso”.

Giles Corey alegou inocência da acusação de feitiçaria, mas subseqüentemente recusou levantar-se diante do tribunal. Esta recusa significou que ele não podia ser julgado legalmente. Porém, os examinadores dele escolheram sujeitá-lo a interrogatório mediante tortura, colocando pesadas pedras em cima de seu corpo. Ele sobreviveu a esta brutal tortura durante dois dias e morreu.

Em 19 de julho Rebecca Nurse, Martha Carey, Susannah Martin, Elizabeth Howe, Sarah Good e Sarah Wildes foram executadas.

A sentença de Martha Carey, datada de 10 de junho, informa que: “O Tribunal de Oyer e Terminer, reunido na Casa de Reuniões da Aldeia de Salem, tendo ouvido o testemunho de diversas pessoas, considerou Carey culpada do crime de ‘heresia’, acusada de ter ajudado e auxiliado bruxas, causado dores e sofrimentos para sua família e demais parentes; matado umas quarenta e cinco aves raras e vários suínos na Aldeia de Danvers e em suas proximidades; posto uma ‘maldição do diabo’ nas meninas de Parris e em Goody Laurence, causando muita doença e miséria; comido vidro quebrado…”

Segue ordem para o xerife George Corwin “confinar Martha Carey na cadeia da prisão de Salem até 19 de julho de 1692, ocasião em que, quando o sol estiver alto, ela será executada. Dê-lhe um gorro preto e leve-a segura para a Colina da Execução em Salem e coloque-a na forca. Ela será pendurada pelo pescoço até a morte. Possa Deus perdoar sua alma má” (cf. documento que se encontra no Peabody Essex Museum, juntamente com outros 551 documentos, todos referentes aos julgamentos das bruxas de Salem)

Em 19 de agosto, George Jacobs, Martha Carrier, George Burroughs, John Proctor, and John Willard foram enforcados.

Margaret Scott, Mary Easty, Alice Parker, Ann, Pudeator, Wilmott Redd, Samuel Wardwell, e Mary Parker foram enforcadas em 22 de setembro.

O tribunal foi dissolvido pelo Governador Philips em 29 de outubro, depois de executadas 20 pessoas” [em menos de 1 (um) ano. No total, cerca de cento e cinqüenta pessoas tinham sido presas].

NO BRASIL

Em 1555, o francês Nicolau de Villegagnon, cavaleiro da Ordem de Malta e ex-católico, deixou a França com destino ao Brasil, com o objetivo de “poder ser livre e puramente servir a Deus, conforme a Reforma do Evangelho”, onde prepararia também pousada para todos aqueles que tivessem a mesma intenção. E assim se estabeleceu na região da Guanabara, no atual Estado do Rio de Janeiro, em novembro do mesmo ano, onde fundou a “França Antártica”.

Veja também  Édito de Milão: o fim das perseguições contra os cristãos

Em sua primeira oportunidade, requisitou à igreja calvinista de Genebra o envio de pregadores, não só para atuarem perante os colonos europeus, como também para evangelizar os povos indígenas. A este pedido, a igreja de Genebra “rendeu primeiramente graças a Deus pela expansão do reino de Jesus Cristo em país tão longínquo, em terra estranha e no meio de uma nação que inteiramente ignorava o verdadeiro Deus”[4]; depois, enviou os ministros Dupont, Pedro Richier, Guilherme Chartier, Pedro Bordon, Mateus Verneuil, João du Bordel, André Lafon, Nicolau Denis, João Gardien, Martin David, Nicolau Raviquet, Nicolau Carmeau, Tiago Rousseau e João de Léri.

A comitiva calvinista embarcou em Genebra aos 16.09.1556, chegando na Guanabara aos 07.03.1557[5]. Todos foram bem-recebidos por Nicolau de Villegagnon, que revelou-lhes que pretendia constituir ali “um refúgio para os pobres fiéis que forem perseguidos [pelos católicos] na França, na Espanha ou em qualquer outra parte do além-mar, a fim de que, sem temer a rei, imperador ou outros poderes, possam servir a Deus com pureza, conforme a sua vontade”. E assim foi durante algum tempo… Villegagnon não admitia que nenhum homem seu tivesse contato com as índias, por não serem cristãs, sob pena de enforcamento e não hesitava em usar métodos violentos para manter o controle; porém, descobriu ainda que não compartilhava de todas as doutrinas pregadas pelos reformados (como a Sola Scriptura).

Na verdade, como protestante, fazia uso também de seu “livre exame”, descontentando enormemente, com suas “descobertas”, os ministros calvinistas (inclusive João de Léri, que a partir de então, em sua clássica obra, passou a atacar todos os seus pontos de vista e atitudes, classificando-o como traidor e dissimulador: o “Caim da América”). Isto fez com que esfriasse e desgastasse a relação entre as partes. Com efeito, Léri afirma que (cap. 6, §22), após a ceia de Pentecostes, Nicolau de Villegagnon declarou abertamente ter mudado de opinião quanto a Calvino, descobrindo ser ele um herege transviado da fé; em razão disso, mas demonstrando alguma tolerância, reduziu o tempo de sermão dos cultos para no máximo meia-hora.

No fim de outubro, após oito meses de contato, determinou que os ministros calvinistas deixassem o forte de Coligny; boa parte ficou na praia, convivendo com os índios, durante dois meses, aguardando a chegada de navios franceses que os pudesse levar de volta à França, o que efetivamente aconteceu em 04.01.1558. Cinco deles, porém – Pedro Bourdon, João du Bordel, Mateus Verneuil, André Lafon e Tiago LeBalleur – depois de um primeiro naufrágio, foram novamente ao encontro de Villegagnon, sendo que este mandou matar os três primeiros por afogamento. Os que decidiram empreender novamente a viagem, só atingiram o continente europeu em maio de 1558, após não poucos obstáculos no mar.

Mais tarde, já em 1645, invasores calvinistas holandeses instigaram os índios a atacar os católicos. O primeiro grupo, contando cerca de 70 pessoas, foi trucidado na capela da Vila de Cunhaú-RN, sendo que índios canibais chegaram a devorar as carnes de algumas vítimas.

O segundo grupo, também de cerca de 70 pessoas, foi martirizado em Uruaçu-RN. Sendo conquistado o arraial pelas forças holandesas, um minitro calvinista, que acompanhava as tropas suplicou aos habitantes reunidos que abjurassem a fé católica, mas não obteve êxito. Começou então a tortura: a uns cortaram a língua; a outros, rasgaram as carnes das costas; a outros ainda arrancaram os olhos ou deceparam os braços; após a matança, os cadáveres foram esquartejados (mais detalhes em: http://www.veritatis.com.br/article/1539/ e http://www.veritatis.com.br/pr/1999/pr45102.htm).

Atualmente, não obstante o direito de liberdade religiosa e o “fim da era inquisitorial”, vemos com muita freqüência nos jornais e telejornais denominações neopentecostais (em especial a autodenominada “Igreja Universal do Reino de Deus”) a promover iconoclastia contra imagens católicas e não poucas invasões em terreiros afrobrasileiros (por praticarem feitiçaria); neste último caso, não raro chegam mesmo a agredir físicamente os fiéis dessas religiões, correspondendo a um julgamento arbitrário, incompatível com o nível de tolerância exigido pelo Estado laico brasileiro.

CONCLUSÃO

É evidente que muito mais poderíamos acrescentar aqui, eis que o que não faltam são registros históricos. Porém, para não nos estendermos longamente, basta guardar a seguinte lição: a História evidencia que os protestantes inquiriram e maltrataram ferozmente não só católicos, mas também protestantes de outras denominações evangélicas e pessoas acusadas de feitiçaria e bruxaria. Logo, cometeram também eles aquilo que gostam de apontar contra a Igreja Católico…

Com isto, concluímos legitimamente que a hipocrisia de muitos anticatólicos está novamente evidenciada! Esses são os fatos… Históricos!

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NOTAS:
[1] O poder do Diabo preocupava tanto os reformadores que chegavam quase a professar a heresia dualista. Sobre Satanás, afirmava Lutero (que chegou a relatar ter lutado fisicamente com ele): “Estamos todos sujeitos ao Diabo, nosos corpos e nossos bens”; “Somos estranhos neste mundo, enquanto ele (o Diabo) é príncipe e deus”; “[O Diabo] está vivo e reina sobre todo o mundo”; “Ele (o Diabo) espalhou a feitiçaria entre as obras da carne”. E Calvino: “[O verdadeiro santo] luta sem trégua contra ele (o Diabo)”. Para detalhes do pensamento destes reformadores acerca do poder do demônio (e bruxarias), ver: “Lutero e a Igreja do Pecado”, Fernando Jorge, ed. Mercuryo, São Paulo, 1992; e “Witchcraft and Calvinism in Elizabethan England: divine power and human agency”, Journal of the History of Ideas nº 23, 1962. * [2] Também Lutero, ao ler o livro “De trinitatis erroribus”, de Servet, que previa o fim da Igreja Católica e das igrejas reformadas, o julgou como “um livro horrorosamente mau”, de modo que, muito provavelmente neste ponto Lutero concordava com a posição de Calvino. * [3] Em 1531, as convocações do clero tinham reconhecido a Henrique VIII como chefe supremo da Igreja da Inglaterra “até onde permite a Lei de Cristo”. O Ato de Supremacia tirou essa cláusula restritiva. Posteriormente, o Ato foi revogado por Maria, a católica, mas confirmado em outros termos por Elisabeth, protestante. * [4] Observe-se, porém, que o Brasil já estava sendo colonizado pela Igreja Católica. Vemos aqui, que João de Léri, narrador desta passagem histórica, era calvinista e anticatólico. * [5] João de Léri relata com grande naturalidade, no cap. 2, §§ 5 e 6 de sua obra, um ato de “direito marítimo” da tripulação francesa durante a sua viagem missionária para o Brasil: “§5. No domingo seguinte, encontramos dois navios mercantes da Inglaterra que vinham da Espanha. Os nossos marinheiros (=piratas) os abordaram, mas como estavam com pressa, por pouco o deixavam de saquear. Como já disse, os nossos três navios estavam bem providos de artilharia e outras munições de guerra, por isso nossos marinheiros mostravam-se altivos e fortes quando navios mais fracos apareciam à sua disposição, sem ter segurança alguma. E cumpre dizer aqui de passagem – pois vem de propósito – que neste primeiro encontro de navios vi praticar no mar aquilo que mais frequentemente se pratica também em terra, a saber: aquele que tem mais armas em punho e é mais forte, supera e dá as ordens ao outro. É que os marinheiros (piratas), arriando as velas para fazer com que os míseros navios mercantes se aproximem, alegam costumeiramente que navegam há muito tempo, atingidos por tempestades e calmarias, sem chegar à terra ou porto, tendo necessidade de víveres no mar. Pedem assim que sejam supridos mediante pagamento. §6. Se, porem, sem este pretexto conseguem colocar pé a bordo no outro navio, não me pergunteis se impedirão o navio de ser afundado. Ali descarregam tudo o que lhes parece de bom e proveitoso. Se porém, alguém avisa – como de fato sempre o fizemos – que não há qualquer ordem para saquearem indiferentemente, amigos e inimigos respondem com o estribilho comum de nossos soldados em terra em casos semelhantes, afirmando que faz parte da guerra e do costume. Assim, desempenha o seu trabalho quem segue os estilos”. No §12, narra o saque que tentaram promover nas “ilhas Afortunados”, pertencentes aos espanhóis, se não tivessem sido descobertos a tempo e expulsos; porém, atacaram uma caravela espanhola e saquearam suas mercadorias, além de afundar, por vingança, a golpes de machado uma barca e um batel que se encontravam próximos. No §16 conta ainda o plano de atacar uma caravela portuguesa, que se rendeu, e que foi “confiscada”, pois “os nossos capitães (…) sempre esperam tomar [caravelas] dos espanhóis ou dos portugueses” colocando “gente nossa na caravela, sem licença, a fim de melhor dominá-la e assegurar-se dela”, prometendo devolvê-la ao capitão português caso encontrasse outra (o que de fato aconteceu, pois no §18 afirma que encontraram, no dia de Natal, um belo navio espanhol, que foi tomado à força e anexado aos “nossos navios”; quanto ao trato feito com os portugueses, informa pesarosamente, no mesmo parágrafo: “Verdade é que se manteve a promessa feita aos portugueses, autores do trato, de se lhes devolver a sua caravela. Mas os nossos marinheiros (piratas) – cruéis como foram nesse fugar – colocaram os espanhóis esbulhados de seu navio juntamente com os portugueses, mas não deixaram a essa pobre gente nenhum pedaço de biscoito, nem de outros víveres, como ainda – o que é pior – rasgaram-lhes as velas [da caravela portuguesa] e até tiraram-lhes o escaler, sem o qual não poderiam aproximar-se da terra, nem desembarcar; assim, creio eu, melhor seria tê-los afundado do que deixá-los em tal situação. Com efeito, ficando assim à mercê das ondas, se algum barco não apareceu para socorrê-los, certamente por fim submergeram ou morreram de fome”. Deve-se recordar aqui que tanto portugueses, quanto espanhóis mantiveram-se fiéis à fé católica durante a Reforma.

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BIBLIOGRAFIA:
– A Caça às Bruxas na Europa Moderna, Brian P. Levack, ed. Campus, 2ª ed., 1990.
– Documentos da Igreja Cristã, H. Bettenson, ed. Aste, 3ª ed., 1998.
– História de uma Viagem feita à Terra do Brasil, João de Léri, 1578.
– Igrejas Cristãs, Estêvão Tavares Bettencourt, ed. Santuário, 1ª ed., 1991.
– Lutero e a Igreja do Pecado, Fernando Jorge, ed. Mercuryo, 1ª ed., 1992.
– Nova Enciclopédia Católica, vol. 3, ed. Renes, p. 256ss.
– Por que amo a Igreja, frei Battistini, ed. Ave Maria, 2007.
– Revista Pergunte e Responderemos nº 451, ed. Lumen Christi, p. 530ss.
– Revista Pergunte e Responderemos nº 500, ed. Lumen Christi, p. 50ss.
– Valois HP (http://www.internext.com.br/valois/pena/1692.htm).
– Wikipedia, verbete Bruxas de Salem (http://pt.wikipedia.org/wiki/Bruxas_de_Salém).