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Ano - IX sexta-feira, 19 de março de 2010
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A FÉ CRISTÃ PRIMITIVA (Volume Único)


Santo Ireneu de Lião: Demonstração da Pregação Apostólica

  
Patrística>S.Agostinho de Hipona-séc.IV

LIVRO VI


Por Santo Agostinho

 

AGOSTINHO AOS TRINTA ANOS

 

1. MÔNICA ENCONTRA-SE COM O FILHO EM MILÃO

1    Ó minha esperança desde a minha juventude (1), onde estavas, para onde te retiraste? Não foste tu que me criaste e me quiseste diferente dos animais, mais inteligente que as aves do céu? E, no entanto, eu caminhava em meio às trevas e por terrenos escorregadios. Eu te buscava fora de mim, e não encontrava o Deus do meu coração (2). Havia chegado ao fundo do mar, e não tinha  mais confiança nem esperança de encontrar a verdade.

    Minha mãe, forte na piedade, já viera ao meu encontro, seguindo-me por terra e por mar, em ti confiando em todos os perigos. Era ela, nos momentos críticos da navegação, quem incutia coragem aos próprios marinheiros, que habitualmente confortam os viajantes inexperientes e timoratos, prometendo-Ihes uma chegada a salvo. Foste tu, em visão, quem o havias prometida ela.

    Ao chegar, encontrou-me em grande perigo, provocado pela completa falta de confiança em conhecer a verdade. Quando a informei de que já não era maniqueu, embora ainda não fosse cristão católico, não saltou de alegria, como quem ouve uma notícia inesperada. Quanto a este aspecto de minha miséria, ela estava tranqüila. Chorava por mim como se estivesse morto, porém morto destinado à ressurreição, e me oferecia a ti no esquife do pensamento, a fim de que dissesses ao filho da viúva: "Jovem, eu te ordeno, levanta-te", para que ele revivesse e começasse a falar, e tu o entregasses à sua mãe (3). Assim, o coração não lhe estremeceu de tumultuada alegria ao ouvir que já havia acontecido em grande parte o que todos os dias ela te pedia chorando: eu ainda não chegara à verdade, mas já estava liberado do erro. Mas como estava certa de que realizarias o resto, pois tudo lhe havias prometido, respondeu-me com toda a tranqüilidade e com o coração cheio de confiança, que em Cristo ela ainda esperava, antes de morrer, ver-me autêntico católico. Esta é a resposta que me deu. Mas a ti, fonte de misericórdia, ela aumentava cada vez mais as súplicas e lágrimas, a fim de que apressasses o teu auxílio e iluminasses as minhas trevas (4). Corria com mais freqüência à igreja, ficando suspensa dos lábios de Ambrósio, como de uma fonte de água jorrando para a vida eterna (5). Estimava aquele homem, como a um mensageiro de Deus, logo ao saber que fora por intermédio dele que eu flutuava nas dúvidas em que agora me encontrava. E estava certa de que eu passaria, atravessando o ponto mais perigoso que os médicos denominam momento crítico, da doença para a saúde.

1 SI 71,5.
2 Cf. SI 73,26.
3 Cf. Lc 7,12-15
4 Cf. SI 17,29.
5 To 4,14.

2. MÔNICA E AMBRÓSIO

2    Um dia minha mãe, como costumava fazer na África, levava bolo, pão e vinho para as sepulturas dos santos. E foi impedida pelo porteiro. Logo que soube ser proibição do bispo, aceitou-a com tal docilidade e obediência, que eu mesmo me admirei de vê-Ia disposta a renunciar a um hábito, antes que discutir a proibição.

      Não tinha o espírito sufocado pela embriaguez, nem o amor do vinho a incitava ao ódio da verdade, como muitos homens e mulheres que, diante de exortações à sobriedade, experimentam a mesma náusea que sentem os bêbados diante de um copo de água      

      Quando levava a cesta com os alimentos rituais, para distribuir depois de tê-los provado, não bebia mais que um pequeno copo de vinho diluído em água, segundo seu paladar sóbrio, e o fazia principalmente para homenagear aos santos. E se havia muitas sepulturas de santos a honrar dessa maneira, ela levava sempre o mesmo copo, que depunha em cada túmulo, e com os presentes repartia pequenos goles desse vinho, não só muito aguado como também morno. E agia assim por devoção, e não por prazer pessoal

      O bispo, famoso pregador e pessoa piedosa, tinha proibido esses ritos, mesmo quando celebrados com sobriedade, não só para que não se oferecesse aos ébrios ocasião de se embebedarem, mas também pela semelhança com os "parentais", ritos de superstição pagã. Ao tomar conhecimento da proibição, ela aceitou-a de boa vontade, e, ao invés do cesto cheio de frutos da terra, passou a levar à sepultura dos mártires um coração cheio dos mais puros sentimentos. Assim dava aos pobres aquilo que podia e celebrava nesses lugares a comunhão com o Corpo do Senhor, pois foi imitando-lhe a paixão que os mártires foram imolados e coroados. Mas parece-me, Senhor meu Deus (e conheces bem meus pensamentos secretos), que talvez minha mãe não houvesse aceitado tão facilmente o cerceamento de seus hábitos, se a proibição tivesse partido de outra pessoa que não fosse tão amada quanto Ambrósio. Ela o estimava sobretudo pela minha salvação, como ele a respeitava pela minha salvação, como ele a respeitava pela vida tão religiosa que ela levava, tão dedicada às boas obras e aos serviços da Igreja. Muitas vezes, ao encontrar-me, ele rompia em elogios a ela, e se congratulava comigo por ter semelhante mãe. Não sabia que filho era eu, cético a respeito de tudo e convicto de não poder encontrar o caminho.

3. FIGURA DE AMBRÓSIO

3      Eu ainda não pedia em gemidos que viesses em meu auxílio, mas estava cheio de ardor em tua busca, ávido de discussão. Considerava o próprio Ambrósio um homem realiza.do segundo o espírito do mundo, homenageado pelos poderosos; somente seu celibato parecia-me duro de suportar. Quanto às suas esperanças, suas lutas contra as tentações de grandeza, suas consolações nas adversidades, as saborosas alegrias que experimentava ao ruminar o vosso pão com a boca misteriosa do seu coração, de tudo isso eu não fazia idéia nem tinha experiência. De seu lado, ele ignorava também as minhas tempestades e o risco que eu corria de cair no abismo. Não conseguia fazer-lhe as perguntas que queria e como desejaria, pois dele me separavam numerosas pessoas carregadas de problemas e que recebiam ajuda de seus ouvidos e de sua boca. O pouco tempo que não estava ocupado com elas, Ambrósio o empregava restaurando o corpo com o sustento necessário, ou alimentando a alma com leituras. Ao ler, corria os olhos pelas páginas: a mente penetrava o significado, enquanto a voz e a boca se calavam. Muitas vezes, ao entrarmos (pois a ninguém era proibido o ingresso nem precisava anunciar­se), o víamos lendo, sempre em silêncio. Sentávamos em longo silêncio (quem ousaria perturbar tão intensa concentração?) e depois nos afastávamos, pensando que, durante o pouco tempo que lhe restava para restabelecer a mente, livre dos problemas alheios, não quisesse ser distraído por outras coisas. Talvez evitasse ler em voz alta, para não ser obrigado por algum ouvinte curioso e atento a explicar alguma passagem difícil do autor, ou a discutir alguma questão por demais complexa. Empregando o tempo desse modo, não poderia ler tanto quanto desejaria. Talvez, lendo baixo, também quisesse apenas poupar a voz, que se enfraquecia facilmente. Qualquer que fosse sua intenção, não podia deixar de ser boa, em se tratando de um homem como ele

4      O certo é que nunca tinha oportunidade de consultar teu santo oráculo, que residia no coração dele, sobre minhas dúvidas, a menos que se tratasse de questões rápidas. No entanto, minhas perplexidades espirituais exigiam que eu o encontrasse disponível por muito tempo, para abrir-me com ele, o que não acontecia nunca. Todos os domingos ia escutá-lo quando ele apresentava, com retidão, a palavra da verdade (1) ao povo. E eu me convencia cada vez mais de que podia ser desfeito o nó das astuciosas calÚnias, com que os meus sedutores envolviam os livros sagrados. Logo descobri também que teus filhos espirituais, regenerados pela graça na santa Igreja católica, não entendiam as palavras onde se diz que o homem foi criado por ti à tua imagem (2), no sentido de te acreditarem e julgarem encerrado na forma de corpo humano. Eu, que nem de longe suspeitava o que era substância espiritual, então me envergonhei alegremente de ter vociferado por tantos anos, não contra a fé católica, mas contra as ficções criadas por imaginações carnais. Tinha sido temerário e ímpio por ter acusado a fé católica, sem antes me haver informado através de pesquisa séria. Tu, porém, que estás tão alto e tão perto, tão escondido e tão presente, que não tens membros maiores e menores e que existes todo em toda parte, mesmo não possuindo esta forma corpórea, fizeste à tua imagem o homem que, da cabeça aos pés, está contido num determinado espaço

1 2Tm 2,15.
2 Cf. Gn 1,26;9,6.

4. DESCOBERTA DA VERDADE

5      Ignorando em que consistia essa tua imagem, deveria ter batido à porta e indagado sobre o sentido dessa crença, e não me opor com insultos ao que eu supunha fosse essa crença. Quanto mais agudo era no meu íntimo o desejo de saber o que devia considerar como certo, tanto mais me envergonhava de me ter deixado enganar e iludir por tanto tempo com promessas de certeza e de ter proclamado como seguras tantas incertezas, pueril no meu erro e na minha paixão. Mais tarde percebi a falsidade dessa doutrina. Mas o que já era certo para mim é que elas eram incertas, e que eu as tinha considerado certas, quando perseguia a fé católica com minhas cegas acusações. E se eu ainda não estava convencido de que esta fé ensinava a verdade, sabia no entanto que não ensinava aquilo de que eu a acusava. Assim, sentia-me confuso e transformado, e estava contente, ó Deus meu, porque tua Igreja única, corpo do teu único Filho, em cujo seio desde menino aprendi o nome de Cristo, não tinha nenhum gosto por questões pueris, e que sua autêntica doutrina não cometia o erro de circunscrever-te, ó Criador de tudo, num espaço que, embora alto e amplo, seria limitado de todos os lados por configurações de corpo humano.

6      Alegrava-me, também, por ter aprendido a ler as antigas Escrituras da Lei e dos Profetas, com interpretação diferente daquelas que antes me pareciam absurdas, quando eu acusava teus santos de terem fé em coisas nas quais realmente não acreditavam.

      Alegrava-me ouvir Ambrósio quando, muitas vezes em seus sermões, recomendava ao povo a norma a ser escrupulosamente observada: a letra mata, mas o espírito comunica a vida (1). Removido assim o místico véu, esclareceram-se espiritualmente passagens que, tomadas ao pé da letra, pareciam ensinar o mal. Nada ele dizia que eu não pudesse aceitar, embora ainda não estivesse certo de que as palavras dele eram verdadeiras. Mantinha o coração ao abrigo de qualquer adesão, hesitando diante do salto. e esse meu estado de perplexidade era morte ainda mais angustiante. Desejava ter, em relação a fatos não demonstráveis, a mesma certeza com que dizia que sete mais três são dez. Não era eu tão insensato a ponto de julgar que mesmo essa verdade fosse incompreensível; queria ter, a respeito de todo o resto, a mesma compreensão que tinha sobre isso, tanto em relação às coisas corpóreas não atingidas pelos sentidos, quanto em relação às espirituais, que eu só podia conceber em termos materiais. Só a fé podia curar-me: desse modo, os olhos da minha inteligência, já purificada, se dirigiriam à tua verdade imutável e perfeita (2). Mas, assim como acontece muitas vezes, depois de experimentar um médico mau, a gente receia confiar num bom, o mesmo acontecia à saÚde de minha alma, que somente poderia curar-se pela fé, mas, para não acabar novamente acreditando em coisas falsas, recusava a cura, resistindo a ti que fabricaste o remédio da fé e, dotando-o de tão grande poder, o derramaste sobre todas as enfermidades da terra.

1 2Cor 3,6
2 Cf. Sl 117,2

5. "PREFIRO AGORA A FÉ CATÓLICA"

7      Desde então comecei a preferir a doutrina católica, porque agora compreendia: era mais modesto e sincero prescrever a fé em algo que não podia ser demonstrado, tanto por incapacidade da maioria dos homens, como simplesmente por absoluta impossibilidade, do que zombar da fé, prometendo temerariamente uma ciência, para afinal impor a crença numa grande quantidade de fábulas absurdas, incapazes de demonstração. E enquanto tua mão suave e misericordiosa plasmava e formava pouco a pouco o meu coração, eu refletia na infinidade de fatos em que acreditava, sem tê-los visto ou deles ter sido testemunha. Assim, os muitos episódios da história da humanidade, a existência de lugares e cidades nunca visitados, conhecimentos recebidos de amigos, de médicos e de tantos outros em quem temos de acreditar, sob pena de nada podermos realizar na vida. Enfim, como estava absolutamente seguro da identidade de meus pais, o que não poderia saber sem acreditar no que ouvia. Convenci-me então de que, longe de repreender os que acreditam em tuas Escrituras, reconhecidas com tanta autoridade em quase todos os povos, são repreensíveis aqueles que não acreditam e a quem não se deve dar ouvidos se disserem: "Como sabes que estes livros foram dados aos homens pelo espírito do único Deus, que é a verdade?" E isso se adequava tanto melhor à minha crença, quanto é certo que nenhum argumento, por mais capcioso que fosse, de tantos filósofos que discordavam entre si, cujos livros estudei, tinha podido arrancar do meu coração a fé na tua existência, apesar de ignorar o que eras e desconhecer que o governo das coisas humanas pertence a ti (1).

8      Na realidade, a esse respeito era a minha fé ora mais forte, ora mais fraca. Mas sempre acreditei que existes e que cuidas de nós, embora não soubesse que idéia devesse ter de tua natureza, ou que caminho nos levaria ou reconduziria a ti. Portanto, sendo os homens incapazes de encontrar a verdade mediante a razão pura, e tendo necessidade do apoio da Sagrada Escritura, eu já principiava a crer que não concederias tanta autoridade por toda a terra a estes Livros Sagrados se não tivesses querido que se acreditasse em ti e se buscasse a ti através deles.

      E assim, eu já atribuía à profundeza dos mistérios as obscuridades que antigamente costumavam impressionar-me, pois, sobre o assunto eu já havia recebido várias explicações plausíveis. E a autoridade desses livros ainda me parecia tanto mais venerável e digna de fé absoluta, quanto era claro o seguinte: se de um lado a leitura deles estava ao alcance de todos, por outro lado reservava a dignidade de seu significado oculto a uma percepção mais profunda. A extrema clareza de linguagem e simplicidade de estilo a tornavam acessível a todos e estimulavam a perspicácia daqueles que não têm coração leviano (2). E recebendo em seu seio a humanidade inteira, apenas a poucos era dado chegar a ti, por estreitas passagens; estes, no entanto, são sempre mais numerosos do que o seriam se a Escritura não tivesse tanto prestígio aliado a tanta humildade, capaz de atrair multidões.

      Assim eu meditava, e tu estavas a meu lado. Eu suspirava e tu me ouvias. Eu tateava e tu me guiavas. Eu andava pelos largos caminhos do mundo (3), e tu não me abandonavas.

1 Cf. Cícero. De nato deorum 1. 1.
2 CL Eclo 19.4
3 Cf. Mt 7,13

6. MISÉRIA DA AMBIÇÃO

9      Eu aspirava às honras, à riqueza, ao matrimônio, e tu rias de mim. Nesses desejos amargos eu sofria dissabores, e tu me querias tanto mais bem quanto menos consentias que eu experimentasse consolação naquilo que não eras tu. Olha o meu coração, Senhor, tu que me inspiraste estas lembranças e esta confissão. Que se una agora a ti a minha alma, que arrancaste do visgo tão tenaz da morte. Como eu era miserável! E tocavas na minha chaga viva, a fim de que eu deixasse tudo e me convertesse a ti, que estás acima de todas as coisas (1). Sem ti nada existiria. Tu me revolvias a ferida para que eu me convertesse e ela pudesse sarar. Como eu era infeliz! E como agiste para que eu sentisse minha miséria, naquele dia em que me preparava para declamar um panegírico ao imperador (2)! Aliás, um tecido de mentiras que seriam, no entanto, aplaudidas pelos ouvintes, que sabiam tratar-se de mentiras. Meu coração agitava-se com esses cuidados e ardia na febre de pensamentos indignos, quando, passando por uma viela de Milão, reparei num pobre mendigo que, talvez meio bêbado, estava alegre e de bom humor. Entristeci-me, e fiz notar aos amigos, que me acompanhavam, as angústias provocadas por nossas loucuras. Pois, com todos os nossos esforços (como eram então os meus, carregando sob o aguilhão das paixões o peso da miséria, peso que aumentava à medida que eu o arrastava), onde queríamos chegar, senão à alegria segura em que nos precedera o mendigo e onde talvez nunca chegaríamos? Ele, de fato, com aquelas poucas moedas recebidas de esmola, tinha alcançado a alegria da felicidade efêmera, que eu me esforçava para conseguir dando voltas por tantos caminhos tortuosos e cheios de angústias.

      É claro que a alegria dele não era a verdadeira; mas o objeto de minha ambição era bem mais falso. Ele, pelo menos, estava satisfeito com sua alegria, e eu, preocupado; ele era livre, estava tranqüilo, e eu, cheio de inquietações.

      Se alguém me perguntasse pela minha preferência entre a alegria e o temor, é claro que haveria de responder: a alegria. Mas se ainda me perguntassem se preferia ser como aquele mendigo ou permanecer como eu era, teria escolhido continuar como era, apesar das preocupações e temores que me acabrunhavam. Erro de julgamento ou juízo acertado? É claro que não deveria considerar-me superior a ele por ter mais cultura, pois desta não me vinha nenhuma alegria, mas com ela pretendia agradar os homens, não para instruí-los, mas unicamente para ser-lhes agradável. Por isso mesmo, tu me quebravas os ossos (3) com a vara da tua justiça.

10    Longe de mim quem diga: "O importante é saber a causa da alegria: aquele mendigo encontrava a felicidade na embriaguez, tu procuravas a tua alegria na glória". Mas, que glória, Senhor? Uma glória que não se fundava em ti. E se a alegria do mendigo não era a verdadeira, tampouco era verdadeira a minha glória, que cada vez mais me perturbava. Na mesma noite, aquele mendigo teria curado sua embriaguez, enquanto eu havia dormido e acordado com a minha, e ainda com ela tornaria a dormir e acordar; e quem sabe por quanto tempo! Bem sei que o importante é saber de onde vem a alegria de cada um, e a felicidade que vem da esperança da fé é profundamente diferente daquela vaidade.

      Mas havia ainda outra diferença entre nós dois: ele era realmente mais feliz, não só porque transbordava de alegria enquanto eu era devorado pelas preocupações, mas também porque ele adquiria o vinho desejando o bem enquanto eu buscava a glória através da vanglória. Eu disse então muita coisa nesse sentido aos amigos e, muitas vezes, me examinava em circunstâncias análogas, para ver como estava, constatando que ia mal, e me afligia por isso, e assim aumentava minha infelicidade. Se me sorria um momento de felicidade, hesitava em segurá-lo, pois estava cônscio de que voaria antes mesmo que eu o alcançasse.

1 Cf. Rm 9,5.
2 Parece tratar-se das festas prescritas para novembro de 385 em comemoração do décimo aniversário da elevação de Valentiniano II ao trono. (Courcélle. Recherches sur les Confessions de St. Augustin, Paris. 1950. pp. 80ss).
3 Cf. SI 42,11.

7. A AMIZADE DE ALÍPIO 

11    De tudo isso nos lamentávamos entre nós, amigos que vivíamos a mesma vida. Falava mais intimamente e com a maior confiança com Alípio e Nebrídio. Alípio nascera no mesmo município que eu e no qual seus pais tinham grande prestígio. Era mais moço que eu. Fora até meu aluno, quando comecei a ensinar em nossa cidade, e depois em Cartago. Ele me estimava muito, porque eu lhe parecia bom e sábio, e também eu lhe queria bem, porque ele demonstrava forte inclinação para a virtude em tão tenra idade. Mas o turbilhão dos maus costumes de Cartago, onde ferviam os espetáculos frívolos, arrastou-o para uma louca paixão pelos jogos circenses.

      Quando ele mergulhava nessa miséria, eu ensinava retórica numa escola pública, e ele ainda não era meu aluno, por causa de certas desavenças surgi das entre mim e seu pai. A descoberta do funesto amor pelo circo muito me angustiava por me parecer que iria perder-se, se tão bela esperança já não estava perdida. Mas como adverti-lo, ou intervir mais decididamente, se não podia valer-me, nem do afeto do amigo nem da autoridade do mestre? Eu supunha de fato que ele nutrisse por mim os mesmos sentimentos do pai, quando na realidade não era assim. Neste particular, pondo de lado a vontade do pai, começou a cumprimentar-me, comparecia às minhas aulas, onde me escutava por algum tempo, retirando-se em seguida.

12    De minha parte, já esquecera o propósito de ocupar-me dele, a fim de que não arruinasse o talento numa cega e impetuosa paixão por aqueles jogos fúteis. Mas tu, Senhor, que governas a sorte de tuas criaturas, não te esquecias de quem havia de ser, entre teus filhos, ministro dos teus sagrados mistérios (1). E para que a reabilitação fosse claramente reconhecida com obra tua, usaste de mim como instrumento, sem que eu o percebesse.

      Um dia, estando eu sentado no lugar de costume com os alunos diante de mim, ele veio, cumprimentou-me, sentou-se e prestou atenção no assunto que discutíamos. Por acaso, eu tinha em mãos um texto; e enquanto o comentava, pareceu-me oportuno recorrer a uma comparação com os jogos do circo, para tornar mais agradável e mais claro o que explicava, e comecei a ironizar aqueles que se deixavam escravizar por tal insensatez. Mas tu sabes, ó meu Deus, que nesse momento eu não pensava em curar Alípio de tal contágio. Ele, porém, caiu em si e pensou que aquelas palavras eram expressamente dirigidas a ele. O que outro tomaria como motivo para se desgostar de mim, ele, honesto como era, tomou como causa para censurar a si mesmo e para me estimar ainda mais.

      De fato, já tinhas dito uma vez e escrito em teus livros: Repreende o sábio, e ele te amará (2). Mas não fora eu a corrigi-lo, e sim tu, que te serves de todos, conscientes ou não, seguindo um plano que conheces - plano de justiça! - e que fizeste do meu coração e da minha língua carvões ardentes (3), para cauterizar a ferida purulenta daquela alma cheia de belas esperanças, e curá-la.

      Calem teus louvores os que não contemplam tuas misericórdias, por mim confessadas no mais íntimo do ser. Realmente, depois daquelas palavras, Alípio fugiu do abismo profundo onde se precipitava com prazer e onde se deixava cegar com incrível volúpia. Sacudiu sua alma com firme resolução e livrou-se de toda a lama dos circos, onde nunca mais colocou os pés.

      Em seguida, vencendo a resistência do pai, conseguiu a permissão de me tomar como mestre. O pai acabou cedendo, e consentiu. Recomeçando a escutar minhas aulas, envolveu-se comigo nas superstições dos maniqueus, nelas admirando certa ostentação de virtude que acreditava real e genuína. Era na realidade falsa e sedutora, própria para atrair as melhores almas que, não conseguindo ainda as profundezas da virtude, se deixam enganar pelas aparências de uma virtude tenebrosa e falsa.

1 Alípio será mais tarde bispo de Tagaste.
2 Pr 9,8.
3 Cf. Ez 1,13.

8. ALÍPIO FASCINADO PELOS ESPETÁCULOS SANGRENTOS DO CIRCO

13    Sem abandonar de fato a carreira mundana que seus pais lhe decantavam, Alípio partira antes de mim para Roma a fim de estudar Direito, e aí se deixou envolver de maneira incrível por uma incrível paixão pelos espetáculos de gladiadores. De fato, no princípio nutria aversão e desprezo por esses espetáculos, mas alguns amigos e condiscípulos, encontrando-o casualmente de volta do almoço, o levaram com amigável violência, apesar de sua obstinação e resistência, ao anfiteatro onde se realizavam nesse dia jogos cruéis e sangrentos. Ele, porém, lhes dizia: "Podeis arrastar-me o corpo e mantê-lo junto a vós; mas podereis por acaso abrir-me a alma e os olhos para tais espetáculos? Ali estarei, porém ausente, e triunfarei deles e de vós". Ouvindo essas palavras, o levaram com eles, talvez mesmo para verem se era capaz de manter o propósito. Chegando ao circo, ocuparam os lugares que puderam. Aí, tudo fervia nas paixões mais selvagens. Alípio fechou a porta dos olhos, impedindo ao espírito a possibilidade de seguir aquelas crueldades. Oxalá tivesse também tapado os ouvidos! Pois foi violentamente sobressaltado por forte clamor de toda a multidão. devido à queda de um lutador; vencido pela curiosidade e julgando-se capaz de dominar e vencer a cena, qualquer que fosse, abriu os olhos. Foi então atingido na alma por um golpe mais forte que o recebido no corpo pelo gladiador que havia desejado contemplar, e caiu mais miseravelmente do que aquele cuja queda suscitara tamanho clamor. Aqueles gritos entraram-lhe pelos ouvidos e lhe abriram os olhos, por onde foi ferida aquela alma, mais audaciosa do que resoluta, e tanto mais fraca quanto mais havia confiado em si mesma, de preferência a confiar somente em ti. Logo que viu aquele sangue, saboreou no mesmo instante a violência e não mais desviou o olhar, seguindo com atenção e assimilando inconscientemente aquelas crueldades; sem o saber, se deleitava com essas lutas criminosas, ébrio de sangrenta volúpia. Já não era o mesmo que tinha chegado ao circo, e sim mais um na turba a que se juntara, igual aqueles pelos quais se deixara arrastar. Que mais dizer? Presenciou o espetáculo, gritou, entusiasmou-se, e levou desse lugar um frenesi que o aguilhoava a voltar, não mais arrastado pelos amigos, mas à frente deles e arrastando ainda outros atrás de si. Mas tu, com mão forte e misericordiosa, o libertaste daquele estado e o ensinaste a confiar em ti, mais do que em si mesmo. Mas isto só aconteceu muito tempo depois.

9. ALÍPIO APRENDE À PRÓPRIA CUSTA A NÃO JULGAR APRESSADAMENTE OS HOMENS 

14    No entanto, Alípio retinha essa lembrança na memória, como remédio para o futuro. Outro fato também lhe aconteceu quando era meu aluno em Cartago. Certa vez, por volta do meio-dia, ele estava no foro, meditando sobre um discurso que deveria fazer em aula, segundo o costume que os estudantes tinham de se exercitarem, quando permitiste que os guardas do foro o prendessem como ladrão. Parece-me que o permitiste, ó meu Deus, para que ele, destinado a tornar-se pessoa importante, começasse desde então a aprender que, no julgar uma causa, um homem não deve apressar-se em condenar outro homem com temerária credulidade. 

      Alípio passeava sozinho diante do tribunal, tendo em mãos as tábuas e o estilete, quando um dos jovens estudantes, o verdadeiro ladrão, trazendo consigo um machado, e sem que Alípio o percebesse, aproximou-se furtivamente das grades de chumbo que dominam a rua dos banqueiros, e começou a cortá-las. Ouvindo de dentro o rumor, os banqueiros que estavam embaixo se puseram a confabular e mandaram gente para prender a quem encontrassem. Ao ouvir as vozes, o ladrão fugiu, abandonando o machado, para não ser apanhado em flagrante. Alípio, que não o vira entrar, notou-o enquanto saía e, movido pela curiosidade de saber por que razão fugia com tanta pressa, entrou e viu o machado. Espantado, se põe a examiná-lo quando chegam os guardas. Encontrando-o só e com o instrumento na mão, o prendem e o levam consigo, gloriando-se diante dos moradores do lugar, que acorriam, de terem apanhado o ladrão em flagrante, e vão entregá-lo à justiça. 

15    Mas, para Alípio, a lição deveria terminar aqui, pois tu, Senhor, vieste imediatamente em auxílio da inocência que apenas tu conhecias. Enquanto era conduzido à prisão e ao suplício, encontraram o arquiteto superintendente dos edifícios públicos. Os guardas que haviam prendido Alípio se alegraram ao encontrá-lo, pois ele costumava acusá-los de furtos acontecidos no foro; iria enfim conhecer o autor. Mas, o arquiteto já tinha visto Alípio muitas vezes em casa de um senador, a quem freqüentemente o arquiteto visitava. Reconhecendo-o, chamou-o de lado e lhe perguntou a causa do tumulto. Ouvindo o que se tinha passado, ordenou à multidão ameaçadora que o seguisse, e assim chegaram à casa do jovem que era o verdadeiro ladrão. A porta da casa havia um escravo, tão novo e ingênuo, que não suspeitou que iria prejudicar seu patrão relatando tudo. De fato, o escravo tinha acompanhado o jovem ao foro. Alípio o reconheceu e disso avisou o arquiteto; este, mostrando o machado ao menino, perguntou-lhe a quem pertencia. "É nosso", respondeu ele. Em seguida, diante das outras perguntas, contou também todo o resto. Assim se transferiu a acusação para aquela casa, sob a confusão da multidão que já triunfava contra Alípio. O futuro dispensador da tua palavra e juiz de tantas causas em tua Igreja, saiu dessa mais experiente e instruído.

10. RETIDÃO DE ALÍPIO E SEDE DE VERDADE EM NEBRÍDIO 

16    Em Roma encontrei Alípio, que muito se afeiçoou a mim e comigo partiu para Milão, não só para não me abandonar, mas para se exercitar em Direito, seguindo mais o desejo dos pais que a própria inclinação. Já por três vezes fora assessor jurídico, demonstrando uma integridade que suscitava a admiração dos colegas. De sua parte, ele se admirava ainda mais ao ver que eles colocavam a ambição do dinheiro acima da honestidade. Seu.caráter foi posto à prova, não só pela sedução do dinheiro, como também pelo aguilhão das ameaças. No tempo em que trabalhava em Roma como assessor do administrador do tesouro imperial da Itália, havia um senador muito poderoso cuja influência se fazia sentir através de favores ou intimidações. Desejava que lhe fosse consentido algo ilegal, como costumam fazer os poderosos Alípio recusou. Então lhe prometeu uma recompensa, que Alípio rejeitou. Fizeram-lhe ameaças que não o atemorizaram. Todos lhe admiravam a coragem incomum, indiferente à amizade e imperturbável diante da inimizade de homem tão poderoso e tão conhecido pelas infinitas possibilidades, tanto de ajudar como de prejudicar as pessoas. O próprio juiz, de quem Alípio era conselheiro, contrário também às reivindicações do senador, não ousava, no entanto, opor-se-lhe abertamente. Transferia para Alípio a responsabilidade, declarando a impossibilidade de atender ao pedido, por culpa deste. Caso acedesse - dizia ele, e era verdade, - Alípio pediria demissão.

      Uma só paixão por pouco não o seduzira - a literatura - pela qual foi tentado a fazer transcrever alguns manuscritos com dinheiro do tribunal. Mas, consultando os princípios da justiça, mudou para melhor sua resolução, persuadido de que a retidão que lhe proibia tal ação era melhor do que o poder que lhe permitia.

      Foi um fato sem grande importância, mas, quem é fiel nas coisas pequenas é fiel também nas grandes (1). E nunca será sem sentido o que saiu da tua boca de verdade: Se não fostes fiéis no dinheiro iníquo, quem vos confiará o verdadeiro bem? Se não fostes fiéis em relação ao bem alheio, quem vos dará o vosso (2)?

      Tal era o homem que estava a meu lado, e que comigo hesitava em decidir sobre o gênero de vida que devíamos abraçar.

17    Nebrídio também deixara sua terra natal, vizinha de Cartago, e a própria Cartago, que freqüentemente visitava. Abandonara a rica propriedade do pai, a casa, e a própria mãe, que não o quis seguir, e veio para Milão, unicamente para viver comigo na busca apaixonada da verdade e da sabedoria. Investigador apaixonado da felicidade humana, perscrutador agudo dos problemas mais difíceis, ele suspirava como eu, e como eu, também ele oscilava. Éramos como três famintos que desabafam entre si a própria miséria e que esperam de ti o alimento em tempo oportuno (3). A cada amargura que, por tua misericórdia, se seguia a nossas atividades mundanas, perguntávamos para que serviam nossos sofrimentos. Mas nada encontrávamos, senão trevas. Voltávamos a gemer e dizíamos: "Até quando?" Todavia, apesar de repetirmos freqüentemente essas palavras, não abandonávamos esse tipo de vida, porque, se abandonássemos, faltaria para nós a luz de uma certeza a que nos' pudéssemos agarrar.

1 Lc 16,10
2 Lc 16,11
3 Sl 104,27;142,15

11. PERPLEXIDADES DE AGOSTINHO 

18    Eu sentia grande e ansiosa perplexidade ao lembrar­-me do longo tempo decorrido desde os meus dezenove anos (1), quando sentira pela primeira vez o amor da sabedoria, e já estava resolvido, uma vez que a encontrasse, a abandona.r todas as ilusórias esperanças da vaidade e as falsas loucuras das paixões. Chegava eu aos trinta anos e continuava preso ao mesmo lodo, ávido de gozar os bens presentes que me fugiam e que me dissipavam. Enquanto isso, repetia: "Amanhã encontrarei a sabedoria; ela se manifestará a mim com clareza; então eu a possuirei. Fausto virá e tudo explicará. Ó grandes mestres da Academia! Nada se pode ter como certo para a conduta da vida?" (2) Mas não! Busquemos com mais diligência e não desesperemos. De fato, as passagens dos Livros Sagrados que pareciam absurdas, já não o são: já é possível entendê-las de maneira diferente e digna. Firmarei os pés no degrau em que meus pais me colocaram quando criança, até encontrar a verdade clara. Mas onde buscá-la? E quando? Ambrósio não tem tempo para ouvir-me, eu não tenho tempo para ler. Além disso, onde encontrar os livros? Quando e como obtê-los? E a quem pedi-las? Mas tenho que achar tempo, tenho que re­ partir as horas, para ocupar-me com a salvação da minha alma. Eis que surge uma grande esperança: a fé católica não ensina o que pensávamos nem aquilo de que, sem fundamento, a acusávamos. Quem a conhece bem julga heresia imaginar Deus encerrado nos limites de um corpo humano. Por que hesito ainda em debater, para que me sejam abertas as outras verdades? Os discípulos ocupam minhas horas matinais; mas que faço eu nas outras horas? Por que não me dedico a esse trabalho? Quando irei visitar os amigos importantes, de cujo auxílio necessito? Quando irei preparar as lições que os alunos me pagam? Enfim, quando hei de restaurar as forças, libertando o espírito da tensão de tantas preocupações?

19    Pereça tudo isso, abandonemos todas essas vãs frivolidades. Dediquemo-nos inteiramente à busca da verdade. A vida é infelicidade, a hora da morte é incerta. Esta surge de repente: e eu, em que condições deixarei este mundo? Onde poderei aprender o que nesta vida negligenciei saber? Não terei antes que pagar com duras penas essa negligência?

      E se a própria morte pusesse fim a todas essas preocupações, tirando-me também os sentidos? Também este é um problema a ser examinado.

      Não, longe de mim semelhante hipótese. Não é sem motivo que os outros ensinamentos da fé cristã se irradiam por toda a terra. Deus não realizaria para nós tantas maravilhas, se com a morte do corpo acabasse também a vida da alma. Por que não me decido então a abandonar as esperanças do mundo para dedicar-me inteiramente à busca de Deus e da verdadeira felicidade?

      Mas, um momento! Os bens terrenos também são agradáveis, também eles têm uma doçura que não é pequena! É preciso que sejamos prudentes ao nos afastarmos deles, pois uma recaída seria vergonhosa. Eis-me chegado ao ponto de ocupar um cargo honroso. Que mais haverá a desejar? Disponho de bom número de amigos poderosos. Sem me apressar demais, posso chegar, no mínimo, a uma presidência de tribunal. Depois, será conveniente casar-me com mulher possuidora de alguma fortuna, para não sobrecarregar os meus gastos, e a isso se limitariam meus desejos. Muitos homens ilustres e dignos de imitação conseguiram dedicar-se ao estudo mesmo na vida matrimonial.

      Enquanto assim pensava, e os ventos contrários se aproximavam e me impeliam o coração de um lado para outro, o tempo passava, e eu tardava em converter-me ao Senhor. Adiava de dia para dia a decisão de viver em ti, e não adiava um só dia a morte cotidiana em mim mesmo. Queria viver feliz e temia procurar a felicidade onde ela está. Fugia dela, e ao mesmo tempo a procurava. Parecia-me grande infelicidade privar-me do abraço de uma mulher, e não pensava no remédio que contra esta fraqueza nos proporciona tua misericórdia, pois nunca fizera a experiência. Pensava que a continência dependesse apenas de nossas forças, e eu achava que não as possuía. Era insensato, a ponto de não saber, como diz a Escritura (3), que ninguém pode ser continente, se tu não lhe concedes tal dom. E tu o terias concedido a mim, se meus gemidos te houvessem ferido os ouvidos; se eu houvesse lançado aos teus pés, com extrema confiança, todas as minhas angústias (4).

1 Cf. livro III, cap 4.
2 Cf. Cícero, Accad. 2, 6; 10, 31.
3 Cf. Mt 19,11-12.
4 Cf. 51 55,23.

2. O PROBLEMA DO MATRIMÔNIO 

21      Na verdade, Alípio me desaconselhava casar, repetindo-me constantemente que, se o fizesse, já não poderíamos dedicar-nos juntos, com tranqüilidade, à procura da sabedoria, como há tanto tempo o desejávamos. Ele era admirado por observar uma castidade perfeita, tanto mais que, tendo iniciado nos primeiros anos da juventude a experiência sexual, a ela não se apegou; sentiu, pelo contrário, arrependimento e desgosto, passando desde então a viver na perfeita continência. Eu lhe opunha os exemplos de tantos que, embora casados, tinham cultivado os estudos, tinham obtido mérito diante de Deus e conservado fielmente a amizade aos amigos. Eu, porém, estava longe de tal grandeza de alma. Escravo da carne, arrastava minhas cadeias com mortal volúpia, temendo que se quebrassem, e repelia, como se viesse a tocar-me na chaga, a mão de quem queria libertar-me, dando-me bons conselhos.

Ademais, e por meu intermédio, a serpente falava a Alípio (1), enlaçava-o e servia-se da minha palavra para semear no seu caminho suaves armadilhas e assim enredar-lhe os pés honestos e livres.

22      Pela estima que me dedicava, ele se admirava de que eu estivesse preso ao visco do prazer, a ponto de lhe afirmar, sempre que discutíamos o assunto, ser-me absolutamente impossível levar vida celibatária. Diante de seu espanto, defendia-me dizendo que havia grande diferença entre sua experiência furtiva e momentânea, da qual praticamente não se recordava - e que podia portanto ser facilmente desprezada - e o caráter habitual dos meus prazeres. Se a estes fosse acrescentado o honesto título de matrimônio, ele não mais se admiraria de que eu não pudesse renunciar àquela vida.

  Começou então ele mesmo a desejar o matrimônio, não tanto vencido pela atração do prazer, quanto por certa curiosidade. Dizia que desejava saber que felicidade era essa, sem a qual minha vida, que tanto lhe agradava, não mais pareceria vida, e sim tormento. Livre desse laço, ficava estupefato diante da minha servidão, e isso o estimulava a fazer a experiência. E talvez tivesse caído na mesma escravidão, que no momento lhe causava espanto, pois queria fazer um pacto com a morte (2); e quem ama o perigo, nele perecerá (3).O fato é que 'apenas superficialmente nos interessava a dignidade do matrimônio, que consiste no dever de levar vida em comum e educar os filhos. Eu, realmente, era escravizado e atormentado pelo hábito de saciar uma insaciável concupiscência, e ele era arrastado ao cativeiro por sua vã curiosidade.

  Tal era o nosso estado até que tu, Altíssimo, não abandonando nossa baixeza e tendo piedade de nossa miséria, vieste em nosso auxílio de modo admirável e oculto.

1 Cf. Gn 3.1.
2 Cf. Is:8.18.
3 Cf. Eclo 3.27.

13. NOIVADO DE AGOSTINHO 

23    Entretanto, insistiam constantemente para que eu me casasse. Já havia pedido uma jovem em casamento e recebera a promessa. Quem mais trabalhava neste sentido era minha mãe, com a idéia de que, uma vez casado, seria purificado pela água salutar do batismo. Alegrava­-se de me ver cada vez mais disposto para o receber, notando que na minha fé se realizavam seus desejos e tuas promessas. A meu pedido e por desejo seu, ela te suplicava ardentemente todos os dias que revelasses algum sinal sobre o meu próximo matrimônio, mas tu não quiseste escutá-la. Tinha ela no entanto, visões provocadas no seu espírito pela força dessa preocupação. E me contava isso, não com a habitual confiança de quando tinha uma revelação tua, mas até com certo desprezo. Ela dizia que sabia discernir, não sei por qual sabor especial (não conseguia explicá-la com palavras), a diferença entre aquilo que lhe revelavas e os sonhos de sua imaginação. Todavia, insistia junto a mim nesse matrimônio, e foi feito o pedido formal da jovem. Faltavam-lhe ainda dois anos para a idade núbil (1), mas, por ser do agrado de todos, ia-se esperando. 

1 Teria provavelmente apenas 10 anos, pois o direito romano de Justiniano fixava os 12 anos completos como idade núbil.

14. PROJETOS DE VIDA EM COMUM 

24      Éramos muitos os amigos que, sentindo aversão pelos aborrecimentos e tumulto da vida social, tínhamos discutido, projetado, e já quase decidido, retirarmo-nos para vivermos em meditação longe do mundo dos homens. Tínhamos organizado o nosso retiro, de modo a colocar em comum os bens que possuíamos, formando assim um patrimônio único. Entendíamos que, diante da sincera amizade que nos unia, nada deveria pertencer a este ou àquele. Tudo deveria ser de todos e de cada um. Parecia-nos ser possível reunir numa única sociedade uma dezena de pessoas, algumas muito ricas, sobretudo Romaniano, meu conterrâneo e grande amigo desde a infância. Problemas relativos a seus negócios o conduziram até a corte (1). Ele, mais que os outros, insistia nesse projeto, e sua insistência fortalecia nossa idéia, pelo fato de ser ele possuidor de enorme fortuna, muito superior à de todos os outros. Tínhamos estabelecido que dois de nós, cada ano, corno verdadeiros magistrados, administraríamos a comunidade, deixando tranqüilos os demais. 

Mas, quando se procurou imaginar como seria tal idéia recebida pelas esposas - que alguns já tinham e outros, como eu, desejavam ter - o plano, tão bem formulado, se desfez em nossas mãos, despedaçou-se e foi abandonado. 

Retornamos assim aos suspiros e gemidos, e voltamos a percorrer os largos e trilhados caminhos do século (2), porque muitos eram os nossos planos (3), mas o teu plano permanece eternamente (4). De fato, rias de nossas resoluções e preparavas as tuas, aguardando o momento oportuno para dar-nos o alimento e abrires a mão para saciar-nos com tuas bênçãos (5). 

1 No período da tetrarquia, Milão era uma das capitais do Império e sede de um dos imperadores.
2 Cf. Mt 7,13.
3 Cf. Pr 19,21.
4 Cf. SI 33,11.
5 Cf. SI 145,155.

15. ESCRAVO DO PRAZER 

25    No entanto, multiplicavam-se os meus pecados. Quando de mim foi arrebatada a mulher com quem vivia, considerada impedimento ao meu casamento, meu coração, que lhe era afeiçoadíssimo, ficou profundamente ferido e sangrou por muito tempo. Ela voltou para a África fazendo a ti o voto de jamais pertencer a outro homem e deixando para mim o filho que me havia dado. Mas eu, infeliz, fui incapaz de imitar a esta mulher! Eu não conseguia suportar a espera de dois anos para receber a esposa que tinha pedido. Na realidade eu não amava o matrimônio; eu era, sim, escravo do prazer. E tratei de arranjar outra mulher, não como esposa legítima, para manter e alimentar intacta ou agravar a doença da minha alma até o casamento, e aí chegar sem haver interrompido meus hábitos.

  No entanto, não cicatrizara ainda a ferida aberta pela separação de minha companheira. Mas, após o momento da dor mais pungente, a ferida gangrenava e me fazia sofrer, talvez menos agudamente, porém, com maior desesperança de cura.

16. DISCUTE COM OS AMIGOS O SUMO BEM E O SUMO MAL

26    Louvor e glória a ti, que és a fonte de todas as misericórdias!

      Eu me tornava cada vez mais miserável, e tu te aproximavas sempre mais de mim. Tua destra estava junto a mim para arrancar-me do lodo e lavar-me, e eu nada percebia. Nada conseguia impedir que eu me afogasse no abismo dos prazeres carnais, a não ser o temor da morte e do teu futuro juízo que, mesmo através das diversas doutrinas, nunca abandonava o meu espírito.

 Discutia com meus amigos Alípio e Nebrídio sobre o fim dos bons e dos maus (1). No meu conceito, Epicuro teria recebido a palma, se eu não acreditasse que, depois da morte, a alma vive e leva os méritos consigo, o que Epicuro negava. E me indagava: se fôssemos imortais e vivêssemos num perpétuo prazer do corpo, sem temor de perdê-lo, por que não seríamos felizes? Que coisa mais seria preciso procurar? Eu não estava percebendo que nisso consistia a minha miséria. Imerso no vício e cego como estava, não conseguia pensar no esplendor da luz e da beleza, desejáveis por si mesmas, invisíveis aos olhos do corpo e só percebidas no íntimo da alma. Na minha miséria, nem sequer considerava de onde me vinha prazer em conversar com os amigos sobre assuntos tão vergonhosos. Sem amigos, eu não podia ser feliz, nem mesmo no sentido que dava então a esta palavra, apesar da grande abundância de prazeres carnais. Eu não amava esses amigos por interesse, e também eles me amavam desinteressadamente. Oh! caminhos tortuosos! Ai do homem temerário que, afastando-se de ti, pensa encontrar algo bem melhor! Quer se volte ou revire para trás, para os lados ou para a frente, todas as posições lhe são incômodas, pois só em ti acha tranqüilidade: Mas eis que estás aqui, e nos libertas dos erros deploráveis, nos confortas e nos conduzes por teus caminhos, dizendo-nos: Correi, eu vos sustentarei (2), e vos conduzirei até o fim, e aí vos hei de manter. 

1 Cícero. De fin. 1.11.
2 Cf. Is 46.4.


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Petrus Eni