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Ano - IX segunda-feira, 15 de março de 2010
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A FÉ CRISTÃ PRIMITIVA (Volume Único)


Da Obrigatoriedade do Uso do Traje Eclesiástico

  
Patrística>S.Agostinho de Hipona-séc.IV

LIVRO II


Por Santo Agostinho

OS DEZESSEIS ANOS

 

1. POR QUAL MOTIVO AGOSTINHO RELEMBRA SUAS CULPAS

1 Quero recordar as minhas torpezas passadas, as corrupções de minha alma, não porque as ame, ao contrário, para te amar, ó meu Deus. É por amor do teu amor que retorno ao passado, percorrendo os antigos caminhos dos meus graves erros. A recordação é amarga, mas espero sentir tua doçura, doçura que não engana, feliz e segura, e quero recompor minha unidade depois dos dilaceramentos interiores que sofri quando me perdi em tantas bagatelas, ao afastar-me de tua Unidade (1).

Desde a adolescência, ardi em desejos de me satisfazer em coisas baixas, ousando entregar-me como animal a vários e tenebrosos amores! Desgastou-me a beleza da minha alma e apodreci aos teus olhos, enquanto eu agradava a mim mesmo e procurava ser agradável aos olhos dos homens.

1. Cf. Enarr. in Ps 137,8

2. NECESSIDADE DE AMOR E DE SEUS ILUSÓRIOS SUCEDÂNEOS

2 E o que é que me encantava, senão amar e ser amado? (1) Mas, eu não ficava na medida justa das relações de alma para alma,  dentro dos limites luminosos da amizade. Do lado dos desejos carnais e da própria natureza da puberdade emanavam vapores que me enevoavam e ofuscavam o coração, a ponto de não mais distinguir entre um amor sereno e as trevas de uma paixão. Um e outro ardiam confusamente em mim, arrastando a minha fraca juventude pelos despenhadeiros das paixões, e a submergiam num abismo de vícios.

Tua cólera concentrava-se em mim, e eu não percebia. Ensurdecera-me o ruído das cadeias da minha mortalidade, justo castigo à soberba da minha alma, e eu me afastava cada vez mais de ti; e tu o permitias. Eu me agitava, me dissipava, ardia nas paixões da carne; e tu calavas. Ó alegria que tão tarde encontrei! Tu calavas, e eu de ti me afastava, multiplicando as sementes estéreis do sofrimento, em degradação insolente e inquieto esgotamento.

3 Quem teria podido suavizar-me a tribulação, ensinando-me a usar bem da formosura passageira das coisas novas? Quem me fixaria um objeto aos prazeres que delas eu tirava, de tal maneira que, se os ardores da idade não me pudessem deixar tranqüilo, fossem encaminhados  ao matrimônio, encontrando o fim natural na geração de filhos, como prescreve tua lei, Senhor. Tu, que asseguras a descendência de nossa raça mortal e tens o poder de abrandar as asperezas reservadas ao homem expulso de teu paraíso? (2) Tua onipotência está perto de nós, ainda quando nos afastamos de ti. Eu deveria ter ouvido mais atentamente o som vindo de tuas nuvens (3): quem escolhe esse tipo de vida terá tribulações na carne; e vo-las desejaria poupar (4); ou ainda: é bom para o homem não tocar em mulher (5); e ainda: quem não tem esposa cuida das coisas do Senhor; quem tem esposa cuida das coisas do mundo e do modo de agradar à esposa (6). Quem me dera ter ouvido mais atentamente essas palavras! Se me tivesse feito eunuco pelo Reino de Céus (7), aguardaria agora mais feliz os teus amplexos!

4 No entanto - miserável que sou! - eu me abandonei com furor à torrente das paixões que me afastava de ti; eu transgredia todas as tuas leis, sem escapar naturalmente de teus castigos. Quem dos mortais conseguiria fazê-lo? Sempre estavas presente em tua severa misericórdia, entremeando de amargos desgostos os meus prazeres ilícitos, a fim de que eu aprendesse a procurar a alegria sem ofender-te (8). Se eu tivesse encontrado, só teria encontrado a ti, Senhor, que nos dás a dor como preceito, que feres para curar e nos tiras a vida para não morrermos longe de ti.

1. Cf. De catech. rud. 4,7

2. Cf. Gn 3,18

3. Segundo Agostinho, as "nuvens" são os pregadores da palavra de Deus que, embora revestidos da opacidade da carne, permitem entrever o esplendor de Deus: cf. Enarr in Ps. 35,8;56,17.

4. 1Cor 7,28

5. 1Cor 7,1

6. 1Cor 7,3 2-33

7. Mt 19,12

8. Agostinho usa o termo latino "ofensivo", que se pode denotar "desgosto", "repugnância" ou "ofensa". A frase, portanto, pode ser entendida assim: ""procurar a alegria sem ofender" a Deus. Nas obras de Agostinho, são freqüentes esses jogos de palavras.

3. O ÓCIO FAVORECE O DESENCADEAMENTO DAS PAIXÕES

Nesse mesmo ano, no entanto, meus estudos foram interrompidos, tendo sido chamado a Madaura, cidade vizinha, para onde havia ido antes a fim de estudar literatura e oratória, onde aguardava que se preparasse a quantia necessária para uma permanência mais longa, em Cartago, de acordo mais com a ambição do que com as possibilidades de meu pai, cidadão bem modesto de Tagaste.

Mas, a quem narro eu esses fatos? Não a ti, meu Deus; mas, diante de ti, aos meus semelhantes, ao gênero humano, àqueles que, mesmo pouco numerosos, venham a volver os olhos para estas páginas. E para quê? A fim de que eu mesmo, e os que me lerem, pensemos de que abismo profundo devemos clamar por ti (1). Que há mais próximo de teus ouvidos que um coração arrependido (2) e uma vida de fé?

Todos elogiavam muito meu pai, que gastava mais do que lhe permitia o patrimônio familiar, nas despesas necessárias para a permanência do seu filho longe de casa por motivos de estudos. Muitos outros cidadãos, bem mais ricos que ele, não se interessavam do mesmo modo pelos filhos. No entanto, meu pai não se preocupava em saber se eu crescia aos teus olhos, meu Deus, e se vivia castamente, desde que fosse eloqüente; mas eu era vazio (3) em relação à tua cultura, ó meu Deus, único e verdadeiro senhor do teu campo (4), que é o meu coração.

6 Mas, quando aos dezesseis anos, as necessidades domésticas me forçaram a interromper os estudos por algum tempo, e eu, livre de qualquer escola, passe a viver com meus pais, os espinhos das paixões me subiram à cabeça, sem que houvesse mão para os arrancar. Pelo contrário, meu pai um dia me viu no banho e percebeu em mim os sinais da puberdade e adolescência inquieta; antegozando desde logo a alegria dos netos que eu lhe daria, relatou-o, com alegria, à minha mãe, essa alegria nasce da embriaguez em que este mundo miserável esquece o Criador, para em teu lugar, Senhor, amar tuas criaturas, embriaguez que se inclina ao vinho invisível de uma vontade pervertida que se inclina para o que é baixo.

Mas, no coração de minha mãe já havias começado a edificar o teu templo, a lançar os fundamentos de tua santa habitação. Meu pai, no entanto, era apenas catecúmeno de há pouco tempo. Por isso, minha mãe agitou-se, apreensiva e temerosa. Apesar de eu ainda não ser batizado, receou que eu enveredasse por caminhos tortuosos trilhados por aqueles que voltaram para ti as costas e não a face (5).

7 Ai de mim! Como ouso dizer que estavas calado, quando eu me afastava de ti cada vez mais? É verdade que te calavas diante de mim em tais momentos? (6) De quem eram, senão de ti , aquelas palavras que me fazias soar aos ouvidos, através de minha mãe, tua serva fiel? Mas, nenhuma tocou-me o coração para converter-se em prática. Ela queria que eu evitasse a luxúria (tenho ainda dentro de mim a lembrança de suas solícitas recomendações) e sobretudo que eu não cometesse adultério com a esposa de quem quer que fosse. Envergonhava-me de atender as suas solicitações, porque pareciam conselhos de mulher. No entanto, eram teus os conselhos, e eu não sabia; eu estava convencido de que tu te calavas, e que era ela quem falava; mas por meio dela eras tu que me falavas, e nela eu te desprezava, eu, teu servo, filho de tua serva (7). Mas eu ignorava e caminhava para minha perdição, com cegueira tal, que me envergonhava, diante de meus companheiros, de parecer menos depravado que os outros, quando os ouvia exaltando as próprias infâmias, tanto mais dignas de glória quanto mais infames eram; eu queria fazer o mesmo, não só pelo fato em si, mas pelo louvor que disso resultava.

Nada é tão digno de censura como o vício; no entanto, para não ser censurado, eu mergulhava ainda mais no vício; quando não me podia igualar a meus companheiros corruptos, fingia ter praticado o que não praticara, para não parecer desprezível pela inocência ou ridículo por ser casto.

8 Eis com que companheiros andava eu pelas praças de Babilônia, revolvendo-me na lama como se fosse em cinamomo e perfumes preciosos. E para afundar-me ainda mais, o inimigo invisível me pisoteava e seduzia, porque era eu fácil de seduzir.

Minha mãe carnal, que já tinha fugido de Babilônia, mas caminhava, ainda lenta, pelos seus arredores, recomendou-me vida pura, mas não se preocupou em encaminhar-me para um afeto conjugal aquela minha virilidade de que lhe falara o marido e que não podia ser materialmente eliminada. Já então a considerava bastante perigosa e mais perigosa ainda a previa para o futuro; mas não se preocupou, temendo que as responsabilidades conjugais constituíssem empecilho às minhas esperanças, não de uma vida futura, tais como as suas, mas de progresso nos estudos, cujo êxito era a ambição de meus pais. Meu pai, porque quase não pensava em ti e alimentava a meu respeito ambições vãs; e minha mãe, por acreditar que a aquisição da cultura em voga não sé era livre de perigo, mas podia até favorecer a minha aproximação de ti. Eis as conclusões a que chego hoje, reconstruindo como posso o caráter de meus pais.

Chegavam até a afrouxar-me as rédeas dos divertimentos, sem a justa e normal severidade, deixando-me entregue, ao desregramento das várias paixões. De toda essa misericórdia, ó meu Deus, subia uma escuridão que me ocultava a luz serena de tua verdade, e de meu coração emanava a iniqüidade (8).

1. Cf. Sl 130(129),1

2. Ver nota 4, Livro I, cap. 1

3. Agostinho emprega trocadilhos, jogando freqüentemente com palavras homógrafas ou homófonas (ver livro I, cap. 2,1 e livro II, cap. 2,8). Em português não dá para reproduzir fielmente o trocadilho latino aqui usados por Agostinho: disertus = eloqüente e desertus = deserto, privado, vazio.

4. Cf. Mt 13,24-30 e 36-43; Jo 15,1-2

5. Jr 2,27

6. Conf. II, cap. 2

7. Sl 116(114-115),16

8. Cf. Sl 73(72),7

4. O FURTO DAS PÊRAS

9 Tua lei, Senhor, condena certamente o furto, como também o faz a lei inscrita no coração humano, e que a própria iniqüidade não consegue apagar. Nem mesmo um ladrão tolera ser roubado, ainda que seja rico e o outro cometa o furto obrigado pela miséria. E eu quis roubar, e o fiz, não por necessidade mas por falta de justiça e aversão a ela por excesso de maldade. Roubei de fato coisas que já possuía em abundância e da melhor qualidade; e não para desfrutar do que roubava, mas pelo gosto de roubar, pelo pecado em si. Havia, perto da nossa vinha, uma pereira carregada de frutos nada atraentes, nem pela beleza nem pelo sabor. Certa noite, depois de prolongados divertimentos pela praças até altas horas, como de costume, fomos, jovens malvados que éramos, sacudir a árvore para lhe roubarmos os frutos. Colhemos quantidade considerável, não para nos banquetearmos, se bem que provamos algumas, mas para jogá-las aos porcos. Nosso prazer era apenas praticar o que era proibido.

Eis o meu coração, Senhor, o coração que olhaste com misericórdia no fundo do abismo. Que o meu coração te diga, agora, o que procurava então, ao praticar o mal sem outro motivo que não a própria malícia. Era asquerosa e eu gostava dela. Gostava de arruinar-me, gostava de destruir-me; amava, não o objeto que me arrastava ao nada, mas o aniquilamento em si. Pobre alma embrutecida, que se apartava do teu firme apoio para autodestruir-se, buscando, não algo desonesto, mas a própria desonestidade!

5. A CAUSA DO PECADO

10 Existe certo atrativo num corpo belo, no ouro, na prata, e em todas as coisas; entre o tato e os objetos, existe uma sorte de harmonia de grande importância de grande importância; e os outros sentidos encontram também nos corpos um estímulo adequado. As honras do mundo, o poder de comandar e dominar têm sua sedução, e deles nasce o desejo de vingança. Todavia, para conseguir tais bens, não deve o homem afastar-se de ti, Senhor, nem desviar-se de tua lei. A vida neste mundo seduz por sua própria beleza e pela harmonia que mantém com todas as pequenas coisas belas que nos cercam.

Também a amizade entre os homens torna-se querida pelo vínculo suave que uni muitas almas numa só. Mas se desejamos todos esses bens imoderadamente e por eles mesmos, bens inferiores que são, e abandonamos os bens superiores como és tu, Senhor nosso Deus, a tua verdade e a tua lei, então cometemos pecado. Na verdade, esses bens inferiores também satisfazem, mas não como satisfaz o meu Deus, que tudo criou, pois nele o justo encontra a sua alegria, e ele é a alegria dos homens de coração reto (1).

11 Quando se indaga da causa de um crime, nela ordinariamente não acreditamos, enquanto não descobrimos que pode ter sido o desejo de obter algum dos bens, que chamamos de inferiores, ou o medo de perdê-lo (2); são , de fato, belos e atraentes esses bens, embora sejam desprezíveis e baixos quando comparados aos bens superiores e beatíficos.

Alguém matou um homem: por que o terá feito? Cobiçava a mulher do assassinado ou a sua propriedade, ou procurava roubá-la para viver, ou porque temia ser privado de algum bem, ou, talvez, ardesse no desejo de vingar uma ofensa. Haverá alguém que tenha assassinado sem motivo, só pelo prazer de matar? Quem acreditaria nisso? Do homem louco e cruel (3) se diz que era gratuitamente mau e perverso, mas não lhe faltava um motivo: como diz o historiador, era o receio de que o ócio lhe entorpecesse as mãos e o espírito (4)! Por que ele procedia assim? Evidentemente para alcançar o poder, honras e riquezas, com a prática do crime, uma vez subjugada a cidade, e assim libertar-se do medo das leis e das dificuldades devidas à estreiteza do patrimônio e aos remorsos da consciência (5). Portanto, nem mesmo Catilina amou os seus crimes, mas a causa pela qual os cometia.

1. Cf. Sl 64(63),11

2. Cf. Enarr. in Ps 38,2

3. Trata-se de Catilina

4. Salústio, De Coniur. Catil 16,3

5. Cf. Salústio, De Coniur Catil 5,5

6. AS PAIXÕES DÃO SATISFAÇÕES ILUSÓRIAS; SOMENTE DEUS PODE SACIAR AS EXIGÊNCIAS DO ESPÍRITO HUMANO

12 Eu, miserável, o que foi que eu amei em ti, furto meu, noturno delito dos meus dezesseis anos? Não eras belo, pois eras roubo! Mas, realmente és alguma coisa, para que eu possa dirigir-me a ti (1)? As pêras que roubamos, sim, eram belas, por serem criaturas tuas, ó Deus bom, criador de toda beleza, sumo bem e meu verdadeiro bem. Sim, eram belas aquelas frutas, mas não era a elas que minha alma infeliz cobiçava, eu as possuía em abundância e melhores. Eu as colhi somente para roubar, e uma vez colhidas, atirei-as fora para saciar-me apenas, com a minha maldade, saboreada com alegria. Se alguma tocou meus lábios, foi o meu crime que me deu sabor.

E agora, Senhor meu Deus, procuro o que me seduziu nesse furto. Não possui beleza alguma. E não falo da beleza que reside na justiça ou na sabedoria, nem da beleza da inteligência humana, da memória, dos sentimentos e de toda a vida vegetativa, nem da beleza das estrelas na harmonia do firmamento, nem da beleza da terra e do mar, cheios de vidas que nascendo tomam o lugar dos mortos. Nem tampouco falo da beleza limitada e ilusória dos vícios sedutores. A soberba quer imitar a grandeza, enquanto somente tu és o Deus altíssimo que estás sobre todas as coisas (2).

13 E a ambição, o que procura senão honras e glórias, enquanto somente tu és digno de ser honrado e glorificado eternamente?

A crueldade dos poderosos deseja ser temida; mas, quem deve ser temido, senão tu, meu Deus? Ao teu domínio nada pode fugir: quem o poderia fazer, e como, e quando?

Os carinho dos voluptuosos buscam a reciprocidade do amor, mas nada é mais acariciante do que tua caridade, e nada mais salutar para ser amado, que a tua verdade, a mais bela e resplandecente de todas as coisas.

A curiosidade quer aparentar interesse pela ciência, mas só tu conheces plenamente tudo.

Até a ignorância e insipiência cobrem-se com o manto da simplicidade e da inocência; mas nada é mais simples, nada é mais inocente do que tu. As próprias obras é que prejudicam os malvados.

A preguiça parece desejar apenas a tranqüilidade, mas que repouso seguro existe fora de ti, Senhor?

A luxúria quer ser chamado de saciedade e abundância; mas só tu és a plenitude, tu és a fonte da suavidade inexorável e incorruptível.

A prodigalidade cobre-se com a sombra da liberalidade; porém, és tu o mais generoso doador de todos os bens.

A avareza quer possuir muito, mas tu possuis todas as coisas.

A inveja pleiteia a primazia, mas quem mais excelente do que tu?

A cólera procura a vingança; qual a vingança mais justa que a tua?

O temor, enquanto zela pela segurança, detesta os acontecimentos insólitos e inesperados, que ameaçam os objetos amados; mas, para ti, que há de insólito ou inesperado? Quem pode separar-te daquilo que amas? Onde se encontra segurança, senão a teu lado?

A tristeza definha na perda dos bens, nos quais a cobiça se satisfaz, porque desejaria que nada, como a ti, se lhe pudesse tirar?

14 É assim que o homem peca, quando se afasta de ti e busca fora de ti a pureza e a limpidez, que ele não pode encontrar senão voltando para ti.

Todos aqueles que se afastam de ti e contra ti se rebelam, a ti estão imitando de forma pervertida. Ainda que imitando-te desse modo, mostram que és o criador do universo e, portanto, que não há para onde nos possamos afastar totalmente de ti.

Mas o que foi que achei naquele roubo, em que foi que imitei o meu Senhor, ainda que mal e pervertidamente? Talvez eu tenha sentido prazer em agir contra a lei pela fraude, já que não o podia fazer pela força, para imitar, escravo que era, uma falsa liberdade, praticando impunemente o que não me era lícito, mediante uma tenebrosa paródia de tua onipotência. Eis-me aqui, escravo que foge do seu senhor, à procura da escuridão (3). Oh, podridão! Oh vida monstruosa! Oh abismo da morte! Como pude achar prazer no ilícito somente por ser ilícito?

1. Cf. Conf. III, 7; IV,15; VII,12; Enarr. in Ps 68,1,5

2. Cf. Sl 97(96),9

3. Cf. Jó 7,2-4

7. A BONDADE DE DEUS PRESERVA-NOS DAS CULPAS E NOS PERDOA AS CULPAS COMETIDAS

15 Como agradecerei ao Senhor (1) por minha memória recordar tais fatos, sem que isso perturbe a minha alma? Hei de amar-te, Senhor, hei de dar-te graças e exaltar-te porque me perdoaste atos tão graves e tão maus. Sei que, pela tua graça e misericórdia, meus pecados também fizeram como gelo ao sol (2); devo à tua graça também todo mal que não pratiquei. A que ponto não poderia ter chegado, eu que amei o pecado por si mesmo, sem motivo? Senhor, proclamo que me perdoaste todas as culpas, quer cometidas voluntariamente, quer as que, por tua graça, não cometi.

Qual homem que, consciente da sua própria fraqueza, tem a ousadia de atribuir às próprias forças o mérito da castidade e da inocência, a ponto de amar-te menos, como se não precisasse de tua misericórdia, pela qual perdoas as culpas de quem arrependido se volta para ti?

Quem, chamando por ti, seguiu a tua voz e evitou as faltas, de cuja confissão e relato toma conhecimento nestas páginas, não se ria de mim, doente que fui curado por aquele médico, a quem ele próprio deve o fato de não ter caído doente, ou de ter sido menos doente do que eu. Que esse alguém apenas te ame meu Deus, ainda mais, reconhecendo que aquele que me libertou da exaustão do pecado, o preservou também da mesma funesta debilidade.

1. Sl 116(114-115),12

2. Cf. Eclo 3,15

8. A ATRAÇÃO DO PECADO

16 Eu, miserável, que frutos colhi das ações que cometi então, e que agora recordo envergonhado, especialmente daquele furto que me satisfez pelo fruto em si e nada mais? De fato, ele em si nada valia, e por isso me tornei ainda mais miserável!

No entanto, eu não o teria praticado, se estivesse sozinho. Lembro-me bem do meu estado de alma: sozinho não o teria feito absolutamente. Portanto, amei também no furto a companhia daqueles com quem o cometi; daí não ser verdade ter amado apenas o furto em si. Não, não amei mais nada, pois a cumplicidade não é mais um nada. O que será ela na realidade?

Quem me pode responder senão aquele que me ilumina o coração e lhe dissipa as trevas? Por que me ocorreu indagar, discutir, analisar estes fatos? Se eu tivesse na ocasião desejado de fato aqueles furtos que roubei, e com eles me tivesse regalado, poderia tê-los roubado sozinho. Poderia ter cometido a iniqüidade, satisfazendo o meu desejo, sem necessidade de estimular, por outras companhias, o prurido de minha cobiça.

O fato é que não eram os furtos que me atraíam, mas a ação má que eu cometia em companhia de amigos, que comigo pecavam.

9. A INFLUÊNCIA DAS MÁS COMPANHIAS

17 Qual era, pois, o sentimento do meu coração? Era sem dúvida um sentimento vergonhoso, e ai de mim que o trazia! Mas de que se tratava?

Quem pode compreender os pecados (1)? Era uma vontade de rir que nos acariciava o coração ao pensar que estávamos enganados os que não esperavam de nós semelhante ato e muito o detestariam. Por que eu me divertia ainda mais por não praticá-lo sozinho? Sim, é mais difícil. No entanto, acontece às vezes que rimos sozinhos, sem a presença de outros, se algo muito ridículo se apresenta aos nossos sentidos ou ao nosso pensamento. Ah! sozinho eu não teria praticado tal ação; absolutamente não o faria!

Meu Deus, eis diante de ti a lembrança viva de minha alma. Sozinho, eu não cometeria aquele furto, no qual não me comprazia na coisa que eu roubava, mas no ato de roubar; sozinho, não me teria atraído a idéia de roubar nem sequer teria roubado.

Oh amizade  tão inimiga! Oh sedução misteriosa da mente, vontade de fazer o mal por brincadeira ou diversão, gracejo, prazer de lesar os outros sem vantagem pessoal ou sede de vingança! Basta que alguém diga: "Vamos, mãos à obra!" E temos vergonha de não ser despudorados.

1. Sl 19(18), 13

10. ASPIRAÇÃO À PAZ INTERIOR

18 Quem desembaraçará este nós assim tão complicado e emaranhado? É uma ação indigna; nela não quero pensar, não a quero analisar. Eu quero a ti, ó justiça, ó inocência, ó beleza que atrai o olhar dos virtuosos, que em ti se  satisfazem sem jamais se  saciar. Junto de ti existe paz profunda e vida imperturbável. Quem mergulha em ti, entra no gozo do seu Senhor (1); não terá mais receio, e permanecerá sumamente bem no Bem supremo.

Desandei longe de ti, meu Deus, e na minha adolescência andei errante sem teu apoio, tornando-me para mim mesmo um antro de miséria (2).

1. Cf. Mt 25,21

2. Ver adiante, Livro III, cap. 10


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Para citar este artigo:

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Livro "O Cânon Bíblico"