Outra vez contra os filósofos
25. O que é que os vossos filósofos fazem de grande e maravilhoso? Trazem um dos ombros desnudado, conservam sua longa cabeleira, cultivam sua bela barba, usam unhas de feras; fanfarroneiam que não têm necessidade de nada, quando, como Proteu, necessitam do curtidor por causa do alforje, do tecelão para o manto, do lenhador para o bastão, dos ricos e do cozinheiro para suas gulodices. Tu, homem que imitas o cão, não conheces a Deus e, por isso, vives imitando os irracionais: depois de proclamar aos gritos e publicamente com fingida seriedade, te constituis em vingador de ti mesmo; se não recebes, desatas em insultos, e a filosofia é para ti a arte do lucro. Tu segues as doutrinas de Platão, e aquele que faz sofismas conforme Epicuro opõe-se a ti com voz estridente. Queres ordenar tua conduta de acordo com Aristóteles, e um discípulo de Demócrito te cobre de injúrias. Pitágoras afirma ter sido Euforbo e é herdeiro da doutrina de Ferecides, enquanto Aristóteles nega a imortalidade da alma. Vós, entre os quais existem doutrinas contraditórias, combateis, discordando, contra os que são entre si concordes. Há quem diz que o Deus perfeito é corpo; eu, que é incorpóreo; que o mundo é indestrutível; eu, que é destrutível; que a conflagração universal acontece periodicamente; eu, que de uma só vez; que os juízes são Minos e Radamante; eu, que é o próprio Deus; que só a alma receberá a imortalidade; eu, que juntamente com ela também a carne. Gregos, em que vos prejudicamos? Por que odiais, como sendo os mais abomináveis, a nós que seguimos o Verbo de Deus? Entre nós não existe antropofagia; as informações que recebeis disso são falsos testemunhos. É entre vós que Pélope é preparado como ceia para os deuses, embora seja o querido de Posêidon; Cronos come seus próprios filhos e Zeus engole Métis.
Contra os gramáticos
26. Basta de jatar-vos com discursos alheios e de adornar-vos, como a gralha, com plumas dos outros. Se cada cidade vos despojasse das expressões que lhe pertence, já teriam acabado todos os vossos sofismas. Procurando averiguar quem é Deus, desconheceis o que há em vós mesmos, e, olhando boquiabertos o céu, acabais caindo num poço. As contradições de vossos livros parecem um labirinto, e aqueles que os lêem se parecem com o tonel das Danaides. Para que dividis o tempo, dizendo que uma parte é passado, outra presente e outra futuro? Como 0 futuro pode passar, se é o presente? Como os navegantes acreditam em sua ignorância, por causa do movimento acelerado do navio, que são os montes que correm, do mesmo modo sois vós que passais rapidamente, mas o tempo permanece parado, enquanto aquele que o fez quiser que exista. Por que, quando expondo minhas doutrinas, sou recriminado e pondes todo empenho em aniquilar o que me pertence? Será que não nascestes de modo semelhante a nós e não participais da mesma ordenação do mundo? Como é que dizeis que só entre vós existe a sabedoria, se não tendes outro sol, nem outros astros que vos iluminem, nem origem diferente, nem morte melhor do que os outros mortais? O princípio de vossa charlatanice foram os gramáticos; vós, que partilhais a sabedoria, vos separastes da verdadeira sabedoria e repartistes entre os homens os nomes das partes dela; como não conheceis a Deus, aniquilais uns aos outros, fazendo-vos guerra mútua. Por isso, não sois nada entre todos; e vos apropriais das palavras, mas em seguida falais como um cego com um surdo. Para que tendes nas mãos instrumentos de construção, se não sabeis construir? Para que vos ergueis com as palavras, se estais longe das obras? Envaidecidos na glória, abatidos nas desgraças, irracionalmente abusais de vossas figuras retóricas. Em público, andais pomposos, mas escondeis vossas doutrinas nos cantos. Ao dar-nos cabal conta de que assim sois, vos abandonamos e já não tocamos em coisa que é vossa, mas seguimos o Verbo de Deus. De fato, ó homem, que sentido tem desencadear a guerra das letras? Por que, como num pugilato, fazes chocar tuas pronúncias pelo sussuro dos atenienses, quando deverias falar de modo mais natural? Por que falas em ático, não sendo ateniense, dite-me, por que não falas em dórico? Por que este dialeto te parece mais bárbaro e aquele mais agradável para a conversação?
Não se castiga a ninguém por causa do nome
27. Se te aténs à instrução daqueles mestres de dialeto ático, por que me declaras guerra por escolher dentre o que se ensina as opiniões que quero? Com efeito, o que é mais absurdo do que não castigar um bandido pelo mero nome que lhe dão, antes de averiguar exatamente a verdade e, em troca, odiar-nos por uma preocupação caluniosa, sem nenhuma averiguação? Diágoras foi ateu e, embora divulgasse os mistérios que se praticam entre os atenienses, vós o honrastes e, enquanto ledes os seus discursos frígios., vós nos odiais. Tendo em vosso poder os Comentários de Leonte, vós vos irritais contra os vossos argumentos; correndo de mão em mão as opiniões de Apião sobre os deuses do Egito, vós vos proclamais como os homens mais ímpios. Entre vós mostra-se o sepulcro de Zeus olímpico, por mais que se diga que os cretenses mentem. A turma inteira de vossos muitos deuses não é nada e, mesmo quando Epicuro, o negador deles, vá à frente com sua tocha, eu não presto aos príncipes um culto superior a Deus. Não quero ocultar a minha concepção sobre o universo. Por que me aconselhas a dissimular a minha conduta? Como, professando o desprezo da morte, nos anuncias a maneira de evitá-la com esperteza? Eu não tenho coração de cervo; mas todo esse aparato dos vossos discursos é pura charlatanice de Persites. Como vou acreditar em alguém que me diz que o sol éuma massa incandescente e que a lua é terra? Tudo isso são jogos de palavras e não ordenação da verdade. Existe maior estupidez do que crer nos livros de Herodoro, em sua história de Herácles, na qual se fala de uma terra superior, de onde desceu o leão que foi morto por Herácles? De que me serve a dicção ática, os sorites dos filósofos, as conclusões verossímeis dos silogismos, as medidas da terra, as posições dos astros e os cursos do sol? Ocupar-se em averiguar essas coisas é obra daqueles que impõem suas próprias opiniões como lei.
Contra a variedade das leis
28. Por isso, condeno também as vossas leis. Deveria haver uma só constituição política comum para todos; agora, há tantas legislações quantas cidades existem, e assim acontece que o que entre uns é vergonhoso, entre outros é tido por honroso. Os gregos, por exemplo, pensam que se deve evitar a união com a própria mãe, ao passo que entre os magos persas isso é tido como a mais bela instituição. A pederastia é perseguida entre os bárbaros; entre os romanos, porém, é considerada um privilégio, pois procuram reunir rebanhos de crianças para ela, como manadas de cavalos para o pasto.
Caminho para a fé: reflexão autobiográfica
29. Tendo visto isso tudo, e também depois que me iniciei nos mistérios e examinei as religiões de todos os homens, instituídas por eunucos efeminados, encontrando entre os romanos aquele que eles chamam de Júpiter Laciar, que se compraz em sacrifícios humanos e no sangue dos executados; que Diana, não longe da grande cidade, exigia o mesmo tipo de sacrifícios; por fim, que numa parte um demônio, e em outra, outros se entregavam em perpetrar iniqüidades semelhantes, entrando em mim mesmo, comecei a perguntar-me de que modo ser-me-ia possível encontrar a verdade. Em meio às minhas graves reflexões, caíram-me casualmente nas mãos algumas Escrituras bárbaras, mais antigas que as doutrinas dos gregos e, se considerarmos os erros destes, são realmente divinas. Tive que acreditar nelas, por causa da simplicidade de sua língua, pela maturidade dos que falam, pela fácil compreensão da criação do universo, pela previsão do futuro, pela excelência dos preceitos e pela unicidade de comando do universo. Com a alma ensinada pelo próprio Deus, com preendi que a doutrina helênica me levava para a condenação; a bárbara, porém, livrava-me da escravidão do mundo e me afastava de muitos senhores e tiranos infinitos. Ela nos dá, não o que não tínhamos recebido, mas o que, uma vez recebido, o erro nos impedia de possuir.
O tesouro escondido
30. Tendo compreendido essas coisas, quero tornar-me uma criança pequena e desvestir-me do homem terreno. De fato, sabemos que a natureza da maldade é semelhante a uma semente pequeníssima que, com a mais leve razão, lança raízes; novamente se desfaz se nós obedecemos ao Verbo de Deus e não nos dissipamos a nós mesmos. Por meio de um tesouro oculto, o Verbo de Deus se tornou dono do que é nosso. Desenterrando esse tesouro, nós nos enchemos de poeira, mas demos ao Verbo a ocasião para ele estar conosco. Somente aquele que recebe toda a posse dele terá poder sobre a mais preciosa riqueza. Além disso, essas coisas fiquem ditas para os da própria casa. Para vós, gregos, que outra coisa vos direi, senão que não insulteis aqueles que vos são superiores, e que pelo fato de se chamarem bárbaros não os tomeis como pretexto para vossos escárnios? Se quiserdes, podeis encontrar a causa pela qual nem todos se entendem em uma só língua. Estou disposto a dar uma explicação fácil e abundante sobre isso para aqueles de vós que desejam examinar a fundo a nossa doutrina.
A prova da antigüidade
31. Creio agora oportuno demonstrar-vos que a nossa filosofia é mais antiga do que as instituições gregas. Os limites serão Moisés e Homero. Tanto um como outro são antiquíssimos: um é o mais velho dos poetas historiadores; outro, autor de toda a sabedoria bárbara. Tomemo-los para estabelecer a comparação e veremos que a nossa religião não só é mais antiga que a cultura dos gregos, mas anterior à invenção do alfabeto. Não tomarei testemunhas da minha própria casa, e sim valer-me da ajuda dos próprios gregos. A primeira forma não teria sentido, nem mesmo nós aceitamos isso. A segunda, porém, se verá que é um maravilhoso plano, pois vos combateremos com vossas próprias armas e usaremos os vossos próprios argumentos insuspeitos.
Os mais antigos que se dedicaram a investigar a poesia de Homero, sua origem e o tempo em que floresceu, foram Teágenes de Régio, que viveu no tempo de Combises, Estesímbroto de Tasos, Calímaco de Colofon, Heródoto de Halicarnasso e Dionísio de Olinto; depois desses, Éforo de Cima, Filócoro de Atenas e os peripatéticos Megaclides e Camaleonte; depois os gramáticos Zenódoto, Aristófanes, Calímaco, Crates, Eratóstenes, Aristarco e Apolodoro.
Entre estes, os da escola de Crates dizem que Homero apareceu antes da volta dos heráclidas, o mais tardar oitenta anos depois da guerra de Tróia; as de Aristarco, durante a emigração jônia, que aconteceu cento e quarenta anos depois do que aconteceu com Tróia; Filócoro, depois da emigração jônia, durante o arcontado de Arquipo em Atenas, cento e oitenta anos depois dos acontecimentos de Tróia; os de Apolodoro, cem anos depois da emigração jônia, que equivaleria a duzentos e quarenta anos depois de Tróia. Alguns afirmaram que ele nasceu antes das Olimpíadas, isto é, quatrocentos anos depois da tomada de Tróia. Alguns abaixam o tempo, e o fazem contemporâneo de Arquíloco, que floresceu na vigésima terceira olimpíada, na época do lídio Giges, quinhentos anos depois da guerra de Tróia. Para os que podem examinar com exatidão os meus argumentos, é suficiente o que foi dito resumidamente sobre o poeta Homero e sobre a discussão e discrepâncias entre os que dele falaram. Daí épossível a qualquer um afirmar também a falsidade das opiniões sobre a sua vida. Com efeito, para aqueles que não possuem uma cronologia bem ordenada não é possível também com por história verdadeira. De fato, qual é a causa do erro ao escrever, senão combinar dados não verdadeiros?
Filosofia cristã
32. Entre nós não existe a ambição de glória e, por isso, não seguimos uma multiplicidade de doutrinas. Com efeito, afastados da razão vulgar e terrena, obedientes aos mandamentos de Deus e seguindo a lei do Pai da incorrupção, rejeitamos tudo o que se funda em mera opinião humana; não só os ricos filosofam, mas também os pobres tomam gratuitamente parte no ensinamento. O que vem de Deus ultrapassa a qualquer dom mundano que se poderia dar em troca. Nós, portanto, admitimos a todos os que querem ouvir-nos, ainda que sejam velhinhas e rapazes e, por fim, qualquer idade é honrada entre nós. A única coisa da qual estamos bem afastados é a dissolução. Nós não mentimos ao falar. Seria bom que pusésseis fim à vossa teimosia na incredulidade. Nossa doutrina está confirmada pelo pensamento de Deus e vós podeis rir, como pessoas que logo irão chorar. Que coisa mais absurda do que admirar vosso Nestor que, por fraqueza e peso da idade, só lentamente pode cortar as carreiras do terceiro cavalo e, todavia, procura lutar como qualquer jovem. Em troca, zombais daqueles nossos que lutam com a idade e se ocupam nas coisas divinas. Quem não rirá de vós, quando falais que existiram certas amazonas, uma tal Semíramis e outras mulheres guerreiras e, ao mesmo tempo, insultais nossas virgens? Aquiles era jovem e, contudo, é considerado muito nobre; Neoptólemo era mais jovem ainda, mal era forte; Filocteto estava doente e, todavia, a divindade precisava dele contra Tróia. De que tipo era Tersites? Entretanto, era chefe e se, por sua ignorância, não tivesse sido tão charlatão, não teria sido denegrido por sua cabeça pontiaguda e com pouco cabelo. Todos os homens que desejam filosofar correm até nós, que não examinamos as aparências, nem julgamos, por sua figura, aqueles que se aproximam. Pensamos que a força da inteligência possa existir em todos, ainda que sejam fisicamente fracos. Vossas instituições, porém, estão cheias de maldade e de muita ignorância.
A imoralidade da escultura
33. Tomando a prova do que entre vós é tido como precioso, pensei em estabelecer que nossos costumes são castos, enquanto os vossos são acompanhados de muita sua arte. De minha parte, também condeno Pitágoras, que fez Europa sentar-se sobre um touro, e a vós, que honrais aquele que, por sua arte, é acusador de Zeus. Divirto-me também com a habilidade de Micon, que fez um bezerro e colocou Vitória montada nele, porque Zeus, ao raptar Europa, a filha de Agenor, ganhou a palma de adúltero e intemperante. Por que Heródoto de Olinto fabricou a prostituta Glicera e a tangedora Argiva? Briaxis colocou Pasifae em pé, e, recordando a sua dissolução, falta pouco para que prefirais que as mulheres de hoje sejam como ela. Houve tal Melanipa, mulher sábia, e por sua sabedoria Lisístrato lhe esculpiu uma estátua. E, contudo, não acreditais que também entre nós existam mulheres sábias.
34. Certamente é muito digno de veneração o tirano Faláris, que se fazia servir à mesa crianças de peito e por obra do ambraciota. Polístrato, é apresentado até hoje como homem maravilhoso. Os habitantes de Agrigento sentiam temor ao olhar semelhante monstro da desumanidade, enquanto os que se orgulham de sua própria cultura, vangloriam-se de contemplá-lo em imagem. Como não considerar coisa grave que se honre entre nós o fratricídio, pois vós mesmos, olhando as figuras de Polinices e Etéocles, não jogastes as estátuas num poço, juntamente com seu escultor Pitágoras, destruindo os monumentos da maldade? Por que me insinuais, através de Policlímeno, para que eu considere maravilha uma mulherzinha que gerou trinta filhos? Teria sido melhor abominar aquela que recolheu os frutos de sua grande incontinência, como a porca dos romanos que pelo mesmo motivo, como dizem, foi considerada digna de culto misterioso. Ares cometeu adultério com Afrodite, e Andron vos esculpiu Armonia, que deles nasceu. Sofron, que em suas comédias produziu tantas besteiras e inutilidades, é ainda mais famoso graças à escultura que até agora existe. O embusteiro Esopo não só se tornou imortal por causa de suas fábulas, mas a plástica de Aristodemo o tornou famoso no mundo todo. Como é que, tendo entre vós tantas poetisas que não valem nada, prostitutas incontáveis e homens malvados, não vos envergonhais de caluniar a pureza de nossas mulheres? Que me interessa saber que Evanta deu à luz durante o passeio, ficar boquiaberto diante da arte de Calístrato e erguer meus olhos para Neera de Calíades? Era uma hetera. Laís foi prostituta e seu cúmplice a tornou monumento de sua prostituição. Como não vos envergonhais da fornicação de Hesféstio, por mais artisticamente que Fílon o tenha representado? Porque honrais o andrógino Ganimedes, graças a Leocares, como se com ele possuísseis um tesouro, assim como a mulherzinha dos braceletes que Praxíteles cinzelou? O que deveríeis fazer é recusar tudo isso e buscar verdadeiramente o bem, e não abominar nossa conduta, tornando vossas as obscenidades de uma Filênis e de uma Elefantis.
Taciano viajante
35. Exponho-vos tudo isso, não porque soube de outros, mas porque percorri muitas terras, professei como mestre vossas próprias doutrinas, pude examinar muitas artes e idéias e, por fim, vivendo em Roma, pude contemplar detidamente a variedade de estátuas que para lá vós exportastes. De fato, não me preocupo, como o vulgo costuma fazer, em confirmar minhas doutrinas com opiniões alheias, mas só quero escrever aquilo que eu pessoalmente compreendi. Justamente por isso, dando adeus à altivez dos romanos, ao frio palavrório dos atenienses e aos contraditórios sistemas de vossa filosofia, aderi finalmente à nossa filosofia bárbara. Eu começara a escrever como ela é mais antiga que vossas instituições, mas diferi, porque estava premido para expor outro tema; agora, chegado o momento de falar de suas doutrinas, procurei terminar a minha exposição. Não leveis a mal a nossa instrução, nem objeteis contra nós a estupidez e a bufonaria de que "Taciano, saltando sobre os gregos, saltando sobre a incontável Caterva de filósofos, nos traz a novidade de sistemas bárbaros." Com efeito, o que há de mal que homens que se demonstraram ignorantes fossem convencidos por outro que há pouco sofreu a mesma enfermidade? O que há de absurdo que, segundo vosso próprio sofista, alguém, tornando-se velho, vá ao mesmo tempo aprendendo muitas coisas?
Moisés é anterior a Homero
36. Concedamos que Homero tenha vivido, não após a guerra de Tróia, mas no próprio tempo da guerra e que até tenha combatido no exército de Agamenon e que, se alguém se compraz com isso, tenha nascido antes da invenção do alfabeto. Ficará claro que o dito Moisés é, em muitos anos, mais antigo que a tomada de Tróia, muito anterior à própria fundação da cidade, a Tros e a Dárdano. Para demonstrar isso, valer-me-ei de testemunhos caldeus, fenícios, egípcios e... para que mais? De fato, quem só procura persuadir sobre um ponto particular, tem que explicar a seus ouvintes de forma mais breve que Beroso, o babilônio, que foi sacerdote do deus Belo dos babilônios. Beroso viveu nos tempos de Alexandre e escreveu em três livros a história dos hebreus para Antíoco, terceiro sucessor de Alexandre. Contando as façanhas dos reis, começam por um chamado Nabucodonosor, que fez a campanha contra os fenícios e judeus. Sabemos que tais acontecimentos foram anunciados pelos nossos profetas e que aconteceram muito depois da época de Moisés, setenta anos antes do domínio dos persas. Pois bem, Beroso é homem muito autorizado e a prova está no fato de que Juba, em seu Sobre os assírios, afirma ter tomado de Beroso a história deles. Juba compôs dois livros Sobre os assírios.
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