Igreja Católica - Papado

Colônia Católica dos Estados Unidos

Por Matthew E. Bunson 

A história da Inglaterra Colonial nos Estados Unidos é de grande ironia: os mesmos grupos protestantes que fugiram da Inglaterra em busca de tolerância e liberdade religiosa trouxeram com eles um ódio absoluto pela Igreja. Eles instalaram leis e costumes que excluíram os católicos de todos os aspectos da vida pública por mais de um século e meio.

Esta realidade torna a história dos católicos nos primeiros dias de Maryland ainda mais notável. Desde sua fundação, Maryland foi concebida para ser um lugar onde os católicos fossem acolhidos e permitidos a compartilhar o sonho de uma nova vida que trouxe tantos outros para os Estados Unidos. O que aconteceu aos católicos que perseguiam esse sonho é um lembrete de que as liberdades que nós temos garantidas hoje foram duramente conquistadas por aqueles que vieram antes de nós.

Um Refúgio para os Católicos

Como as crianças costumavam aprender nas escolas americanas, a primeira colônia inglesa permanente foi estabelecida em 1607 em Jamestown, Virgínia. Outras colônias logo seguiram ao longo da costa atlântica. Em 1620, um grupo de peregrinos – puritanos fervorosos que rejeitaram o que consideraram influências romanas na Igreja da Inglaterra – deixou a Inglaterra para escapar à conformidade religiosa. Eles navegaram da Inglaterra no famoso Mayflower, chegaram a Plymouth, Massachusetts, e começaram a forjar um lugar para si. Estes dois grupos, na Virgínia e Massachusetts, comprovaram a vanguarda do que se tornou as 13 colônias.

A tolerância religiosa que era uma marca da maioria das colônias não se estendeu aos católicos. A maioria dos habitantes das colônias tinha crescido em um mundo repleto de animosidade pela Igreja de Roma e foram condicionados a temer e menosprezar a Igreja Católica pela propaganda elizabetana e pela luta da Inglaterra contra as forças católicas da Europa. Não surpreendentemente, então, as leis anticatólicas, as deficiências e o ódio permearam quase todas as colônias inglesas. Uma exceção notável foi Maryland.

Maryland é acertadamente honrada como o único lugar nas colônias onde os católicos podiam viver em relativa liberdade religiosa nos Estados Unidos. Mas mesmo lá as liberdades apreciadas pelos católicos se comprovaram efêmeras.

O crédito para a colônia católica pertence a um homem: George Calvert, Primeiro Senhor de Baltimore. Um talentoso líder de negócios inglês e um amigo dos reis James I e Carlos I, Calvert se converteu ao catolicismo em 1624. A decisão lhe custou o assento no Parlamento e seu escritório estadual, mas renunciou-os de bom grado, porque acreditava muito firmemente nas verdades da Igreja. Sua personalidade atraente também o ajudou a reter favor na corte real. Isto provou ser crucial, já que Calvert logo sentiu as duras leis penais contra os católicos e ele se comprometeu a ajudar seus companheiros crentes. Uma dessas formas foi através de uma colônia no Novo Mundo.

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Enquanto os historiadores têm opiniões divergentes quanto à possibilidade de Calvert estar preocupado em primeiro lugar com uma empresa comercial ou com um santuário para os católicos, a ideia de uma colônia para católicos logo tomou forma. O primeiro local escolhido foi em Newfoundland, mas isso se comprovou financeiramente impraticável (e no inverno absolutamente intolerável). Ironicamente, também, a jovem colônia foi atacada pelo vizinho católico francês. Virgínia foi a próxima possibilidade, mas a resistência furiosa dos protestantes bloqueou o esquema. Destemido, Calvert pediu uma carta para iniciar uma colônia no norte da Virgínia, mas ele morreu em abril de 1632. Poucos meses depois, em 20 de junho de 1632, uma carta para a Colônia de Maryland foi concedida a seu filho, Cecílio Calvert, Segundo Senhor de Baltimore. A colônia foi nomeada em homenagem à rainha de Carlos I, Henriqueta Maria.

Em 25 de março de 1634, dois navios de pequeno porte, a Arca (Ark) e a Pomba (Dove), desembarcaram na Ilha de São Clemente no sul de Maryland. A bordo foram os primeiros colonizadores da colônia, liderados por Leonard Calvert, irmão mais novo de Cecil Calvert. O grupo era composto por 17 cavalheiros, suas mulheres e suas famílias. A maioria dos funcionários era protestante. A primeira missa católica nas colônias foi feita pelo padre jesuíta Andrew White; outros jesuítas no grupo incluíam o padre John Altham e o irmão Thomas Gervase.

Liberdade Religiosa

Mas Maryland não era exclusiva para os católicos. Calvert era um realista, e ele sabia que as chances a longo prazo da colônia eram melhores se fosse observada a genuína liberdade religiosa. Calvert também não era estúpido. Ele estava ciente de que desde o início os católicos, mesmo em uma colônia católica, seriam superados em número pelos protestantes. Isso significava que a tolerância aos católicos seria sempre precária, mesmo em uma colônia fundada por eles. Antes de sua partida aos Estados Unidos, então, os primeiros colonizadores de Maryland foram alertados pelo Senhor Cecil sobre como eles deveriam se comportar. Ele declarou:

Seu senhor exige que seu referido governador e comissários que, em sua viagem a Maryland, sejam muito cuidadosos com preservar a unidade e a paz entre todos os passageiros a bordo do navio, e que eles não sofram nenhum escândalo nem ofensa a ser dado a qualquer um dos protestantes… e que, para esse fim, eles motivem todos os atos de religião católica romana a seren feitos tão privadamente quanto possam ser, e que eles instruam todos os católicos romanos a ficarem em silêncio em todas as ocasiões de discurso sobre questões de religião e que o referido governador e comissários tratem os protestantes com tanta brandura quanto a justiça permitir.

Para ajudar a garantir a paz religiosa, o decreto de Calvert foi usado como o modus vivendi básico nos primeiros anos. Com efeito, antes de Roger Williams sequer ter fugido à atmosfera intolerante de Massachusetts e definido Rhode Island como um refúgio dos puritanos, Calvert havia estabelecido Maryland como um lugar onde as pessoas de todos os credos eram bem vindas.

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Após cinco anos, um documento mais formal se provou desejável, portanto, em 1639, a Assembleia de Maryland decretou que “Igrejas sagradas dentro desta província devem ter todos os seus direitos e liberdades.” O decreto foi oportuno: na Inglaterra, a situação política e religiosa estava em rápida deterioração. As relações entre o rei Carlos I e o Parlamento, sempre tensas, entraram em erupção em 1642 na sangrenta guerra civil. O conflito cruel se enfureceu até 1649 quando o rei foi deposto e decapitado, após o que o anticatólico radical Oliver Cromwell surgiu como Senhor Protetor de 1653 até sua morte em 1658.

As colônias nos Estados Unidos eram elas mesmas abaladas pela convulsão social na Inglaterra, e o apoio de Calvert ao rei Carlos pôs Maryland sob risco de ataque por seus vizinhos protestantes. O ataque veio em 1645, liderado por um comerciante protestante e negociante de tabaco chamado Richard Ingle. Depois que suas relações com os líderes católicos de Maryland azedaram, ele fugiu da colônia e garantiu apoio de protestantes próximos e voltou com um pequeno exército anticatólico e o menos-que-sutilmente-nomeado navio Reforma. Ingle atacou a Cidade de Santa Maria em 1645 e causou quase dois anos de caos absoluto. Padres jesuítas foram apreendidos e enviados a cadeias para a Inglaterra, e propriedades católicas foram saqueadas e queimadas. Odiado igualmente por católicos e protestantes de Maryland, a Ingle foi dado o título de “Villagine ingrato.” A maioria dos habitantes de Maryland o considerava nada menos do que um pirata. Enfim, Calvert retornou com um exército em 1646 e restaurou alguma aparência de ordem.

A Tolerância Decrescente

Para aliviar a situação religiosa e incentivar os colonizadores a investirem na reconstrução da colônia devastada, em 1649 a Assembleia de Maryland aprovou os “Atos Relativos à Religião”, geralmente chamados de Ato de Tolerância. Seu objetivo era evitar que conflitos religiosos destruíssem Maryland. Seus termos eram bastante simples, mas ainda impressionantes. Era proibido o abuso sexual de qualquer pessoa que professasse a crença em Jesus Cristo e garantia a liberdade de culto. Escrito em linguagem legal simples, o decreto, no entanto, antecipou os princípios da tolerância religiosa que se tornaram o alicerce da abordagem dos Estados Unidos à religião.

Infelizmente, a situação na Inglaterra e nas colônias só piorou nos anos após a decapitação do rei Carlos I. A nação da Inglaterra que existiu de 1649 a 1660 foi marcada por um retorno ao severo anticatolicismo, e o mesmo espírito foi incentivado nas colônias. Em 1654, os protestantes derrubaram o governo de propriedade de Maryland. O novo regime proibiu a fé católica e revogou o Ato de Tolerância de 1649. Somente em 1658 a família Calvert foi capaz de recuperar o controle e reinstituir o Ato de Tolerância. Durante o período da Restauração e do reinado do rei Carlos II (1661-1685), os Calverts permaneceram em frágil controle da colônia. Com a “Revolução Gloriosa” de 1688-1689 e a derrubada do rei católico James II, não obstante, os dias dos Calverts estavam contados. Dentro de dois anos, Maryland tinha sido apreendida e declarada uma colônia real. Em 1692 o anglicanismo foi decretado a religião oficial do Estado.

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Em 1704, a Assembleia aprovou “Um Ato para Impedir o Crescimento do Papado nesta Província” tendo em vista os jesuítas em Maryland. Ele proibiu qualquer “bispo papista, padre ou jesuíta” de proselitismo, de batizar qualquer pessoa exceto aquelas com “pais papistas”, ou celebrar a missa. Por outro estatuto em 1704, a missa poderia ser celebrada apenas em casas particulares. Outras leis proibiam os católicos de praticar a lei e de ensinar as crianças. Taxas severas foram impostas na contratação de funcionários irlandeses “papistas” como uma jogada para desencorajar a imigração irlandesa. Em 1718, os católicos foram privados do seu direito de votar como todos os eleitores foram obrigados a fazer vários testes de juramentos que incluíam declarações deliberadamente anticatólicas.

Berço da Fé

A grande experiência de Maryland estava no fim, e não foi até meados do século XVIII que os católicos foram autorizados a praticar a sua fé abertamente. Entretanto a coragem dos católicos de Maryland plantou a fé permanentemente na América inglesa. Em 1708, havia 2.974 católicos em Maryland de uma população total de 40.000. Por 1785, havia 15.800 católicos, tornando-os o maior grupo de católicos em qualquer lugar nas colônias. Deste berço de fé surgiram algumas das figuras mais importantes e reverenciadas da história católica americana, incluindo John Carroll, o padre da igreja americana e o primeiro bispo e arcebispo de Baltimore. Mas a Maryland católica também apontou o caminho para o futuro dos Estados Unidos e do legado de tolerância e pluralismo religioso. John Tracy Ellis, o famoso historiador do catolicismo americano, escreveu:

Pela primeira vez na história houve uma perspectiva real para um governo devidamente constituído sob o qual todos os cristãos possuiriam direitos iguais, onde todas as igrejas seriam toleradas, e onde nenhuma seria agente do governo… à “terra do santuário” vieram puritanos fugindo à perseguição na Virginia e anglicanos escapando à mesma ameaça em Massachusetts. Esta política de tolerância religiosa foi corretamente caracterizada como “a glória imperecível do Senhor Baltimore e do Estado.” (American Catholicism, 24)

Matthew E. Bunson é um antigo editor contribuinte para This Rock e autor de mais de 30 livros. Ele é um consultor para USA Today sobre assuntos católicos, um moderador de um fórum online da história da Igreja de EWTN, e o editor de The Catholic Answer.

Traduzido por Marcos Zamith, para o Veritatis Splendor, do original em inglês “America’s Catholic Colony” do website www.catholic.com.