Por si, a alma não é imortal
13. Gregos, a nossa alma não é imortal por si mesma, mas mortal; ela, porém, é também capaz de não morrer. Com efeito, ela morre e se dissolve com o corpo se não conhece a verdade; ressuscita, porém, novamente com o corpo na consumação do tempo, para receber, como castigo, a morte na imortalidade. Por outro lado, não morre, por mais que se dissolva com o corpo, se adquiriu conhecimento de Deus. Porque, de si, a alma é treva e nada de luminoso há nela, e é isso o que sem dúvida significam as palavras: "As trevas não apreenderam a luz". Não é a alma que salva o espírito, mas é salva por ele, e a luz apreendeu as trevas, no sentido que o Verbo é a luz de Deus e a alma ignorante é treva. Por isso, quando vive só, inclina-se para a matéria, morrendo juntamente com a carne, mas formando parelha com o espírito de Deus, já não carece de ajuda e se ergue às regiões onde o Espírito a guia. De fato, a morada do Espírito está no alto, mas a origem da alma é embaixo. Originariamente, o espírito habitava junto com a alma, mas, não querendo segui-lo, o espírito a abandonou e ela, que conservava como que um resplendor de seu poder, mas pela separação já não era capaz de contemplar o perfeito, na sua busca de Deus, representou para si, por extravio, uma multidão de deuses, seguindo aos demônios enganadores. O espírito de Deus, porém, não está em todos os homens, mas somente desce para alguns que vivem justamente e, estreitamente abraçado à alma, anuncia, por meio de predições, o escondido para as demais almas. E aquelas que obedecem à sabedoria, atraem para si mesmas o espírito que lhes é congênito. Todavia, as que não obedecem, mas recusam aquele que é mensageiro do Deus que sofreu, mostram-se almas que fazem guerra a Deus, e não são religiosas.
O castigo eterno dos demônios
14. Também vós sois assim, gregos, elegantes no falar mas loucos no pensar, pois chegastes a preferir a soberania de muitos deuses em vez da monarquia de um só Deus, como se acreditásseis estar seguindo demônios poderosos. Com efeito, assim como os salteadores, por sua desumanidade, costumam audaciosamente dominar os seus semelhantes, também os demônios, depois de fazer as vossas almas abandonadas se desviarem no lodaçal da maldade, as enganaram por meio de ignorâncias e fantasias. É fato que eles não morrem facilmente, pois não têm carne; mas, vivendo, praticam ações de morte, e também eles morrem tantas vezes quantas ensinam a pecar aqueles que os seguem. Portanto, a vantagem que agora têm sobre os homens, isto é, não morrer de modo semelhante a eles, esse mesmo fato lhes será mais amargo quando chegar a hora do castigo, pois não terão parte na vida eterna participando dela, em lugar da morte na imortalidade. E como nós, para quem morrer é agora um acidente tão fácil, receberemos depois a imortalidade junto com o gozo, ou a pena junto com a imortalidade, também os demônios que abusam da vida presente para pecar a todo momento, e que durante a vida estão morrendo, terão depois a mesma imortalidade que os homens que deliberadamente realizaram tudo o que eles lhes impuseram como lei durante o tempo em que viveram. Não digamos nada sobre o fato de que, entre os homens que os seguem, aconteceu menos espécies de pecados por não viverem longo tempo, enquanto nos citados demônios o pecado se prolonga muito mais, em razão do tempo indefinido da sua vida.
O que é o homem propriamente
15. E preciso, portanto, que daqui para a frente busquemos novamente aquilo que já tivemos e perdemos: unir a nossa alma com o espírito santo e cuidarmos para que ele forme uma parceria com Deus. Entretanto, a alma dos homens compõe-se de muitas partes, e não de uma só; ela é composta, de modo que se manifesta por meio do corpo. Com efeito, nem a alma poderia por si mesma jamais se manifestar sem o corpo, e nem a carne ressuscita sem a alma. O homem não é, como dogmatizam os que têm voz de gralhas, animal racional, capaz de inteligência e ciência, pois, segundo eles, pode-se demonstrar que também os irracionais são capazes de inteligência e ciência. Contudo, só o homem é imagem e semelhança de Deus, e chamo homem não ao que realiza ações semelhantes aos animais, mas àquele que, indo além da humanidade, chega até o próprio Deus. Esse ponto já foi mais tratado mais em pormenores por nós em nosso Sobre os animais. O que agora nos interessa dizer é que natureza é a imagem e semelhança de Deus. 0 incomparável não é outra coisa que o ser em si mesmo, e o que se compara também não é outra coisa que o ser parecido. O Deus perfeito está isento de carne; o homem, porém, é carne; o vínculo da carne é a alma e o que a alma retém é a carne. E se tal espécie de constituição funciona como templo, Deus quer nele habitar por meio do Espírito, que é o seu legado; mas se não étal santuário, o homem não se avantaja aos animais a não ser por sua voz articulada; no restante, não sendo imagem de Deus, a sua vida não se diferencia da deles. Os demônios, porém, não têm carne, mas possuem estrutura espiritual, como a do fogo ou do ar. E por isso que os corpos dos demônios são visíveis apenas para aqueles que são dotados do espírito de Deus; para os outros, isto é, para os psíquicos, de modo nenhum, pois o inferior não tem força para compreender o superior. Esta é, portanto, a razão pela qual, a essência dos demônios não admite lugar para a penitência, pois são reflexos da matéria e da maldade, e a matéria quis dominar a alma; e, conforme o seu livrearbítrio, os demônios deram aos homens leis de morte; mas os homens, depois de perderem a imortalidade, com sua morte pela fé, venceram a morte e, por meio da penitência, foi-lhes outorgado o dom de uma nova vocação, conforme a palavra que diz: "Pois por um pouco de tempo foram tornados inferiores aos anjos". De fato, é possível para todo aquele que foi vencido vencer por sua vez, contanto que rejeite a constituição da morte, e qual seja esta é fácil de ver para aqueles que desejam a imortalidade.
A possessão não vem das almas
16. Os demônios que dominam os homens não são as almas dos mortos. Com efeito, como podem ser capazes de agir depois de mortos? A não ser que creiamos que, enquanto vive, um homem é ignorante e impotente e, depois que morre, recebe daí para a frente um poder mais eficaz. Isso, porém, não é assim, como já demonstramos em outro lugar, nem é fácil compreender como a alma imortal, impedida pelos membros do corpo, se torne mais inteligente quando se separa dele. Não. São os demônios aqueles que, por sua maldade, se enfurecem contra os homens e, com variadas e enganosas representações, desviam os pensamentos dos homens, já por si inclinados para baixo, a fim de torná-los incapazes de empreender a sua marcha de ascensão para os céus. Mas nem a nós ficam ocultas as coisas do mundo nem a vós será difícil compreender as divinas, contanto que chegue até vós a potência do Verbo que imortaliza a alma.
Mas os demônios também são vistos pelos psíquicos, quando eles se mostram a si mesmos para os homens, seja para serem considerados, seja para lhes causar algum dano como a inimigos - pois são amigos de muito más intenções -,seja, finalmente, a fim de procurar pretexto para o seu culto aos que lhes são semelhantes. Se estivesse em seu poder, eles, sem dúvida, poriam o céu abaixo junto com toda a criação; se agora não fazem isso é porque não podem; mas com a matéria inferior fazem guerra à matéria que é semelhante a eles. Quem, portanto, quiser vencê-los, rejeite a matéria, pois, armado com a couraça do espírito celeste, será capaz de salvar tudo o que por ela foi recoberto.
Existem também doenças e rebeliões em nossa própria matéria, e os demônios, quando nos sobrevém a dor, atribuem a si mesmos as causas delas. Há também vezes em que eles próprios, por causa da tempestade da sua própria maldade, agitam o estado do nosso corpo, mas, feridos pela palavra do poder de Deus, saem temerosos, e o doente fica curado.
As doenças vêm dos demônios
17. O que vamos dizer das simpatias e antipatias de Demócrito, a não ser que, conforme o dito popular, esse homem de Abdera fala abderiticamente? E como aquele que deu nome à cidade que, segundo dizem, era amigo de Herácles, foi devorado pelos cavalos de Diomedes; de modo semelhante, aquele que se gloria do sábio Ostanes, no dia da consumação será entregue como pasto do fogo eterno. E vós também, se não puserdes fim ao vosso riso, sofrereis os mesmos castigos que os feiticeiros. Por isso, ó gregos, escutai-me! Eu vos grito como que do céu, e não queirais com vossas zombarias voltar à vossa falta de razão contra o arauto da verdade. Não há doença que possa ser expulsa por meio da antipatia, nem louco que se cure amarrando-se com tiras de couro. São ataques dos demônios, e aquele que está doente, aquele que diz estar enamorado, aquele que odeia, aquele que quer se vingar, são tomados como auxiliares. A maneira do seu artifício é a seguinte. Os caracteres das letras e das linhas por elas formadas não podem por si mesmas expressar o sentido da frase, mas são sinais que os homens inventaram para expressar seus pensamentos; é preciso conservar a ordem das letras, conhecendo por sua posição o sentido que lhes foi determinado. Do mesmo modo, nas variedades de raízes, nem as receitas de nervos e ossos têm alguma eficácia por si mesmas, mas são símbolos da maldade dos demônios, os quais determinaram que tenha força cada uma dessas coisas. Vendo que os homens aceitam o serviço que tais meios lhes proporcionam, atribuindo-o a si mesmos, fazem dos homens seus escravos. Mas como pode ser bom colocar-se a serviço de adultérios? Como pode ser honroso que alguns corram em auxílio daqueles que odeiam? Como pode ser moral atribuir a cura dos loucos à matéria e não a Deus? Toda a sua astúcia se orienta para apartar os homens da religião, fazendo-os crer em ervas e raízes. E o próprio Deus, se tivesse ordenado essas coisas, para fazer o que os homens desejam, seria autor de ações más; todavia, como ele é autor de tudo o que de qualquer forma é bom, e a intemperança dos demônios abusa das coisas do mundo para fazer mal, também a eles deve ser atribuída essa espécie de maldade, e não ao Deus perfeito. De fato, como é possível que, não tendo eu sido absolutamente mau enquanto vivi, os meus restos, depois de morto, sem eu fazer nada, os meus restos, que já não se movem nem sentem, realizem alguma coisa sensível? Como aquele que morreu com a mais desastrosa morte poderá ajudar alguém a se vingar? Com efeito, se fosse capaz, muito melhor vingaria a si mesmo contra o seu próprio inimigo, pois aquele que pode ajudar a outros, com muita maior razão poderá fazer justiça a si mesmo.
A cura vem de Deus
18. A arte dos medicamentos, em todas as suas espécies, tem a mesma artimanha. Com efeito, se alguém se cura por meio da matéria, crendo nela, curar-se-á muito melhor dirigindo-se ao poder de Deus, pois da mesma forma que os venenos são composições materiais, da mesma natureza são também os medicamentos curativos. Contudo, até quando rejeitamos a matéria claramente má, não faltarão muitas vezes pessoas que se dediquem a curar, misturando algo mau com o que é bom e, definitivamente, até para fins bons, valem-se de meios maus. Assim como aquele que se assenta para comer com um ladrão, ainda que não o seja, todavia, pelo fato de participar de sua mesa, participa também de seu castigo, da mesma forma, aquele que sem ser mau se mistura com o mau e o emprega para um suposto bem, será castigado por essa comunicação pelo mesmo Deus que julga o mau. E por que razão aquele que crê na dispensação da matéria não quer acreditar em Deus? Por que não recorres ao Senhor mais poderoso e te curas a ti mesmo, como o cão com as ervas, o cervo pela víbora, o porco por meio dos caranguejos dos rios e o leão pelos macacos? Por que divinizas os elementos do mundo? Por que, ao curar o teu próximo, és chamado de seu benfeitor? Segue a potência do Verbo. Os demônios não curam, mas com seus artifícios procuram escravizar os homens e, com razão, o admirável Justino disse que se assemelhavam aos bandidos. Com efeito, assim como estes têm por costume colher vivos alguns e depois os devolvem aos seus a preço de ouro, também esses supostos deuses visitam os membros de alguns e depois, em vista de sua própria glorificação, por meio de sonhos, mandam que os enfermos se apresentem publicamente diante de todo mundo e, depois de ter recebido os louvores, saem voando dos enfermos e, pondo fim à doença que eles mesmos causaram, restituem os homens ao seu primeiro estado.
Desprezo hipócrita pela morte
19. Vós, porém, que não tendes conhecimento dessas coisas, aprendei-as de nós, que as conhecemos, e terminai agora de apregoar que desprezais a morte e praticais a frugalidade. O fato é que vossos filósofos estão tão distantes de semelhante ascese, que alguns recebem anualmente do imperador romano seiscentas moedas de ouro, as quais não têm outra finalidade útil, nem mesmo para cortar gratuitamente a longa barba. Ao menos Crescente, que colocou o seu ninho na grande cidade, sobrepujava a todos em pederastia e não tinha outro objetivo além do dinheiro; ele que aconselhava a desprezar a morte, de tal maneira a temia, que maquinou dá-Ia a Justino e também a mim, como se fosse um mal, porque, pregando a verdade, ele desmascarava os filósofos como glutões e embusteiros. E quem tinha a obrigação de perseguir o filósofo, senão exatamente vós? Se dizeis, coincidindo com nossas doutrinas, que não se deve temer a morte, não morrais por vanglória humana, como Anaxarco, mas tornai-vos desprezadores da morte, por causa do conhecimento de Deus. De fato, a feitura do mundo é boa, mas a conduta que nele se leva é má, e é fácil ver como em mercado público aplaudis teatralmente aos que não conhecem a Deus. Com efeito, o que é a mântica? Como te deixas extraviar por ela? Ela é para ti ministra das cobiças que imperam no mundo. Queres fazer guerras, e tomas Apolo como conselheiro de tuas matanças. Queres raptar uma donzela, e te propões que a divindade venha em tua ajuda. Estás enfermo por tua culpa e, como Agamenon pedia dez conselheiros, assim queres que outros tantos deuses estejam a teu lado. Uma mulher que bebe água enlouquece, e com os perfumes de incenso sai de si mesma, e tu dizes que ela adivinha. Apolo foi profeta e mestre de adivinhos e, no entanto, Dafne o enganou. Por tua vida, dize-me: Como é que um carvalho adivinha, pássaros predizem o futuro, e tu és inferior às plantas e pássaros? Portanto, seria bom que te convertesses em árvore fatídica e tomasses as asas dos habitantes do ar. Aquele que te torna avaro é o mesmo que te Vaticana como enriquecer-te; aquele que provoca sedições e batalhas, esse mesmo te profetiza a vitória na guerra. Se te tornasses superiores às tuas paixões, desprezarias tudo o que existe no mundo.
Nós somos assim, e não deveis odiar-nos; ao contrário, rejeitando os demônios, seguir somente aquele que é Deus. Tudo foi por ele, e nada foi feito sem ele; se no mundo criado existe algo nocivo, isso sobreveio por causa dos nossos pecados. Posso mostrar-vos toda a economia disso. Escutai-me, e aquele que crer o compreenderá.
As asas da alma
20. Mesmo que te cures por medicamento (concedo-te isso apenas por cortesia), deves também dar testemunho a Deus. De fato, o mundo ainda nos arrasta para baixo, e por causa da minha fraqueza busco a matéria. As asas da alma são o espírito perfeito, e quando o pecado tirou-lhe o espírito, a alma ficou pairando como um pássaro implume, veio arrastar-se por terra e, por ter saído da convivência celeste, desejou a convivência das coisas inferiores. Com efeito, os demônios foram arrancados de sua morada, e nossos primeiros pais foram desterrados: aqueles foram expulsos do céu; estes da terra, mas não de uma terra como esta, e sim de uma outra de melhor constituição. E dever nosso, suspirando antecipadamente pelo primitivo, rejeitar tudo o que é impedimento para recuperá-lo. De fato, ó homem, o céu não é ilimitado, mas finito e limitado. Todavia, o que está além dele são éons ou tempos melhores, que não sofrem a variedade de estações, através das quais é produzida toda espécie de enfermidades. Aí se experimenta toda boa temperatura, dia que não tem fim e luz inacessível aos homens aqui debaixo. Aqueles que compuseram geografias ou descrições da terra nos deram a descrição dos diversos lugares, segundo a possibilidade do homem. Contudo, como não eram capazes de explicar os lugares além do céu, porque não são passíveis de observação, deliraram com fluxos e refluxos. Uns disseram que os mares eram cheios de algas, outros, cheios de barro; disseram que alguns lugares eram abrasados pelo calor, outros, gelados pelo frio. Nós, porém, aprendemos dos profetas o que ignorávamos; estes, persuadidos de que o espírito celeste, vestidura de nossa imortalidade, juntamente com a alma, um dia possuirá a imortalidade, predisseram o que as outras almas não sabiam. Entretanto, é possível a todo aquele que se despoja de si mesmo, possuir esse superenfeite do espírito e voltar ao primitivo parentesco com ele.
Não é loucura afirmar a encarnação
21. O gregos, nós não estamos loucos, nem pregamos idiotices, quando anunciamos que Deus apareceu em forma humana. Vós, que nos insultais, comparai os vossos mitos com as nossas narrativas. Deífobo, como se conta, era a própria Atena, para enganar Heitor; através de Adureto, Apoio, o de vasta cabeleira, dedicou-se a apascentar bois de andar torto e, em forma de uma velha, apresentou-se a Semeie, a mulher de Zeus. Como é que vós, entretendo-vos com tais cantos, podeis zombar de nós? O vosso deus Asclépio morreu, e aquele que numa só noite violou cinqüenta donzelas em Tépias, morreu entregando-se como pasto das chamas. Prometeu, cravado no Cáucaso, sofre o castigo pelo benefício prestado aos homens. Segundo vós, Zeus é invejoso e manda um sonho enganador quando quer arruinar os homens. Portanto, olhai para os vossos próprios monumentos e aceitai-nos, ao menos por inventar fábulas semelhantes às vossas. Nós não somos insensatos, mas a vossa religião é pura charlatanice. Se dizeis que os deuses têm origem, afirmais também que eles são mortais. Como é que Hera não concebe mais? Será que ela se tornou velha, ou não tendes quem vos anuncie? Crede em mim, ó gregos, e deixai de explicar alegoricamente os vossos mitos e deuses. De fato, se procurais levar a cabo tal intento, vossos deuses são destruídos não somente por nós, mas também por vós. Com efeito, ou os demônios entre vós são o que se diz que são e, neste caso, têm condição perversa; ou interpretados para significar outra coisa, já não são o que se diz. Eu não me persuadiria jamais a adorar a substância de elementos materiais, nem procuraria persuadir o meu próximo a isso. Metrodoro de Lâmpsaco, em seu livro sobre Homero, discute com farta insensatez, reduzindo tudo a alegoria. Aí ele diz que nem Hera, nem Atena, nem Zeus são o que pensam aqueles que levantam templos e recintos sagrados para eles, mas forças da natureza e ordenação dos elementos. Naturalmente direis que são da mesma natureza Heitor, Aquiles e o próprio Agamenon e, numa palavra, todos os gregos e bárbaros, juntamente com Helena e Páris, e que somente por causa da economia e disposição poética o poeta introduziu todas essas personagens, embora nenhuma delas tenha existido. Advirto que adiantei tudo isso por pura concessão, porque por si não é reverente comparar a nossa idéia de Deus com aqueles que se revolvem na lama da matéria.
A imoralidade do teatro
22. Qual é a qualidade de vossas representações teatrais? Quem não zombará de vossos espetáculos públicos que, realizados com pretexto dos demônios perversos, conduzem os homens à desonra? Eu vi muitas vezes uma personagem e, vendo-a, admirei-me e, depois de me maravilhar, a desprezei, pois era uma por dentro e mentia por fora o que não era, extremamente efememinada e totalmente dissoluta; algumas vezes seus olhos brilhavam, outras vezes gesticulava agilmente com as mãos; ora fazia-se de louca com a sua máscara de barro, ora se convertia em Afrodite ou Apolo. Ela sozinha era a acusadora de todos os deuses, compêndio da superstição, caluniadora dos feitos dos heróis, representante de assassínios, intérprete de adultérios, depósito de loucuras, mestra de corrompidos, ocasião de condenações à morte. E tal homem que vi era por todos aclamado. Eu porém voltei as costas para aquele que em tudo era enganado: em seu ateísmo, em suas representações e em sua pessoa. Vós, porém, vos deixais arrebatar por tais pessoas e ultrajais os que não tomam parte em vossos entretenimentos. Não quero ficar de boca aberta quando um coro canta. Nem me dá vontade de me conformar aos gestos e movimentos contra a natureza. Que tipo de extravagância não se inventa e representa entre vós? Rouquejam e recitam indecências, praticam-se movimentos que não são lícitos, e vossas filhas e filhos contemplam os que dão aulas em cena sobre como cometer um adultério. São belas as vossas salas de audição que apregoam tudo de pecaminoso que se pratica no escuro da noite, e divertem os ouvintes com recitais de discursos desonestos. Bons também são os vossos poetas, embusteiros que com suas retóricas enganam aqueles que os escutam.
A luta de gladiadores
23. Vi também homens fatigados pelos exercícios de treinamento que levavam por todo lugar o peso de suas carnes. A estes são propostos prêmios e coroas e os agonotetas ou organizadores de combates os incitam a competir não em alguma ação boa, mas na insolência e na luta, sendo coroado o que melhor golpeia. Esse é o menor mal; o mais grave quem não vacilará em explicálo? Existem aqueles que de tal maneira se entregaram à ociosidade, que por dissolução vendem-se a si mesmos para serem mortos; o pobre se vende a si mesmo e o rico compra os que devem matá-lo. Aí se assentam os espectadores, e os lutadores combatem corpo a corpo, sem nenhum objeto, e não há ninguém que desça para ajudá-los. Por acaso são boas ações como essas que praticais? O homem proeminente entre vós reúne o exército de assassinos e anuncia publicamente que vai alimentar uma tropa de bandidos. Depois esses mesmos bandidos saem de sua casa e vós todos correis para o espetáculo, primeiro para serem juízes da maldade do agonoteta, e depois dos próprios gladiadores. E aquele que não pôde assistir à matança fica triste por não ter sido condenado a ser espectador de obras perversas e abomináveis. Sacrificais animais para comer a sua carne e comprais homens para infligir também à alma uma carnificina humana, saciando-a com os mais ímpios derramamentos de sangue. O salteador mata para roubar; o rico, porém, compra gladiadores somente para matar.
Novo ataque ao teatro
24. Para que me serve esse ator que, na tragédia de Eurípides, representa, furioso, o matricídio de Alcmeon? Ele não preserva nem a sua própria figura, abre desmesuradamente a boca, brande a espada à direita e à esquerda, inflama-se em gritos e veste uma roupa que ninguém usaria. Que pereçam as fábulas de Hegesipo e de Menandro, versifïcador da mesma língua daquele. Por que ficaria eu boquiaberto diante do flautista mítico? Que falta me faz trabalhar, como Aristóxeno, pelo tebano Antigenides? Concedemo-vos todas essas inutilidades, em troca acreditai em nossas doutrinas ou, imitando-nos, deixai-nos em paz com elas.
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