Veritatis Splendor - MADRE TERESA DE CALCUTÁ

MADRE TERESA DE CALCUTÁ

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Fonte: "Pergunte & Responderemos" - abril de 1998.

Publicado em 03/05/2001

Em síntese: Madre Teresa de Calcuttá declarou a um repórter ita-liano não ter medo de morrer, pois isto significava, para ela, voltar para casa ou entrar na pátria definitiva. A visão de fé da Religiosa exprimiu-se de maneira decidida e corajosa, que surpreendeu o jornalista, como se depreende dos dizeres abaixo.

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O jornalista italiano Renzo Allegri narra interessante encontro que teve com Madre Teresa de Calcuttá, manifestando a fé firme e viva dessa Religiosa no tocante à morto e à vida póstuma.

Transcrevemos o relato tal como foi publicado pela revista ITAICI, n2 30, dezembro 1997, pp. 44s.

"COMO POSSO TER MEDO DE MORRER?"

?Um dia, no fim de uma longa entrevista, perguntei à Madre Teresa de Calcutá: ?Madre, a senhora tem medo de morrer??

Era o ano de 1986. Madre Teresa já fora internada várias vezes em hospitais, por problemas do coração. Tinha sido também submetida a intervenções cirúrgicas delicadas, mas sempre voltara à plena atividade. Naquela vez, eu estivera com ela o dia inteiro e a acompanhara fora de Roma, em automóvel. Tínhamos falado de sua atividade na Índia, de sua Congregação das Missionárias da Caridade, que se estava expandindo pelo mundo inteiro. A Madre mostrava-se cheia de energia, empenhada mesmo diante do enigma da morte, que faz parar tudo, interrompe qual-quer coisa. Por isso, eu lhe fiz aquela pergunta. Pronunciei a frase bem baixinho porque, no meio de tanta atividade e entusiasmo, ela parecia destoar; e também porque Madre Teresa é freira e, portanto, pessoa que pensa só em Deus.

A Madre olhou em meus olhos por alguns instantes. Talvez não esperasse aquelas palavras. Depois, perguntou-me: ?Onde mora o se-nhor?? ? ?Em Milão?, respondi. ?Quando volta para sua casa?? ? ?Espero voltar hoje mesmo, à noite. Gostaria de tomar o último avião e, assim, amanhã, que é sábado, poderei estar com minha família?, disse eu. ?Vejo que o senhor está feliz do voltar para sua casa e poder ficar com sua família?, observou Madre Teresa. ? ?Estou ausente faz quase uma sema-na?, disse para justificar meu entusiasmo.

?Muito bem? acrescentou a freira. ?Está certo que o senhor esteja contente. Vai rever sua esposa, suas crianças, seus entes queridos, sua casa. É justo que seja assim.? Ficou alguns instantes em silêncio, mas depois prosseguiu: ?Pois eu estaria contente como o senhor, se pudesse dizer que esta tarde vou morrer. Morrendo, eu iria também para minha casa, iria ao paraíso, iria ver Jesus. Eu consagrei minha vida a Jesus. Tornando-me freira, fiquei sendo a esposa de Jesus. Veja, tenho também a aliança, como as mulheres casadas. Mas estou casada com Jesus. Tudo o que faço aqui, nesta terra, faço-o por amor dEle. Portanto, mor-rendo, voltaria eu para casa, para meu esposo. Além disso, lá no paraíso, encontraria também todos os meus entes queridos. Milhares de pes-soas morreram em meus braços. Já faz mais de quarenta anos que dedi-co minha vida aos doentes e moribundos. Eu e minhas Irmãs recolhemos pelas estradas, sobretudo na Índia, milhares e milhares de pessoas no fim da vida. Trazemo-las para nossas casas e as ajudamos a morrer se-renamente. Muitas daquelas pessoas morreram em meus braços, en-quanto eu sorria para elas e acariciava seus semblantes moribundos. Pois bem, quando eu morrer, irei ver todas essas pessoas. Estão lá me esperando. Amamo-nos naqueles últimos momentos difíceis, continua-mos a querer-nos bom na lembrança. Quem sabe como vão me festejar quando nos revirmos? Como posso ter medo de morrer? Eu desejo a morte e espero-a, porque finalmente me permitirá voltar para casa?.

Nunca ouvira Madre Teresa falar tanto e com tanto entusiasmo. Ela, geralmente, era resumida nas entrevistas, dava respostas breves. Naquela ocasião, para responder àquela minha pergunta, tinha feito um autêntico discurso".

COMENTANDO...

A resposta de Madre Teresa ao jornalista sugere cinco ponderações (1):

1) A Religiosa encara a morte como uma volta à Casa do Pai, onde a família dos filhos de Deus se reúne, onde nos esperam os irmãos e irmãs que deixaram este mundo. E um retorno para casa, ainda mais alegre do que a volta de Renzo Allegri para junto de seus familiares. - Uma concepção semelhante já era professada pelos antigos escritores da Igreja. Assim, por exemplo, se lê na carta de S. Inácio de Antioquia (+107) aos cristãos de Roma, que procuravam evitar fosse ele lançado às feras do Coliseu:

"É bom para mim morrer a fim de me unir ao Cristo Jesus... Aproxima-se o momento em que serei dado à luz... Não ponhais empecilho a que eu viva, não queirais que eu morra" (Aos Romanos, 6, 1s).

Ou ainda:

"Escrevo a vós, possuído do amor da morte...; há em mim uma água viva que fala e dentro de mim diz: ?Vem para o Pai?" (ibd. 7,2). (2)

No século III S. Cipriano (+258), Bispo de Cartago, escrevia:

"Consideremos, irmãos caríssimos, que renunciamos ao mundo e provisoriamente habitamos aqui corno hóspedes e estrangeiros. Abrace-mos o dia que endereça cada qual ao seu domicílio, dia que, libertados desta vida e soltos dos laços do século, nos restitui ao paraíso e ao rei-no... Espera-nos lá grande número de parentes, irmãos, filhos; anseia por nós urna família avultada e numerosa, já certa da sua salvação e ainda solícita da nossa". (De mortalitate 26)

2) Nota o jornalista que Madre Teresa falava da morte com entusi-asmo... Por quê? - Porque a morte, para o cristão, é uma passagem, uma Páscoa, uma transição do precário para o absoluto, do provisório para o definitivo da outra vida. Os homens se acham tão acostumados às coisas visíveis e sonoras da terra que, com o seu poder de fascinação, elas nos parecem ser tudo, ser o que há de mais importante; constituem uma cortina opaca que nos encobre a visão sobre o além. Faz-se neces-sário furar essa cortina e tomar consciência nítida de que a vida plena não está neste mundo, mas esta no além, na Casa do Pai, onde nossos irmãos nos esperam.

3) Para poder considerar a morte com alegria e confiança, o cristão tem que viver a vida presente na fidelidade à lei de Deus, pois na verdade os bens definitivos já nos são dados em meio ao provisório deste mundo. O discípulo de Cristo pode desde já desfrutar os valores eternos, que, em última análise, são o encontro com Deus, a Bondade Infinita. O Deus da eternidade, que faz a bem-aventurança dos justos no além, é o Deus do tempo, que se dá a nós através da Eucaristia e dos demais sacramentos; Ele se dá veladamente no claro-escuro da fé; Ele se dá plenamente no face-a-face da eternidade. Ele pode ser cada vez mais fonte de alegria e felicidade para os fiéis peregrinos na terra, desde que se entreguem do-cilmente à sua santa vontade.

4) Do quanto foi dito segue-se uma conclusão importante: a morte não atemoriza o cristão fiel, ao contrario... O que o deve levar a sentir horror e repulsa, é outra coisa; é o pecado. Este, sim, nos separa de Deus e nos tira a alegria da eternidade antecipada. Por conseguinte, o cristão foge do pecado, não só do pecado grave, mas também do pecado dito "leve", pois está debilitando a união com Deus e ameaça a vida espiritual.

5) Compreende-se também que não convém afastar da mente a idéia da morte. Muitas pessoas a repelem como se fosse algo de impensável. Engana-se quem assim procede: a morte é a única certeza que a criança tem quando nasce. Não se entende, pois, que alguém não queira tomar consciência disto. É oportuno refletir sobre a morte quando ela parece estar longe (nunca se sabe se está longe ou perto); não se deve esperar o momento em que estaremos esclerosados, incapazes de refletir, cegos ou surdos; será tarde demais para começar a pensar na morte; façamo-lo enquanto gozamos de lucidez de mente, armazenando boas disposições para a enfrentarmos quando ela se aproximar. Assim nos familiarizaremos com a Irmã Morte e sua capacidade de nos transferir para a Casa do Pai. Sejamos, pois, corajosos e realistas, e não fujamos da verda-de. Deus nos chama a todo momento para um convívio sempre mais intimo com Ele. Sejamos-Lhe gratos e respondamos-Lhe com generosidade.

(1) Estas ponderações  foram redigidas em estilo de programa de rádio, que foi ao ar em 13/01/98.

(2) A água viva, no caso, é o símbolo do Espírito Santo, conforme  Jo 7,37-39.


Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui