Em síntese: Madre Teresa de Calcuttá declarou a um repórter ita-liano não ter medo de morrer, pois isto significava, para ela, voltar para casa ou entrar na pátria definitiva. A visão de fé da Religiosa exprimiu-se de maneira decidida e corajosa, que surpreendeu o jornalista, como se depreende dos dizeres abaixo.
* * *O jornalista italiano Renzo Allegri narra interessante encontro que teve com Madre Teresa de Calcuttá, manifestando a fé firme e viva dessa Religiosa no tocante à morto e à vida póstuma.
Transcrevemos o relato tal como foi publicado pela revista ITAICI, n2 30, dezembro 1997, pp. 44s.
"COMO POSSO TER MEDO DE MORRER?"
?Um dia, no fim de uma longa entrevista, perguntei à Madre Teresa de Calcutá: ?Madre, a senhora tem medo de morrer??
Era o ano de 1986. Madre Teresa já fora internada várias vezes em hospitais, por problemas do coração. Tinha sido também submetida a intervenções cirúrgicas delicadas, mas sempre voltara à plena atividade. Naquela vez, eu estivera com ela o dia inteiro e a acompanhara fora de Roma, em automóvel. Tínhamos falado de sua atividade na Índia, de sua Congregação das Missionárias da Caridade, que se estava expandindo pelo mundo inteiro. A Madre mostrava-se cheia de energia, empenhada mesmo diante do enigma da morte, que faz parar tudo, interrompe qual-quer coisa. Por isso, eu lhe fiz aquela pergunta. Pronunciei a frase bem baixinho porque, no meio de tanta atividade e entusiasmo, ela parecia destoar; e também porque Madre Teresa é freira e, portanto, pessoa que pensa só em Deus.
A Madre olhou em meus olhos por alguns instantes. Talvez não esperasse aquelas palavras. Depois, perguntou-me: ?Onde mora o se-nhor?? ? ?Em Milão?, respondi. ?Quando volta para sua casa?? ? ?Espero voltar hoje mesmo, à noite. Gostaria de tomar o último avião e, assim, amanhã, que é sábado, poderei estar com minha família?, disse eu. ?Vejo que o senhor está feliz do voltar para sua casa e poder ficar com sua família?, observou Madre Teresa. ? ?Estou ausente faz quase uma sema-na?, disse para justificar meu entusiasmo.
?Muito bem? acrescentou a freira. ?Está certo que o senhor esteja contente. Vai rever sua esposa, suas crianças, seus entes queridos, sua casa. É justo que seja assim.? Ficou alguns instantes em silêncio, mas depois prosseguiu: ?Pois eu estaria contente como o senhor, se pudesse dizer que esta tarde vou morrer. Morrendo, eu iria também para minha casa, iria ao paraíso, iria ver Jesus. Eu consagrei minha vida a Jesus. Tornando-me freira, fiquei sendo a esposa de Jesus. Veja, tenho também a aliança, como as mulheres casadas. Mas estou casada com Jesus. Tudo o que faço aqui, nesta terra, faço-o por amor dEle. Portanto, mor-rendo, voltaria eu para casa, para meu esposo. Além disso, lá no paraíso, encontraria também todos os meus entes queridos. Milhares de pes-soas morreram em meus braços. Já faz mais de quarenta anos que dedi-co minha vida aos doentes e moribundos. Eu e minhas Irmãs recolhemos pelas estradas, sobretudo na Índia, milhares e milhares de pessoas no fim da vida. Trazemo-las para nossas casas e as ajudamos a morrer se-renamente. Muitas daquelas pessoas morreram em meus braços, en-quanto eu sorria para elas e acariciava seus semblantes moribundos. Pois bem, quando eu morrer, irei ver todas essas pessoas. Estão lá me esperando. Amamo-nos naqueles últimos momentos difíceis, continua-mos a querer-nos bom na lembrança. Quem sabe como vão me festejar quando nos revirmos? Como posso ter medo de morrer? Eu desejo a morte e espero-a, porque finalmente me permitirá voltar para casa?.
Nunca ouvira Madre Teresa falar tanto e com tanto entusiasmo. Ela, geralmente, era resumida nas entrevistas, dava respostas breves. Naquela ocasião, para responder àquela minha pergunta, tinha feito um autêntico discurso".
COMENTANDO...A resposta de Madre Teresa ao jornalista sugere cinco ponderações (1):
1) A Religiosa encara a morte como uma volta à Casa do Pai, onde a família dos filhos de Deus se reúne, onde nos esperam os irmãos e irmãs que deixaram este mundo. E um retorno para casa, ainda mais alegre do que a volta de Renzo Allegri para junto de seus familiares. - Uma concepção semelhante já era professada pelos antigos escritores da Igreja. Assim, por exemplo, se lê na carta de S. Inácio de Antioquia (+107) aos cristãos de Roma, que procuravam evitar fosse ele lançado às feras do Coliseu:
"É bom para mim morrer a fim de me unir ao Cristo Jesus... Aproxima-se o momento em que serei dado à luz... Não ponhais empecilho a que eu viva, não queirais que eu morra" (Aos Romanos, 6, 1s).
Ou ainda:
"Escrevo a vós, possuído do amor da morte...; há em mim uma água viva que fala e dentro de mim diz: ?Vem para o Pai?" (ibd. 7,2). (2)
No século III S. Cipriano (+258), Bispo de Cartago, escrevia:
"Consideremos, irmãos caríssimos, que renunciamos ao mundo e provisoriamente habitamos aqui corno hóspedes e estrangeiros. Abrace-mos o dia que endereça cada qual ao seu domicílio, dia que, libertados desta vida e soltos dos laços do século, nos restitui ao paraíso e ao rei-no... Espera-nos lá grande número de parentes, irmãos, filhos; anseia por nós urna família avultada e numerosa, já certa da sua salvação e ainda solícita da nossa". (De mortalitate 26)
2) Nota o jornalista que Madre Teresa falava da morte com entusi-asmo... Por quê? - Porque a morte, para o cristão, é uma passagem, uma Páscoa, uma transição do precário para o absoluto, do provisório para o definitivo da outra vida. Os homens se acham tão acostumados às coisas visíveis e sonoras da terra que, com o seu poder de fascinação, elas nos parecem ser tudo, ser o que há de mais importante; constituem uma cortina opaca que nos encobre a visão sobre o além. Faz-se neces-sário furar essa cortina e tomar consciência nítida de que a vida plena não está neste mundo, mas esta no além, na Casa do Pai, onde nossos irmãos nos esperam.
3) Para poder considerar a morte com alegria e confiança, o cristão tem que viver a vida presente na fidelidade à lei de Deus, pois na verdade os bens definitivos já nos são dados em meio ao provisório deste mundo. O discípulo de Cristo pode desde já desfrutar os valores eternos, que, em última análise, são o encontro com Deus, a Bondade Infinita. O Deus da eternidade, que faz a bem-aventurança dos justos no além, é o Deus do tempo, que se dá a nós através da Eucaristia e dos demais sacramentos; Ele se dá veladamente no claro-escuro da fé; Ele se dá plenamente no face-a-face da eternidade. Ele pode ser cada vez mais fonte de alegria e felicidade para os fiéis peregrinos na terra, desde que se entreguem do-cilmente à sua santa vontade.
4) Do quanto foi dito segue-se uma conclusão importante: a morte não atemoriza o cristão fiel, ao contrario... O que o deve levar a sentir horror e repulsa, é outra coisa; é o pecado. Este, sim, nos separa de Deus e nos tira a alegria da eternidade antecipada. Por conseguinte, o cristão foge do pecado, não só do pecado grave, mas também do pecado dito "leve", pois está debilitando a união com Deus e ameaça a vida espiritual.
5) Compreende-se também que não convém afastar da mente a idéia da morte. Muitas pessoas a repelem como se fosse algo de impensável. Engana-se quem assim procede: a morte é a única certeza que a criança tem quando nasce. Não se entende, pois, que alguém não queira tomar consciência disto. É oportuno refletir sobre a morte quando ela parece estar longe (nunca se sabe se está longe ou perto); não se deve esperar o momento em que estaremos esclerosados, incapazes de refletir, cegos ou surdos; será tarde demais para começar a pensar na morte; façamo-lo enquanto gozamos de lucidez de mente, armazenando boas disposições para a enfrentarmos quando ela se aproximar. Assim nos familiarizaremos com a Irmã Morte e sua capacidade de nos transferir para a Casa do Pai. Sejamos, pois, corajosos e realistas, e não fujamos da verda-de. Deus nos chama a todo momento para um convívio sempre mais intimo com Ele. Sejamos-Lhe gratos e respondamos-Lhe com generosidade.
(1) Estas ponderações foram redigidas em estilo de programa de rádio, que foi ao ar em 13/01/98.
(2) A água viva, no caso, é o símbolo do Espírito Santo, conforme Jo 7,37-39.
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui