Vaticano II

Minha jornada de saída do cisma de Lefebvre

Se você é um católico fiel ao Magistério da Igreja, você provavelmente já se encontrou com alguns seguidores do arcebispo Marcel Lefebvre que, em 1988, criou o cisma conhecido como a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X (FSSPX). Eles são cheios de devoção para com a Santa Mãe Igreja, extremamente conservadores com respeito à maioria dos assuntos morais que afligem o mundo Ocidental atual, e bastante reverentes diante do Santíssimo Sacramento durante a antiga liturgia latina. Em resumo, na superfície, os partidários do cisma do arcebispo Lefebvre parecem ser católicos devotos.

É fácil simpatizar com este pessoal, já que a maioria deles se uniu à FSSPX depois de se escandalizarem com abusos atuais na doutrina e liturgia em algumas de nossas igrejas católicas na América do Norte. De fato, foi justamente por causa dessas afinidades, como também pela beleza da Missa Tridentina, que eu me vi freqüentando capelas da FSSPX há cerca de oito anos. Na época, como a maioria dos partidários da FSSPX, eu pensava que minha separação de Roma era meramente temporária.

Eu não percebia, porém, que na raiz de todo cisma, como o Código atual da Lei Canônica explica está  “a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.” (Can. 751). Este rompimento de comunhão com a Igreja, como mostra o Catecismo da Igreja católica, “fere a unidade do Corpo de Cristo” (CCC 817). Por isso, no centro de minha jornada de retorno à comunhão completa com Roma, existem muitas questões sobre a unidade da Igreja como uma instituição fundada por Cristo.

O que se segue é uma reflexão prática sobre questões relativas à Tradição Católica que preocupou minha consciência durante minha curta estada no cisma da FSSPX. As respostas para estas perguntas me levaram a concluir que a Tradição Sagrada só pode ser completamente atualizada em comunhão com Roma. Minhas conclusões tiradas em oito anos de experiência pessoal dentro do Movimento Tradicionalista – os últimos cinco após minha reconciliação com Roma. Além disso, durante os últimos dois anos fiz curso de licenciatura em lei canônica da Igreja, estudos que culminaram na publicação de um artigo de pesquisa chamado “Uma história canônica do cisma do arcebispo Lefebvre”. A seguir mostrarei um breve relato do que eu aprendi e como isto me conduziu à minha reconciliação com Roma.

Quem foi o arcebispo Lefebvre?

O arcebispo Marcel Lefebvre foi ordenado missionário espiritano e depois se tornou o primeiro Arcebispo de Dakar, África. Neste cargo ele fundou muitas dioceses missionárias na África e, de fato, sob o Papa Pio XII, ele foi designado o legado papal para a África de língua francesa.

Antes de se aposentar em Roma logo após o Segundo Concílio Vaticano, ele também serviu como superior geral dos missionários espiritanos.

Porém, certos problemas começaram a surgir nos seminários franceses durante este tempo, e muitos jovens seminaristas foram desencorajados pela confusão que havia surgido dentro de seu programa de formação. Assim eles se aproximaram do arcebispo Lefebvre em 1970 e o persuadiram a deixar a aposentadoria em Roma. Preocupado com a falta de disciplina que havia em muitos seminários franceses e as muitas fraquezas doutrinais no programa de formação dos seminaristas, em 1969 Lefebvre fundou uma Casa de Estudos que logo evoluiu para um seminário e sua Fraternidade Sacerdotal S. Pio X (FSSPX).

Estas instituições receberam aprovação canônica em uma base experimental perto de Econe, Suíça. Porém, o uso continuado da Missa Tridentina por Lefebvre se tornou um ponto de atrito com o Vaticano. Por volta de 1974, a controvérsia tinha ficado tão aquecida que Lefebvre fez uma famosa declaração dentro do círculo Tradicionalista questionando a validez e ortodoxia do Concílio Vaticano II.

Vendo que esta declaração era problemática, o Papa Paulo VI suprimiu canonicamente a FSSPX e seu seminário em 1975. Ainda assim Lefebvre ignorou a supressão canônica e começou a ilicitamente ordenar seus seminaristas ao sacerdócio, uma ação que levou mais tarde à suspensão de suas faculdades no mesmo ano. Durante os próximos treze anos, Lefebvre continuou a operar ilicitamente e ampliar a FSSPX, enquanto negociações eram realizadas de vez em quando com Roma.

As relações entre Roma e a FSSPX na verdade permaneceram estáticas até 5 de maio de 1988. Neste dia, foi finalmente realizado um acordo entre a FSSPX e Roma, reconciliando a FSSPX com a Igreja. O acordo protocolar foi assinado pelo cardeal Joseph Ratzinger e o arcebispo Lefebvre. Todavia, alguns dias depois, o arcebispo Lefebvre retratou sua assinatura e anunciou sua intenção de consagrar bispos sem a permissão de Roma.

Em 30 de junho de 1988, o arcebispo Lefebvre procedeu com esta intenção em violação da lei canônica, incorrendo em excomunhão automática sob a lei. No dia seguinte, o cardeal Bernadin Gantin, da Congregação dos Bispos, declarou a excomunhão de Lefebvre. Em um motu próprio de 2 de julho de 1988, o Santo Papa João Paulo II também confirmou a excomunhão de Lefebvre por cisma e por ter consagrado bispos, apesar das advertências da Santa Sé para não o fazer.

Infelizmente Lefebvre faleceu em Econe em março de 1991, sem ter se reconciliado formalmente com a Igreja. Hoje, a SSPX inclui aproximadamente quatrocentos padres em mais de vinte e sete países que representam todos os cinco continentes. A maioria das estimativas coloca o número de partidários do cisma do arcebispo Lefebvre na marca de um milhão.

O Papa S. PioV e Quo Primum Tempore

O primeiro argumento que eu encontrei por um apologista da FSSPX, de fato o mesmo argumento que me levou ao cisma deles, foi uma citação da bula papal do Papa S. Pio V, do séc. XVI, a Quo Primum Tempore. Em resumo, o proponente da FSSPX afirmou que S. Pio V promulgou a Missa Tridentina em perpetuidade, significando para sempre. A FSSPX afirmava – e eu achei a afirmação convincente na época – que todo padre tem o direito de usar o missal romano classificado por S. Pio V em Quo Primum Tempore, e que este direito não pode ser retirado.

Como eu descobri depois, porém, o problema com o argumento do Quo Primum Tempore falha por não levar em conta a Tradição canônica. Primeiro, este argumento não distingue entre a doutrina e a disciplina da Igreja católica. E a distinção é crítica.

Em suma, um dogma é uma doutrina que a Igreja declara com certeza como infalível. Por exemplo, tome o dogma da Assunção da Santa Mãe ao céu. O papa Pio XII não o declarou de repente como uma nova verdade em 1950 que Maria foi assunta ao céu; afinal de contas, esta verdade já existia há quase dois milênios antes, quando Maria foi assunta. Na verdade, o Papa declarou este dogma porque a Igreja chegou a uma certeza de que Maria foi assunta ao céu.

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Em essência, a Santa Sé não concordou com a análise de Lefebvre da situação na Igreja católica, isto é, que existia uma emergência suficiente para garantir a consagração de bispos sem a aprovação de Roma. Este é um ponto importante para resolver a disputa entre o arcebispo Lefebvre e o Papa João Paulo II, pois é onde existe uma diferença de interpretação da aplicação da lei canônica, cânon 16 que reza: “as Leis são autenticamente interpretadas pelo legislador e por aquela pessoa a quem o legislador confia o poder de interpretação autêntica”.

Na situação de Lefebvre, ele sabia com antecedência que sua interpretação da lei canônica neste caso não era aceitável ao Pontífice Romano, que é o legislador mais superior. Assim, embora Lefebvre discordasse da interpretação da lei canônica dada pelo Pontífice Romano, ainda assim competia ao Papa João Paulo II interpretar autoritariamente a lei. Então, como a idéia de um estado de necessidade nas circunstâncias de Lefebvre foi rejeitada pelo Papa João Paulo II, eu vim a perceber que eu não podia invocar legitimamente o estado de necessidade da lei canônica em defesa da consagração de bispos por Lefebvre sem a permissão de Roma.

Novus Ordo Missae: intrinsecamente mau?

Um argumento comum agora proposto pela FSSPX é que a liturgia revisada pelo Papa Paulo VI é intrinsecamente má, ou que ao menos é uma ameaça de perigo para a fé católica. Isto significaria que a liturgia pós-Vaticano II é em e por si mesma contrária à lei de Deus. As abordagens lefebvristas sobre este assunto podem variar, mas eles tipicamente insistem que a Missa Nova contêm heresia, blasfêmia ou ambigüidade. Para resolver esta questão, eu cheguei à conclusão pessoal que Cristo tem um senso de humor, pois o mesmo texto da Tradição católica que a FSSPX cita em defesa desta afirmação é o mesmo texto que a refuta.

Vou fazer uma observação preliminar. A Missa não mudou desde que Cristo instituiu este sacramento na noite antes de Sua crucificação. Em essência, não há uma “velha” Missa nem uma “nova” Missa, mas só a Missa. De fato, o que mudou depois do Segundo Concílio Vaticano não foi a Missa, mas a liturgia.

Isto significa que enquanto os “acidentes” (para usar um termo teológico clássico) diferiam um pouco entre a liturgia de pré-Vaticano II e a liturgia reformada do Papa Paulo VI, a essência dela permanece a mesma: o Corpo, Sangue, Alma e Divindade transubstanciada de Jesus Cristo na Eucaristia. Este mistério central da Missa acontece independentemente se o padre celebra de acordo com os livros litúrgicos antes do Segundo Concílio Vaticano ou de acordo com os livros litúrgicos revisados pelo Papa Paulo VI. De fato, os dois livros litúrgicos são formas do mesmo rito litúrgico romano.

Quando eu era filiado à FSSPX, para defender a afirmação que a liturgia reformada é intrinsecamente má, eu citava o sétimo cânon no Sacrifício da Missa do Concílio de Trento. Este cânon declara: “Se alguém disser que as cerimonias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade — seja excomungado”.

Olhemos isto mais de perto. Como a definição de intrinsecamente má é “algo que em e por si mesmo é mau” vemos do Concílio de Trento que uma liturgia aprovada da Igreja não pode ser tal. Pois algo que é intrinsecamente mau é naturalmente um incentivo a impiedade, enquanto o Concílio de Trento declara dogmaticamente que as cerimônias litúrgicas aprovadas da Igreja Católica não podem ser incentivos a impiedade.

Mas espere um segundo: a liturgia revisada do Papa Paulo VI não era uma liturgia aprovada da Igreja? Claro que era! Assim, de acordo com a Tradição da Igreja como dogmaticamente definida no Concílio Ecumênico de Trento, eu somente poderia concluir que a liturgia reformada do Papa Paulo VI não poderia ser um incentivo a impiedade. Segue-se, então, que não poderia ser intrinsecamente má. Assim, em minha defesa da posição cismática, eu fui refutado pela mesma Tradição católica do Concílio de Trento que eu estava buscando preservar por aderência ao cisma da FSSPX.

Consagração ilícita de bispos: um ato de cisma?

Um argumento comumente apresentado dentro dos círculos da FSSPX é que o ato de consagrar bispos sem permissão papal é um ato de desobediência, mas não um ato de cisma. Embora nunca tivesse pensado muito sobre esse argumento, seja antes ou depois de meu envolvimento com a FSSPX, deve ser abordado porque isto freqüentemente é feito entre graus cismáticos. O pessoal da FSSPX geralmente afirma que eles não retiraram a sujeição para com o Pontífice romano. Na verdade, eles recusam obediência em alguns assuntos.

Deveríamos reiterar aqui o cânon 752 que define cisma como “a retirada de submissão para o Supremo Pontífice ou de comunhão com os membros da Igreja sujeitos a ele”. Note que o cânon não distingue entre graus de retirada de submissão ao Pontífice romano. Em outras palavras, uma pessoa não precisa retirar completamente a submissão para o Pontífice romano para entrar em um estado de cisma. Na verdade, a retirada parcial de obediência em certos assuntos – e consagrar bispos sem mandato papal é um assunto sério – consiste em um ato pelo qual uma pessoa retira submissão para o Pontífice romano. Em resumo, o Santo Padre disse para o arcebispo Lefebvre que não consagrasse os bispos sem a permissão de Roma, e o arcebispo Lefebvre recusou a se submeter.

Eu nunca dei muita atenção a este argumento durante meu tempo nas capelas da FSSPX. Mas posteriormente eu percebi que a alegação da FSSPX – de que eles não retiraram a submissão ao Pontífice romano, mas na verdade só tinham meramente suspendido temporariamente a obediência a ele em certos assuntos – não podia ser sustentada pela Tradição católica, pois este ato de desobediência em um assunto sério consiste ao menos uma retirada temporária de submissão ao Pontífice romano. Então, com certeza moral suficiente eu poderia concluir que o ato de consagrar bispos contra o desejo do Papa João Paulo II era um ato de cisma, de acordo com a lei canônica.

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Papa Libério

Provavelmente a alegação mais comum com a qual me deparei nos meios da SSPX foi a alegação de que o Papa Libério (pontificado 352-366 D.C.) era um herege, simpatizante do arianismo, que falsamente excomungou São Atanásio. Por essa razão, afirma a SSPX, o Papa Libério tornou-se o primeiro papa na história da Igreja a não ser reconhecido como santo. Logicamente, por analogia, a SSPX considera o arcebispo Lefebvre um São Atanásio moderno, e o Papa João Paulo II um moderno Papa Libério.

O argumento deles é de que se isso aconteceu uma vez, pode acontecer novamente. No entanto, como Nosso Senhor me mostrou de maneira divertida, essas afirmações têm pouco fundamento na Tradição Católica.

Convencido de que as afirmações da SSPX a respeito dessa situação eram verdadeiras, eu estava, um dia, lendo meu exemplar de Fontes dos Dogmas Católicos, de Henri Denzinger quando notei que Denzinger listou o Papa Libério como “São Libério”. Dizer que fiquei surpreso seria um eufemismo – ironicamente, aquela edição em particular de Denzinger que estava lendo, eu a tinha adquirido da SSPX, pois eles consideram suspeitas todas as edições subseqüentes. Esse trecho de Denzinger, porém, claramente não concordava com o que estava sendo pregado do nosso púlpito da SSPX. Dessa forma, simplesmente desprezei essa listagem como um provável erro de digitação e continuei lendo.

Somente dez páginas depois, me deparei com uma epístola de autoria do Papa Santo Anastásio cujo subtítulo era “A Ortodoxia do Papa Libério”. Nela, o Papa Santo Atanásio claramente afirma: “a facção ariana não conseguiu, mediante insinuação herética, introduzir as suas torpezas — pela providência de Deus, segundo cremos —, para que não viesse a ser contaminada aquela santa e imaculada fé por algum vício da doutrina blasfema de homens maléficos, a fé que fora examinada e definida, na assembléia do Sínodo de Nicéia, por homens santos e por bispos que já estão na paz dos santos.” (ver art. 93 da 30ª edição).

Até então, tudo bem; Deus tinha claramente preservado a Igreja do Arianismo através das ações e orações dos homens santos. Mas quem eram esses homens santos, e o que isso tem a ver com o Papa Libério? Eu me perguntava. Para minha surpresa, Papa Santo Atanásio respondeu a questão no parágrafo seguinte desta forma: “Por essa fé aqueles que eram então estimados como bispos sagrados com satisfação suportaram o exílio, tais como… Libério, Bispo da Igreja de Roma”.

Eu fiquei pasmo com a resposta desse papa, uma vez que havia claramente uma contradição aqui: Eu deveria acreditar no arcebispo Lefebvre e em seus seguidores como autêntico magistério da Tradição Católica? Ou eu deveria acreditar no ensinamento de Atanásio em sua epístola papal Dat mihi plurimum – a afirmação de um homem que era santo papa, e um escritor contemporâneo da heresia Ariana? Quando o meu sacerdote local da SSPX não logrou dar uma solução adequada para essa indagação, eu não pude fazer outra coisa a não ser aceitar a afirmação do Papa Santo Atanásio como voz autêntica da Tradição Católica.

Roma Tradicional X Roma Modernista

A questão de Roma finalmente pesou em minha consciência, como deveria pesar na de qualquer um que deixa a Igreja. Levando em consideração tudo o que a Tradição Católica ensina, de forma consistente, sobre fidelidade a Roma, como poderia eu justificar meu afastamento do Pontífice Romano? De fato, mesmo cinco anos depois de me reconciliar com Roma, a questão da comunhão com Roma e com o bispo local continua sendo o catalisador para grande parte da minha exploração teológica e canônica.

Quando eu estava com a SSPX, entretanto, eu aceitei a solução deles para esse problema. A SSPX alegava que o comportamento questionável dos papas pós-Vaticano II tinha dividido os fiéis em dois grupos. Um grupo, a Igreja institucional, fiel a Roma contemporânea, que a SSPX alega que sofreu infiltração dos modernistas e liberais. No outro grupo estaria a SSPX, que naturalmente eram fiéis à Roma Tradicional.

Apesar de tudo, eu fui incapaz de enganar minha consciência. Então eu continuei me perguntando se a Tradição Católica realmente sustentava o argumento de que um Católico poderia ser fiel à Roma Tradicional, sem continuar fiel à Roma temporal.

“Inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti”, nos diz Santo Agostinho na abertura de suas Confissões. Meu coração estava espiritualmente inquieto porque não estava em plena comunhão com o Corpo Místico de Cristo, a Igreja. Contudo, Cristo também nos promete nos Evangelhos que se buscarmos a verdade, a encontraremos.  (ver Mt 7, 7).

No meu caso, a verdade jazia nos fundos do porão da casa de meus pais. Lá encontrei uma caixa abandonada cheia de velhas encíclicas papais, da época de faculdade de meu pai. No fundo desta caixa estava a magistral encíclica “Mystici Corporis”, do Papa Pio XII.

Curioso quanto a seu conteúdo, eu imediatamente abri essa obra na seguinte passagem: “De quanto até aqui expusemos, veneráveis irmãos, é evidente que estão em grave erro os que arbitrariamente ungem uma Igreja como que escondida e invisível; e não menos aqueles que a consideram como simples instituição humana com determinadas leis e ritos externos, mas sem comunicação de vida sobrenatural.” (par. 62). Essa descoberta teológica vinda da Tradição Católica como expressada pelos papas anteriores ao Vaticano II me surpreendeu ainda mais que minha prévia descoberta sobre Santo Atanásio na obra de Denzinger.

Aqui, da Tradição da Igreja, estava o ensinamento de que não se pode dividir a Igreja entre uma comunhão meramente espiritual em oposição a uma mera instituição humana. Em resumo, a Roma da Tradição e a Roma de Hoje eram a mesma Roma. Tudo subitamente fez sentido para mim no que se refere à Eclesiologia Católica. Assim como na Encarnação, Cristo era verdadeiro homem e verdadeiro Deus, sem sacrificar nenhuma das duas naturezas, assim também a Igreja, como Corpo Místico de Cristo, deve ser uma união perfeita do visível e invisível.

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Eu me lembrei de que São Paulo tinha feito em alguma parte de suas epístolas a pergunta “Então estaria Cristo dividido?” (ver 1Cor 1,13). Obviamente, a resposta é não. Então, porque em nome da Tradição Católica eu estava dividindo o Corpo Místico de Cristo em uma comunhão espiritual e uma comunhão humana?

Ademais, em participando do Santo Sacrifício da Missa fora da comunhão visível da Igreja, porque eu estava separando o Corpo Sacramental de Cristo (Corpo, Alma e Divindade) presente na Eucaristia do Corpo Místico de Cristo, a Igreja? Expressões tais como “Corpo de Cristo” e “Comunhão” carregam esse duplo sentido: o primeiro, sacramental, significando o sacramento da Sagrada Eucaristia, e o segundo eclesiológico, significando a sagrada unidade da Igreja?

Cativado por essas questões que se formavam em minha consciência, eu continuei lendo a Mystici Corporis e me deparei com a seção seguinte:

Não se julgue, porém, que o seu governo se limita a uma ação invisível, ou extraordinária. Ao contrário, o divino Redentor governa o seu corpo místico de modo visível e ordinário por meio do seu vigário na terra. … E realmente, sapientíssimo como era, não podia deixar sem cabeça visível o corpo social da Igreja que instituíra…. Que Cristo e o seu vigário formam uma só cabeça ensinou-o solenemente nosso predecessor de imortal memória Bonifácio VIII, na carta apostólica “Unam Sanctam” e seus sucessores não cessaram nunca de repeti-lo (par.39).

Claro, eu disse a mim mesmo, o Pontífice Romano e Jesus Cristo formam uma só cabeça da Igreja Católica. A palavra “tradição” que eu rememorava de tantas homilias nas capelas da SSPX, vem do verbo latino “tradere”, que significa “transmitir”. Em última análise, raciocinei, deve haver uma fonte da qual a Tradição foi primeiramente transmitida, e essa fonte é Jesus Cristo. No fim eu percebi que Tradição é uma pessoa – a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade que se encarnou no ventre de uma Virgem imaculadamente concebida.

Como Cristo e Seu Vigário constituem somente uma Cabeça da Igreja, então a voz da Tradição deve falar por São Pedro e seus legítimos sucessores na Primazia Romana. Portanto, eu tinha que fazer uma escolha por seguir a Tradição Católica e abraçar a rocha sobre a qual Cristo fundou seu Corpo Místico aqui e agora.

Como o filho pródigo, eu percebi meu erro em seguir o arcebispo Lefebvre em cisma, e estava agora fazendo meu caminho de volta à Santa Madre Igreja. Por seu generoso indulto papal em Ecclesia Dei Adflicta, João Paulo II foi exatamente como o pai na parábola de Cristo: Ele estava fazendo jus ao seu título de “Papa”, que quer dizer “Pai”, ao acolher na Igreja os filhos e filhas Tradicionalistas que em 1988 tinham seguido o arcebispo Lefebvre saindo da vinha da autêntica Tradição Católica.

O arcebispo Lefebvre foi excomungado?

O último argumento com o qual eu regularmente me deparava nos meios da SSPX é de caráter mais técnico que nunca afetou minha decisão de se reconciliar com a Igreja. Na verdade, eu mesmo nunca pensei em pesquisar uma resposta para esta questão; entretanto, tropecei na resposta acidentalmente enquanto pesquisando para minha tese. Ainda assim, o argumento é levantado com freqüência suficiente para merecer uma menção. Trata-se da alegação de que a Igreja nunca de fato excomungou o arcebispo Lefebvre, mas sim o informou de que ele estava automaticamente excomungado em virtude da lei canônica em si.

A Igreja pode excomungar um indivíduo de duas formas. A primeira é por meio de excomunhão latae sententiae. Isso quer dizer que o infrator está automaticamente excomungado em virtude da lei, e, portanto, a sentença não precisa ser imposta por um magistrado da Igreja. Ainda assim, para que tal excomunhão seja reforçada pelo direito canônico, uma autoridade eclesiástica legítima deve declarar que a excomunhão aconteceu.

O segundo método de impor a alguém uma excomunhão é por ferendae sententiae . Essa ocorre por meio de uma decisão de um juiz em um Tribunal Eclesiástico.

O arcebispo Lefebvre foi excomungado em virtude de lei, e não por qualquer penalidade imposta por um juiz. No entanto, os defensores de Lefebvre falham em observar, ao usar este argumento, que sua excomunhão foi posteriormente declarada pela Igreja. Em um decreto da Congregação dos Bispos datada de 1 de julho de 1988, o Cardeal Gantin declarou, em nome da Igreja, a excomunhão do Arcebispo Lefebvre como se segue:

Monsenhor Marcel Lefebvre, Arcebispo-Bispo emérito de Tulle, tendo – apesar da advertência canônica formal de 17 de junho último e das repetidas interpelações pedindo-lhe que renunciasse ao seu propósito – realizado um ato de natureza cismática ao proceder à consagração episcopal de quatro bispos sem mandato pontifício, e contra a vontade do Sumo Pontífice, incorreu na pena prevista pelo cânone 1364, par. 1, e pelo cânone 1382 do Código de Direito Canônico…..Declaro que os efeitos jurídicos são os seguintes: o sobredito Monsenhor Marcel Lefebvre, Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta incorreram ipso facto na excomunhão latae sentenciae reservada à Sé Apostólica.

Sem entrar nos pormenores canônicos, podemos entretanto vislumbrar, nesse enunciado, que a Igreja claramente excomungou o arcebispo Lefebvre. Roma falou claramente como voz da Tradição Católica e, portanto o caso está agora encerrado.

A substância da Tradição Católica

Em minha trajetória de volta à Igreja, pela Graça de Deus eu fui conduzido a partir de meros “acidentes” da Tradição Católica até a substância (essência) da Tradição Católica. Embora eu aprecie a liturgia reformada do Papa Paulo VI, que eu agora reconheço como a liturgia normativa da Igreja Latina, estou tão firmemente comprometido com a preservação do missal litúrgico de 1962 hoje, quanto estava em minha época no movimento Lefebvrista. Todavia, eu percebo que nossa tradição litúrgica como Católicos não pode ser preservada apartada de João Paulo II e todos os outros sucessores legítimos de São Pedro, pois sua voz é a voz da Tradição Católica na Igreja hoje – uma Tradição que lhe foi transmitida desde Jesus Cristo e os Apóstolos.

Pete Vere
The Catholic Legate
Data, 2004

* O artigo original foi publicado na Envoy Magazine.

Fonte: The Catholic Legate. Traduzido para o Veritatis Splendor por Emerson H. de Oliveira e Maite Tosta Camilo.