DA ÁFRICA À ITÁLIA
1. LOUVOR AO DEUS DAS MISERICÓRDIAS
1 Recebe o sacrifício destas minhas confissões através de minha língua (1), que criaste e encorajaste, para que cante o teu nome (2); cura-me todos os ossos (3) e faze que eles digam: "Senhor, quem é semelhante a ti?" (4).
Quem a ti se confessa, nada de novo te informa de quanto lhe vai na alma, pois nem do coração mais fechado pode subtrair-se ao teu olhar, nem a dureza dos homens pode afastar a tua mão: tu a tornas branda de acordo com o teu querer, seja perdoando, seja punindo. Ninguém pode fugir ao teu calor (5).
Que minha alma te louve (6) para te amar; que confesse as tuas misericórdias para te louvar. Toda a criação entoa sem cessar os teus louvores: os seres espirituais voltados para ti, e os demais seres animados ou inanimados, através da boca de quem os contempla. Desse modo, nossa alma, apoiando-se nas criaturas e recuperando-se d a própria fraqueza, junta-se a ti, admirável criador delas, pois em ti encontra renovação e força verdadeira.
2. PRESENÇA DE DEUS CONSOLADOR
2 Afastem-se, fujam de ti os revoltados e os maus (1). Tu os vês e lhes distingues as sombras: o universo com eles é belo, embora sejam feios e disformes (2)! Mas, que mal puderam fazer-te? Como puderam desonrar-te o reino, puro e santo, desde o mais alto dos céus às últimas extremidades da terra? Para onde fugiram, ao fugirem, de tua face? Em que lugar não os podes encontrar? Fugiram para não verem teu olhar a observá-los, ofuscados e para esbarrarem contigo - pois não abandonas as tuas criaturas (3); - sim, para esbarrarem contigo e serem com justiça punidos. Quiseram fugir de tua bondade, e esbarraram na tua justiça, e incidiram na tua severidade. Evidentemente não sabem que estás em toda parte, que nenhum espaço te encerra, e que somente tu sempre estás presente, mesmo àqueles que se afastam de ti. Que voltam atrás e te procurem, porque não abandonas as tuas criaturas, como estas abandonam o Criador. Voltem a procurar-te, eis que aí estás, em seus corações, no coração de cada um que te reconhece e se lança a teus pés, e chora no teu seio, após longa e difícil jornada. Tu estás pronto a enxugar as suas lágrimas; choram ainda mais e no pranto encontram a alegria, porque tu, Senhor, não és um homem qualquer de carne e osso, mas és tu o Senhor, que os fizeste, que agora os encoraja e consola. Onde estava eu quando te procurava? Estavas diante de mim, e eu até de mim mesmo me afastava, e se não encontrava nem a mim mesmo, menos podia encontrar-te a ti.
3. ENCONTRO COM FAUSTO, BISPO MANIQUEU
3 Contarei, na presença do meu Deus, os acontecimentos daquele meu vigésimo nono ano de idade.
Tinha vindo a Cartago um bispo maniqueu chamado Fausto, grande armadilha do diabo (1), cuja melíflua eloqüência envolvera já muitas pessoas. Embora grande admirador dessa eloqüência, eu sabia distingui-la da verdade das coisas que era ávido de aprender; eu não reparava tanto no prato do discurso, mas que comida me servia esse famoso Fausto, tão citado pelos seus. Precedia-o a fama de homens competentíssimos nas ciências mais nobres e, em particular, de erudito nas letras. Eu que recordava - por tê-las lido e estudado - as obras de muitos filósofos, comparava algumas delas às prolixas fantasias dos maniqueus, e concluía por achar mais verossímeis as teorias daqueles que possuíram luz suficiente para poder perscrutar a ordem no mundo, embora não tenham de nenhuma forma encontrado o seu Senhor (2); pois tu, Senhor, és grande e olhas para o pobre, e de longe fitas o soberbo (3), tu te aproximas do coração contrito, e não te revelas aos soberbos, ainda que a curiosidade e perícia deles consigam contar as estrelas do céu e os grãos da areia, medir os espaços celestes e explorar o curso dos astros.
4 Investigando esses mistérios com a inteligência e a perspicácia de ti recebidas, fizeram muitas descobertas: predisseram com antecipação de muitos anos os eclipses do sol e da lua, precisando o dia, a hora e o modo de cada evento, sem erro de cálculo. E tudo sucedeu conforme tinham previsto. De suas descobertas resultaram as leis até hoje consultadas e usadas para predizer o ano, o mês, o dia, a hora dos eclipses totais ou parciais do sol e da lua; e o fenômeno se realiza segundo as previsões. O povo se admira, os ignorantes ficam estupefatos, os sábios cientistas exultam e se orgulham, mas, afastados e eclipsados de tua luz por sua vã soberba, prevêem com tanto antecipação o eclipse do sol e não enxergam o seu próprio, já presente, porque não procuram indagar, como espírito religioso, aquele de quem recebem a inteligência que usam em tais pesquisas. E ainda que descubram terem sido feitos por ti, não são capazes de se entregarem a ti, para que conserves o que fizeste. Como se fossem seus próprios criadores (4), não se oferecem a ti; não sacrificam as próprias ambições, como se abatem os pássaros que voam; não sufocam as próprias curiosidades que, como peixes do mar, perscrutam os segredos do abismo; nem extirpam as luxúrias como se caçam os animais do campo (5), a fim de que tu, meu Deus, fogo devorador, possas recriar suas pessoas para uma vida nova, destruindo nelas os desejos mortais.
5 Não conhecem o caminho, que é a tua Palavra, por meio da qual criaste, não só o que eles medem, mas também a eles mesmos que medem, até os sentido pelos quais vêem o que calculam, e a inteligência com a qual calculam, ilimitada (6)! O próprio Unigênito se fez para nós sabedoria, justiça e santificação (7), foi considerado um de nós e pagou tributo a César (8). Não conhecem o caminho pelo qual, deixando o orgulho, iriam até o Salvador, e, por ele, subiriam novamente a ele; ignoram este caminho e se consideram tão elevados e cintilantes quanto os astros; e tombaram por terra, com o coração coberto pelas trevas da ignorância. Dizem muitas verdades sobre as criaturas, e não buscam devotamente a verdade, artífice da criação; assim, não a encontram, ou, se a encontram, embora conhecendo a Deus, não lhe prestam honra como a Deus, nem lhe rendem graças. Perdem-se em vãs reflexões. Proclamam-se sábios, atribuindo a si dons que são teus; e se emprenham, cegos e perversos, em atribuir-te o que propriamente pertence a eles: transferem suas falsidades a ti, que és a Verdade, e assim trocam a glória do Deus incorruptível por imagens do homem corruptível, de aves, quadrúpedes e répteis; trocam a verdade de Deus pela mentira, e adoram e servem a criaturas em lugar do Criador (9).
6 Eu, no entanto, conservava dessas filosofias muitas verdades sobre as criaturas, e tinha prova racional pelos cálculos, pela sucessão das estações, pelo testemunho visível dos astros, e a confrontava com a doutrina de Manés, que escrevera abundantemente muitos disparates sobre tais problemas, mas não me ocorria explicação racional, nem dos solstícios e dos equinócios, nem dos eclipses dos astros, nem de coisa alguma que aprendera nos livros dos sábios profanos. Todavia, era obrigado a acreditar, embora a doutrina deles não concordasse com os resultados de meus cálculos e de minhas experiências, deles divergindo totalmente.
4. CIÊNCIA HUMANA E FÉ DIVINA
7 Senhor, Deus da verdade (1), será suficiente conhecer essas coisas para ti agradar? Infeliz o homem que conhece tudo isso e não te conhece. Feliz aquele que te conhece, ainda que ignore o resto. Aquele que te conhece a ti e também as outras coisas, não é mais feliz por esse conhecimento, mas somente por conhecer a ti, e conhecendo-te, te glorifica pelo que és, e te rende graças, e não se perde em vãs reflexões. De fato, aquele que se reconhece possuidor de uma árvore e te é grato pelo uso que dela pode fazer, ainda que não saiba qual a altura ou largura dela, é melhor do que aquele que a mede, lhe conta os galhos, mas não a possui e não conhece nem ama o criador dela. Do mesmo modo, a pessoa de fé possui todas as riquezas do mundo (2) e, mesmo que nada tenha, é como quem tudo possui (3), pois está unida a ti, Senhor de todas as coisas, pouco importando se nada sabe sobre o percurso da Ursa Maior! Seria loucura duvidar de que está em melhor situação do que aquele que sabe medir os céus, contas as estrelas e pesar os elementos, e no entanto despreza a ti, que tudo dispuseste com medida, quantidade e peso (4).
5. MANÉS SE APRESENTA COMO PESSOA DIVINA
8 Mas quem pedia a esse Manés que escrevesse sobre tais assuntos, de cujo conhecimento se pode prescindir para se aprender a piedade? Disseste ao homem: "A piedade é sabedoria" (1). Por isso, ele podia ignorar a piedade ainda que possuísse profundamente todos aqueles conhecimentos. Mas já que teve a desfaçatez de ensinar as coisas que não sabia, certamente não podia conhecer a piedade. É vaidade o fato de exibir a ciência mundana que se possui, mas é piedade reconhecê-la como dádiva tua. Manés falava tanto e tão desatinadamente sobre esses assuntos, que era facilmente confundido pelos verdadeiramente instruídos na matéria, de onde se concluía claramente qual a sua competência em outras questões mais recônditas. Não querendo ser desconsiderado pelos homens, tentou provar que o Espírito Santo, consolo e riqueza de teus fiéis, nele habitava pessoalmente e com a plenitude de sua autoridade. Portanto, quando era apanhado em flagrante erro nas teorias ensinadas sobre o céu, as estrelas, os movimentos do sol e da lua - assuntos estranhos à doutrina religiosa - tornava-se evidente sua sacrílega temeridade: transmitia noções não só por ele ignoradas, como também falsas, com tão insensato orgulho, que não hesitava em atribuí-las a si próprio, como se fosse pessoa divina.
9 Quando ouço algum de meus irmãos cristãos que ignora tais questões e confunde uma coisa com outra, suporto-lhe o erro com paciência, e não me parece nocivo que ignore a posição e o comportamento das criaturas corpóreas, contanto que não tenhas opiniões indignas a teu respeito, Senhor, criador de tudo. Todavia ser-lhe-á funesto julgar que essas questões pertencem à essência doutrinal da religião, e ter a ousadia de insistir em afirmações sobre assuntos que ignora. No entanto, tal fraqueza, nos primeiros passos do caminho da fé, é amparada maternalmente pela caridade, até que o homem atinja a plena maturidade e não mais se deixe levar ao sabor de qualquer doutrina (2). Mas, aquele que teve a ousadia de fazer-se doutor, mestre, guia, chefe, e que faz seus discípulos crerem que estão seguindo não a um homem qualquer, mas o teu próprio Espírito Santo - quem não o julgaria, por tamanha loucura, digno de excreção e desprezo, uma vez demonstrada sua falsidade? Eu, porém, não via ainda com clareza se era ou não possível explicar, à luz de seus ensinamentos, as mudanças de duração dos dias e das noites, ora mais longa ora mais breve, a própria alternância deles, e os eclipses e fenômenos semelhantes, sobre os quais havia lido em outros livros. Que tal explicação fosse possível, era ainda incerto para mim, porém, a autoridade dele se antepunha à minha fé, devido à sua fama de santidade.
6. PERSONALIDADE DE FAUSTO
10 Durante cerca de nove anos, em que me pensamento errante escutava a doutrina maniqueísta, aguardava ansiosamente a chegada desse Fausto. Todos os outros maniqueus, com quem tivera ocasionalmente contato, não sabiam responder às objeções que eu lhes apresentava, e me prometiam que, à chegada dele, e num simples colóquio, seriam resolvidas, com extrema facilidade, essas e outras questões ainda mais graves que eu viesse a propor. Assim, quando ele chegou, travei conhecimento com um homem amável, de fala agradável, capaz de expor de forma muito mais atraente o que os outros dizem. Mas que importavam à minha sede os preciosos cálices de um elegantíssimo copeiro? Meus ouvidos já estavam saturados porque feitos em linguagem mais burilada, ou mais verdadeiros por serem mais eloqüentes. Nem me parecia ele mais sábio pelo fato de ter aspecto simpático e falar elegante. E aquele que o haviam elogiado não eram bons conhecedores da realidade, pois o tinham na conta de prudente e sábio por se agradarem de sua eloqüência.
Conheci também outro tipo de pessoas, para as quais até a verdade era suspeita, e que não a aceitavam quando apresentada em linguagem rebuscada. Eu, porém, já tinha sido ensinado por ti, meu Deus, de modo extraordinário e misterioso. Creio no que me ensinaste, porque é verdade, e fora de ti ninguém é mestre da verdade, qualquer que seja a maneira ou lugar em que esta apareça. Eu já havia aprendido de ti que uma coisa não deve ser aceita como verdade apenas pelo fato de ser afirmada em belo estilo, e não deve ser tida por falsa porque as palavras saem dos lábios de modo confuso; por outro lado, não deve ser julgada verdadeira porque expressa sem cuidado, ou falsa porque apresentada com elegância. A sabedoria e a ignorância são mais ou menos como os alimentos úteis ou nocivos: podem ser apresentadas através de palavras polidas ou rudes, como os bons e maus alimentos podem ser servidos em pratos finos ou grosseiros.
11 A avidez com que durante tanto tempo esperei por aquele homem era satisfeita agora pelo calor e animação de sua dialética, e por suas palavras tão bem escolhidas e que lhe ocorriam com facilidade para revestir seu pensamento. Eu estava encantado, e, como muitos outros, ou antes, mais do que muitos outros, eu o louvava e exaltava. todavia, aborrecia-me o fato de não conseguir, entre a multidão de ouvintes, comunicar-lhe as dificuldades que me angustiavam, compartilhando-as familiarmente com ele, e ouvindo e respondendo a seus argumentos. Quando finalmente me foi possível, com alguns amigos, fazer que ele me escutasse num momento oportuno, então lhe apresentei algumas dificuldades que me perturbavam. Descobri logo que ele nada entendia das disciplinas liberais, com exceção da gramática, da qual conhecia apenas o corriqueiro. Tinha lido alguns discursos de Cícero, pouquíssimas obras de Sêneca, algumas obras de poetas, e umas poucas, de seus correligionários, escritas em latim mais cuidado. E, como se exercitava diariamente na oratória, havia adquirido facilidade de falar, tornada ainda mais agradável e sedutora pelo emprego inteligente de seu talento e de certa graça natural.
Serão exatas essas recordações, Senhor meu Deus, árbitro da minha consciência? Coloco diante de ti meu coração e minha memória; tu, que desde então me guiavas pelos caminhos secretos de tua providência, já me lançavam em rosto meus graves erros, a fim de que eu os enxergasse e os detestasse.
7. O MANIQUEÍSMO COMEÇA A DESILUDI-LO
12 Depois que me pareceu evidente ser aquele homem incompetente nas ciências em que o considerara competentíssimo, comecei a desesperar de sua capacidade para explicar e resolver os problemas que me angustiavam. Ele poderia perfeitamente ser ignorante em tais questões e, no entanto, possuir a verdade da fé, desde que não fosse maniqueísta. Os livros desta seita, na verdade, estão cheios de intermináveis fantasias a respeito do céu, dos astros, do sol e da lua. Na verdade, eu já não esperava que ele pudesse demonstrar, de modo satisfatório, o que eu mais desejava saber: se essas dificuldade eram resolvidas claramente nos livros maniqueístas ou naqueles em que eu havia encontrado cálculos que me satisfaziam, ou se pelo menos as duas soluções se equivaliam. Fosse como fosse, e ele modestamente não teve a coragem de assumir a responsabilidade de uma demonstração. Reconhecia a própria ignorância e não se envergonhou de confessá-la. Não pertencia ao grupo de palradores que muitas vezes eu suportara e que tinham procurado elucidar-me sem nada dizer. Este homem tinha um coração que, se não era dirigido a ti (1) pelo menos era bastante prudente consigo mesmo. Não ignorando a própria ignorância, não quis arriscar-se temerariamente numa discussão que não lhe permitiria saída nem retirada fácil. Foi-me por isso mais simpático do que os outros. A modéstia de um espírito sincero é mais bela que a ciência que eu buscava. E foi sempre o mesmo diante de todas as questões mais difíceis e sutis.
13 Apagado assim meu entusiasmo pelas obras maniqueístas, e nada podendo esperar de outros mestres, já que o de maior fama se revelara tão incompetente diante dos problemas que me angustiavam, resolvi manter com ele relações baseadas apenas no grande interesse que mantinha pela literatura, que eu, como professor de retórica, ensinava aos jovens de Cartago. Lia com ele, ora os textos que ele desejava conhecer, ora os que eu considerava mais adequados a uma inteligência com a sua. Quanto ao mais, o ardor que eu tivera em progredir na seita que abraçara, arrefeceu completamente logo que conheci esse homem, mas não a ponto de desligar-me radicalmente dos maniqueístas. Com efeito, não encontrando solução melhor, decidira contentar-me temporariamente com ela, até encontrar algo mais claro que merecesse ser abraçado. Nessas condições, aquele Fausto, que para muitos se constituía em armadilha mortal, começava já, involuntária e inconscientemente, a desfazer o laço no qual eu havia caído.
Eram tuas mãos, meu Deus, que, no segredo de tua providência, não abandonava minha alma, enquanto no sangue do coração de minha mãe em pranto, te era oferecido, dia e noite, um sacrifício por mim.
Agiste para comigo de modo maravilhoso. Assim o fizeste, meu Deus. Pois é o Senhor quem conduz os passos do homem e lhe inspira o seu caminho (2). Como alcançar a salvação senão por tuas mãos, que renovam a obra que criaste?
8. PARTIDA PARA ROMA
14 Foi portanto por tua ação em mim que eu me deixei convencer em ir para Roma, preferindo ensinar aí o que ensinava em Cartago. Não hesitarei em confessar de onde me veio tal inspiração, porque é nessas ocasiões que se deve reconhecer e proclamar a profundidade dos teus desígnios e a tua misericórdia sempre pronta a nos ajudar. Não me decidi a ir a Roma porque os amigos que a isto me solicitavam prometiam maior lucro e mais prestígio, embora tais motivos também me atraíssem. A razão principal e quase única era o fato de ter ouvido dizer que aí os jovens se dedicavam ao estudo mais tranqüilamente, refreados por uma disciplina mais severa. Não invadiam desordenada e atrevidamente a sala de aula de um mestre, do qual não eram alunos, nem eram aí admitidos sem sua licença. Em Cartago, a liberdade dos estudantes é completamente desinibida; precipitam-se cinicamente salas a dentro, em atitude furiosa, perturbando a ordem que o professor procura estabelecer entre os alunos, para próprio benefício destes. Com insolência fazem freqüentes provocações que seriam punidas por lei, se a tradição não os protegesse, o que revela miséria ainda maior, por praticarem, como se fossem lícitas, ações que, segundo tua lei, jamais o serão.
Julgam agir impunemente, ao passo que a própria cegueira de seu comportamento já constitui um castigo. Sofrem assim dano muito maior do que o mal que cometem. Eu, como estudante, jamais assumira semelhantes atitudes (1); como professor era obrigado a suportá-las nos outros. Agradava-me por isso a idéia de transferir-me para um lugar onde, conforme se dizia, não acontecia o mesmo. Mas tu, minha esperança, minha herança na terra dos vivos (2), a fim de induzir-me a mudar de ambiente para o bem de minha alma, fazias com que encontrasse em Cartago motivos para afastar-me e me oferecias, em Roma, seduções através dos homens que amam esta vida de morte e que se entregam aqui a atos de loucuras e lá me faziam promessas de vaidade. Para me corrigires os passos, usavas misteriosamente da perversidade deles e minha. De fato, os que me perturbavam o sossego eram cegos de furor degradante, e os que me convidavam a mudar de vida eram ávidos de coisas terrenas. Quanto a mim, se eu detestava aqui uma realidade miserável, apetecia em Roma uma falsa felicidade.
15 No entanto, somente tu, meu Deus, conhecias os motivos que me faziam deixar Cartago e me levavam a Roma, mas não os manifestavas à minha mãe nem a mim. Ela chorou amargamente a minha partida e me seguiu até o mar. Quando me apertou estreitamente, tentando persuadir-me a voltar ou a deixá-la vir comigo, enganei-a, fingindo que desejava acompanhar um amigo que aguardava vento favorável para navegar. Menti à minha mãe - e que mãe! Fugi dela. No entanto, apesar da sordidez execrável de que eu estava cheio, tu me salvaste, porque me perdoaste misericordiosamente ainda dessa vez, pois me livraste ileso das águas do mar para conduzir-me às águas da tua graça. Estas, purificando-me, enxugariam os rios de lágrimas dos olhos de minha mãe, que por mim regavam a terra quotidianamente diante de ti. Recusando voltar sem mim, eu a convenci com esforço a passar a noite numa capela dedicada a são Cipriano, vizinha ao lugar onde se achava nosso navio. Nessa mesma noite parti escondido, e ela ficou a chorar e a rezar. Que te pedia ela, meu Deus, com tantas lágrimas, senão que impedisses a minha viagem? Mas tu, em teus misteriosos desígnios, escutando o ponto vital de seus desejos, não atendeste ao que ela te pedia, exatamente para realizares em mim a aspiração das suas contínuas preces.
Soprou o vento, encheram-se as velas, e desapareceu a nossos olhos a praia, na qual na manhã seguinte ela enlouqueceria de dor e encheria de lamentos e gemidos teus ouvidos indiferentes. Tu me levavas para longe dela, a fim de que eu vencesse as paixões pelas próprias paixões e para punir com o merecido flagelo da dor a saudade do seu amor humano por mim. Como acontece com todas as mães, queria conservar-me a seu lado, porém muito mais que o normal, e não sabia que tu, com minha ausência, lhe preparavas grandes alegrias. Ela não o sabia, e por isso chorava e se lamentava. Surgia, neste seu sofrimento, e herança de Eva, pois procurava na dor aquele que na dor tinha dado à luz (3). Acusando-me de tê-la enganado cruelmente, voltou à vida habitual e às orações por mim. Eu viajava para Roma.
9. CHEGADA A ROMA. MÔNICA REZA DE LONGE
16 Em Roma, fui atingido pelo flagelo dos sofrimentos físicos, e já me encaminhava para o inferno, carregado de todas as faltas, cometidas contra ti, contra o próximo e contra mim mesmo, numerosas e graves, além da culpa original, pela qual todos morremos em Adão (1). Nenhuma delas me tinha sido perdoada pelos merecimentos de Cristo, nem ele tinha ainda apagado com a sua cruz a inimizade que eu, pelos meus pecados, contraíra contigo; e como poderia fazê-lo um fantasma na cruz, como eu o considerava (2)? Tão falsa me parecia sua morte corporal, quanto era verdadeira a morte de minha alma; e tão verdadeira era a morte da sua carne, quanto era falsa a vida da minha alma. Aliás, disto eu não me persuadia. Entretanto, a febre aumentava, e eu ia morrer em perdição. De fato, morrendo então, para onde iria eu, senão para o fogo e para as penas estabelecidas por tua lei para um comportamento semelhante ao meu? Minha mãe ignorava o perigo que eu corria. Mas bem longe continuava a rezar por mim. Mas tu, que estás presente em toda parte, a ouvias onde ela estava, e tinhas compaixão de mim, onde eu me encontrava. E de novo deste a saúde do corpo. Minha alma sacrílega, porém, estava ainda doente; de fato, mesmo diante de perigo tão grave, eu não desejava o batismo. Eu era melhor quando menino, quando pedi ao amor de minha mãe que eu fosse batizado, como já relatei (3). Cresci. E, para vergonha minha, era tão louco que desprezava as prescrições de tua medicina. Mas não permitiste, naquela condição de pecado, que eu sofresse as duas mortes; o coração de minha mãe receberia um golpe, do qual não se recuperaria jamais. Não é fácil explicar o que ela sentia por mim: sofria muito mais agora ao dar-me à luz pelo espírito, do que quando sofreu as dores do parto natural (4).
17 Não vejo como ela se recuperaria, se a minha morte ocorrida em tais condições, tivesse ferido as entranhas do seu amor. E assim, para onde teriam ido tantas orações, tão constante e ininterruptas, senão para junto de ti? Tu, ó Deus da misericórdia (5), não podias desprezar o coração contrito e humilhado (6) de uma viúva pura e modesta, fiel nas esmolas e devota servidora de teus santos, que não deixava passar um dia sem apresentar ao altar a sua oferta, que duas vezes por dia, pela manhã e pela tarde, ia à igreja, não para inúteis tagarelices, conforme o costume de certas senhoras, mas para ouvir tua palavra e fazer-se ouvida por ti em suas orações. Ela era assim por graça tua: poderias, acaso, recusar ajudá-la, não te importando com aquelas suas lágrimas, que não te pediam nem ouro, nem prata, nem outros bens frágeis e passageiros, senão apenas a salvação de seu filho? Certamente não, Senhor. Pelo contrário, estavas a seu lado e escutavas, realizando teu plano preestabelecido. É certo que não a enganavas nas visões e respostas que lhe davas, tanto aquelas que já recordei (7), como outras que não relembrei. Ela as conservava cuidadosamente no coração e as apresentava a ti, em oração, como promessas por ti subscritas. De fato, tua misericórdia é eterna (8), e através de tuas promessas queres fazer-te devedor daqueles aos quais perdoas todas as dívidas.
10. ENTRE O MANIQUEÍSMO E O CETICISMO ACADÊMICO
18 Restabeleceste minha saúde e salvaste no corpo o filho da tua serva, para mais tarde dar a ele uma salvação maior e mais segura. No entanto, eu continuava em Roma a freqüentar os chamados santos (1) enganados e enganadores, e não só com os seus "ouvintes" - entre os quais estava aquele que me acolheu em casa quando adoeci e convalesci - mas também com os chamados "eleitos". Conservava ainda a idéia de que não éramos nós que pecávamos, mas alguma outra natureza estabelecida em nós. O fato de estar sem culpa e de não dever confessar o mal após tê-lo cometido satisfazia o meu orgulho; desse modo eu não permitia que curasses minha alma que pecara contra ti (2) preferindo desculpá-la e acusar não sei qual outra força, que estava em mim, mas que não era eu. Na realidade, tudo aquilo era eu, mas a impiedade me dividia contra mim mesmo. Pecado ainda mais grave era o de não me considerar pecador, e execrável iniqüidade era preferir que tu, Deus onipotente, fosses vencido em mim para minha ruína, em lugar de eu ser vencido em ti para minha salvação! Ainda não tinhas posto guarda à minha boca, e uma porta de proteção para meus lábios, a fim de que o meu coração não se afeiçoasse às palavras de malícia, a fim de encontrar desculpas para os meus pecados (3). Por isso me entendia ainda com seus eleitos, não mais esperando progredir naquela falsa doutrina; passei a olhar com menor empenho e interesse os princípios que havia decidido adotar, até que encontrasse algo melhor.
19 Vieram-me de fato a idéia de que os mais esclarecidos entre os filósofos eram os chamados Acadêmicos, quando afirmavam ser preciso duvidar de tudo, e que o homem nada pode compreender da verdade (4). Eu conhecia o pensamento deles, pelo que lhes era comumente atribuído, pois não compreendia ainda seus reais propósitos. Nessa condições, não deixei de reprimir claramente a excessiva confiança que - como eu constatei - meu hospedeiro nutria pelas fábulas que enchem os livros maniqueus. No entanto, eu cultivava mais amizade com eles do que com os estranhos a essa heresia. Já não defendia essa doutrina com o entusiasmo de outrora. Mas, a amizade dos maniqueus (em Roma muitos se ocultavam) impedia-me de procurar outra coisa, mesmo porque não tinha esperança de encontrar na tua Igreja a verdade da qual me havia afastado, ó Senhor do céu e da terra, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis. Parecia-me realmente indigno acreditar que havias tomado a imagem humana e circunscrito tua divindade nos limites do corpo humano. E, no entanto, quando queria pensar no meu Deus, só sabia representá-lo sob a forma de massa corpórea. (Parecia-me que não deixa existir nada de incorpóreo). E esta era a principal, e talvez, a causa única do meu erro.
20 Em conseqüência, eu deduzia que também o mal era uma substância desse gênero, ora massa escura e disforme, ora espessa, chamada terra, ora tênue e sutil, como o ar, que os maniqueus imaginavam como um espírito maligno rastejando sobre a terra. Mas certa religiosidade que possuía me obrigava a crer que um deus bom não podia ter criado a natureza má. Concluía daí que devia haver duas substâncias opostas entre si, ambas infinitas, sendo porém a má em medida mais limitada, e a boa em medida mais ampla. E desse princípio peçonhento derivavam todas as outras idéias errôneas. E quando meu espírito tentava retornar à fé católica, sentia-me repelido, porque a opinião que formava da fé católica não era exata. E me parecia mais reverente, ó meu Deus - que te manifestas nas tuas misericórdias para comigo - acreditar-te infinito em todo sentido, exceto em que se opõe a ti a substância do mal, onde me via obrigado a reconhecer-te finito, do que imaginar-te limitado pela forma de um corpo humano. E me parecia mais justo crer que não tivesses criado mal nenhum, do que acreditar que a natureza do mal - como eu imaginava - proviesse de ti. Na minha ignorância, eu imaginava o mal, não só como substância corpórea, pois não sabia conceber um espírito, mas também como um corpo sutil que se difunde no espaço. Nosso próprio Salvador, teu Filho único, eu o imaginava como se proviesse da massa do teu corpo de luz para a nossa salvação. Em relação a ele, nada eu acreditava, a não ser o que minha ignorância deixava conceder. Sustentava, portanto, que uma natureza de tal gênero não podia nascer da virgem Maria sem unir-se à carne. Mas eu não conseguia ver como poderia unir-se à carne, e ao mesmo tempo não se contaminar, este ser que eu imaginava.
Os homens espirituais (5) talvez se riam de mim agora, com afetuosa indulgência, ao ler estas confissões. Todavia, nesse tempo, eu era assim.
11. OS MANIQUEUS E AS SAGRADAS ESCRITURAS
21 Parecia-me impossível combater as críticas que os maniqueus faziam a certas passagens de tuas Escrituras. Às vezes, eu desejava mesmo examinar alguns desses textos com pessoas competentes, para ouvir-lhes a opinião. Começavam a interessar-me os debates públicos contra os maniqueus, realizados em Cartago por um certo Elpídio, que citava as Sagradas Escrituras, de tal modo que era difícil contradizê-lo. As respostas que lhe davam me pareciam fracas, e não o faziam em público, mas em segredo, sustentando que as Escrituras do Novo Testamento haviam sido falsificadas por um desconhecido que quisera inserir a lei judaica na fé cristã; mas não apresentavam desses textos nenhum exemplar não adulterado. Eu, porém, incapaz de imaginar seres incorpóreos, estava como que preso e sufocado por aquelas duas substâncias, sob cuja pressão procurava em vão aspirar o ar puro e límpido de tua verdade
12. COMPORTAMENTO DOS ESTUDANTES ROMANOS
22 Atirei-me com zelo a tarefa, que era a razão da minha ida a Roma, isto é, ao ensino da retórica. No princípio, reunia em casa alguns alunos, aos quais e pelos quais comecei a tornar-me conhecido. Percebi logo que em Roma havia certos hábitos que eu não toleraria na África. É verdade que não se verificavam as conhecidas desordens dos jovens depravados de Cartago, mas fui avisado de que muitos estudantes romanos, para não pagarem ao professor, entravam em acordo e passavam repetidamente para outro mestre, traindo a boa fé e menosprezando a justiça, por amor ao dinheiro. De coração eu os odiava (1), mas não de ódio perfeito, pois era talvez provocado mais pelo prejuízo que eu sofreria do que pela injustiça de suas ações ilícitas. Sem dúvida tratava-se de indivíduos infames que te traem ao correrem atrás de ilusões efêmeras e lucros imundos que maculam as mãos ao serem tocados; eles se apegam aos mundo que passa, esquecendo-se de ti, que permaneces, que chama de volta e sabes perdoar a alma humana prostituída que retorna a ti. Detesto ainda agora essa gente depravada e corrupta, mas amo-a também para corrigi-la e ensinar-lhe a dar preferência à doutrina que aprendem mais do que ao dinheiro, e para que te apreciem, meu Deus, mais a ti que à própria doutrina, a ti que és a verdade, a abundância de felicidade segura e de paz puríssima. Mas, nessa época, eu preferia evitar as maldades deles por meu próprio interesse do que torná-los melhores por teu amor.
13. ENCONTRO COM AMBRÓSIO EM MILÃO
23 Quando o prefeito de Roma recebeu de Milão o pedido de um professor de retórica para es ta cidade, com a oferta de transporte público, eu mesmo solicitei o emprego através de amigos embriagados de idéias maniqueístas, sem saber que minha ida deveria separar-nos para sempre. O prefeito Símaco, após submeter-me à prova de um discurso, me fez partir.
Assim que cheguei a Milão, encontrei o bispo Ambrósio, conhecido no mundo inteiro como um dos melhores, e teu fiel servidor. Suas palavras ministravam constantemente ao povo a substância do teu trigo (1), a alegria do teu óleo (2) e a embriaguez sóbria do teu vinho. Tu me conduzias a ele sem que eu o soubesse, para que eu fosse por ele conduzido conscientemente a ti. Esse homem de Deus acolheu-me paternalmente e ficou feliz com a minha chegada, na bondade digna de um bispo. Comecei a estimá-lo, a princípio não como mestre da verdade, pois não tinha esperança de encontrá-la em tua Igreja, mas como homem bondoso para comigo. Acompanhava assiduamente suas conversas com o povo, não com a intenção que deveria ter, mas para averiguar se sua eloqüência merecia a fama de que gozava, se era superior ou inferior à sua reputação. Suas palavras me prendiam a atenção. Mas, o conteúdo não me preocupava, até o desprezava. Eu me encantava com a suavidade de seu modo de discursar; eram mais profundo, embora menos jocoso e agradável que o de Fausto quanto à forma. A respeito do conteúdo, porém, não era possível qualquer comparação: perdia-se este último entre as falsidades dos maniqueus, ao passo que o outro ensinava a doutrina mais sadia da salvação. Mas, a salvação está longe dos ímpios (3). Eu era um deles, ainda que estivesse me aproximando dela paulatinamente e sem o perceber.
14. AFASTAMENTO DO MANIQUEÍSMO
24 Não me esforçava em aprender os temas que ele expunha, mas somente em ouvir como ele os dizia. Permanecera em mim esse fútil interesse, perdidas as esperanças de que se patenteasse ao homem um caminho para chegar a ti. No entanto, junto com as palavras que me agradavam, chegavam-me também ao espírito os ensinamentos que eu desprezava. Não me era possível separar as duas coisas: enquanto abria o coração às palavras eloqüentes, entrava também, pouco a pouco, a verdade que ele pregava. Comecei então a notar que eram defensáveis suas teses, e logo vim a perceber não ser temerário defender a fé que eu supunha impossível opor aos ataques dos maniqueus. E isto sobretudo porque via resolverem-se uma a uma as dificuldades de várias passagens do Antigo Testamento que, tomadas ao pé da letra, me tiravam a vida (1). Ouvindo agora a explicação espiritual de tais passagens, eu me reprovava a mim mesmo por ter acreditado que a Lei e os Profetas não pudessem resistir aos ataques e insultos de sues inimigos. Todavia, não me sentia no dever de abraçar a fé católica, só pelo fato de que ela podia contar com doutos defensores, capazes de refutar as objeções dos adversários com argumentos sérios. Por outro lado, não me pareciam condenáveis as doutrinas que abraçar: os argumentos de defesa das duas partes equivaliam-se. A fé católica não me parecia vencida, mas para mim ainda não se afigurava vencedora.
25 Foi então que comecei a empenhar todas as forças do espírito na busca de um argumento decisivo para demonstrar a falsidade dos maniqueus: se me fosse possível conceber uma substancia espiritual, todos os obstáculos teriam sido superados e afastados do meu espírito. Mas não podia. Contudo, em relação à própria estrutura do mundo e à natureza inteira perceptível a nossos sentidos físicos, minhas reflexões e comparações me convenciam cada vez mais de que a maior parte dos filósofos tinha opiniões bem mais aceitáveis. Assim, duvidando comumente - flutuando entre todas as doutrinas, resolvi abandonar os maniqueus. Parecia-me, nesse momento de dúvida, que não devia permanecer nessa seita, que eu colocava em plano inferior a alguns filósofos, se bem que recusasse terminantemente confiar a seus cuidados a fraqueza de minha alma, por ignorarem eles o nome de Cristo. Resolvi então permanecer como catecúmeno na Igreja Católica, conforme o desejo de meus pais, até que alguma certeza viesse apontar-me o caminho a seguir.