13. Contudo, já que aqueles que nos acusam de ateísmo - vulgo que não sabe sequer em sonho que é Deus, tão ignorantes e alheios que são à contemplação tanto da razão teológica como da física, que medem a religião por lei de sacrifícios - nos reprovam por não termos os mesmos deuses que as cidades, considerai, vos peço, ó imperadores, um e outro ponto do modo que segue, e, antes de tudo, a reprovação por não sacrificar. O Artífice e Pai deste universo não tem necessidade nem de sangue nem de gordura, nem de perfume de flores e incensos, já que ele é o perfume perfeito; nada lhe falta, e de nada necessita. Para ele o máximo sacrifício é que reconheçamos quem estendeu e deu força esférica aos céus e assentou a terra como centro, que reuniu as águas em mares e separou a luz das trevas, quem adornou o éter com astros e fez que a terra produzisse sementes, quem criou os animais e plasmou o homem. Considerando, pois, Deus como artífice que contém tudo e que olha tudo com a ciência e a arte com que dirige tudo, e levantando as nossas mãos puras para ele, que necessidade há de catástrofes?
"Os homens tratam de dobrá-los com sacrifícios e suaves súplicas, com libação e gordura, suplicando-lhes quando alguém comete transgressão e pecado". Que falta me fazem os holocaustos de que Deus não necessita? E que falta me faz apresentar oferendas, quando se deve ofere cer-lhe sacrifícios incruentos, que é culto racional?
14. Sobre o fato de não nos aproximarmos ou termos como deuses os mesmos que as cidades têm, é palavra totalmente idiota; mas nem aqueles que nos acusam de ateísmo por não considerarmos como deuses aqueles aos quais de modo vão se aproximam, concordam entre si a respeito dos deuses. Os atenienses estabelecem como deuses Celeu e Metanira; os lacedemônios estabelecem Menelau, e a ele sacrificam e celebram festas; os troianos, que não podem sequer ouvir seu nome, estabelecem Heitor; os habitantes de Queos estabelecem Aristeu, que identificam com Zeus e Apolo; os tássios estabelecem Teágenes, que cometeu homicídio nos jogos olímpicos; os habitantes de Samos estabelecem Lisandro, depois de tantas mortes e tantos males; os cilícios consideram Medéia e Níobe; os sículos consideram Filipe, filho de Butacides; os amatúsios consideram Onesilau; os cartagineses consideram Amílcar. O dia acabaria se eu tivesse que enumerar toda a multidão. Se eles entre si não estão de acordo sobre seus próprios deuses, por que nos acusam de não coincidir com eles? Quanto aos egípcios, a coisa chega ao ridículo. Em suas grandes reuniões, eles batem no peito nos templos, como pelos mortos, e lhes oferecem sacrifícios como a deuses; e ninguém estranha que introduzam animais como deuses, raspem a cabeça quando morrem, os enterrem nos templos e organizem lutos públicos. Se nós, portanto, por não praticar a religião como eles, somos ímpios, todas as cidades e todas as nações são ímpias, pois não são todos que têm os mesmos deuses.
15. Aceitemos, porém, que todos admitissem os mesmos deuses. E daí? Se o vulgo, incapaz de distinguir entre matéria e Deus, e de compreender a diferença que existe de uma para outro, recorre aos ídolos feitos de matéria, deveremos também nós adorar as estátuas para agradá-los? Nós, que distinguimos e separamos o incriado do criado, o ser do não-ser, o inteligível do sensível, e que damos nome conveniente a cada uma dessas coisas? Com efeito, se a matéria e Deus são a mesma coisa, e se trata apenas de dois nomes para a mesma realidade, não aceitando como deuses as pedras, a madeira, o ouro e a prata, cometemos uma impiedade; contudo, se existe imensa distância entre um e outro, como do artista para os instrumentos de sua arte, por que nos acusam? Como o oleiro e o barro, o barro é a matéria e o oleiro é o artista, assim Deus é o artífice, e a matéria lhe obedece em vista da arte. Mas como o barro sem a ação do artista não pode por si mesmo converter-se em vasos, também a matéria, capaz de qualquer forma, não teria recebido em distinção nem figura nem ornato sem a ação do Deus artífice. Ora, nós não consideramos o vaso mais digno de honra do que o seu fabricante, nem as taças de ouro mais dignas de honra do que aquele que as fundiu, mas, se vemos nelas alguma habilidade artística, louvamos o artista e é este que colhe o fruto da glória dos vasos. Do mesmo modo, tratando-se de Deus e da matéria, não é esta que recebe a glória e a justa honra pela ordenação do mundo, mas Deus, artífice da matéria. Assim, se considerássemos como deuses as formas da matéria, daríamos prova de não ter o sentido do Deus verdadeiro, equiparando o dissolúvel e corruptível ao eterno.
16. Certamente o mundo é belo, abarca tudo com a sua grandeza, pela disposição dos astros da ecléptica e os do setentrião, e por sua forma esférica; contudo, não é a ele, mas ao seu artífice que se deve adorar. Com efeito, nem mesmo vossos súditos que recorrem a vós, seus donos e senhores, dos quais podem conseguir o que necessitam, vos deixam de honrar para deter-se na magnificência de vossa moradia; de passagem, eles olham vosso palácio imperial e admiram sua bela feitura; contudo, a glória e a honra eles as tributam inteiramente a vós. E de se notar que vós, os reis, construís para vós mesmos vossas régias moradas; o mundo, porém, não foi feito porque Deus necessitasse dele, pois Deus é tudo para si mesmo, luz inacessível, mundo perfeito, espírito, poder, verbo. Portanto, se o mundo é um instrumento harmonioso que se move conforme um ritmo, eu não adoro o instrumento, mas a quem lhe dá harmonia, o faz emitir os sons e entoa o canto afinado. Nem mesmo nos jogos públicos os atletas deixam de lado os tocadores de cítaras e coroam as cítaras deles. Se o mundo é, como diz Platão, uma obra de Deus, admirando sua beleza, eu me dirijo ao artista. Se é essência e corpo, como querem os peripatéticos, não vamos deixar de adorar a Deus, causa do movimento desse corpo, para cair nos elementos míseros e fracos, preferindo em nossas adorações a matéria passível ao éter que, segundo eles, é impassível. E se existe quem entende as partes do mundo como potências de Deus, não vamos prestar honras às potências, mas ao criador e dono delas. Não peço à matéria o que ela não tem, nem abandono a Deus para servir aos elementos, que podem apenas aquilo que lhes é ordenado. Se é certo que são formosas à vista por perícia do artífice, nem por isso deixam de ser perecíveis por natureza da matéria. O próprio Platão confirma meu raciocínio. Ele diz: "O que chamamos céu e mundo, embora participe de muitos e afortunados bens da parte do Pai, contudo, também tem a comunicação do corpo e, por isso, é impossível que esteja isento de toda mudança". Se, embora admirando o céu e os elementos por causa da arte que neles resplandece, não os adoro como a deuses, pois conheço a razão de dissolução que pesa sobre eles, como chamarei deuses aos que eu sei que têm homens como artífices?
17. Peço-vos considereis brevemente este ponto2. (E preciso que fazendo a nossa defesa, como estou, eu apresenteargumentos mais precisos, tanto sobre os nomes, para demonstrar que são recentes, como sobre as imagens, para ver que procedem, como se diz, de ontem e anteontem; e isso vós o sabeis melhor do que ninguém, pois sois versados nos antigos a respeito de todo assunto e em grau superior a todos). Portanto, digo que Orfeu, Homero e Hesíodo são os que estabeleceramas famílias e deram os nomes aos que por eles são chamados deuses. O próprio Heródoto o confirma: "Considero Hesíodo e Homero quatrocentos anos mais antigos do que eu, não mais, e foram eles que estabeleceram a Teogonia para os gregos, que deram suas denominações aos deuses, distribuindo suas honras e ofícios e explicando suas formas." Quanto às suas imagens, enquanto não existiam a pintura, a plástica e a escultura, não eram sequer concebíveis. Foi na época de Sáurio de Samos, de Cráton de Sicião, de Cleantes de Corinto e de uma moça coríntia que foi inventada a representação das figuras, quando Sáurio delineou um cavalo ao sol; a pintura foi quando Cráton recobriu de cor, em uma tábua branca, as figuras de um homem e de uma mulher. A fabricação de bonecos foi inventada pela moça: enamorada por um homem, delineou, enquanto dormia, a figura dele na parede; depois, o seu pai, satisfeito com a exata semelhança (sabe-se que ele trabalhava com argila), a esculpiu, enchendo o contorno de barro. A imagem ainda é conservada em Corinto. A esses sucederam Dédalo, Teodoro e Smilis, que inventaram a escultura e a plástica. Na verdade, as imagens e fabricação dos ídolos têm tão pouco tempo que é possível indicar o artífice de cada deus. Assim, foi Endoio, discípulo de Dédalo, que fabricou a estátua de Ártemis em Éfeso, a de Atenas (ou melhor, de Atela, pois assim a chamam os que falam misteriosamente... falo, portanto, da antiga estátua de oliveira), e até da Sentada; Apolo Pítio é obra de Teodoro e de Télecles; Délio e Ártemis são arte de Tecteu e de Angelião; a Hera de Argos e a de Samos saíram das mãos de Smilis; os demais ídolos são de Fídias; a segunda Afrodite é obra de Praxíteles; o Asclépio de Epidauro é obra de Fídias. Numa palavra, nenhum dos ídolos pode escapar de ser fabricado por homens. Ora, se são deuses, como não existiam desde o princípio? Como são mais recentes que aqueles que os fabricaram? Que necessidade tinham, para nascer, dos homens e da arte? Tudo isso, porém, é apenas terra, pedras, matéria e arte supérflua.
18. Há aqueles que dizem que isso são apenas estátuas, mas é aos deuses que elas se referem, que as procissões que a elas se fazem e os sacrifícios que se lhes oferecem terminam nos deuses e a eles se dirigem, que não existe, enfim, outro meio de aproximar-se dos deuses sem este: "os deuses são difíceis de aparecer claramente". E que isso seja assim, apresentam como prova as atividades de alguns ídolos. Se vos agrada, examinemos o poder que existe em seus nomes. Antes de iniciar o meu discurso, eu vos rogo, ó máximos imperadores, que me perdoeis se apresento apenas raciocínios verdadeiros. O meu propósito não é refutar os ídolos, e sim desfazer as calúnias contra nós e oferecer-vos a razão de nossa religião. Ora, vós, por vós mesmos, poderíeis examinar o império celeste. Com efeito, como a vós, pai e filho, vos foi posto tudo na mão ao receber o império de cima: "Porque a alma do rei está nas mãos de Deus", diz o Espírito profético, do mesmo modo está submetido a um só Deus e ao Verbo que dele procede seu filho concebido como seu inseparável. Antes de tudo, eu vos peço, portanto, que considereis este ponto. Os deuses não existiram, conforme dizem, desde um princípio, mas cada um deles nasceu do mesmo modo que nascemos. Nisso todos concordam, pois Homero diz: "Ao Oceano, origem dos deuses, e à mãe Tétis".
Orfeu, que foi o primeiro a inventar os seus nomes e explicou suas genealogias, que contou as façanhas de cada um, e que se acredita entre o vulgo ser o mais veraz teólogo, a quem geralmente Homero segue mais do que ninguém em assunto de deuses, Orfeu, como dizia, também estabelece a primeira origem deles na água: "O Oceano, que é a origem de todos." Com efeito, segundo ele, a água foi o princípio de tudo e da água formou-se um lodo e de ambos foi gerado um animal, um dragão que tinha unidas uma cabeça de leão e outra de touro, e entre as duas, um rosto de deus, cujo nome é Héracles e Crono. Héracles gerou um enorme ovo que, cheio da força daquele que o havia gerado, rompeu-se em dois por atrito. A parte superior transformou-se no Céu, a debaixo na Terra, e surgiu um deus de duplo corpo. O Céu, unido com a Terra, gerou as mulheres Cloto, Láquesis e Atropo, os homens centímanos: Coto, Giges, Briareu, e os ciclopes Brontes, Estetopes e Arges. Mas como ficou sabendo que seria derrubado de seu império por seus próprios filhos, acorrentou-os e atirou-os na profundeza do Tártaro. Irritada com isso, a Terra gerou os titãs: "A augusta Gaia gerou os filhos de Urano que chamam pelo sobrenome de titãs, pois eles se vingaram do grande Urano estrelado".
19. Tal é o princípio da gênese, não só daqueles que eles consideram deuses, mas do universo todo. Considerai, portanto, este ponto: cada um desses aos quais se atribui a divindade, como princípio, também é forçoso que seja corruptível. De fato, se nasceram não existindo, como dizem os que teologizam sobre eles, não existem, porque uma coisa ou é incriada e, por conclusão, eterna, ou é criada e, por conseguinte, corruptível. Não falo diferentemente dos filósofos: "O que é que é sempre e não tem princípio? O que é que começa e não é nunca? Platão, discorrendo sobre o inteligível e o sensível, ensina que aquilo que é sempre, o inteligível, é o incriado; e aquilo que não é, o sensível, criado, que começa a ser e deixa de ser. Por isso, também os estóicos dizem que tudo há de perecer numa conflagração, e voltar a ser de novo, readquirindo princípio. Ora, se, conforme eles, existem duas causas, a eficiente, que é aquela que manda, como a providência, e a passiva, que é aquela que muda, como matéria, e é impossível que, mesmo governado pela providência, o mundo permaneça em um ser, desde o momento que tem princípio, como permanecerá a constituição desses que não existem por natureza, mas que nascem? Em que são superiores à matéria deuses que têm a sua constituição a partir da água? Mas nem mesmo a água, segundo eles, é princípio de tudo. (Com efeito, o que é que poderia constituir-se de elementos simples e uniformes? Além disso, a matéria sempre necessita de artífices e o artífice necessita da matéria. De fato, como poderiam ser feitas as imagens sem matéria ou sem artífice?) Não há razão alguma para que a matéria seja mais antiga do que Deus, pois é forçoso que a causa eficiente seja anterior ao que tem princípio.
20. Ora, se o absurdo de sua teologia ficasse na afirmação de que os deuses nascem e se constituem da água, uma vez que demonstrei que não existe nada criado que não seja também dissolúvel, poderia passar às outras acusações que nos fazem; de uma parte, porém, descreveram os corpos dos deuses: um Héracles, o qual dizem que era um dragão retorcido; os deuses de cem mãos; a filha de Zeus, que ele teve com sua mãe Rea, também chamada Deméter, que tinha dois olhos no lugar natural e outros dois na fronte, além de chifres e a face de animal na parte posterior do pescoço, com o que, espantada com aquele monstro de filha, Rea fugiu sem dar-lhe o peito. É daí que misticamente se chama Atela, ao passo que comumente se lhe dá o nome de Perséfone e Coré, que não é a mesma que Atenas, à qual também se chama Core, por causa de sua virgindade. Por outro lado, também nos contaram suas façanhas exatamente conforme eles pensam: Cronos, que cortou o membro viril de seu pai e ele próprio o atirou de seu carro, e que matava seus filhos, devorando os varões. Zeus, que amarrou seu pai e o atirou na profundeza do Tártaro, como já fizera Urano com seus filhos, que lutou contra os titãs pela supremacia e perseguiu sua mãe Rea, que recusava unir-se com ele, convertendo-se ela em dragão, ele também em dragão e, amarrando-o com o chamado nó de Héracles, finalmente uniu-se com ela (o símbolo da figura da união é o bastão de Hermes). Depois Urano também se uniu com sua filha Perséfone, forçandoa sob a forma de dragão, e dela nasceu o filho Dioniso. Tudo isso me força a dizer o seguinte: o que há de importante ou de útil nessa história, para que acreditemos que Cronos, Zeus, Coré e os outros sejam deuses? As configurações de seus corpos? Contudo, que homem discreto e formado na contemplação filosófica pode acreditar que um deus tenha gerado uma víbora? Assim diz Orfeu: "Fanes, porém, espantosa à vista; de sua cabeça pendem os cabelos e o seu rosto é belo de se ver, mas nas partes restantes ela é dragão espantoso desde a altura do pescoço..."
Quem poderá admitir que o próprio Fanes, que é o deus primogênito (pois este é o que saiu do ovo derramado), tenha corpo ou figura de dragão ou que tenha sido devorado por Zeus, a fim de que este se tornasse imenso? Com efeito, se em nada se diferenciam dos mais vis animais (e é evidente que a divindade deve diferenciar-se de todo terreno e até daquilo que é separado da matéria), não são deuses. Por que aos que nascem com forma semelhante à dos animais, têm forma de animais e aspecto horrível?
21. Na verdade, se dissessem apenas que seus deuses são carnais, que têm sangue, esperma, paixões de ira e desejo, já seria o bastante para qualificar todos esses relatos de charlatanice e coisa ridícula; de fato, em Deus não há ira, desejo, instinto ou sêmen gerador. Podem ser de carne, mas superiores ao fastio e à colera, e não vejamos Atenas "irritada contra Zeus Pai, pois uma cólera feroz a arrebatara", e não contemplemos Hera, a quem "a cólera não lhe cabia no peito e disse"; também superiores à tristeza: "Que dor! Estou vendo com meus olhos o homem verdadeiramente querido perseguido em torno da muralha, e meu coração se entristece". De minha parte, considero como homens deseducados e torpes aqueles que cedem à cólera e à tristeza. Com efeito, quando o "pai de homens e deuses" se lamenta por seu filho: "Ai de mim! Pois Sarpedon, o mais querido dos homens, foi decretado pelo destino que ele seja domado por Pátroclo, filho de Menécio" e, com todos os seus lamentos, é incapaz de livrá-lo do perigo: "Sarpedon, filho de Zeus, e este nem a seu filho socorre".
Quem não chamará de ignorantes aqueles que se mostram amadores dos deuses com tais fábulas, quando, na realidade, são ateus? Podem ser carnais, mas que Afrodite não seja ferida nem no corpo por Diomedes: "Feriu-me o filho de Tideu, o soberbo Diomedes", nem por Ares na alma: "Por ser coxo, Afrodite, a filha de Zeus, sempre me despreza e ama o horrível Hares". Nem Hares pelo próprio Diomedes: "E lhe arrancou a bela pele". Ares, o espantoso nas batalhas e aliado de Zeus contra os titãs, aparece mais fraco que Diomedes: "Ia furioso, como quando Ares brande a sua lança". Cala-te, Homero, pois Deus não se enfurece; tu és aquele que me apresentas Deus como manchado de sangue e funesto para os mortais: "Ares, Ares, destruição de mortais, manchado de sangue", e nos contas o seu adultério e acorrentamento: "Os dois, tendo subido ao leito, adormeceram, mas ao redor deles estenderam-se as hábeis correntes do engenhoso Héfesto, e já não era possível mover os membros".
Como não rejeitar todo esse interminável charlatanismo sobre os deuses? Urano foi castrado, Cronos foi acorrentado e jogado no Tártaro, os titãs se rebelam, Estígia morre no decorrer da batalha (até como mortais nos apresentam os deuses), uns se enamoram pelos outros e também se enamoram pelos homens: "Éneas, que foi concebido pela divina Afrodite nos braços de Asquises, nas quebradas do Ida, uma deusa deitada com um mortal". Os deuses, porém, não amam, nem têm paixões, porque se são deuses não são afetados pelo desejo... E se Deus toma carne, segundo a divina economia, torna-se escravo do desejo?
"Com efeito, jamais o amor de deusa ou de mulher domou o meu coração dentro do peito em torno derramado, nem quando amei a esposa de Ixião; nem quando amei Dânae, a de belos tornozelos, a de Acrísio; nem quando amei a filha do ilustre Fênix, nem quando amei Sêmele ou Alcmena em Tebas, nem quando amei Deméter, a rainha de belas tranças, nem quando amei a gloriosa Seto, nem a ti mesma". Se um ser é criado, ele é corruptível, e nada tem de Deus. E chegam a servir os homens como diaristas: "O palácios de Admeto, em que eu tive que suportar e aceitar a mesa de diarista sendo um deus." Também são boiadeiros: "Vindo eu a esta terra, apascentei os bois de meu hóspede e salvei esta casa". Portanto, Admeto é superior ao deus. Ó adivinho e sábio, que predizes o futuro para os outros! Tu não foste capaz de adivinhar a morte do teu amado, mas com a tua própria mão mataste o teu amigo. E Esquilo censura Apolo como falso adivinho: "Eu acreditava que a boca divina de Febo era infalível, pois dela brota a arte da adivinhação; e ele próprio, que entoava o hino, presente ao convite e que me predissera isso, foi ele que matou o meu filho".
22. Talvez se diga que tudo isso são fantasias poéticas, e que existe uma explicação física para tudo isso. Como diz Empédocles: "Esplêndido Zeus, e Hera que dá a vida, Aidoneu e Néstis, que banha de lágrimas os olhos mortais". Contudo, se Zeus é o fogo, Hera a terra, Aidoneu o ar e Néstis a água, e tudo isso são elementos-fogo, água, ar -, nenhum deles é Deus: nem Zeus, nem Hera, nem Aidoneu, pois a constituição e origem de todos provém da matéria separada por Deus: "Fogo, água e terra, a benigna altura do ar, e a amizade entre eles".
Aquele que não pode permanecer sem a amizade, pois está confundido pela discórdia, quem poderá dizer algo de Deus? Conforme Empédocles, a amizade é o que manda, e os compostos são o mandado, e o que manda é o principal. De modo que, se julgamos ser uma e a mesma a potência do que manda e do mandado, não nos damos conta de estar tributando honra igual à matéria corruptível do ser mutante e a Deus incriado, eterno e sempre concorde consigo mesmo.
Segundo os estóicos, Zeus é a substância fervente; Hera, que é o ar, pois o próprio nome concorda com o som, enlaça-se consigo mesmo; Posêidon é a bebida. Outros dão outras explicações naturais. Com efeito, uns dizem que Zeus é o ar de dupla natureza, hermafrodita; outros dizem que ele é a ocasião que muda o tempo em boa temperatura e que, por isso, foi o único que escapou de Cronos. Contudo, é preciso dizer contra os estóicos: se considerais o Deus dupremo como um só, incriado e eterno, e que são compostas as coisas onde se processa a mudança da matéria, e afirmais que o espírito de Deus, que penetra através da matéria, recebe um ou outro nome conforme sua mudança, então as formas da matéria se converterão em corpo de Deus e, corrompendo-se os elementos pela conflagração, forçosamente também os nomes se corromperão junto com as formas, permanecendo unicamente o espírito de Deus. Entretanto, quem é que considerará como deuses corpos corruptíveis e mutáveis conforme a matéria?
Quanto aos que dizem que Cronos é o tempo e Rea a terra; que esta concebe de Cronos e gera e que, por isso, é chamada mãe de todos; que ele gera e devora; que a mutilação de seus órgãos sexuais é a união do macho e da fêmea que corta e joga o sêmen na matriz e gera o homem que tem dentro o desejo, isto é, Afrodite; que a loucura de Cronos é o giro do tempo, consumindo o animado e o inanimado; que as correntes e o Tártaro são o tempo que muda e se torna invisível pelas estações; contra esses dizemos: se Cronos é o tempo, então muda; se é a estação, gira; se é as trevas, o gelo ou sua substância úmida, nada disso permanece; a divindade, porém, é imortal, imóvel e imutável. Portanto, nem Cronos, nem o ídolo que o representa, é deus. Quanto a Zeus, se ele é o ar gerado de Cronos", cujo elemento masculino é Zeus e o feminino Hera (daí que ela seja sua esposa e irmã), é mutável; se ele é a estação, gira; o divino, porém, não muda, nem decai.
Contudo, para que continuar importunando-vos com novas explicações, se vós sabeis melhor as explicações que deram todos aqueles que sobre isso especularam? O que entenderam sobre os deuses aqueles que, por exemplo, escreveram sobre Atena, dizendo que ela é a inteligência que tudo penetra? Ou sobre Ísis, que chamam de natureza da eternidade, da qual todos nasceram e pela qual todos existem? Ou sobre Osíris, seu irmão, morto por Tifão, perto de Pelúsio, cujos membros ela vai buscar junto com o seu filho Horo e, tendo-os encontrado em um sepulcro,que até hoje se chama tumba de Osíris? Com efeito, resolvendo para cima e para baixo as formas da matéria, o que fazem é desviar-se de Deus, que se contempla pela razão, e divinizar os elementos e suas partes, pondo-lhes diversidade de nomes. Por exemplo: a semeadura de trigo, Osíris (do qual dizem que nos mistérios se clama a Ísis por causa do achado dos membros ou dos frutos: "Encontra mos, nos alegramos"); o fruto da vinha, Dioniso; a própria vinha Sêmele, raio, ao calor do sol. Na verdade, os que explicam alegoricamente os mitos, divinizando os ele mentos, nos dão qualquer coisa, menos explicações do divino, pois não se dão conta de que com aquilo que tentam defender seus deuses, confirmam ainda mais os raciocínios contra eles. O que é que Europa e o touro, o cisne e Leda têm a ver com a terra e o ar, para que nos venham dizer que o abominável tratamento de Zeus para com elas representa a união da terra e do ar? Desviando-se da grandeza de Deus e incapazes de remontar pelo raciocínio, pois não sentem simpatia pelo lugar celeste, se consomem e se afundam nas formas da matéria, divinizam as mudanças dos elementos, tão absurdo como alguém confundir o navio em que viaja com o piloto que o dirige. Mas como o navio nada vale, mesmo com todos os seus apetrechos, se não tem piloto, igualmente de nada vale a ordem dos elementos sem a providência de Deus. De fato, nem o navio navegará por si mesmo, nem os elementos se movimentarão sem um criador.
23. Vós, porém, que superais a todos em inteligência, poderíeis objetar: Então por que alguns ídolos agem, se não existem os deuses em cuja honra erguemos as imagens? Não é verossímil que estátuas inanimadas e imóveis tenham por si mesmas alguma força sem que alguém as mova. Desde já, nós mesmos não negamos que em determinados lugares, cidades e povoados aconteçam algumas operações em nome dos ídolos; entretanto, porque alguns tenham recebido proveito e outros prejuízo, não vamos considerar deuses aqueles que agiram em um ou outro sentido, mas investigamos cuidadosamente o motivo de crerdes que os ídolos têm alguma força e quais são os que agem, usurpando seus nomes. Antes de tudo, porém, já que quais são os que agem nos ídolos e que não são deuses, é preciso trazer como testemunhas também alguns filósofos. Tales, como dizem os que conhecem a fundo suas doutrinas, foi o primeiro que estabeleceu a divisão entre Deus, demônios e heróis. Por Deus, ele entende a mente do mundo; por demônios, as substâncias animadas; por heróis, as almas separadas dos homens, bons as boas, maus as más. Platão, que em outros pontos se mostra reservado, também distingue entre o Deus incriado, os astros fixos ou errantes, criados pelo Incriado, para enfeitar o céu, e os demônios. Ele recusa falar desses demônios, mas quer que se acredite nos que falaram sobre eles: "Falar da multidão de demônios e conhecer as suas origens é tarefa que ultrapassa nossas forças, mas deve-se acreditar nos que falaram anteriormente, já que, como dizem, são descendentes dos próprios deuses, e é de se supor que conheçam exatamente seus ascendentes. Portanto, é impossível não crer nos filhos de Deus, mesmo quando falam sem provas verossímeis ou necessárias, mas, seguindo o costume, deve-se crer neles como em pessoas que nos certificam estar nos contando a história de sua própria família. Dessa forma, seguindo a eles, sirva isso também para nós e digamos que a origem desses deuses é a seguinte: Da terra e do céu nasceram dois filhos: o Oceano e Tétis; desses nasceram Forco, Cronos, Rea e todo o seu séquito; de Cronos e Rea nasceram Zeus e Hera e todos os que sabemos que se dizem seus irmãos, e, por fim, os outros descendentes desses".
Entretanto, Platão, que compreendeu o Deus eterno apenas pela inteligência e razão exeqüível; ele, que explicou os atributos que lhe convêm: seu ser real, sua unidade de natureza, o bem que dele se derrama, que é a verdade; ele, que falou da "primeira potência", e disse: "Em torno do rei de todas as coisas está tudo, por causa dele tudo existe e ele é a causa de tudo"; e da segunda e terceira: "O segundo em torno do segundo, e o terceiro em torno do terceiro"; Platão pode considerar empresa superior às suas forças investigar a verdade sobre os que se dizem ter nascido de coisas sensíveis do céu e da terra? Não se pode dizer tal coisa. A verdade é que, como ele entendia ser impossível os deuses gerarem e conceberem, pois o que nasce tem conseqüentemente fim, mais impossível ainda seria mudar a convicção do vulgo, que aceita os mitos sem exame ou prova. Por esse motivo, disse que estava acima de suas forças conhecer e explicar a gênese da multidão dos demônios, pois não podia compreender, nem explicar como os demônios possam ter nascimento. A outra passagem sua, em que diz: "Zeus, o grande guia no céu, lançase à marcha conduzindo o seu carro, e atrás dele segue o exército dos deuses e demônios", não deve ser entendida de Zeus, o assim chamado filho de Crono, pois com o seu nome quer-se significar o Criador do universo. O próprio Platão deixa isso bem claro. Não tendo outro termo para significar isso, usou o nome popular como pôde, não como nome próprio de Deus, mas por razão de clareza, já que não era possível representar para todos o Deus verdadeiro. Depois acrescentou-lhe o qualificativo de "grande", para diferenciar o celeste do terreno, o incriado do criado, este mais jovem que o céu e a terra e até mais jovem que os cretenses, que o roubaram para que não fosse devorado por seu pai.
24. Que necessidade há de recordar-vos os poetas e examinar também outras opiniões para vós que examinastes toda a doutrina? É suficiente acrescentar apenas uma consideração. Mesmo quando poetas e filósofos não reconheceram que Deus é um só, mas uns pensaram nos deuses como demônios, outros como matéria, outros como tendo sido homens, haveria motivo para perseguir-nos, a nós que, com o nosso raciocínio distinguimos Deus da matéria e as substâncias de um e da outra? De fato, assim como confessamos Deus, o Filho, que é o seu Verbo, e o Espírito Santo, identificados segundo o poder, mas distintos segundo a ordem: o Pai, o Filho e Espírito, porque o Filho é inteligência, Verbo e sabedoria do Pai, e o Espírito, emanação como luz do fogo, também entendemos que existem outras potências que rodeiam a matéria e a penetram, e uma contrária a Deus. Não porque exista algo contrário a Deus, da mesma forma que a discórdia é contrária à amizade, conforme Empédocles, ou a noite contrária ao dia, entre os fenômenos naturais - se alguma coisa se enfrentasse assim com Deus, cessaria completamente de ser, pois a sua substância seria destruída pela potência e força de Deus -; mas porque o Espírito que rodeia a matéria é contrário à sua bondade, atributo que lhe é próprio e que coexiste com ele como o calor com o fogo, sem o qual não pode existir-não que seja parte sua, mas é acompanhamento necessário, identificado e compenetrado, como o vermelho com o fogo e o azul com o céu -; Espésito, dizíamos, criado certamente espírito, por Deus, como foram por ele criados os demais anjos, e ao qual foi confiada a administração da matéria e das formas da matéria. Com efeito, a substância desses anjos foi criada por Deus para providência das coisas por ele ordenadas, de modo que Deus conservaria a providência universal e geral do universo - o domínio e o poder sobre tudo dependeria dele, e ele dirigiria isso sozinho, indeclinavelmente, como um navio, com o timão da sua sabedoria-; mas os anjos por ele ordenados se encarregariam da providência particular. Do mesmo modo, porém, que os homens têm livre-arbítrio podem optar pela virtude e pela maldade - pois se não estivesse em seu poder a maldade e a virtude, não honraríeis os bons nem castigaríeis os maus, quando uns se mostram diligentes e outros desleais naquilo que lhes confiais -, assim tam bém os anjos. Uns, que foram imediatamente criados livres por Deus, permaneceram naquilo que Deus os criara e ordenara; outros se orgulharam tanto de sua natureza, como do império que exerciam, isto é, esse que é príncipe da matéria e das suas formas, e os outros encarregados desse primeiro firmamento-e deveis saber que não afirmamos nada sem testemunhas; expressamos apenas o que foi dito pelos profetas -; estes, por terem caído em desejo pelas virgens e mostrando-se inferiores à carne; aquele, por ter sido negligente e mau na administração que lhe fora confiada. Dos que tiveram relação com virgens nasceram gigantes. Não vos maravilheis, se em parte os poetas também falam dos gigantes, pois a sabedoria humana e a divina distam entre si assim como a verdade dista do verossímil. Uma é celeste e outra é terrena e, segundo o príncipe da matéria, "sabemos dizer muitas mentiras semelhantes à verdade".
25. Portanto, esses anjos caídos do céu, que rondam em torno do ar e da terra, e que já não são capazes de subir ao supraceleste, e as almas dos gigantes são os demônios, que andam errantes ao redor do mundo e produzem movimentos semelhantes; os demônios às substâncias que receberam, os anjos aos desejos que sentiram. Quanto ao príncipe da matéria, como se pode ver pela experiência, ele governa e administra de modo contrário à bondade de Deus: "Muitas vezes, uma preocupação atravessou a minha alma. Se é o acaso, se é demônio que domina o humano, pois contra a esperança, contra a justiça, alguns são arrancados de suas casas, sem Deus, e outros são levados à felicidade." Se o ser feliz ou desgraçado contra a esperança e a justiça deixa mudo Eurípedes, de quem será uma administração das coisas terrenas, diante da qual se pode dizer: "Vendo tudo isso, como diremos que a raça dos deuses existe ou obedeceremos às leis?" Isso também levou Aristóteles a dizer que as partes inferiores do céu não são governadas pela providência, mas a verdade é que a providência eterna de Deus permanece para nós de modo igual: "A terra, queira ou não queira, por força, produzindo erva, engorda os meus rebanhos", e a providência particular chega de fato e não em aparência para os que são dignos, e os outros são providos conforme a constituição comum das coisas, por lei da razão. O que acontece é que os movimentos demoníacos do espírito contrário e suas operações produzem esses impulsos desordenados que vemos arrastar os homens, uns de um modo, outros de outro, alguns individualmente, outros por nações, alguns parcialmente, outros em comum, segundo a razão da matéria e da simpatia com o divino; movimentos do interior, como do exterior, que obrigaram alguns, cujas opiniões não são desprezíveis, a pensar que todo este universo não está organizado com ordem, mas que tudo anda revirado por um acaso irracional. Eles ignoram que, quanto à constituição do universo, não existe nada desordenado, nem descuidado, mas cada parte sua foi feita com razão e, por isso, nenhuma transgride a ordem que lhe foi marcada. Quanto ao homem, se se olha para o seu Criador, também foi feito ordenadamente: a natureza de sua origem, que tem uma só e comum razão; a organização de sua formação, que não pode transgredir a lei que a rege; e o termo de sua vida, que permanece igual e comum para todos, embora, segundo a razão própria de cada um e a ação do príncipe da matéria que o domina e dos demônios que o acompanham, cada um se dirija e se mova de modo diverso, apesar de todos terem em si o raciocínio comum.
26. Aqueles que os arrastam aos ídolos são esses demônios dos quais falamos, os que andam em torno do sangue das vítimas e o lambem; mas os deuses que agradam o vulgo e dão o seu nome às estátuas foram apenas homens, como se pode averiguar pelas histórias que deles tratam. A prova de que são os demônios que usurpam seus nomes está na operação que cada um exerce. De fato, aqueles que cultuam Rea, mutilam o próprio membro viril; outros, os de Ártemis, fazem cortes ou incisões em si mesmos; a de Tauros mata estrangeiros. Deixo de falar sobre os que se torturam com punhais e correias de ossos, e tantas outras espécies de demônios. Não é próprio de Deus incitar a atos contra a natureza: "Quando um demônio quer fazer mal a um homem, primeiro lhe prejudica a inteligência." Deus, porém, que é absolutamente bom, é eternamente benéfico.
Que sejam uns que agem e outros em cuja honra se erguem as estátuas, temos uma prova definitiva em Tróia e Pário. A primeira tem estátuas de Nerilino, contemporâneo nosso; Páris tem estátuas de Alexandre e Proteu. Há ainda na ágora ou praça pública o sepulcro e a estátua de Alexandre. Ora, as outras estátuas de Nerilino servem de ornamento público, se é que com tais coisas se orna uma cidade. Crê-se, porém, que uma delas dá oráculos e realiza curas e, por isso, os troianos lhe oferecem sacrifícios, a ungem e a coroam de ouro. Quanto às estátuas de Alexandre e Proteu (não ignorais que este se atirou ao fogo em Olímpia), diz-se também que uma emite oráculos, e a estátua de Alexandre - "Páris malfadado, brava figura, mulherengo" -também são oferecidos sacrifícios e celebradas festas, como a deus propício. De fato, são Nerilino, Proteu e Alexandre que realizam esses prodígios nas estátuas ou é a constituição da matéria? Mas a matéria é puro bronze. Que é que o bronze pode por si mesmo, se se pode transformá-lo em outra figura, como fez Amásis, segundo Heródoto, com a bacia para os pés? E o que é que Nerilino, Proteu e Alexandre têm a ver com os enfermos? O que se diz que a estátua realiza agora, o fazia quando Nerilino vivia e até quando estava enfermo.
27. O que pensar, então? Primeiramente, os movimentos irracionais e fantásticos da alma sobre as aparições arrancam da matéria algumas vezes uma imagem, outras vezes outras imagens, e outras são formadas e geradas por eles mesmos. E isso padece a alma principalmente quando recebe o espírito material, com ele, e já não olha para cima, para o celeste e seu Criador, mas para baixo, para o terreno e, para fazê-lo de modo geral, quando se converte em pura carne e sangue e não em espírito limpo. Esses movimentos irracionais e fantásticos da alma geram imagens de frenética idolatria; e quando a alma, delicada e fácil de conduzir, que não ouviu nem tem experiência de sólidas doutrinas, que não contemplou a verdade nem compreendeu o Pai e Criador do universo, se imprime em si essas falsas opiniões sobre si mesma, os demônios que rondam a matéria, gulosos como são de gordura e sangue das vítimas e enganadores dos homens, apoderando-se desses movimentos de falsa opinião das almas do vulgo, fazem que fantasias se infiltrem neles, como se viessem das imagens cujos nomes usurpam, e são eles que colhem a glória do que a alma por si mesma, imortal como é, e se move racionalmente, ora para predizer o futuro, ora para curar o presente.
28. Talvez seja necessário, conforme anteriormente indicado, dizer algo também sobre os nomes. Heródoto e Alexandre, filho de Filipe, na carta à sua mãe-diz-se que tanto um como o outro conversaram com os sacerdotes em Heliópolis, Mênfis e Tebas -dizem ter sabido deles que seus deuses foram homens. Heródoto diz: "Tais demonstraram que eram aqueles que as estátuas representavam, mas muito diferentes dos deuses; antes desses homens, os deuses mandaram no Egito, vivendo junto aos humanos, e era sempre um deles que retinha o poder, e o último rei foi Horo, filho de Osíris, a quem os gregos chamam de Apolo. Este, tendo destronado Tifão, foi o último que reinou no Egito. Osíris, em grego, é Dioniso".
Assim, portanto, tanto os outros como o último, foram reis do Egito, e os nomes dos deuses vieram dos egípcios para os gregos. Apolo é filho de Dioniso e de Ísis. O próprio Heródoto diz: "Dizem que Apolo e Ártemis são filhos de Ísis e que Leto foi sua nutriz e salvadora". Daí se vê que os primeiros reis, de origem celeste como eram, seja por ignorância da verdadeira piedade para com a divindade, seja por gratidão para com o seu poder, foram tidos, como deuses junto com suas mulheres. "Agora todos os egípcios sacrificam bois puros, assim como os bezerros; as vacas, porém, não lhes é lícito sacrificá-las, mas estão sacrificadas a Isis. Com efeito, a estátua de Ísis, que representa numa mulher, tem chifres, da maneira como os gregos pintam Io". E o que se poderia crer melhor ao dizer isso, senão naqueles que por sucessão de família, o filho do pai, herdam o sacerdócio e juntamente a história? De fato, não é verossímil que os guardiães dos templos mintam, que tenham interesse em exaltar seus ídolos, ao apresentá-los como homens.
Se Heródoto disse que os egípcios falam de seus deuses como de homens, quando o próprio Heródoto diz: "Não estou disposto a divulgar os relatos divinos que escutei", não há a mais leve razão para não crer nele, como se fosse um inventor de mitos. Mas como Alexandre e Hermes, o chamado Trismegisto, e tantos outros mais, não fazendo a enumeração de todos, que uniram suas próprias famílias com os deuses, já não há razão para não pensar que, sendo homens, foram tidos como deuses. Que eles foram homens, o manifestam os mais eruditos entre os egípcios, os quais, ao chamar de deuses o éter, a terra, o sol e a lua, consideram os demais como homens mortais e os templos como seus sepulcros; isso manifesta também Apolodoro em seu tratado sobre os deuses. Além disso, Heródoto chama de mistérios os sofrimentos deles: "Já narrei anteriormente como celebram a festa em honra de Ísis na cidade de Busíris. Todos, homens e mulheres, se golpeiam depois do sacrifício, e a fé que milhares de pessoas ali depositam. Todavia, não é piedoso que eu lhes diga a maneira como se golpeiam". Se são deuses, são imortais; mas se se golpeiam e seus sofrimentos são mistérios, são homens. O próprio Heródoto diz: "Em Sais, no templo de Atenas, por detrás e seguindo ao longo da parede, está o sepulcro do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião. Ali há também, junto ao sepulcro, um lago com bordas de pedra, bem trabalhado e circular, ao que me parece com a mesma extensão do que em Delos se chama Trocóides. Nesse lago, durante a noite, fazem-se as representações de seus sofrimentos, que os egípcios chamam de mistérios". Não só se expõe o sepulcro de Osíris, mas também a sua múmia: "Quando se lhes leva um cadáver, mostramse aos portadores modelos de mortos em madeira, imitados pela pintura; e dizem que a mais exata delas é a do deus, cujo nome não considero piedoso pronunciar na presente ocasião.
29. Também os sábios gregos, poetas e historiadores, contam a respeito de Héracles: "Cruel! Não respeitou a ira dos deuses, nem a mesa que lhe pusera, e depois matou seu próprio hóspede", isto é, Ifito. Sendo assim, é natural que fosse louco, natural que acendesse uma fogueira e se queimasse vivo. De Asclépio, Hesíodo conta que: "o pai dos homens e dos deuses se irritou, e acertando-o do Olimpo com raio fuliginoso, matou Letoida, perturbando o coração de Tebo". E Píndaro diz: "Mas até a sabedoria é atada pelo lucro. Também ele foi desviado pelo ouro que apareceu em sua mão por doce recompensa; mas o filho de Cronos, disparando com suas mãos, arrebatou-lhe velozmente o alento do peito, e o ardente raio feriu o insensato".
Portanto, ou eram deuses e não se comportavam como homens em relação ao ouro: "Ouro, o mais belo presente para mortais, prazer que nem uma mãe ou os filhos ofereceu". A divindade não tem necessidade, e está acima do desejo. Também não morreram. Ou, sendo homens, foram maus por ignorância e se deixaram dominar pelo dinheiro. Para que falar amplamente, recordando Cástor e Pólux ou Anfiaseu, os quais, sendo, como se diz, homens de ontem ou ante-ontem, são considerados deuses? A própria Ino, depois de sua loucura e o que nela sofreu, dizem que se transfomou em deusa: "aqueles que caminham errantes pelo Ponto, a chamam Leucotéia", assim como seu filho: "será chamado augusto Palêmon pelos marinheiros".
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