Veritatis Splendor - PRIMEIRA CARTA DE SÃO CLEMENTE AOS CORÍNTIOS - CAPS 1 A 8

PRIMEIRA CARTA DE SÃO CLEMENTE AOS CORÍNTIOS - CAPS 1 A 8

Por São Clemente de Roma, Papa

Fonte: Padres Apostólicos, Volume I, Coleção Patrística. Ed. Paulus

Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin

Publicado em

Saudação

A Igreja de Deus que vive como estrangeira em Roma, para a Igreja de Deus vive como estrangeira em Corinto. Aos que se chamam santificados na vontade de Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo. Que a graça e a paz da parte de Deus todo-poderoso, por meio de Jesus Cristo, se multipliquem entre vós.

PREÂMBULO: Situação da Igreja de Corinto

A Revolta

1. 1Irmãos, pelas desgraças e adversidades imprevistas, que nos aconteceram uma após outra, acreditamos ter demorado muito para dar atenção às coisas que entre vós se discutem. Caríssimos, não nos referimos à revolta abominável e sacrílega, que é estranha e alheia aos eleitos de Deus. Alguns poucos, insensatos e arrogantes, acenderam-na, chegando a tal ponto de loucura que o vosso nome venerável, célebre e amado por todos os homens, ficou fortemente comprometido.

A Santidade de outrora

2De fato, quem esteve convosco, sem reconhecer que vossa fé era firme e cheia de todas as virtudes? Quem não admirou vossa piedade consciente e amável em Cristo? Quem não proclamou vossa generosa prática na hospitalidade? Quem não elogiou vossa ciência perfeito e segura? 3Com efeito, em tudo vós agíeis sem fazer acepção de pessoas, andando segundo as prescrições de Deus, submissos a vossos chefes, e prestando aos presbíteros que estavam convosco a honra que lhes cabia. Exortáveis os jovens à moderação e dignidade. Recomendáveis às mulheres que fizessem tudo de consciência irrepreensível, na dignidade e na pureza, agradando a seus maridos, como convém. Elas se mantinham fiéis à norma de submissão, e vós lhes ensináveis a governar sua casa com dignidade e a observar a discrição em tudo.

2. 1Éreis todos humildes e sem vanglória, procurando mais obedecer do que mandar, mais felizes sem dar do que receber. Vós vos contentáveis com as provisões de viagens fornecidas por Cristo, guardáveis com zelosamente as palavras dele no fundo de vossas entranhas, e os sofrimentos dele estavam diante dos vossos olhos. 2 Dessa forma, uma paz profunda e radiante fora dada a todos, junto com o desejo insaciável de praticar o bem, e se espalhara sobre todos abundante efusão do Espírito Santo. 3Repletos de santa resolução, com prontidão de ânimo para o bem, levantáveis com piedosa confiança vossas mãos aos Deus Todo-poderoso, suplicando-lhe que vos fosse propício, caso tivésseis involuntariamente cometido algum pecado. 4Dia e noite, sustentáveis combate em favor da fraternidade, a fim de conservar íntegro, por meio da misericórdia e da consciência, o número dos eleitos de Deus. 5Éreis sinceros e simples uns com os outros, sem nenhum rancor. 6Toda a briga e divisão eram abomináveis para vós. Choráveis por causa das faltas do próximo e consideráveis as falhas deles como próprias. 7Jamais vos arrependíeis de ter feito o bem, "prontos para toda boa obra". 8Ornados de conduta virtuosa e venerada em tudo, realizáveis todas as coisas no temor de Deus. Os preceitos e decisões do Senhor estavam inscritos na largueza do vosso coração.

Consequências funestas da discórdia

3. 1Toda honra e abundância vos tinham sido concedidas, e cumpriu-se aquilo que está escrito: "O amado comeu e bebeu, se largou, engordou e recalcitrou[1]." 2Daí surgiram ciúme e inveja, rixa e revolta, perseguição e desordem, guerra e cativeiro. 3Dessa forma, os sem honra se rebelaram contra os honrados, os obscuros contra os ilustres, os insensatos contra os sensatos, os jovens contra os anciãos. 4Por isto, a justiça e a paz se afastaram para longe, porque cada um abandonou o temor de Deus e deixou que se obscurecesse a sua fé nele. Porque não anda mais segundo as diretrizes dos seus preceitos, sem se comporta mais de maneira digna de Cristo. Ao contrário, cada um anda segundo as paixões do seu mau coração, tomado pela inveja injusta e ímpia, através da qual, também agora, "a morte entrou no mundo."

I. VIRTUDES A PRATICAR

a. Contra a Inveja

Exemplos do Antigo Testamento

4. 1De fato, assim está escrito "Depois de algum tempo, aconteceu que Caim ofereceu frutos da terra em sacrifício a Deus. Abel também ofereceu primogênitos de suas ovelhas com a gordura. 2Deus olhou Abel e seus dons, mas não deu atenção a Caim e seus sacrifícios. 3Caim ficou muito triste e seu rosto se tornou abatido. 4Deus disse a Caim: 'Por que estás triste e com o rosto abatido? Se apresentaste corretamente tua oferta, mas não fizeste corretamente a partilha, não cometeste pecado? 5Tranquiliza-te. A tua oferta volta a ti e poderás dispor dela!' 6Caim, porém, disse a seu irmão Abel: 'Vamos até o campo.' E quando estavam no campo, Caim se atirou sobre seu irmão Abel, e o matou."[2] 7Estais vendo, irmãos, que o ciúme e a inveja produziram o fratricídio. 8Por causa da inveja, nosso pai Jacó fugiu da presença do seu irmão Esaú. 9A inveja provocou a perseguição contra José até à morte, levando-o até a escravidão. 10A inveja forçou Moisés a fugir da presença do faraó, rei do Egito, quando ele ouviu seu compatriota dizer: "Quem te colocou como árbitro ou juiz? Queres matar-me como mataste ontem o egípcio?"[3] 11A inveja fez com que Aarão e Maria ficassem alojados fora do acampamento. 12A Inveja fez com que Datã e Abirã descessem vivos para o Hades, porque se haviam rebelado contra Moisés, o servo de Deus. 13Por inveja, Davi não só ficou com ódio dos estrangeiros, mas também foi perseguido por Saul, rei de Israel.

Exemplos contemporâneos


5. 1Todavia, deixando os exemplos antigos, examinemos os atletas que viveram mais próximos de nós. Tomemos os nobres exemplos da nossa geração. 2Foi por causa do ciúme e da inveja que as colunas mais altas e justas foram perseguidas e lutaram até a morte. 3Consideremos os bons apóstolos. 4Pedro, pela inveja injusta, suportou, não uma ou duas, mas muitas fadigas e, depois de ter prestado testemunho, foi para o lugar glorioso que lhe era devido. 5Por causa da inveja e da discórdia, Paulo mostrou o preço reservado à perseverança.

6. 1A esses homens, que viveram santamente, ajuntou-se imensa multidão de eleitos que, devido à inveja, sofreram ultrajes e torturas, e se tornaram entre nós belíssimo exemplo. 2Por causa da inveja, mulheres foram perseguidas. Danaides e Dirces, que sofreram terríveis e monstruosos ultrajes elas atingiram a meta na corrida da fé, e receberam nobre recompensa, embora fossem fisicamente fracas. 3Foi a inveja que afastou as mulheres de seus maridos e alterou a palavra de nosso pai Adão: "Eis o osso do meus ossos e a carne da minha carne[4]." 4 A inveja e a discórdia arruinaram grandes cidades, e destruíram grandes nações.

b. O Arrependimento

Transição

7. 1Caríssimos, escrevemos todas essas coisas, não só para vos advertir, mas também pra lembrá-las a nós mesmos. De fato, estamos na mesma arena, e o mesmo combate nos espera. 2Deixemos, portanto, as preocupações vazias e inúteis, e sigamos a norma gloriosa e venerada da nossa tradição. 3Vejamos o que é bom, o que agrada e o que é aceito diante daquele que nos criou.4Tenhamos os olhos fixos no sangue de Cristo, e compreendamos como é precioso ao seu Pai. Derramado pela nossa salvação, trouxe ao mundo a graça do arrependimento.

A Escritura ensina o arrependimento

5Percorramos todas as gerações e aprendamos que, de geração em geração, o Senhor deu possibilidade de arrependimento a todos aqueles que queriam converter-se a ele. 6Noé pregou o arrependimento, e os que o escutaram foram salvos. 7Jonas anunciou a catástrofe aos ninivitas, e estes se arrependeram de seus pecados, aplacaram a Deus com suas súplicas e obtiveram a salvação embora fossem estrangeiros em relação a Deus.

8. 1Os ministros da graça de Deus falaram sobre o arrependimento, por meio do Espírito Santo. 2e o próprio Senhor do universo falou do arrependimento, jurando: "Eu vivo, diz o Senhor, e não quero a morte do pecador, e sim que ele se arrependa[5]." E acrescenta também um propósito bom: 3"Casa de Israel, arrependei-vos de vossa iniqüidade. Dize aos filhos do meu povo: Ainda que vossos pecados cheguem da terra até o céu, e que sejam mais vermelhos que o escarlate e mais sujos que o pano de saco, se vos converterdes a mim de todo o coração, e disserdes: 'Pai!'- eu vos escutarei como povo santo.[6]" 4Em outra passagem , ele diz assim: "Lavai-vos e purificai-vos; tirai da presença dos meus olhos a maldade de vossas almas; acabai com as vossas maldades. Aprendei a praticar bem, procurai a justiça, libertai o oprimido, defendei o órfão e fazei justiça à viúva. Depois, vinde e discutiremos, diz o Senhor. E ainda que vossos pecados estejam como a púrpura, eu os tornarei brancos como a neve; se estiverem como o escarlate, eu os tornarei alvos como a lã. Se quiserdes me ouvir, comereis dos bons produtos da terra; mas, se não quiserdes me ouvir, a espada vos devorará. Isso, de fato, foi a boca do Senhor que falou.[7]" 5Na sua onipotente vontade, ele decidiu que todos os seus amados tenham possibilidade de arrependimento.

[1] cf. Dt 32:15

[2] Gn 4,3-8

[3] Ex 2,14

[4] Gn 2,23

[5] Ez 18,23; 33,11

[6] Ez 18,30; Sl 102,11; Jr 3,19.22

[7] Is 1,16-20


Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui