A exegese católica de MT 16,18-19

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Sendo a soteriologia do movimento protestante baseado sobre a "Sola Fide" (somente pela fé), Pedro se encaixaria perfeitamente nesta esta visão pela sua profissão de fé.

Segundo, dizem que o próprio Jesus é a pedra, e não Pedro. Os protestantes, proclamando que na Bíblia a metáfora "pedra" é invariavelmente utilizada em referência a Cristo, não aceitam que a um simples homem seja dado algo atribuído a uma divindade.

Para afirmar estas opiniões, pensadores protestantes ainda tocam no ponto da interpretação de alguns Padres da Igreja. Por exemplo, é verdadeiro que em alguns escritos de Santo Agostinho, ao menos duas visões sobre a pedra podem ser encontradas. Vários outros Pais da Igreja mostram uma ou mais interpretações. Dessa forma, devemos ser cuidadosos em acusar os protestantes de estarem inventando alguma coisa que não existia até o século 16.

Sob uma melhor apreciação, contudo, encontramos nos Pais da Igreja a afirmação de que Pedro é a pedra citada em Mt 16,18. Mesmo os poucos que não afirmavam tal não viam problema no primado de Pedro. Santo Agostinho, no qual encontramos pelo menos duas visões, iniquivocamente afirmou que a cátedra de Pedro é a suprema autoridade para a Igreja. Sua famosa afirmação - "Roma falou, causa encerrada" - ressou nos ouvidos dos católicos por um milênio e meio. Além do mais, é necessario que as pessoas entendam o contexto em que Agostinho estava escrevendo, assim como a autoridade teológica própria que ele possui para explicar as profundezas das verdades da fé. No fim de tudo, Agostinho era um fervoroso defensor do papado.

Interessantes evoluções na exegese de Mt 16,18-19 ocorreram no mundo protestante desde o início do século. Muitos autores protestantes chegaram à conclusão de que Pedro é de fato a pedra que Jesus refere. Renomandos teólogos protestantes como Oscar Cullman e Herman Ridderbos escreveram volumosos tratados detalhando finamente a exegese de Mt 16,18, mostrando que a interpretação protestante clássica é cheia de deficiências e falsas conjecturas. Um dos maiores erros apontados por estes autores é a hipótese protestante de que o original grego da Bíblia em Mt 16,18 faz uma dinstinção léxica entre Pedro (petros) e pedra (petra). Entende-se por Petra como uma pedra pequenam enquanto que Petra é uma grande e imóvel pedra, um sólido rochedo. Conclusão: Pedro não pode ser a pedra que Jesus refere, porque é lógico que uma pequena pedra não é uma grande e sólida rocha. Com as recentes descobertas da etmologia grega, entretanto, estudiosos protestantes entenderam que Petrus e petra são verdadeiramente termos intercambiáveis. Ainda que desejasse colocar um jogo de palavras, o autor do Evangelho estava simplesmente limitado pelo fato de que, sendo Pedro um nome masculino, deveria ser designado por outro nome grego no masculino - Petrus - enquanto que Petra é um substantivo feminino.

O grego, entretanto, não foi a língua original do Evangelho de Mateus, pois muitos Padres da Igreja (Irineu, Eusébio, Jerônimo, Epifênio e etc.) indicam que o Evangelho de Mateus fora orginalmente escrito em hebraico/aramaico. A versão grega de Mateus deve, portanto, ser a tradução do original hebraico. Ainda, sabe-se que Jesus falava em um dialeto hebraico chamado aramaico. E isto é muito significante, porque o aramaico não possui formas diferentes para "Pedro" e "pedra" como possui a língua grega, tendo sido utilizada a forma "kepha" (traduzido como "Cefas" em Jo 1,42, onde Jesus, falando em aramaico, compara kepha com o grego petrus). Também é interessante notar que "Simão" em aramaico significa "grão de areia". Se petrus está se referindo somente a uma pequena pedra, como dizem alguns protestantes, não haveria sentido Jesus ter trocado seu nome de "grão de areia" para "pequena pedra", o que contrasta fortemente com a monumental mudança e evolução do perfil de Pedro atestanto em Jo 1,42 e Mt 16,18.

Mesmo que o grego não tenha sido a língua em que Mateus escrevera seu Evangelho, pode ser demosntrado que pelo uso do grego bíblico que petra não se refere somente a uma grande e firme rocha. Também pode se referir a outras formas ou mesmo a pequenas rochas. Por exemplo, em Rm 9,33 e em 1 Pd 2,8 a palavra grega "lithos" (pequena pedra) está ligada a petrus na imagem de fazer um homem tropeçar e cair. O verso do Antigo Testamento de onde estes são retirados é de Is 8,14: "Ele será um santuário e uma pedra contra a qual se esbarra, um rochedo em que se tropeça". A imagem é a de uma homem que caminha, tropeça em uma pedra ou uma pequena rocha e então cai no chão. Não se parece com a imagem de uma grande rocha vindo em sua direção ou aparecendo no seu caminho. Paulo se refere ao tropeço em Rm 9,32, e ninguém poderia tropeçar em uma grande e maciça rocha.

Consequentemente, sendo que petrus e petra podem se referir tanto a uma pequena como uma grande pedra, é provável que Jesus não esteja preocupado em matéria de tamanho quando chama a Pedro de pedra, mas estar se referindo à solidez.

Este raciocínio se sustenta pela parábola de Mt 7,24-27 sobre o homem que contrói sua casa sobre a areia em contraste com o que a constrói sobre a rocha. Sobre o "grão de areia" (Simão) a Igreja não se sustentaria, mas sobre a "rocha" (Pedro) será firme.

Por causa desta e de outras descobertas, está se tornando cada vez mais raro encontrar um pensador protestante que não aceite a visão católica de Mt 16,18.

E estes protestantes se converteram? Alguns sim, mas dentre outras coisas, o que mais existe de dificuldade para estes protestantes é a capacidade deste ofício de Pedro ser transmitido adiante. Para explorar esta questão, recorremos mais uma vez à língua grega.

Existem nuances no grego que são mais ilustrativas em identificar Pedro com a pedra que não existem no hebraico/aramaico. Por exemplo, o grego para "sobre esta pedra" usa a forma "tautee" - adjetivo demonstrativo de desinência dativa - com o adjetivo dativo "tee". Para demonstrar a força de sua qualidade demonstrativa, a palavra grega pode ser traduzida por "esta mesma" ou "justamente esta" "igualmente esta". Assim, as palavras de Mt 16,18 podem ser lidas como "...Tu és Pedro e sobre esta mesma pedra edificarei a minha Igreja..." ou "...Tu és Pedro e exatamente sobre esta pedra edificarei a minha Igreja...".

Para perceber que a frase grega pode ser utilizada desta mesma forma, basta utilizar uma tradução protestante do Novo Testamento. Por exemplo, na King James, a mesma construção dativa é traduzida por "a mesma" ou "esta mesma" como em 1 Cor 7,20 ("Cada um permaneça na mesma condição em que fora chamado"). Também pode ser traduzindo como "nesta mesma", como em Mc 14,30 ("Neste dia, ainda nesta mesma noite...me negarás três vezes"). A NASB (New Americam Standard Bible) traduz este adjetivo demonstrativo como "este exato" em Lc 12,20 ("...Nesta exata noite exigirão de ti a tua alma"). A mesma forma se encontra na NIV (New International Version) e na NEB (New English Bible). A RSV (Revised Standard Bible) e a NASB traduzem esta construção dativa como "nesta mesma" como ocorre em At 27,23 ("...Nesta mesma noite apareceu-me um anjo de Deus"). Existem outros exemplos em traduções protestantes, mas estas se monstram suficientes para demonstrar que é muito provável, de fato, e mais correto, traduzir Mt 16,18 mais enfaticamente do que na sua forma usual. Além do mais, o que se deve prestar atenção não é só no que o autor disse, mas no que ele não disse. Ele não disse "sobre A pedra" ou "sobre UMA pedra", o que tornaria muito mais ambígua a identificação da pedra em questão. A intenção demonstrativa demonstrada pelo uso do grego "tatuee" torna claro que a pedra que Jesus refere é exatamente a pedra a quem ele havia se referido, isto é, Pedro.

RCH Lenski, um comentarista luterano renomado, sugere que Jesus poderia ter dito "Tu és Pedro, e edificarei minha Igreja sobre ti" se quisesse se referir a Pedro. Isto é plausível, mas existem várias maneiras de se dizer a mesma coisa nas diversas línguas humanas.

Entretanto, Lenski evita o gênero histórico e literário em sua sugestão. Os apóstolos estavam nas vizinhanças de Cesaréia de Felipos, que é constituída de maciças formações rochosas naturais. Jesus já havia alterado o nome de Simão para Pedro (Jo 1,42). Jesus e Pedro tiveram uma intensa conversa na qual trocaram títulos (Mt 16,13-18).

Somente a Pedro Jesus deu as Chaves do Reino (Mt 16,19). Que modo mais profundo haveria de ser para atestar a declaração de Pedro como a pedra?

De fato, muitos protestantes percebem tamanha força contida neste gênero que alegam, na tentativa de anular a visão católica, que a passagem de Mt 16,18-19 não é autêntica.

Ironicamente, em uma carta parabenizando o teólogo católico Hugo Ranher sobre a sua grandiosa crítica ao livro de Hans Küng questionando a infalibilidade papal, Bultmam disse: "Quão afortunado você deve ser para apelar para o Papa. Apelar para os sínodos luteranos somente leva a mais desunião".

Devemos acrescentar que a Vulgata Latina, escrita por São Jerônimo no quinto século, traduz a frase supramencionada como "hanc petram" no qual "hanc" pode ser traduzida como "esta mesma" em latim. Sob a ótica de Jerônimo, isto deveria ser bastante significativo, pois ele era um "expert" em grego, aramaico e hebraico.

Aos protestantes que já aceitam a interpretação católica de Mt 16,18-19 basta apenas entender a capacidade deste primado ser sucedido.

A lógica irá ditar que, se Jesus concedeu autoridade a Pedro sobre certas questões (isto é, o deu as chaves, que denotam autoridade e poder), esta autoridade deveria naturalmente permanecer no seio da Igreja.

Jesus nada faz sem planejar para o futuro. Senão, que sentido haveria em Jesus ter decretado tamanha autoridade a Pedro se não soubesse que após a morte do discípulo ela deveria permanecer?

Imaginem os relatores da constituição dos EUA criando o cargo de presidente e elegendo George Washington como seu primeiro ocupante, enquanto todos refletiam que o cargo seria dissolvido após a morte de Washington. Isto é uma proposição extremamente absurda. Seriam os relatores da Constituição mais espertos que Jesus? Com certeza não. Eles estavam apenas imitando o que já acontecia ao longo da história - que uma pessoa assume o poder, mas passa adiante seu ofício após sua retirada. Mas isto é um grande assunto que requer ainda maiores análises...

Robert A. Sungenis lecionava aulas de rádio de teologia protestante e se converteu ao catolicismo em 1992.

Tradução do Veritatis Splendor por Rondinelly Ribeiro.

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