Veritatis Splendor - LIVRO I

LIVRO I

Por Santo Agostinho

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DA INFÂNCIA AOS QUINZE ANOS

 

1.    INVOCAÇÃO A DEUS

 

1     Grande és tu, Senhor, e sumamente louvável: grande a tua força, e atua sabedoria não tem limite (1). E quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação; o homem carregado com sua condição mortal, carregado com o testemunho de seu pecado (2) e com o testemunho de que resistes aos soberbos (3); e, mesmo assim, quer louvar-te o homem, esta parcela de tua criação. Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te ; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti (4). Dá-me, Senhor, saber e compreender (5) qual seja o primeiro: invocar-te ou louvar-te; conhecer-te ou invocar-te (6). Mas, quem te invocará sem te conhecer? Por ignorá-lo, poderá invocar alguém em lugar de outro. Ou será que é melhor seres invocado, para seres conhecido? Como, porém, invocarão aquele a quem não crêem? E como terão fé sem ter quem anuncie? (7) Louvarão o Senhor aqueles que o procuram (8). Quem o procura o encontra (9), e, tendo-o encontrado, o louvará. Que eu te busque, Senhor, invocando-te; e que eu te invoque, crendo em ti: tu foste anunciado. Invoca-te, Senhor, a minha fé, que me deste, que me inspiraste pela humanidade de teu Filho, pelo ministério de teu pregador.

 

1. Sl 48 (47),2;96(95),4;145(144),3;147(146),5.

2. Cf. 2Cor 4,10; Rm 7,17.23

3. Pr 3,34; Tg 4,6; 1Pd 5,5

4. A frase tornou-se célebre. Com a "confissão", isto é, a celebração da grandeza do amor de Deus, Agostinho abre o livro em que se confessa pecador O homem se converte, encontra-se a si mesmo, sua plena realização repousando na medida em que busca o Amor, que é Deus.

5. Cf. Sl 119(118),34 73 144

6. Cf. De Trin. 9,1;13,5.8

7. Rm 10, 14

8. Sl 22(21),27

9. Cf. Mt 7,8; Lc 11,10

 

2.    COMO E PORQUE INVOCAR DEUS?

 

2      E como invocarei o meu Deus, ó meu Deus e meu Senhor? Pois, ao invocá-lo, eu o chamarei para dentro de mim (1). Que lugar haverá em mim, onde o meu Deus possa vir? Onde virá Deus em mim, o Deus que fez o céu e a terra (2)? Há, então, Senhor meu Deus, algo em mim que te possa conter? E o céu e a terra, que fizeste e nos quais me fizeste, são eles capazes de te conter? Ou então, visto que sem ti nada existe daquilo que existe, será que tudo que existe te contém? Portanto, já que eu de fato existo, porque tenho de pedir tua vinda a mim, a mim que não existiria se não estivesses em mim? Eu ainda não estive nas profundezas da terra e, no entanto, tu aí também estás. Pois, mesmo que eu desça às profundezas da terra, aí estás (3). Pois eu não existiria, meu Deus, eu de forma alguma existiria, se não estivesses em mim (4). Ou melhor, eu não existiria se não existisse em ti, de quem tudo, por quem tudo, em quem todas as coisas existem? (5) É assim, Senhor, é assim mesmo. Para onde te chamo, se já estou em ti? De onde virias para estares em mim? Para onde me afastaria, fora do céu e da terra, para que daí viesse a mim o meu Deus, que disse: o céu e a terra estão cheios da minha presença? (6).

 

1. "Invocar" pode significar súplica a uma pessoa, ou convite para ela entrar. Agostinho joga com a responsabilidade desse duplo sentido.

2. Gn 1,1;2Cr 2,11

3. Sl 139(138),8; cf. Enarr. in Sl. 138,8

4. Cf. De Gen. ad litt, 4,12ss

5. At 17,28; Rm 11,36; 1Cor 8,6

6. Jr 23,24

 

3.    DEUS ESTÁ EM TODAS AS COISAS E NENHUMA O CONTÉM

 

3      Portanto, cabes tu no céu e na terra, visto que os enches com a tua presença? Ou, enchendo-os, resta ainda alguma parte de ti, por não te conterem? Por onde difundes o que resta de ti, depois de repletos o céu e a terra? Ou não tens necessidade de ser contido em alguma coisa, tu que tudo conténs, visto que as coisas que enches, as ocupa contendo-as? (1) Não são, pois, os vasos cheios de tu que te tornam estável porque, ainda que se quebrem, não te derramas; e quando te derramas sobre nós (2) não és tu que te baixas, mas nós que somos elevados a ti; não te dispersas, mas nos recolher a nós.

 

       Mas tu, que tudo enches, o fazes com todo o teu ser. E já que o universo inteiro não pode conter todo o teu ser, conterá somente uma parte? E todos os seres conterá a mesma parte, ou cada um conterá uma, os seres maiores a parte maior, os menores a menor? Mas há em ti partes maiores e partes menores? Ou estás inteiro em toda parte, e nada existe que te contenha inteiramente? (3).

 

1. Deus "contém" todas as coisas, no sentido de que conserva, sustenta, dá ânimo, vida e força a tudo.

2. Cf. Gl 2,28; At 2,17s; Tt  3,6

3. Cf. Epist. 13,2,4; Serm. 42,5,15

 

4.    DEUS É INEFÁVEL

 

4      O que és, portanto, meu Deus? O que és, pergunto eu, senão o Senhor meu Deus? "Quem é, pois, senhor, senão o Senhor? Ou quem é deus, senão o nosso Deus?" (1). Ó altíssimo, infinitamente bom, poderosíssimo, antes todo-poderoso, misericordioso, justíssimo, ocultíssimo, presentíssimo, belíssimo e fortíssimo, estável e incompreensível, imutável que tudo muda, nunca novo (2) e nunca antigo, tudo inovando (3), conduzindo à decrepitude os soberbos, sem que disto se apercebam (4), sempre em ação e sempre em repouso, recolhendo e de nada necessitando; carregando, preenchendo e protegendo, criando, nutrindo e concluindo; buscando ainda que nada te falte. Amas, e não te apaixonas; tu és cioso (5), porém tranqüilo; tu te arrependes (6) sem sofrer; entras em ira (7), mas és calmo; mudas as coisas sem mudar o teu plano; recuperas o que encontras sem nunca teres perdido; nunca estás pobre, mas te alegras com os lucros; não és avaro e exiges os juros (8); nós te damos em excesso (9), para que sejas nosso devedor. Mas, quem possui alguma coisa que não seja tua? (10) Pagas as dívidas, sempre que devas a ninguém, e perdoas o que te é devido, sem nada perderes.

 

       Mas, que estamos dizendo, meu Deus, vida da minha vida, minha divina delícia? Que consegue dizer alguém quando fala de ti? Mas ai dos que não querem falar de ti, pois são mudos que falam.

 

1. Sl 18(17),32

2. É novo quem adquire algo que antes não possuía; portanto, quem é perfectível.

3. Cf. Sb 7,27; Ap 21,5

4. Jó 9,5; Adnot. in Job 9

5. Cf. Gl 2,18; Zc 1,14;8,2

6. Cf. Gn 6,6s

7. Ex 4,14

Cf. Mt 25,27

9. Lc 10,35

10 Cf. Tract. in Joann. 5,1

 

5.    DESEJO DE DEUS

 

5      Quem me fará descansar em ti? Quem fará com que venhas ao meu coração e o inebries a ponto de eu esquecer os meus males, e me abraçar a ti, meu único bem? Que és para mim? (1) Tem misericórdia, para que eu fale. Que sou eu aos teus olhos, para que me ordenes amar-te e, se eu não o fizer, te indignares (2) e me ameaçares com imensas desventuras? Como se o não te amar já fosse desgraça pequena! Dize-me, por compaixão, Senhor meu Deus, o que é tu para mim? Dize à minha alma: Eu sou a tua salvação (3). Dize de forma que eu te escute. Os ouvidos do meu coração estão diante de tu, Senhor; abre-os e dize à minha alma: Eu sou a tua salvação. Correrei atrás destas palavras e te segurarei. Não escondas de mim a tua face (4): que eu morra para contemplá-la e para não morrer!

 

6      Minha alma é morada muito estreita para te receber: será alargada por ti, Senhor. Estás em ruínas: restaura-a! Tem coisas que ofendem aos teus olhos: eu o seu e confesso . Mas quem pode purificá-la? A quem, senão a ti, eu clamarei: Purifica-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoa a teu servo as culpas alheias? (5) Creio, e por isso falo, Senhor (6): tu o sabes. Não te confessei contra mim as minhas faltas, meu Deus, e não perdoaste a maldade do meu coração? (7) Não discuto contigo (8), que és a verdade, e não quero enganar a mim mesmo, para que a minha iniqüidade não minta a si mesmo (9). Não discuto contigo porque, se te lembrares de nossos pecados, Senhor, quem suportará teu olhar? (10)

 

1. Cf. De Trin. 7,4

2. Cf. Sl 85(84),6

3. Sl 35(34),3

4. Cf. Dt 31,17;32,20

5. Sl 19 (18),13-14

6. Cf. Sl 116(115),10

7. Sl 32(31),5

8. Cf. Jó 9,3; Jr 2,29

9. Cf. Sl 27(26),12

Cf. Sl 130(129),3

 

6.    MISTÉRIO DA NATUREZA HUMANA E SUA FINITUDE. DEUS É ETERNO

 

7      Deixa, no entanto, que eu fale diante de tua misericórdia, eu que sou pó e cinza (1); deixai-me falar, já que à tua misericórdia me dirijo, e não a um homem pronto a escarnecer de mim. Talvez também tu te rias de mim (2). Mas se olhares para mim, terás misericórdia. Que pretendo dizer, Senhor meu Deus, senão que não sei de onde vim para cá, para esta vida mortal, ou antes, para esta morte vital? Não sei. Mas fui escolhido pelas consolações de tua misericórdia; assim me disseram meus pais: de um me tiraste e de outro me formaste no tempo; eu de fato não me lembro. Acolhera-me, então, as doçuras do leite humano; mas não eram minha mãe nem minhas amas que enchiam os seus seios. Eras tu, Senhor, que me davas por meio delas o alimento da infância, segundo o plano pelo qual dispuseste todas as riquezas até o mais profundo das coisas. Fazias também com que eu não desejasse mais do que me davas, e às minhas amas que não me quisessem dar senão o que lhes concedias: movidas por afeição desordenada, davam-me aquilo de que tinham em abundância, graças a ti. O bem, delas recebido, era para elas igualmente um bem, do qual não eram elas a origem, mas intermediárias dele; porque de ti, ó Deus, me vêm todos os bens, e do meu Deus toda a minha salvação! Percebi isso mais tarde, quando bradaste através desses mesmos dons que interior e exteriormente concedes. Mas, então, eu nada mais sabia senão sugar o leite, aquietar-me com o que agradava aos meus sentidos, e chorar o que importunava a minha carne (3), e nada mais.

 

8      Em seguida, comecei também a rir, primeiro enquanto dormia, depois acordado. Destas ações fui informado e nelas acreditei pelo exemplo dados pelas outras crianças. Eu mesmo nada lembro daquele tempo. Pouco a pouco ia reconhecendo o lugar onde me encontrava, e queria manifestar meus desejos às pessoas que deviam satisfazê-los, mas não conseguia, porque eles estavam dentro de minha alma e elas estavam fora, e através de nenhuma percepção teriam podido penetrar no âmago de minha alma. E assim eu me debatia e gritava, exprimindo uns poucos sinais proporcionais aos meus desejos, como eu podia e de maneira inadequada. Se não era obedecido, ou porque não me entendiam ou por medo de me fazerem mal, eu me indignava com essas pessoas grandes e insubmissas que, sendo livres, recusavam ser escravas, chorando, eu me vingava delas. Assim são as crianças, como depois pude observar. Inconscientemente elas me informam daquilo que eu tinha sido, melhor que os meus competentes educadores.

 

9      Minha infância morreu há muito tempo, e eu ainda vivo. Mas tu, Senhor, que estás sempre vivo e em quem nada morre, - pois és anterior ao começo dos séculos e a tudo o que se possa dizer anterior, - tu és Deus e Senhor de tudo o que criaste. Em ti permanecem estáveis as causas de todas as coisas instáveis, permanecem imutáveis os princípios de todas as coisas mutáveis, permanecem eternas as razões de tudo que é temporal e irracional. Dize-me Senhor, eu te suplico, tu que tens compaixão da minha miséria, dize-me se a minha infância sucedeu a outra vida já morta; se tal idade não seria o tempo passado nas entranhas de minha mãe. Pois, alguma coisa me revelaram dessa vida, e eu mesmo vi mulheres grávidas. Mas antes disso, que era eu, meu Deus, ó minha doçura? Existi, porventura, em qualquer outra parte, fui alguém? (4) Não tenho ninguém que saiba responder a essas perguntas: nem meu pai, nem minha mãe, nem a experiência de outrem, nem a minha memória. Sorris, talvez, de minhas perguntas, tu que ordenas louvar-te e glorificar-te apenas pelas coisas que conheço!

 

10     Eu te glorifico, Senhor do céu e da terra (5), louvando-te por meu nascimento e pela infância, da qual não me lembro; concedeste ao homem a possibilidade de reconstruir o próprio passado pelo que vê dos outros homens, e de acreditar em muitas ações também pelo testemunho de humildes mulheres. Eu já existia, era vivo então, e no fim da minha infância já procurava a maneira de manifestar aos outros os meus sentimentos. De onde poderia vir tal criatura, senão de ti, Senhor? (6) Alguém pode ser autor de sua própria criação? E de onde pode surgir em nós a fonte do ser e da vida, senão de ti, Senhor (7), para quem, existir e viver não são realidades distintas, pois o supremo existir e o supremo viver é uma coisa só?

 

       És tu o ser supremo, e não mudas (8). Em ti o dia de hoje não passa, e no entanto passa por ti, pois todas as realidades deste mundo residem em ti (9); e não teriam meios de passar, se tu não as contivesses. E porque teus anos não têm fim (10), os teus anos são o dia de hoje; quanto dos dias nossos e dos nossos pais já passaram por este teu hoje, e dele receberam a medida e o modo de existir, e quantos ainda passarão e receberão a medida e o modo de sua existência! Tu, porém, és o mesmo eternamente (11), e todas as coisas de amanhã e do futuro, de ontem e do passado, hoje as farás, hoje as fizeste!

 

       Que posso fazer, se alguém não compreende? Que exulte, dizendo: que mistério é este? (12) Que exulte e prefira encontrar-te, não te compreendendo, a não te encontrar, compreendendo (13).

 

1. Gn 18,27

2. Cf. Sl 2,4;37(36),13; Sb 14,18

3. Cf. Sb 7,3

4. Alude à doutrina da pré-existência da alma. Agostinho sofreu forte influência da filosofia neoplatônica, que ensinava essa doutrina.

5. Mt 11,25

6. Cf. De immori. animae 6,11

7. Cf. Sl 100(99),3

8. Ml 3,6

9. Cf. Rm 11,36; Confess XI,1; Enarr. in Ps. 9,11

10. Cf. Sl 102(101),28; Enarr. in Ps. 101,2,10.

11. Sl 102(101),28; Hb 1,12

12. Ex 13,14

13. É melhor não pretender a compreensão de tudo, ou seja, a presunção de haver compreendido a Deus, sem tê-lo encontrado realmente: na verdade, é amando que a gente encontra e compreende a Deus.

 

7.    AGOSTINHO RECORDA OS PECADOS COMETIDOS NA INFÂNCIA

 

11     Ouve-me Senhor! Ai dos pecados dos homens! É uma homem que assim fala; e dele te compadeces, porque és o seu Criador, e não o autor do seu pecado. Quem me poderá lembrar os pecados cometidos na infância, já que ninguém há que diante de ti seja imune ao pecado, nem mesmo o recém-nascido com um dia apenas de vida sobre a terra? (1) Quem, senão um pequerrucho, onde vejo a imagem daquilo que não lembro de mim mesmo? Qual era então o meu pecado? Seria talvez o de buscar avidamente, aos berros, os seios da minha mãe? Se mostrasse hoje a mesma avidez, não pelo seio materno, é claro, mas pelos alimentos próprios da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado. Meu procedimento era então repreensível, mas como não teria podido compreender as reprimendas, nem a razão nem os costumes permitiam que eu fosse reprovado. Como o crescer dos anos, extirpamos e atiramos fora tais defeitos, e nunca vi ninguém que, para cortar o mal, rejeitasse conscientemente o bem! Ou seria justo, mesmo tendo em conta a idade, exigir chorando o que seria prejudicial, indignar-se com violência contra homens adultos e de condição livre, e contra os pais e outras pessoas sensatas que não aceitavam satisfazer a certos desejos? Seria justo fazer todo o possível para prejudicá-los, porque eles não se prestavam a obedecer a ordens que seriam nocivas? Portanto, a inocência das crianças reside na fragilidade dos membros, não da alma. Vi e observei bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada para o seu irmão de leite. Quem já não observou esse fato? Dizem que as mães e amas têm não sei que remédio para eliminar tais defeitos; sem dúvida não é inocente a criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um irmão embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida. No entanto, tais fatos são tolerados com indulgência, não por serem de pouca ou nenhuma importância, mas porque desaparecerão ao correr dos anos. Prova disso é que nos irritamos contra tal procedimento, quando o surpreendemos em pessoa de mais idade.

 

12     E tu, Senhor meu Deus, que à criança deste a vida e um corpo, como se vê, dotado de sentido, composto de membros, ornado de beleza, e lhe insuflaste os impulsos vitais para defender a sua própria integridade, ordenas que eu te louve por todas as obras, que te celebre e cante o teu nome, ó Altíssimo (2), porque és o Senhor onipotente e bom, ainda que somente essas coisas tivesses criado. Nenhum outro as pode fazer, senão tu, ó Deus único, de quem promana toda harmonia, ó forma perfeita, que formas todas as coisas e que tudo ordenas de acordo com as tuas próprias leis.

 

       Por isso, Senhor, não me agrada considerar, como parte integrante da minha vida terrena, essa idade que não lembro ter vivido, a respeito da qual creio no que me dizem os outros e nas conjecturas, aliás muito bem fundadas, que formei ao observar outras crianças. Esse tempo de memória envolto em trevas encontra paralelo na época em que vivi no seio materno. E se fui concebido na iniqüidade, e no pecado me alimentou a minha mãe no seu seio (3), onde foi, eu te suplico, meu Deus, onde foi, meu Senhor, eu teu servo, onde e quando foi que estive inocente? (4) Mas deixemos de lado esse tempo; que tenho eu a ver com ele, se dele não conservo o menor vestígio?

 

1. Aflora aqui a visão pessimista de Agostinho sobre a natureza humana corrompida: até os atos instintivos da criança são visto como manifestações da concupiscência.

2. Sl 92 (91),2

3. Sl 51(50),7

4. Cf. De Civ. Dei 21,16

 

8.    COMO APRENDE A FALAR

 

13      Da infância caminhando para o ponto onde estou, passei à meninice, ou melhor, ela chegou a mim em seguimento à infância. Esta não se afastou: para onde poderia ir? No entanto, não mais existia. De fato, eu não era mais uma criança, incapaz de falar, e sim, um menino muito conversador; disto eu me lembro. E compreendi mais tarde como aprendi a falar: não eram os adultos que me ensinavam as palavras segundo um método preciso, como o fizeram mais tarde para me ensinarem as letras, era eu por mim mesmo, graças à inteligência que tu, Senhor, me deste, era eu que procurava através de gemidos, gritos e gestos vários, manifestar os sentimentos do coração, para que fizessem minhas vontades. Eu só o que não conseguia era fazer-me entender de todo e por todos. Procurava guardar na memória os nomes que ouvia darem às coisas; e vendo que as pessoas, conforme esta ou aquela palavra, se dirigiam para este ou aquele objeto, eu observava e lembrava que a esse objeto correspondia o som que produzia quando queriam mostrar esse objeto. Então eu compreendia o que os outros queriam pelos movimentos do corpo, linguagem por assim dizer natural, comum a todos os povos e que se manifesta pela expressão do rosto, pelos movimentos dos olhos, pelos gestos dos demais membros e pela entonação da voz, indicadores dos estados de espírito, quando alguém pede determinada coisa ou quer possuí-la, quando a rejeita ou quer evitá-la. Desse modo, à força de ouvir as mesmas palavras, pelo lugar que ocupavam nas frases, pouco a pouco eu chegava a compreender de que coisas elas eram os sinais, e ia acostumando a boca a pronunciá-las, servia-me delas para exprimir meus desejos, e desse modo entrei mais profundamente na tormentosa sociedade dos homens, sob a autoridade de meus pais e dos mas velhos (1).

 

1.  Não é supérfluo salientar a habilidade de Agostinho em observar e descrever o desenvolvimento físico e psicológico da criança, as influências externas que esta sofre, e a parte que tem a atividade espontânea da alma, no seu desenvolvimento. Isso foi admirado até por Harnack: Augustin Konfessionen, Giessen, 1904.

 

9.    FALTA DE INTERESSE PELO ESTUDO; CASTIGO E ZOMBARIA DOS EDUCADORES

 

14      Ó Deus, meu Deus, que sofrimentos e desilusões padeci, quando ao menino que eu era propunham que o ideal da vida era obedecer aos mestres para prosperar neste mundo, para granjear, com a arte da palavra, o prestígio dos homens e as falsas riquezas! Fui enviado à escola para aprender as primeiras letras. Para minha infelicidade, não entendi a utilidade desse trabalho; mas, se me mostrava preguiçoso, era castigado à vara. Era um sistema recomendado pelos adultos, e muitas crianças antes de nós, que tiveram essa experiência, haviam aberto o doloroso caminho que agora éramos obrigados a percorrer, multiplicando os trabalhos e dores dos filhos de Adão (1). Por outro lado, Senhor, encontramos também homens de oração e deles aprendemos, na medida que nos era possível, a compreender que existe um ser grande, capaz de nos ouvir e socorrer, embora imperceptível aos nossos sentidos. Assim, ainda menino, comecei a dirigir-me a ti, como a meu rochedo e meu refúgio (2); rompiam-se em mim os nós da língua, ao invocar-te; era pequeno ainda, mas era grande o fervor com que eu te implorava para que me evitasses os castigos na escola. E quando não me atendias - o que era para meu bem (3) - os adultos e até os meus próprios pais que não me desejavam o menor mal, riam-se dos açoites, o que constituía então para mim grande e profundo sofrimento.

 

15      Haverá, Senhor, alma tão generosa e tão unida a ti por extraordinário amor (o que na realidade pode ser efeito de uma espécie de loucura), existirá alguém que nesse afeto encontre tal força, que venha a desprezar os cavaletes, aguilhões e demais torturas semelhantes àquelas que em toda parte da terra os homens aterrorizados te pedem que lhes evites; haverá alguém que se ria dos que temem esse suplício, como meus pais zombavam das penalidades que a nós, meninos, infligiam nossos mestres? Para mim, tais castigos não pareciam menos temíveis que as torturas, e não pedia com menos fervor que deles fôssemos poupados. No entanto, continuávamos a cometer faltas, escrevendo, lendo e estudando menos do que se exigia de nós. Não que nos faltasse memória ou inteligência, pois nos dotaste, Senhor, com o suficiente para a nossa idade. O fato é que gostávamos de nos divertir, e o mesmo faziam, é verdade, aqueles que nos castigavam. Mas as distrações dos adultos chamam-se negócios, enquanto que as dos meninos, embora da mesma natureza, são punidas pelos adultos, sem que ninguém se compadeça da criança, nem do homem, nem de ambos. Poderia um juiz reto aprovar os castigos que me davam, porque eu, em pequeno, jogava bola, e o jogo era obstáculo ao rápido aproveitamento nos estudos, que mais tarde serviriam para folguedos bem menos inocentes? Agia porventura de modo diferente aquele que me batia? Se vencido por um colega de magistério em alguma discussão fútil, era roído pela raiva e pela inveja, mais do que eu quando derrotado por um companheiro num jogo de bola.

 

10.    PREFERE O JOGO E O TEATRO AO ESTUDO

 

16      No entanto, é verdade que eu pecava, Senhor meu Deus, ordenador e criador de tudo o que existe na natureza, com exceção do pecado, de que é apenas regularizador (1). Eu pecava, Senhor Deus meu, agindo contra as disposições dos pais e dos mestres, pois podia no futuro fazer bom uso desses conhecimentos que eles queriam que eu adquirisse, qualquer que tenha sido o motivo que os movia a isso. E eu desobedecia não para fazer coisa melhor, mas pelo amor ao jogo, amando nas disputas o orgulho da vitória, e amava também essas histórias frívolas, que tanto me deleitava os ouvidos, com uma curiosidade que a cada dia brilhava aos meus olhos com os espetáculos (2) e jogos dos adultos. No entanto, os que presidem tais jogos sobressaem tanto em prestígios, que quase todos desejam para seus filhos essa honra. Nem se preocupam se os filhos, distraídos pela atividade teatral, são punidos por se afastarem do estudo que, segundo os desejos deles, permitirá a estes mais tarde, organizar espetáculos semelhantes. Olha, Senhor, com misericórdia para essas contradições; socorre os que te invocam, e socorre também aqueles que não te invocam, a fim de que também eles o façam e sejam libertados.

 

1. Cf. De Civ. Dei 14,26; De Gen. ad litt. 3,4,37

2. Cf. De Civ. Dei 1,32; Enarr. in Sl 147,7

 

11.    ADIAMENTO DO BATISMO

 

17      Eu tinha ouvido falar, ainda criança, da vida eterna a nós prometida, graças à humildade do Senhor nosso Deus, que desceu até a nossa soberba. Fui marcado pelo sinal da cruz e recebi o sal divino, apenas saído do seio de minha mãe (1), que em ti depositava todas as suas esperanças. Senhor, tu viste que eu, ainda criança, fui um tomado por febre alta, motivada por uma disfunção do estômago, e estive às portas da morte; tu viste, Senhor, pois já eras então o meu protetor, com que ardor e com que te implorei à piedade de minha mãe e de nossa mãe comum - a tua Igreja - o batismo de Cristo, meu Deus e Senhor. Minha mãe carnal, muito perturbada, que na sua fé e coração puro me gerava com maior solicitude para a vida eterna, apressava-se em iniciar-me e purificar-me nos sacramentos da salvação, para que, confessando-te, Senhor Jesus, eu pudesse obter a remissão dos pecados. Eis que improvisamente melhorei. Essa purificação foi então adiada, como se fosse inevitável que, vivendo, devesse continuar a corromper-me, sem dúvida porque se pensava que a responsabilidade pelas faltas cometidas depois do batismo é ainda mais grave e perigosa. Nessa época, eu já tinha fé, como minha mãe e toda a minha família, com exceção apenas de meu pai. Seu exemplo, porém, não predominou em mim contra os direitos da piedade materna, e não me induziu a não crer em Cristo, no qual ele ainda não acreditava. Minha mãe desejava ardentemente que fosses meu pai, tu meu Deus, mais do que ele, e tu neste ponto a ela ajudavas para prevalecer sobre o marido, ao qual  se dedicava, embora mais virtuosa que ele, pois, obedecendo a ele, era às tuas ordens que ela obedecia (2).

 

18      Rogo-te, meu Deus, que me mostres - se nisso consentes - por qual desígnio foi adiado o meu batismo: as rédeas do pecado me foram soltas, por assim dizer, para o meu bem, ou não? Por esse motivo é que ainda hoje ouvimos dizer deste ou daquele: "Deixe que ele faça o que quiser: ainda não foi batizado!" Mas, em relação à saúde do corpo, não dizemos: "Deixe que se fira mais, pois ainda não foi curado!" Quando teria sido preferível para mim ser logo curado e esforçar-me, eu e os meus, para conservar intacta a saúde da minha alma, sob a proteção que me terias dado! Sem dúvida teria sido melhor. Minha mãe, porém, já previra quantas e quão grandes ondas de tentações ameaçariam minha juventude; e preferiu expor a elas o barro do meu ser, que poderia tomar um dia a forma do homem novo, mas não expor a minha imagem já feita (3).

 

1. Alude aos ritos com que se introduzia o recém-nascido entre os catecúmenos, e que seriam mais tarde inseridos pela Igreja no rito do batismo. Cf. De catech. rud. 26,50. O catecúmeno já era membro da Igreja, mas só era admitido aos sacramentos depois de um longo período de instrução, coroado pelo batismo.

2. Cf. 1Cor 11,3; Ef 5,22

3. A mãe de Agostinho preferiu adiar o batismo do filho para a idade madura, a fim de que se apagasse as culpas da juventude; não queria que o menino, já batizado, maculasse no pecado a imagem do cristão.

 

12.    DEUS TIRA O BEM ATÉ DO MAL

 

19      No entanto, nesse período da meninice, que a meu respeito suscitava menores apreensões do que o da adolescência, eu não gostava do estudo e detestava ser obrigado a ele. No entanto, eu era a isso obrigado, e para o meu bem. Mas eu não agia bem, pois só estudava quando coagido. Contra a vontade, ninguém procede bem, ainda que a ação em si mesma seja boa. Os que me obrigavam, também não agiam corretamente: somente de ti vinha o bem, meu Deus. Realmente, eles não viam outra finalidade, no estudo a que me obrigavam, senão saciar os insaciáveis desejos de uma miséria opulenta e de uma glória ignominiosa. Mas tu, para quem estão contados os nossos cabelos (1), utilizavas em meu proveito o erro dos que me coagiam, e utilizavas a minha falta para castigar-me; punição que eu merecia, embora pequeno, pois era grande pecador. Assim, tu me fazias o bem por meio daqueles que não o faziam, e me davas justa retribuição pelos meus próprios pecados. Estabeleceste, de fato, e efetivamente acontece, que toda alma desregrada seja seu próprio castigo (2).

 

1. Mt 10,30

2. O trecho faz lembrar uma ária de Pedro Metastásio (1698-1782) : "...mesmo na vida mais serena, de si mesmo o vício é pena; mesmo no embate rude, vale prêmio a virtude".

 

13.    UTILIDADE DO ESTUDO

 

20      Ainda hoje não sei explicar bem a causa da minha repugnância pelo estudo grego, que tentavam inculcar-me desde criança (1). Pelo contrário, eu gostava muito do latim, mas não daquele que é ensinado pelas primeiras classes, e sim do que é ensinado pelos chamados gramáticos. As primeiras noções, em que se aprende a ler, escrever e contar, eram-me tão pesadas e penosas como o estudo do grego. Donde me vinha tal aborrecimento, senão do pecado e da vaidade da vida? Porque eu era carne e sopro que se esvai e não volta (2).

 

        Na realidade, aqueles primeiros estudos, que me permitiam e permitem não só ler qualquer escrito que encontro, mas também escrever o que me apraz, eram mais úteis e mais práticos do que aqueles em que eu, esquecido dos meus próprios erros, era obrigado a gravar na memória as andanças de um certo Enéias e a chorar Dido que se suicidara por amor. Enquanto isso, na minha extrema miséria, sem derramar uma lágrima sequer, me deixava morrer em meio a essas coisas longe de ti, meu Deus e minha vida.

 

21      Na verdade, não há nada mais miserável que um infeliz que chora a morte de Dido, causada pelo amor de Enéias, sem se compadecer de si mesmo, nem chorar a própria morte por falta de amor contigo, ó meu Deus, luz do meu coração, pão da boca interior do meu espírito, poder fecundante da minha inteligência e do meu pensamento. Eu não te amava. Prevaricava longe de ti (3). E, enquanto prevaricava, de toda parte ressoavam aplausos: Muito bem! Coragem! A amizade a este mundo é de fato adultério, prevaricação e infidelidade a ti, e as palavras "Muito bem! Coragem" são proferidas para que o homem se envergonhe se não for como os outros. Eu não chorava estas faltas, mas pranteava Dido morta, depois de ter procurado, com a espada, a pior decisão (4), enquanto eu me apegava aos piores objetivos da tua criação (5), abandonando-te. Eu era terra que tendia para a terra. Se me proibiam a leitura de tais episódios, afligia-me por não poder ler o que me afligia. Oh!, loucura!, eu considerava tais estudos mais honrosos e úteis do que aqueles em que aprendi a ler e escrever.

 

22      Agora, porém, meu Deus, que a tua verdade clame na minha alma e me diga: Não é assim, não é assim! São mais importantes aqueles primeiros estudos! Mais depressa eu esqueceria hoje as aventuras de Enéias e outras narrativas desse gênero do que escrever e ler. Cortinas pendem na porta das escolas de gramática (6). Elas servem mais para encobrir os erros que aí se cometem, do que para honrar os seus segredos. Não gritem contra mim, aqueles que eu já não temo, enquanto revelo as aspirações de minha alma, meu Deus, e encontro paz em condenar meus perversos caminhos, para amar a retidão dos teus! Não se ergam contra mim esses vendedores e compradores de gramáticas, porque, se eu os interrogar se é verdade que Enéias veio a Cartago, - como diz o poeta - os néscios responderão que não sabem  e os instruídos negarão a autenticidade do fato. Mas, seu eu lhes perguntar com que letras se escreve o nome de Enéias, todos os que estudaram darão a resposta exata, segundo algumas normas e convenções com que os homens fixaram entre si os sinais do alfabeto. De igual modo, se eu perguntasse o que é mais prejudicial na vida, esquecer a leitura e a escrita ou todas aquelas ficções poéticas, todos sabem qual seria a resposta de quem não houvesse perdido completamente o juízo. Portanto, eu pecava quando criança, ao antepor todos aqueles conhecimentos vão dos poetas a estes mais úteis, ou antes, quando simplesmente detestava a estes e amava àqueles. Um mais um, dois; dois mais dois, quatro. E era para mim um cantilena odiosa, enquanto me encantava o vão espetáculo de um cavalo de madeira cheio de guerreiros, o incêndio de Tróia e até a sombra de Creusa (7).

 

1. Cf. De Trin. 3,1

2. Sl 78(77),39

3. Cf. Sl 73(72),27

4. Virgílio, Aeneidos 6 ,457

5. O texto latino joga com o duplo significado da palavra "extrema", que tanto pode significar as últimas realidades da vida, isto é, a morte quanto as últimas coisas em ordem de importância, isto é, as criaturas inferiores.

6. Como as escolas em geral se faziam em alpendres ao rés-do-chão, as cortinas serviam para evitar as distrações. Cf. Apuleio, Florida 20.

7. Vírgilio, Aeneidos 2,772.

 

14.    DIFICULDADE NO ESTUDO DO GREGO

 

23      Por que detestava eu as letras gregas, onde se cantam os mesmos temas? Homero tece habilmente fábulas semelhantes, doce na sua frivolidade. No entanto, era amargo para mim, ainda menino. Creio que acontece com os jovens gregos obrigados a aprender Virgílio, o mesmo que se passava comigo em relação a Homero. Era, sim, a dificuldade de aprender uma língua estrangeira que borrifava de fel toda a suavidade das fantasiosas narrações gregas. Eu não conhecia palavra alguma dessa língua. E para me fazerem aprendê-la, me forçavam violentamente com terríveis ameaças e castigos. Outrora, quando menino, nem mesmo do latim eu conhecia alguma coisa; no entanto, eu aprendi, com um pouco de atenção, sem temores nem castigos, em meio aos carinhos, sorrisos e brincadeiras de minhas amas. Aprendi sem a pressão dos castigos e ameaças, impelido pela necessidade que sentia no coração de exprimir meus pensamentos, o que não tinha sido possível sem aprender algumas palavras provindas daqueles que falavam, e não dos que ensinavam. Nos ouvidos deles eu depositava meus próprios sentimentos.

 

        Por aí se conclui, com bastante clareza, que para aprender é mais eficaz a livre curiosidade do que um constrangimento ameaçador. A este, no entanto, cabe a tarefa de refrear aquela, segundo as tuas leis, ó Deus. Tuas leis, que sabem desde a palmatória dos mestres até as torturas dos mártires, temperar com tristezas salutares que nos trazem de volta para ti, longe dos prazeres  perniciosos que de ti nos afastam.

 

15.    OFERECIMENTO DE TUDO A DEUS

 

24      Ouve, Senhor, a minha prece (1), para que minha alma não desfaleça sob o peso da tua lei, nem esmoreça em confessar os atos de misericórdia que me arrancaram de péssimos caminhos; para que sejas, para mim, mais atraente do que todas as seduções que eu seguia, e assim eu te ame imensamente e te segure a mão com todas as forças de minha alma, e me livres de toda a tentação até o fim.

 

        Senhor, tu és o meu Rei e o meu Deus (2)! Que para o teu serviço se consagre tudo o que de útil eu aprendi em criança: para ti a minha capacidade de falar, escrever, ler e contar. Pois, quando eu aprendia coisas inúteis, tu me disciplinas e me perdoaste o pecado do prazer inútil que nelas eu encontrava. É verdade que com elas aprendi muitas coisas úteis, mas estas podem ser aprendidas também em matérias não frívolas: este seria o caminho mais seguro a ser percorrido pelas crianças.

 

1.Sl 61(60),2

2. Sl 5,3

 

16.    LITERATURA E MITOLOGIA CORRUPTORAS

 

25      Ai de ti, torrente de hábitos humanos! Quem te resistirá? Até quando hás de correr antes de secar? Até quando arrastarás os filhos de Eva para o mar profundo e temeroso, que somente podem atravessar os que navegam no lenho da cruz? (1)

 

        Não foi em teus livros que li sobre Júpiter tonante e adúltero? Dois atos que, de certo, ele não podia praticar simultaneamente. Mas, assim foi representado, para que fôssemos levados a imitar um verdadeiro adultério, iludidos por um trovão imaginário (2).

 

        Mas, certamente, nenhum desses mestres, trajados de capa magistral, se conservaria calmo ao ouvir um  colega, nascido do mesmo pó, proclamar: Homero imaginava essas ficções e atribuía aos deuses os vícios humanos; eu preferia que nos trouxesse as perfeições divinas (3). Mas seria exato dizer que Homero, inventando tais coisas, atribuía qualidades divinas a homens viciados, a fim de que os vícios não fossem considerados como tais, e quem os comete pareça imitar, não a homens corruptos, mas a divindades celestes.

 

26      No entanto, ó torrente infernal, em tuas ondas precipitam-se os filhos dos homens, e pagam para aprender tais noções! E torna-se acontecimento importante fazer tudo isso em público, na praça principal da cidade, sob os olhos da lei, que estabelece salários para os atores, além da paga dos particulares. O fragor de tuas ondas de encontro aos rochedos parece dizer: "Aqui se aprendem as palavras, aqui se adquire a eloqüência indispensável para persuadir os outros e para exprimir o próprio pensamento". E realmente não teríamos conhecido as palavras "chuva de ouro", "regaço", "disfarce", "templos celestes" e outras expressões que se encontram nos escritos de Terêncio, se este poeta não nos tivesse apresentado um jovem debochado que se propõe, para a própria devassidão, o exemplo de Júpiter: o jovem observa, pintada no muro, a seguinte cena: "Júpiter, segundo a mitologia, derrama uma chuva de ouro no regaço de Dânae para dessa forma enganá-la" (4). Vejam como o jovem se excita para satisfazer a própria paixão, diante das lições do mestre celeste: Que Deus é este - diz ele -  que abala os templos do céu com grande estrondo? Eu simples mortal, não poderia fazer o mesmo? Mas já o fiz, e com prazer! (5) Não, de forma alguma não é por meio dessas vulgaridades que se aprendem tais palavras; no entanto, tais palavras encorajam os homens a cometer tais indecências. Não acuso as palavras, que são como vasos eleitos e preciosos (6), sob pena de sermos espancados, sem que pudéssemos apelas para um juiz sóbrio. Ó Deus, diante de ti evoco enfim, tranqüilamente, essas recordações! E no entanto, eu aprendia de bom grado aquelas noções, que me agradavam - pobre de mim! - e por isso eu era considerado um jovem de belas esperanças.

 

1. Clara a alusão ao lenho da salvação. Agostinho faz explícita aplicação do termo "lenho" à cruz, como nave que salva no mar da vida, em Tract. in Joann. 2,4

2. Refere-se Agostinho a uma obra clássica, o Eununchus de Terêncio, em particular à cena V do ato III, onde se narra a imagem de Júpiter, que desce sobre Dânae sob forma de chuva de ouro, fecundando-a; essa contemplação torna-se estímulo ao prazer sensual.

3. Cícero, Tuscul. disputat. I,26,64; Cf. De Civ. Dei 4,26

4. Terêncio, Eununchus 584,589

5. Terêncio, Eununchus 590s

6. Cf. Pr 20,15; At 9,15

 

17.    INTELIGÊNCIA DESPERDIÇADA EM COISAS VÃS

 

27      Permite, ó Deus, que fale um pouco também da inteligência, dádiva tua que esbanjava em frivolidades. Uma tarefa muito inquietante se apresentava ao meu espírito frente à possibilidade de prestígio ou pelo termos à desonra ou às pancadas: era a tarefa de exprimir a cólera e a dor de Juno por não poder afastar da Itália o rei dos Troianos (1) . Eu bem sabia que Juno jamais pronunciaria tais palavras. Todavia, é ramos obrigados a nos desencaminhar e seguir as fantasias poéticas, e a dizermos em prosa o que o poeta cantara em versos. Recebia maiores elogios o aluno que exprimisse com mais força e maior verossimilhança os sentimentos de ira e dor mais adequados ao nível da personagem representada, e que soubesse revestir as frases com as palavras mais apropriadas. De que me servia tudo isso, ó Deus meu, vida verdadeira? Para ter os aplausos às minhas declamações na presença de tantos conterrâneos e colegas meus? Não foi tudo vento e fumaça? Não havia outra maneira de exercitar minha inteligência e minha língua? Os teus louvores, Senhor, inspirados por tuas Escrituras, me teriam elevado o coração, e eu não teria sido envolvido por quimeras vãs, qual presa de aves de rapina. Há realmente muitos modos de oferecer sacrifícios aos anjos rebeldes!

 

1. Virgílio, Aeneidos 1,38

 

 18.    UM ERRO DE GRAMÁTICA É MAIS GRAVE QUE UMA FALTA CONTRA UM HOMEM?

 

28      Não é de estranhar que eu me tenha deixado levar pelas coisas vãs para longe de ti, meu Deus, pois eu tinha por modelo somente homens que se sentiam consternados quando reprovados por terem cometido algum solecismo ou barbarismo ao expor boas ações, mas que exultavam com os louvores, quando relatava seus desmandos pormenorizadamente, com riqueza e elegância (1), em frases corretas e bem construídas. Vês tudo isso, ó Senhor, e te calas, ó Deus de paciência, de misericórdia e de verdade (2)? Porventura ficarás sempre calado? E desde agora arrancas deste abismo profundo a alma que te procura, que tem sede de tuas alegrias e que diz em seu coração: Busquei a tua face, Senhor, e a buscarei sem cessar (3). Longe de tua face , caímos nas trevas da paixão. Porque não é caminhando nem atravessando espaços que de ti nos afastamos ou a ti retornamos; nem aquele filho mais novo (4) procurou carro ou cavalos, ou navio, ou alçou vôo com asas invisíveis, nem tampouco marchou a pé, quando foi para longínquas regiões dissipar prodigamente o que lhes tinhas dado ao partir. Pai bondoso no momento em que lhe fizeste estes dons, foste mais carinhoso com ele, quando voltou necessitado. Basta mergulhar nas paixões, isto é nas trevas, para ficar longe de tua face.

 

29      Vê, Senhor meu Deus, com paciência - segundo o teu modo de ver - como são diligentes os filhos dos homens em observar as regras convencionais da gramática herdadas daqueles mestres que o antecederam, e como são negligentes em relação a ti! Desse modo, se um daqueles que conhecem e ensinam as antigas convenções gramaticais, as transgride, pronunciando a palavra homo sem aspirar a primeira sílaba, desagradará aos homens, mais do que se ele contrariar os teus mandamentos, odiando ao homem, que é seu semelhante. Como se pudesse existir inimigo pior que o próprio ódio, com o qual uma pessoa se irrita contra si mesma; ou como se alguém com perseguições prejudicasse mais gravemente a outrem do que ao coração, cultivando tal inimizade! Certamente essas regras de linguagem não estão mais profundamente gravadas em nós que esta lei da consciência (5): não fazer aos outros o que não queremos que outros nos façam (6).

 

        Como é profundo o teu mistério, ó Deus grande e único, que habitas no silêncio do mais alto dos céus e, sem cessar, atinges com o castigo da cegueira as paixões ilícitas. Enquanto isso o homem, em busca da glória na eloqüência, diante de um juiz que é outro homem, no meio de muitos outros homens que o cercam, persegue o inimigo com ódio violento, evitando, com o máximo de atenção, cometer um erro de pronúncia, não aspirando o h quando diz inter homines. E no entanto, nem se importa quando no furor da própria alma, elimina um homem do convívio dos homens!

 

1. Cícero, Tuscul. disputat. I,4,7

2. Sl 86(85),15;103(102),8

3. Sl 27(26),8

4. Cf. Lc 15,11-32.

5. Cf. Rm 2,15

6. Mt 7,12; Lc 6,31; cf. Tb 4,16

 

19.     OS PRIMEIROS PECADOS DA INFÂNCIA

 

30      Eu me encontrava, pobre menino, no limiar dessa escola de moral. Minha educação era dada de tal modo, que temia mais cometer uma impropriedade de linguagem do que acautelar-me da inveja que eu sentia daqueles que a evitavam, se eu a cometesse. Digo e confesso diante de ti, meu Deus, essa fraqueza que me angariava aplausos daqueles, cuja aprovação era a minha norma de vida. Eu não percebia o abismo de ignomínia em que me atirava, longe de tua presença (1). Diante de ti, mesmo àqueles homens, ao enganar com inúmeras mentiras o pedagogo, os mestres e pais, tão grande era o meu amor pelo jogo, a minha paixão pelos espetáculos frívolos e a mania de imitar os atores. Eu furtava da despensa e da mesa de meus pais, ora impelido pela gula, ora para ter com que pagar aos companheiros que vendiam seus jogos, mas que se divertiam tanto quanto eu. Muitas vezes eu cometia fraudes no jogo para conseguir vitórias, dominado pelo tolo desejo de superioridade sobre os outros.  No entanto, não podia suportar que os outros fizessem o mesmo, e reprovava asperamente se os descobrisse, enquanto eu, ao ser descoberto e repreendido, me enfurecia, ao invés de reconhecer-me culpado.

 

        Seria essa a inocência das crianças? Não, Senhor! De modo algum, meu Deus! O que fazem agora enganando mestres e tutores, furtando nozes, bolas e pássaros, o mesmo hão de fazer, na idade madura, com os governadores e reis, com as riquezas, com as propriedades, com os escravos. É o que acontece com o castigo da palmatória, ao qual se seguem suplícios mais graves. Portanto, ó nosso Rei, no pequeno tamanho das crianças louvaste o símbolo da humildade, quando disseste: delas é o Reino dos Céus (2).

 

1. Sl 31(30),23

2. Mt 19,14

 

20.    TUDO É DOM DE DEUS

 

31      Contudo, graças sejam dadas a ti, Senhor, Criador e Ordenados do universo, ainda que me houvesse destinado a ser apenas criança. Pois, já então eu existia, vivia, usava dos sentidos, cuidava da minha conservação, imagem da tua unidade misteriosa, fonte do meu ser; já então vigiava com o sentido interior, para a preservação de todos os meus sentidos, e, até nas reflexões modestas sobre pequenas coisas, eu me alegrava ao encontrar a verdade. Eu não aceitava ser enganado, tinha boa memória, tinha facilidade para falar, era sensível à amizade; fugia da dor, da humilhação, da ignorância. Que havia em tal criatura que não fosse digno de admiração e louvor? Mas, tudo isso são dons de meu Deus; não os recebi de mim mesmo são coisas boas, e o conjunto deles constitui o meu eu.

 

        Portanto, bom é aquele que me criou. Ele é o meu bem, e eu exulto em sua honra por todos os bens que constituem a minha existência desde a infância. Meu pecado era não procurar nele, e sim nas suas criaturas - isto é, em mim mesmo e nos outros - os prazeres, as honras e a verdade. Eu me precipitava assim na dor, na confusão e no erro. Graças a ti, ó minha doçura, minha glória, minha confiança, meu Deus, pelo dons que me deste. Conserva-os, pois. E assim me conservarás. Então crescerá e se aperfeiçoará tudo o que me deste. E eu mesmo viverei contigo, porque foste tu que me deste a possibilidade de existir.


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