O testemunho fenício
37. Depois dos caldeus, eis o testemunho dos fenícios. Houve três escritores entre eles: Teódoto, Hipsícrates e Moco, cujos livros foram traduzidos para o grego por Leto, o mesmo que investigou com exatidão as vidas dos filósofos. Nas histórias desses autores se esclarece em que época aconteceu o rapto de Europa e a chegada de Menelau à Fenícia, assim como os feitos de Hiram, que deu sua filha em casamento a Salomão, rei dos judeus, e lhe forneceu madeiras de toda espécie para a construção do templo. Menandro de Pérgamo também escreveu sobre essa mesma matéria. A época de Hiram já se aproxima dos acontecimentos de Tróia; Salomão, porém, contemporâneo de Hiram, é muito posterior a Moisés.
O que os egípcios dizem
38. Existem cronologias exatas dos egípcios, e seu historiador é Ptolomeu, não o rei, mas um sacerdote de Mendes. Contando as façanhas dos reis, ele diz que no tempo de Amósis, rei do Egito, aconteceu a saída dos judeus, sob o comando de Moisés, para aterra que eles desejavam. Diz literalmente: "E Amosis foi contemporâneo do rei Ínaco." Depois de Ptolomeu, o gramático Apião, autor aprovadíssimo, no livro quarto de sua História Egípcia (a obra compreende cinco livros), diz também que Amósis, que viveu no tempo de Ínaco, rei de Argos, destruiu a cidade de Avario, como Ptolomeu de Mendes registrou em sua Crônica. Pois bem: o período de Ínaco até a tomada de Tróia preenche vinte gerações, como será demonstrado em seguida.
Os reis de Argos
39. Os reis dos agravos foram os seguintes: Ínaco, Foroneu, Ápis, Argivo, Críaso, Forbante, Triopante, Crótopo, Estenelau, Dânaos, Linceu, Preto, Abas, Acrísio, Perseu, Estenelau, Euristeu, Atreu, Tiestes, Agamenon, no décimo oitavo ano do qual Tróia foi tomada. O leitor inteligente precisa notar com toda a diligência que, segundo a própria tradição dos gregos, não existia entre eles nenhuma história escrita. Com efeito, Cadmo, que introduziu entre eles as letras, chegou à Beócia muitas gerações mais tarde e, só depois de Ínaco, sob Foroneu, terminou a vida selvagem e nômade, quando os homens se civilizaram um pouco. Concluindo: Se Moisés aparece como contemporâneo de Ínaco, ele é quatrocentos anos mais antigo do que a guerra de Tróia. E que assim o seja, fica demonstrado pela série dos reis áticos (assim como pelos da Macedônia, Ptolomeus e Antioquenos). Se os fatos históricos mais ilustres dos gregos começaram a ser registrados depois de Ínaco, e a partir daí são conhecidos, é evidente que foram também depois de Moisés. De fato, é sob Foroneu que os atenienses recordam Ógiges, em cuja época houve o primeiro dilúvio; sob Forbante, Acteão, a partir do qual a Ática se chamou Actea; sob Tiopante, Prometeu, Epimeteu, Atlas e Cécrope, aquele de dupla natureza, e Io; sob Crótopo, o incêndio de Faetonte e o dilúvio de Deucalião; sob Estenelau, o reinado de Anfiction, a chegada de Dânaos ao Peloponeso, a fundação de Dardânia por Dárdano e a vinda de Europa da Fenícia para Creta; sob Linceu, o rapto de Coré, a ereção do templo de Elêusis, a semeadura de Triptólemo, a chegada de Cadmo a Tebas e o reinado de Minos; sob Preto, a guerra de Eumolpo contra os atenienses; sob Acrísio, o passo de Pélope da Frígia, a chegada de Íon a Atenas, o segundo Cécrope, as façanhas de Perseu e Dioniso e Museu, discípulo de Orfeu. Por fim, sob o reinado de Agamenon, Tróia foi tomada.
40. Assim, de tudo o que foi dito, fica claro que Moisés é mais antigo do que os antigos heróis, guerras e divindades. E vale mais acreditar naquele que precede em idade do que nos gregos, que foram retirar dessa fonte seus ensinamentos, sem entendê-los. De fato, muitos de seus sofistas, com grande curiosidade vã, procuraram adulterar aquilo que conheceram de Moisés e que filosofam à maneira de Moisés, primeiramente para dar aparência de dizer algo original, depois para falsificar a verdade como um conjunto de fábulas, dando um verniz de falsa retórica àquilo que não compreenderam.
Quanto à nossa religião e à história de nossas leis, o que os eruditos gregos disseram sobre ela, quantos e quais a mencionaram, falarei em minha obra Sobre os que afirmaram a respeito das coisas de Deus.
Moisés é anterior aos pré-homéricos: argumento da antigüidade
41. Apresso-me a esclarecer-vos sobre o que agora nos preme, isto é, que Moisés não só é anterior a Homero, mas também aos escritores anteriores a Homero: Lino, Filamon, Tamiris, Anfião, Orfeu, Museu, Demódoco, Fêmio, a Sibila, Epimênides cretense, aquele que veio para Esparta; Aristo de Proconeso, autor das Arimaspias do Centauro Asbolo, Báquis, Drimon, Euplo de Chipre, Horos de Samos e Propânides de Atenas. Com efeito, Lino foi mestre de Herácles, e este evidentemente vivem uma geração antes da guerra de Tróia, como se prova pelo fato de que seu filho Trepólemo esteve no exército que marchou contra ela. Orfeu foi contemporâneo de Herácles, embora os poemas que lhe são atribuídos dizem ter sido compostos por Onomácrito de Atenas, que viveu durante a tirania dos Pisistrátidas, na qüinquagésima Olimpíada. Museu foi discípulo de Orfeu e Anfião foi anterior em duas gerações à guerra de Tróia; só esse fato me impede de dizer algo mais sobre eles aos estudiosos. Demódoco e Fêmio viveram na época da guerra de Tróia, pois um se achava entre os pretendentes e o outro com os feácios. Tamiris e Filámon não são muito mais antigos do que esses.
Desse modo, quanto à matéria de cada um dos eruditos, assim como quanto à cronologia e suas fontes escritas, creio ter tratado muito brevemente, mas com toda exatidão. Contudo, para completar o que ainda falta, estenderei minha demonstração até os legisladores considerados sábios. Minos, que é tido como o mais excelente em toda sabedoria, prudência e legislação, viveu sob Linceu, que reinou após Dárdano, onze gerações depois de Ínaco. Licurgo, que nasceu depois da tomada de Tróia, entregou suas leis aos lacedemônios cem anos antes das Olimpíadas. Draco nasceu na trigésima nona Olimpíada. Sólon na quadragésima sexta, Pitágoras na sexagésima segunda. E já demonstramos que as Olimpíadas começaram quatrocentos e sete anos após a guerra de Tróia. Isso demonstrado, só nos resta registrar uma indicação sobre a idade dos outros sete sábios. Tendo Tales, o mais velho deles, nascido na qüinquagésima Olimpíada, resumidamente fica dito sobre o que pensar das épocas dos posteriores a ele.
Conclusão
42. Essas são as coisas, ó gregos, que compus para vós, eu, Taciano, que professo a filosofia bárbara, nascido em terra dos assírios, formado primeiramente em vossa cultura e depois nas doutrinas que agora anuncio como pregador. Já conhecendo quem é Deus e sua criação, apresento-me a vós disposto ao exame de meus ensinamentos, advertindo que jamais renegarei minha conduta segundo Deus.
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui