Vaticano II

Montfort mais uma vez distorce o Concílio Vaticano II sobre o “subsistit” e a definição de “igreja”

Um artigo de Orlando Fedeli (1), comentando a posição de um padre modernista francês, volta a distorcer completamente os textos do Concílio Vaticano II sobre o “subsistit in” da Lumen Gentium e a definição de “igreja” encontrada na Unitatis Redintegratio. Usando de recortes nos textos, e citações distorcidas, a Montfort volta a afirmar que o Concílio Vaticano II ensinou o erro. Vejamos o que diz Fedeli e o que diz a Igreja.

Fedeli usa o ponto 19 da Unitatis Redintegratio para afirmar que a Igreja Católica chamou as seitas protestantes de “igrejas”, posição contrária à da Dominus Iesus e da recente declaração da Congregação para a Doutrina da Fé. Fedeli, maliciosamente, copiou e colou trechos deste ponto do Vaticano II de forma recortada. Vejamos o que ele diz na íntegra:

19. As Igrejas e Comunidades eclesiais, que se separaram da Sé Apostólica Romana naquela grave perturbação iniciada no Ocidente já pelos fins da Idade média, ou em tempos posteriores, continuam, contudo, ligadas à Igreja católica pelos laços de uma peculiar afinidade devida à longa convivência do povo cristão na comunhão eclesiástica durante os séculos passados. Visto que estas Igrejas e Comunidades eclesiais, por causa da diversidade de origem, doutrina e vida espiritual não só diferem de nós mas também diferem consideravelmente entre si, descrevê-las de modo adequado é um trabalho muito difícil, que não entendemos fazer aqui.

Embora o movimento ecuménico e o desejo de paz com a Igreja católica ainda não sejam vigorosos em toda a parte, temos a esperança de que crescerão pouco a pouco em todos o sentido ecuménico e a estima mútua.

É preciso, contudo, reconhecer que entre estas Igrejas e Comunidades e a Igreja católica há discrepâncias consideráveis, não só de índole histórica, sociológica, psicológica, cultural, mas sobretudo de interpretação da verdade revelada. Para que mais facilmente, não obstante estas diferenças, se possa estabelecer o diálogo ecuménico, queremos expor seguidamente alguns pontos que podem e devem ser o fundamento e o incentivo deste diálogo.

Pois bem, o texto só fala de “igrejas e comunidades eclesiais”, ou seja, existem umas e outras. Nem todo cisma ocidental é igreja, e o trecho não explicita que grupos podem ser considerados “igrejas” e que grupos podem ser considerados “comunidades eclesiais”. No Ocidente existe pelo menos um grupo que conservou a sucessão apostólica e, por isso, pode ser chamado de “igreja”: os vétero-católicos.

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Vejamos o que diz o texto da Congregação para a Doutrina da Fé, citado pelo próprio Fedeli em seu texto:

A tal respeito, deve dizer-se que “a ferida é ainda mais profunda nas comunidades eclesiais que não conservaram a sucessão apostólica e a Eucaristia válida”; portanto, elas “não são Igrejas em sentido próprio”, mas “Comunidades eclesiais”, como atesta o ensinamento conciliar e post-conciliar.

Aqui vemos que o critério para diferenciar “igreja” de “comunidade eclesial” não é geográfico (Oriente=Igreja, Ocidente=comunidade eclesial), e sim teológico: a conservação (ou não) da sucessão apostólica e da Eucaristia válida. Assim, um cisma ocidental que mantenha essas duas características pode ser chamado de “igreja” – e, como já vimos, essa condição é cumprida em pelo menos um caso. Além disso, a CDF ainda afirma, com todas as letras, que essa conclusão é tirada do ensinamento conciliar!

Para complementar a sua argumentação contra o Concílio, Fedeli volta ao lenga-lenga rad-trad sobre o termo “subsistit in” da Lumen Gentium:

“o Concílio havia dito ainda que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja católica (Cfr. Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, n.º 8), dando a entender que ela subsistiria também nas seitas separadas, por isso mesmo chamadas de igrejas.”

Essa é a interpretação pessoal de Fedeli; nunca foi a posição oficial da Igreja. Tanto que a Dominus Iesus e a recente declaração da CDF não pretenderam corrigir o texto da Lumen Gentium, e sim clarificá-lo. Ora, se os textos mais recentes não anunciam a pretensão de corrigir a LG, supõe-se que o texto conciliar não esteja errado.

Fedeli traz em sua defesa um texto do então cardeal Ratzinger, escrito em 1985. Segundo Fedeli, Ratzinger “compraria” a tese de que a Igreja de Cristo não se resume à Igreja Católica. Mas basta ler o texto com cuidado (e sem a vontade de distorcer, típica de Fedeli) para perceber duas coisas: Ratzinger ressalta a identificação entre Igreja de Cristo e Igreja Católica; mas lembra que os limites da Igreja de Cristo não se resumem à catolicidade visível – qualquer um que conheça os conceitos de batismo de desejo e batismo de sangue sabem que a salvação é possível aos que não pertencem visivelmente à Igreja Católica, mas que, graças à sua vivência da lei natural e ignorância invencível sobre as verdades da fé, pertencem invisivelmente à Igreja. É esse matiz que Fedeli não consegue (ou não quer) perceber no texto do cardeal.

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Triunfalmente, Fedeli ainda anuncia tanto a Dominus Iesus quanto a declaração da CDF como “recuo” em relação ao Vaticano II. Nada mais mentiroso. Afinal de contas, os dois textos pós-conciliares continuam usando a terminologia do Vaticano II! E o próprio Fedeli escreve:

Neste ano de 2007, logo depois de publicar o Motu Proprio Summorum Pontificum, liberando a Missa de sempre (7 de Julho de 2007), Bento XVI, por meio de uma Declaração da Congregação da Doutrina da Fé, esclareceu que o Concílio Vaticano II não quis mudar a doutrina antiga de que a Igreja de Cristo é ela, unicamente, a Igreja Católica Apostólica Romana, dizendo:

Ora, então a declaração da CDF não pretende ser uma correção do texto do Vaticano II – pelo contrário, é uma reafirmação da Lumen Gentium! Se a própria Congregação para a Doutrina da Fé julga que o Vaticano II não alterou a doutrina sobre a Igreja, quem é Orlando Fedeli para afirmar o contrário, que a Lumen Gentium ensina coisa diferente, e errada? E que recuo é esse, que continua usando as palavras exatas do texto que (na cabeça de Fedeli) se quer criticar?

Nota

(1) http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=rigal_motu_subsist&lang=bra