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Ano - IX quarta-feira, 17 de março de 2010
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E o Verbo se fez Carne - Vol. 1


Frei Boaventura Kloppemburg

  
Patrística>S.Agostinho de Hipona-séc.IV

LIVRO IV


Por Santo Agostinho

 

O PROFESSOR

 

 

 

 

1.    SEDUZIDO E SEDUTOR

 

1       Durante os nove anos que se seguiram, dos dezenove aos vinte e oito anos de idade, fui muitas vezes seduzido e sedutor, enganado e enganador, em meio às diversas paixões, ensinando, de público, as ciências chamadas liberais e, em nome particular, praticando uma religião indigna de tal nome. Ora, soberbo, ora supersticioso, sempre vaidoso. Ora em busca do quimérico louvor popular - até mesmo de aplauso no teatro - e dos concursos de poesia, das disputas de coroas de feno (1), de espetáculos frívolos e dos desregramento das paixões. Ora, desejando purificar-me dessas manchas, levava alimentos aos chamados eleitos e santos, para que estes, nas oficinas de seus estômagos, fabricassem anjos e deuses que nos libertassem (2).

 

        Eu tinha essas opiniões e as praticava, como meus amigos, enganando a eles e a mim mesmo. Riam-se de mim os orgulhosos ainda não salutarmente humilhados e esmagados por ti, meu Deus. Mas, para teu louvor, não deixarei por isso de confessar minhas indignidades. Imploro me concedas que eu possa percorrer com memória fiel o caminho de meus erros passados, oferecendo-te sacrifícios de júbilo (3).

 

        Sem ti, o que sou eu para mim, senão um guia a caminho do abismo? Que sou eu quando tudo me corre bem, senão alguém que te suga o leite e se nutre de ti, ó alimento incorruptível (4)? E que vem a ser o homem, qualquer homem, visto que é apenas homem? Zombem de nós os fortes e poderosos: nós, miseráveis e fracos, não cessaremos de nos confessar a ti.

 

2.    O PROFESSOR DE RETÓRICA. O AMOR DE UMA MULHER

 

2       Naqueles anos eu ensinava retórica: vencido pelas paixões, eu vendia tagarelices para ensinar a ganhar causas. Todavia, Senhor, tu bem sabes que eu preferia ter bons discípulos, no verdadeiro sentido da palavra, e, sem artimanhas, eu lhes ensinava artifícios úteis, dos quais pudessem um dia usar, não contra a vida de um inocente, mas, quem sabe, para salvar a vida de um culpado. E tu, meu Deus, vias de longe meus tropeços nesse caminho, escorregadio, vias também, no meio de densa fumaça, algumas centelhas de fidelidade que eu oferecia aos discípulos que como eu amavam a vaidade e buscavam o que é falso (1).

 

        Durante esses anos, eu vivia em companhia de uma mulher, a quem não estava unido legítimo matrimônio, mas que a imprudência de uma paixão inquieta me fez encontrar. Era, porém, uma só, e eu lhe era fiel. Com esta união experimentei pessoalmente a diferença entre o laço conjugal instituído em vista da procriação, e uma ligação baseada na paixão sensual, da qual podem nascer filhos sem serem desejados, embora uma vez nascidos se imponham ao amor dos pais.

 

3       Recordo-me também de que, tendo querido participar de um concurso de poesia teatral, não sei que adivinho mandou perguntar-me que recompensa estaria eu disposto a dar-lhe para me fazer sair vencedor. Eu lhe respondi que detestava e desprezava práticas tão abomináveis e que não deixaria imolar nem mesmo um mosca pela minha vitória, ainda que a coroa fosse de ouro puro. Ele de fato se prontificava a matar animais como sacrifícios e julgava evidentemente, com tais homenagens, invocar para mim o auxílio dos demônios. Mas não foi por amor à tua pureza, Deus da minha alma (2), que repudiei os esplendores materiais. Uma alma que suspira por essas falsidades acaso não comente adultério longe de ti, não se apóia em mentiras e apascenta ventos (3)? Eu não queria que por mim se imolassem vítimas aos demônios, mas eu me imolava a eles pela superstição. De fato, que significa, apascentar ventos, senão apascentar os espíritos diabólicos, isto é, dar-lhes, com nossos erros, motivos para alegrias e zombarias?

 

3.    INTERESSE PELA ASTROLOGIA

 

4       Por isso, eu não cessava de consultar esses embusteiros denominados astrólogos, que pareciam não sacrificar nem dirigir preces aos espírito para adivinhar o futuro. Todas as práticas desse gênero são coerentemente rejeitadas e condenadas pela verdadeira piedade cristã. É bom louvar-te, Senhor (1), e dizer-te: Tem compaixão de mim, Senhor: cura-me, porque contra ti pequei (2). Todavia, não convém abusar de tua misericórdia para tornar a pecar, e sim lembrar as palavras divinas: Eis que estás curado; não peques mais, para que não te sucedas algo ainda pior (3). Mas esses impostos procuram destruir esse plano de salvação, dizendo: "Pecar é inevitável, a causa vem do céu. É obra de Vênus, de Saturno, ou de Marte". Evidentemente, querem com isso inocentar o homem, que é carne, sangue e orgulhosa podridão; a culpa recairia sobre o criador e ordenador do céu e dos astros. E quem é este, senão tu, nosso Deus, suavidade e fonte da justiça, que retribui a cada um de acordo com seu comportamento (4), e não desprezas um coração contrito e humilhado (5)?

 

5       Ora, vivia nesse tempo um homem sagaz, ótimo e famoso médico (6). Substituindo o cônsul, mas não como médico, com suas próprias mãos colocou sobre minha cabeça insana a coroa pela qual eu lutara. Esse gênero de doença só tu és o médico que o curas, tu que resistes aos soberbos e dás a graça aos humildes (7). Contudo, mesmo através desse ancião, não me abandonaste nem deixaste de me curar a alma! À medida que aumentava nossa intimidade eu me tornava mais assíduo e atento às conversas dele, destituídas de palavras rebuscadas, porém, ao mesmo tempo, agradáveis e profundas pela riqueza de pensamento. Quando ele soube pelas minhas conversas, que eu me dedicava ao estudo dos livros de horóscopo, com paternal bondade me aconselhou a lançá-los fora e não despender em coisas vãs o tempo e o trabalho necessários a coisas mais úteis. Contou-me que também ele fizera tais estudos e que na juventude chegara a pensar em fazer disso uma profissão; se havia entendido Hipócrates, poderia também entender esses livros. No entanto, decidiu abandonar tais estudos para seguir a medicina, por tê-los achado completamente falsos e não querer, como homem honesto, ganhar o pão às custas de enganar as pessoas. E acrescentou: "Mas tu tens a retórica que te oferece uma posição social, e cultivas essas falsidades apenas por prazer e não por necessidade econômica! Com mais razão deves crer em quem as estudou a fundo com a intenção de fazer delas o seu único sustento". Perguntei-lhe então por qual motivo muitos presságios se realizavam. Respondeu-me, como pôde, que era pela força do acaso, presente em toda parte na natureza. Se alguém, explicava ele, consultando por acaso qualquer poeta que canta e pensa uma coisa totalmente diversa, muitas vezes depara com um verso extraordinariamente adequado à preocupação do momento. Assim, não é para admirar que, em virtude de alguma inspiração superior, venha a soar, na alma humana, embora inconsciente do que lhe está acontecendo, alguma palavra que se harmonize, não por arte, mas por acaso, com a situação e os atos da pessoa que interroga.

 

6       Esse aviso, eu o recebi desse homem, ou melhor, de ti, por intermédio desse homem, e me esboçaste na mente as linhas de um pensamento que eu deveria desenvolver mais tarde por conta própria. Mas, nesse momento, nem ele nem o meu caríssimo Nebrídio, jovem muito bom e reto que costumava rir de qualquer gênero de adivinhação, conseguiram persuadir-me a livrar-me disso; porque, mais do que eles, influenciava-me a autoridade daqueles autores. Também, eu ainda não havia encontrado prova evidente, como desejava, que me mostrasse sem ambigüidades que as predições dos astrólogos consultados atingiam a verdade por acaso ou por sorte, e não pela arte da observação dos astros.

 

4.    A MORTE DE UM AMIGO: DESCONSOLO DE AGOSTINHO

 

7       Na época em que eu começava a ensinar na cidade em que nasci, travei relações com um amigo que, tendo os mesmos interesses de estudo, veio a ser muito querido. Era da minha idade e estava, como eu, na flor da juventude. Crescemos juntos desde meninos, fomos colegas de escola e de folguedos; mas só então tornou-se verdadeiramente meu amigo, embora não fosse essa a verdadeira amizade, pois a amizade só é verdadeira quando une pessoas ligadas a ti pelo amor derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (1). Todavia, essa amizade, amadurecida ao calor dos mesmos interesses, era para mim cheia de suavidade. Eu o desviara da verdadeira fé que ele, ainda jovem, professava um tanto superficialmente, e o arrastara para as superstições falsas e perniciosas que tantas lágrimas por minha causa custaram à minha mãe. Suas idéias, como as minhas, incidiam no erro, e eu não podia passar sem ele. Mas eis que alcançaste os fugitivos, Senhor Deus das vinganças (2), e ao mesmo tempo fonte de toda misericórdia, que convertes os homens a ti pelos caminhos mais estranhos. Levaste-o desta vida, quando apenas um ano se passara nessa amizade, a mais doce de todas as suavidades da minha vida.

 

8       Quem poderá, sozinho, enumerar os teus louvores (3), ainda que reduzidos aos que apenas ele experimentou?

 

        Que fizeste então, ó meu Deus? Como é impenetrável o abismo de tuas decisões! Atacado pela febre, permaneceu por muito tempo inconsciente, banhado em suores mortais; como não havia esperança de salvá-lo, foi batizado à revelia, sem que eu me importasse com isso, persuadido como estava de que seu espírito reteria o que de mim recebera, de preferência ao que lhe fora feito sobre o corpo inconsciente. Sucedeu, porém, exatamente o contrário. Recobrou ânimo e, fora de perigo, logo que pudemos conversar (o que aconteceu imediatamente, mal pôde falar, pois não me afastava de seu lado, de tal maneira estávamos ligados um ao outro), tentei pôr em ridículo diante dele o batismo que recebera sem a elaboração do pensamento e dos sentidos. Ele já fora informado de tê-lo recebido. Eu estava certo de que ele se  riria disso comigo. Mas, pelo contrário , olhou-me aborrecido como a um inimigo. Estupefato e perturbado, preferi não manifestar no momentos a minha reação, até que se restabelecesse e recobrasse as forças, para depois tratar do assunto a meu modo.

 

        Ele porém, foi arrancado da minha loucura para ser conservado junto a ti, para minha consolação: poucos dias mais tarde, estando eu ausente, a febre voltou, e ele morreu.

 

9       O sofrimento encheu-me de trevas o coração, e eu não via senão a morte em toda parte.

 

        A pátria tornou-se para mim tormento; a casa paterna, motivo incrível de infelicidade, e tudo o que tivera em comum com ele, agora, sem ele, transformava-se em sofrimento ilimitado. Meus olhos o procuravam por toda parte sem encontrá-lo; eu odiava o mundo inteiro, me aborrecia porque o amigo não mais existia, e ninguém podia dizer-me: "Ai vem ele", como quando em vida se ausentava por algum tempo. Tornei-me um grande problema para mim mesmo e perguntava à minha alma por que estava tão triste e angustiado, mas não tinha resposta. Se eu lhe dizia: "Confia em Deus!", ela não me obedecia, e com razão, pois a pessoa queridíssima que havia perdido era melhor e mais real que o fantasma (4) no qual eu pedia que ela aparecesse. Somente as lágrimas me eram doces e substituíam o amigo no conforto do meu espírito.

 

5.    PRANTO CONSOLADOR

 

10      Agora, Senhor, tudo já passou, e o tempo aliviou a ferida. Aproximando de tua boca o ouvido do meu coração, poderei ouvir de ti, que és a  verdade, por qual razão o pranto é doce aos infelizes. Embora presente em toda parte, repelis para longe de ti a nossa miséria? Permaneces em ti mesmo, enquanto nos revolvemos nas provações? No entanto, se não chorássemos diante de teus ouvidos nada restaria de nossa esperança. Como é que acontece colher da amargura da vida os doces frutos do gemido, do pranto, dos suspiros e dos lamentos? A doçura nasce talvez da esperança de que nos escutes? Tal acontece justamente nas orações, animadas que são do desejo de chegarem a ti; mas, também no sofrimento por uma perda, num luto como aquele que me oprimia então!...Não esperava, é claro, que meu amigo ressuscitasse, nem era isso que minhas lágrimas pedia,: eu apenas sofria e chorava. Era um infeliz, e tinha perdido minha alegria. Talvez o pranto - amarga realidade - dê alívio na medida em que nos aborrecemos dos prazeres de que antes gozávamos?

 

6.    DESGOSTO DA VIDA E MEDO DA MORTE

 

11      Mas por que falar de tudo isso? Não é este o momento para indagações, mas de confessar-me a ti. Eu era infeliz, como infeliz é todo espírito subjugado pelo amor às coisas mortais, cuja perda o dilacera, e então deixa perceber a extensão da infelicidade que já o oprimia antes de perdê-las. Assim me encontrava eu nessa ocasião, e chorava lágrimas amargas e me consolava na amargura. Desse modo era infeliz, e essa vida infeliz era agora para mim mais cara que o amigo perdido. Sim, eu teria desejado mudar de vida, mas não aceitaria perdê-la para reaver o amigo. Não sei se teria feito como Orestes e Pílades que, segundo a tradição, se não é invenção, aceitaram morrer ao mesmo tempo, pois, para eles, não viver juntos era pior que a morte (1). Surgiu em mim um sentimento indefinido, decididamente oposto a isso. Tratava-se de um profundo desgosto pela vida, aliviado ao grande medo de morrer. Quanto mais eu o amava, creio eu, tanto mais odiava e temia a morte - feroz adversária - que o tinha levado e estava pronto a devorar todos os homens, como tinha feito com ele. Tanto quanto me lembro, tal era meu estado de espírito.

 

       Eis o meu coração, ó Deus, ei-lo por dentro. Contempla-o através de minhas recordações, ó esperança minha (2), tu que me purificas de tais sentimentos, dirigindo para ti o meu olhar e libertando-me os pés das armadilhas (3).

 

        Parecia-me estranho que a vida continuasse para os outros mortais, já que estava morta a pessoa que eu tinha amado como se ela não devesse morrer nunca. E mais ainda me espantava estar vivo, achando-se morto aquele de quem eu era um outro eu. Disse muito bem quem definiu o amigo como metade da própria alma (4). Eu tinha de fato a sensação de que nossas duas almas fossem uma em dois corpos (5), e por isso eu detestava a vida, pois não queria viver partido ao meio, e temia a morte, talvez por não querer que morresse inteiramente aquele que eu amara (6).

 

7.    NECESSIDADE DE MUDAR DE AMBIENTE: AGOSTINHO DEIXA TAGASTE

 

12      Que loucura não saber amar os homens como eles são! Tolo de quem não sabe suportar a condições humana. Assim eram meus sentimentos de então, e por isso me inquietava, gemia, chorava e me agitava, sem encontrar paz, sem saber o que fazer. Trazia a alma de despedaçada, a escorrer sangue,  qual fardo importuno do qual não sabia descartar-me. Não encontrava paz nos bosques amenos, nem nos jogos e cânticos, nem nos jardins perfumados, nem nos banquetes faustosos, nem nos prazeres do amor e tam pouco nos livros e na poesia. Tudo era insuportável, até a luz do dia. Tudo o que não era ele, era triste e odioso, exceto os gemidos e as lágrimas, pois somente nisso eu encontrava um pouco de paz. Quando me privavam desse alívio, minha alma era oprimida ao peso de grande angústia. Senhor, eu sabia que a ti deveria erguê-la (1), para que ficasse curada, mas não o queria nem podia, tanto mais que, ao pensar em ti, não me aparecias como algo real e consistente (2). Não eras tu. O meu deus era um fantasma irreal, era o meu erro. Se aí tentava pousar a alma para descansar, deslizava pelo vácuo e caía sobre mim, continuando eu a ser um foco de infelicidade para mim mesmo, onde não podia permanecer e de onde não podia fugir. Para onde o coração me fugiria de si mesmo? Para onde fugiria de mim mesmo? Para onde eu não me seguiria (3)? No entanto, fugi da pátria: os olhos procurariam menos o amigo nos lugares em que não costumavam vê-lo, e, assim, de Tagaste vim para Cartago.

 

8.    A VIDA RECOMEÇA

 

13      O tempo não pára nem passa em vão pelos nossos sentimentos, mas atua sobre o nosso espírito de modo surpreendente. Os dias se sucediam, e, como o passar do tempo, novas esperanças e outras lembranças se apresentavam. Aos poucos, ressuscitava em mim o interesse pelos antigos prazeres, que iam tomando o lugar da minha dor. Mas em seguida vinham, se não propriamente novas dores. Mas em seguida vinham, se não propriamente novas dores, pelo menos motivos para novas dores. Aliás, como poderia tão facilmente ter atingido o mais íntimo do meu ser aquele sofrimento, senão por haver eu derramado a alma na areia (1), amando uma criatura mortal, como se imortal fosse?

 

        O que mais me aliviava e reconfortava era o consolo dos amigos que, em vez de amar a ti, comigo amavam aquilo que eu amava: a imensa fábula, a grande impostura, cujo contato enganador nos corrompia a mente curiosa de novidades (2). Mas essa mentira não morria em mim, ainda que morresse em um amigo meu.

 

        Havia outras atrações que me prendiam o espírito: as conversas e risadas em comum, a troca de afetuosas gentilezas, a leitura em comum de livros agradáveis, o desempenho de tarefas em conjunto, ora insignificantes ora impotentes, contradições passageiras, sem rancor, como acontece a cada um até consigo mesmo, e com tais contradições, assim mesmo bastante raras, tornar mais agradável a habitual concordância de pontos de vista, o ensino recíproco de novidades, o sentir intensamente a nostalgia dos ausentes e o alegre acolhimento no retorno. Estes e outros sinais semelhantes, que brotavam de corações que amam e se sente amados, e que se manifestam no procedimento, nas palavras, no olhar e em mil gestos de agradecimento, como centelhas que inflamam muitos corações e deles fazem um só.

 

9.    FELIZ QUEM AMA A DEUS

 

14      Eis o que amamos nos amigos, o que amamos de tal modo que sentimos a consciência culpada quando não pagamos amor com amor, sem nada esperar do outros senão sinais de afeto. Daí o luto quando morre um amigo, daí as trevas da dor, a doçura que se transforma em amargura, o coração inundado de pranto e a morte dos vivos pela vida perdida dos que morrem.

 

        Feliz aquele que te ama e que, por teu amor, ama o amigo e o inimigo!  Somente não perde nenhum ente querido aquele para quem todos são queridos, aquele que nunca perdemos. E quem é ele senão o nosso Deus, o Deus que criou o céu e a terra e que lhes confere plenitude, pois foi plenificando-os que os fez? Somente quem te abandona pode perder-te. Mas onde irá ao abandonar-te? Para onde fugirá, senão para longe de tua bondade e para perto da tua cólera? Onde poderia ele, no seu castigo, não encontrar a tua lei? E a tua lei é a verdade (1); e a verdade és tu (2).

 

10.    DESTINO EFÊMERO DAS CRIATURAS

 

15      Deus das virtudes, volta-nos para ti, mostra-nos a tua face e seremos salvos (1). Para qualquer parte que se volte a alma humana, se não se fixa em ti, se agarra à dor, ainda que se detenha nas belezas que estão fora de ti e fora de si mesma. Estas nada teriam de belo, se não proviessem de ti. Nascem e morre: nascendo, começam a existir e a crescer para chegar à maturidade; porém, uma vez maduras, decaem e morrem. Nem tudo envelhece, mas tudo morre. Portanto, no exato momento em que nascem começam a existir, quanto mais rapidamente crescem para o ser, tanto mais correm para o não ser. Tal é a condição que lhes impuseste, por serem partes de coisas que não existiam simultaneamente. São coisas que, desaparecendo e sucedendo-se umas às outras, compõem o universo. Também assim se realizava a fala, através de sinais sonoros. E o discurso não seria completo, se cada palavra, depois de pronunciada, não morresse para deixar lugar a outra.

 

        Que minha alma te louve por tudo isso, ó meu Deus, criador de todas as coisas, mas a elas não se deixe apegar por amor aos sentidos. Elas caminham para o seu destino, para deixarem de existir e dilaceram a alma com paixões pestilentas, porque o desejo da alma é existir e repousar no objeto que ama. Mas ele não encontrava lugar de repouso nas coisas, porque não são estáveis: fogem. E quem poderia segui-las com a sensibilidade ou alcançá-las, mesmo quando presentes? Os sentidos são lentos, precisamente por serem carnais; tal é a condição deles. Servem a outros fins, para os quais foram feitos, mas não podem impedir que as coisas corram desde o seu devido princípio ao seu devido destino. Porque, a tua palavra, ao criá-la, disse: "Daqui até ali".

 

11.    SÓ DEUS É ESTÁVEL

 

16      Não sejas vã, ó minha alma. Não ensurdeças o ouvido do coração com o tumulto de tuas vaidades. Ouve também: é o próprio Verbo que clama para voltares. O lugar do repouso imperturbável está onde não se renuncia ao amor, se este não recua. Eis que estas coisas passam para deixar lugar a outras, e de todas essas partes se forma o universo das realidades inferiores. "Porventura eu me afasto de um lugar para outro?", diz o Verbo de Deus: "Fixa nele a tua morada, confia-lhe tudo que dele recebes, ó minha alma, já cansada de tantos enganos. Entrega à verdade tudo o que da verdade tens recebido, e nada perderás; reflorirá tudo o que em ti estiver apodrecido, todas as tuas doenças serão curadas, as tuas fraquezas serão reparadas, renovadas estarão estreitamente ligadas a ti, e não te arrastarão para o abismo, mas subsistirão contigo junto a Deus, que é sempre estável e presente.

 

17      Por que te deixas perverte e segues a tua carne? Que ela se converta e te siga! O que ela te faz sentir são apenas partes de um todo que ignoras do teu corpo fossem capazes de compreender o todo e não tivessem sido, para teu castigo, rigorosamente limitados a uma parte do todo, desejarias que passasse tudo quanto existe no presente para melhor saboreares o conjunto. Ora igualmente pelos sentidos é que ouves tudo o que se diz, e, naturalmente, não desejas que parem as sílabas, pelo contrário, que passem rapidamente e outras se sucedam, e assim possas compreender o pensamento. O mesmo acontece com as partes que, formando um todo, não são coexistentes: percebidas em conjunto, dão mais prazer do que cada uma separadamente.

 

        Todavia, melhor ainda é aquele que criou todas as coisas, o nosso Deus, que não passa, pois nada se sucede a ele.

 

12.    EXORTAÇÃO À PROCURA DA FELICIDADE EM DEUS   

 

18      Se te agradam os corpos, louva a Deus por eles e dirige o teu amor a quem os criou, para não lhe desagrades ao encontrar prazer em tais criaturas. Se te agradam as almas, ama a elas em Deus, pois são também  mutáveis e somente nele tornam-se estáveis; de outro modo, passariam e pereceriam. Portanto é em Deus que deves amá-las; leva-as contigo até ele, dizendo-lhes: "Amemos, amemos a Deus!" Foi ele o criador dessas realidades, e delas não está longe, pois não as abandonou depois de criá-las. Dele elas vêm e nele existem. Ele está onde se saboreia a verdade. Ele esta no íntimo do nosso coração; mas o coração se afastou dele.

 

        Voltai aos nossos corações, pecadores (1), e ligai-vos àquele que vos criou. Firmai-vos nele e sereis estáveis. Repousai nele e tereis a paz. Por que ir à procura de sofrimento? Aonde quereis ir? O bem que amais procede dele, mas só é bom e suave quando para ele dirigido. Torna-se justamente amargo, porque, se abandonamos a Deus, torna-se injusto amar aquilo que dele deriva. Por que percorrer ainda esses caminhos ásperos e difíceis? A paz não está onde a procurais. Procurais a vida na região da  morte. Como poderá haver a vida onde nem sequer existe vida?

 

19      Desceu até a nós a nossa vida, a vida verdadeira; tomou sobre si a nossa morte para matá-la com a superabundância de sua própria vida. E com a voz de trovão chamou para que voltássemos a ele, ao lugar inacessível de onde veio até nós, entrando primeiro no seio da Virgem para unir-se à natureza humana, à carne mortal, para torná-la imortal; e de lá, como o esposo que sai da câmara nupcial, exulta, como um herói, para percorrer o caminho (2). Não se deteve, mas correu, clamando com palavras, como obras, com a próxima morte, com a vida, com a descida aos infernos, com a ascenção, para que retornássemos a ele: para isso havia descido, e para isso tornou a subir e desapareceu da nossa vista para que entremos no coração e aí o encontremos. Partiu, de fato, mas ei-lo aqui. Não quis estar conosco muito tempo, mas não nos abandonou. Partiu para o lugar de onde nunca se retirou, porque o mundo foi feito por ele, e ele estava neste mundo (3), e veio a este mundo para salvar os pecadores (4). É a ele que se confessa a minha alma; é ele quem lhe dá a cura , porque foi contra ele que ela pecou (5).

 

        Ó homens, até quando sereis duros de coração (6)? Será possível que, depois que a vida desceu sobre a terra, não queirais subir e viver? Mas, para onde subiu, se já estais no alto, abrindo a boca contra o céu (7)? Descei, a fim de subirdes para Deus, pois caístes elevando-vos contra ele!

 

        Dize estas coisas a eles, ó minha alma, a fim de que chorem neste vale de lágrimas (8), leva-os assim contigo até Deus: pois é o Espírito de Deus que te inspira essas palavras, se as pronuncias ardendo no fogo da caridade.

 

13.    DO BELO E DO HARMONIOSO

 

20      Ignorando tudo isso, eu amava as belezas terrenas e caminhava para o abismo, dizendo a meus amigos: "Amamos por acaso algo que não seja o belo? E o que é o belo, o que é a beleza? O que é que nos atrai e nos liga aos objetos que amamos? Se não tivéssemos harmonia e encanto, não seríamos atraídos". Eu via e observava, então, que, num corpo, uma coisa é a beleza no seu todo e outra é a sua sintonização com os outros corpos, e isso é a harmonia, tal como a parte em relação ao todo, o calçado em relação ao pé, e coisas semelhantes (1).

 

        Essa consideração brotou-me no espírito, do fundo do coração, e por isso escrevi alguns livros, não sei se dois ou três, sobre a beleza e a harmonia. Sabes, ó Deus, porque os esqueci e não mais os possuo. Eles me desapareceram, não sei como.

 

14.    HOMENAGEM A HIÉRIO

 

21      Que  motivo, Senhor Deus meu, me levou a dedicar esses livros ao orador romano Hiério? Não o conhecia pessoalmente, mas o estimava pela grande fama de seu saber e porque me agradaram palavras suas que eu ouvira. Estimava-o sobretudo por agradar a outros, que o cumulavam de louvores e admiravam de que um sírio de nascimento, célebre na oratória grega, se tornasse também orador notável da língua latina e profundo conhecedor de questões relativas à filosofia. Portanto, pode-se amar e louvar a um homem, ainda que distante. Mas, esse amor, que sai da boca de quem louva, entrará no coração de quem ouve? Claro que não. Mas no amor de um se acende o amor do outro. A gente ama a pessoa elogiada, quando se está persuadido de que tais louvores não nascem da adulação, mas do amor de quem elogia.

 

22      Desse modo eu amava então aos homens de acordo com a opinião dos homens, e não de acordo contigo, ó meu Deus. Pelo teu juízo ninguém é enganado. Por que então eu não louvava a Hiério como se elogia um cocheiro famoso ou um célebre caçador, ídolo das multidões, e sim de maneira diferente, isto é, com seriedade e conforme eu próprio desejaria ser louvado? Certamente eu não desejava ser louvado e amado como os atores, embora também os louvasse e os amasse; minha preferência era ser um personagem obscuro mais do que ser famoso desse modo, ser odiado mais do que ser objeto de um amor de tal gênero. Como se distribuem na mesma alma a força tão diferente de amores tão variados? Como se pode amar nos outros aquilo que se detesta e não se quer para si, sendo embora igualmente homens? A gente ama um bom cavalo, embora não querendo ser igual a ele, ainda que fosse possível. Mas não se pode dizer o mesmo de um ator, que participa de nossa natureza. Será então que eu amo no homem aquilo que detesto ser, mesmo sendo homem também eu? O homem é realmente um grande mistério; mas tu, Senhor, conheces até o número de seus cabelos (1), sem que se perca um só! E, no entanto, os cabelos são muito mais facilmente enumeráveis do que as afeições e sentimentos do coração.

 

23      Aquele orador pertencia à espécie de homens que eu amava tanto, a ponto de desejar ser como ele. Eu andava cheio de orgulho e vagueava de um lado para outro ao sabor do vento (2), enquanto ocultamente me dirigias. Como podia saber e como posso confessar-te com plena certeza que eu amava aquele homem mais pelo amor de quem o louvava do que pelos motivos pelos quais ele era louvado: Se, em vez de o homem, essas mesmas pessoas o tivessem censurado, se tivessem dito dele as mesmas coisas, porém com ar de crítica e desprezo, não me teria inflamado de entusiasmo por ele. No entanto, os fatos não teriam sido diferente, nem ele teria sido outra pessoa: somente teria sido outro o sentimento dos narradores.

 

        Eis a condição da alma fraca que ainda não aderiu solidamente à verdade. Vai e volta, avança e retrocede, conforme sopra o vento das palavras de quem exprime uma opinião. Ofusca-se a luz, e não mais enxerga a verdade. E ei-la que está diante de nós.

 

       Para mim, teria sido muito importante que aquele personagem tivesse conhecido o meu estilo e os meus estudos. Uma aprovação sua teria estimulado meu entusiasmo, ao passo que sua aprovação ter-me-ia apunhalado o coração vazio e carente de tua firmeza. No entanto, contemplava com íntima satisfação a obra a ele dedicada sobre a beleza e a harmonia, e a admirava, sem que ninguém mais comigo a louvasse.

 

15.    COMPLACENTES ELUCUBRAÇÕES DE AGOSTINHO; DEUS RESISTE AOS SOBERBOS

 

24      Eu, porém, não percebia ainda o fulcro de tão grandes coisas na tua sabedoria, ó Deus onipotente, o único que opera maravilhas (1)! Meu espírito percorria as várias formas corpóreas e definia como belo o que é bem feito em si, e como conveniente, o que é harmonioso em relação aos demais objetos; e justifica essa distinção por meio de exemplos concretos. Voltei-me então para a natureza da alma, mas a falsa opinião que tinha sobre as coisas espirituais impedia-me de ver a verdade (2). A própria força da verdade saltava-me aos olhos, e eu desviava da realidade incorpórea a mente ansiosa para fixá-la nas linhas, nas cores, nas grandes massas. Não conseguindo percebê-las na alma, julgava impossível ver o meu espírito. Amando a paz na virtude e detestando as discórdias no vício, notava unidade na primeira e uma certa divisão no vício; pareci-me que nessa unidade residia a alma racional, essência da verdade e do sumo bem, enquanto nessa divisão percebia o princípio da vida irracional e não se que substância e que essência do sumo mal, que para mim - miserável! - era não somente substância, mas vida, embora estão não procedesse de ti, meu Deus, de quem provém todas as coisas (3). À primeira eu dava o nome de mônada, enquanto inteligência assexuada; e díade à segunda, enquanto ira no delito e prazer do vício. Eu não sabia o que dizia. Não sabia; de tato, não havia aprendido que o mal não é substância, nem é a inteligência bem supremo e imutável.

 

25      Assim como surge o crime, quando o impulso espiritual que move nossas ações é corrupto e se manifesta com arrogância e tumulto, ou se pratica o vício, quando não se refreiam as paixões que alimentam os prazeres físicos, assim também, se a alma racional é corrompida, os erros e opiniões falsas contaminam a existência. E viciada estava então a minha alma, ignorando que, não sendo ela mesma a essência da verdade, outra luz deveria iluminá-la se quisesse participar da verdade. És tu, Senhor, a minha lâmpada; iluminarás, ó Deus, as minhas trevas (4), pois de tua plenitude todos nós recebemos (5). Tu és a luz verdadeira que ilumina todo homem quem vem a este mundo (6), pois em ti não há mudança nem sombra momentânea (7).

 

26      Esforçava-me, porém, por aproximar-me de ti, mas tu me repelias, para que eu provasse a morte, pois resistes aos soberbos. Haverá soberba maior que afirmar inaudita loucura ser eu igual a ti por natureza? Ora, sendo eu mutável - o que para mim era evidente, pois desejava ser sábio para de pior passar a melhor - preferia imaginar-te mutável também tu, a imaginar-me diferente do que és.

 

        E assim me repelias e resistias à minha vaidade e obstinação. Fixava a imaginação em formas corpóreas. Era carne, e acusava a carne (8). Era um sopro errante, e não me decidia a voltar a ti, e andava vagando por quimeras que em ti não existem nem em mim, nem nos corpos materiais. Não eram criações de tua verdade, e sim fruto das minhas ficções que as imaginavam corpóreas. Eu dizia a teus humildes fiéis, meus concidadãos de cujo meio encontrava-me inconscientemente exilado, dizia-lhes com tola petulância: "Por que deveria a alma, criada por Deus, enganar-se?" E não tolerava que me retrucassem: "Por que deveria Deus enganar-se?" Preferiria sustentar que a tua imutável natureza era fatalmente condenado ao erro, a confessar que a minha, mutável, se tivesse desencaminhado por livre vontade e tivesse ficado sujeita ao erro por castigo.

 

27      Tinha cerca de vinte e seis anos ou vinte e sente anos quando escrevi aqueles livros, revolvendo no pensamento imagens materiais que me zumbiam aos ouvidos do coração. Ó doce verdade, era tua doce melodia interior que eu escutava ao meditar sobre o belo e o conveniente. Desejava ouvir-te e ficar contigo tomado de alegria ouvindo à voz do esposo (9), mas não o podia, porque as vozes do erro arrastavam-me para fora, e o peso da soberba me precipitava no abismo. Não me concedias ao ouvido o gozo e a alegria, nem podiam meus ossos rejubilar-se, pois não tinha ainda sido humilhados (1).

 

16.    AS DEZ CATEGORIAS DE ARISTÓTELES

 

28      De que me servia ter lido e compreendido sozinho, aos vinte anos, a obra de Aristóteles, intitulada As dez categorias, que me viera às mãos? Quando meu mestre de retórica, em Cartago, e outras pessoas consideradas eruditas citavam esse nome com ênfase, eu ficava atônito e ansioso, como diante de uma realidade grandiosa e divina.

 

        Conversando sobre o assunto com alguns que confessavam tê-las com dificuldade compreendido, mediante explicações de mestres cultíssimos, não só por palavras, mas através de desenhos traçados na areia, nada mais me puderam ensinar, que eu já não tivesse aprendido na simples leitura particular. Parecia-me que o livro era suficientemente claro ao falar das substâncias, tais como a forma exterior do homem, sua estatura: quanto mede, o parentesco: de quem é irmão, ou então o lugar onde vive, quando nasceu, se está em pé ou sentado, calçados os pés ou armado, agente ou paciente de uma ação, enfim, todas as inúmeras qualidade compreendidas nas nove categorias, das quais dei algum exemplo (1), e na própria categoria de substância.

 

29      Para que me servia tudo isso? Até me prejudicava, pois, julgando que tudo estava incluído nos dez atributos, esforçava-me por conceber-te da mesma maneira, ó meu Deus, tu que és admiravelmente simples e imutável. Acreditava que tua grandeza e tua beleza substituíssem em ti como os acidentes nas substâncias, por exemplo, nos corpos. Mas tu és a própria grandeza e a própria beleza; os corpos, pelo contrário, não são grande e belos pelo simples fato de serem corpos, pois, ainda que fossem menos grandes e menos belos, não deixariam de ser corpos. Era falso, e não verdadeiro, o que eu pensava de ti, invenção de minha miséria, em lugar da verdadeira realidade de tua beatitude. Tinhas ordenado que a terra produzisse para mim espinhos e  cardos, e que eu comesse o pão com o suor do meu rosto (2), e era o que me acontecia.

 

30      Mas sendo escravo das piores paixões, de que me servia ter lido e compreendido por mim mesmo todos os livros que pude ler sobre as artes chamadas liberais? Comprazia-me neles, sem perceber de onde provinha tudo o que encerravam de certo e verdadeiro. Voltava as costas à luz, e a face aos objetos por ela iluminados; e, assim, o meu rosto, com que os via iluminados, não era ele próprio iluminado.

 

        Tu sabe, Senhor meu Deus, quantas noções de arte e dialética, de geometria, música e aritmética, eu aprendi sem grande dificuldade e sem auxílio humano, já que a agilidade da inteligência e a perspicácia crítica são dons teus. No entanto, eu não os oferecia a ti. E assim, longe de me serem úteis, causavam-me dano ainda maior. De fato, insisti em apoderar-me de boa parte da minha herança (3), e não quis confiar-te minha força (4), mas afastei-me de ti para uma região longínqua a fim de tudo dissipar em paixões luxuriosas (5).

 

        Mas, de que me serviam tão preciosos dons, se deles não fazia bom uso? Eu não percebia que essas doutrinas eram de difícil compreensão até a homens de gênio e de estudo: só o percebia quando as tentava explicar. E o melhor deles era quem menos demorava em acompanhar-me as explicações.

 

31      Mas, de que me servia isso, Senhor Deus da verdade, se eu acreditava que tu eras um corpo luminoso e imenso, e eu uma parcela desse corpo? Requintada perversidade! Mas eu era assim, e agora, meu Deus, não me envergonho de confessar as misericórdias por ti operadas em mim e de invocar-te, como então não me envergonhei de pronunciar blasfêmias diante dos homens ladrando contra ti.

 

        Que me adiantava então possuir talento tão ágil para entender as ciências humanas, e  deslindar, sem ajuda de ensino humano, tantos livros intricados, se depois errava de modo tão monstruoso e sacrílego na doutrina religiosa? E que prejuízo sofriam teus humildes filhos por terem menos inteligência, se de ti não se afastavam, se no ninho de tua Igreja lhes cresciam as penas, nutrindo as asas da caridade com o alimento de uma fé sadia?

 

        Senhor nosso Deus, faze que sejamos cheios de esperança à sombra de tuas asas (6), e dá-nos proteção e apoio. Tu nos sustentarás desde pequenos e até o tempo dos cabelos brancos (7), pois a nossa firmeza é firmeza quando se apóia em ti, mas é fraqueza quando se apóia em nós.

 

        Vive sempre junto a ti o nosso bem, e nos tornamos perversos quando nos afastamos de ti. Retornemos a ti, Senhor, para que não sejamos destruídos. De fato, é em ti que o nosso bem vive e não desfalace, pois tu mesmo és o bem; e não receamos mais encontrar o lugar de onde caímos, pois em nossa ausência não se destrói a nossa casa, que é a tua eternidade.


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Petrus Eni