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Ano - IX sexta-feira, 12 de março de 2010
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O 21º Concílio


Somente a Escritura?

  
Espaço do Leitor>Normas Litúrgicas

LEITOR QUER SABER DIFERENÇAS ENTRE O RITO NOVO E O TRIDENTINO


Por Rafael Vitola Brodbeck

Tem se falado muito em "retorno da missa em latin". Já sabemos, graças aos brilhantes esclarecimentos de vocês do VS, que esta afirmação está errada, uma vez que o que se quer realmente é a liberação do rito tridentino.

Minha dúvida é:

O quem tem de diferente entre o rito tridentino e o que utilizamos hoje?

Desejando-lhes a paz, aguardo sua resposta

Caríssimo sr. Anselmo, estimado em Cristo,
 
Agradeço muito sua mensagem. Ela nos dá oportunidade para esclarecermos algumas coisas.
 
Em primeiro lugar, o rito romano é um só. Há duas formas de celebrá-lo: a tradicional (ou tridentina, ou clássica, ou "de São Pio V") e a reformada (ou nova, ou renovada, ou "de Paulo VI"). Claro que podemos chamar de rito tradicional e de rito novo, por extensão, mas, tecnicamente, ambos são formas de um mesmo rito, o romano.
 
Aliás, esse rito romano admite um outro tipo particular, qual seja o chamado Uso Anglicano, oriundo da provisão pastoral dada pelo Papa às paróquias de ex-anglicanos que retornaram à comunhão com Roma nos Estados Unidos e na Inglaterra. É uma mescla do rito romano tradicional com elementos da liturgia celta, aproximando-se bastante da estrutura litúrgica anglicana. Além disso, existem variações particulares do rito romano para certos grupos: o uso cartusiano, o uso dominicano, o uso beneditino (com uma Liturgia das Horas estruturada de outra forma) e mesmo as pecualiaridades litúrgicas do Caminho Neocatecumenal, aprovadas ad experimentum pela Santa Sé.
 
Dito isto, vejamos algumas diferenças entre o rito romano anterior à reforma de Paulo VI e o atualmente em vigor.
 
O calendário litúrgico é distinto em ambas as formas, com mudanças de data na comemoração de alguns santos. Embora a estrutura siga o esquema da divisão em Próprio do Tempo e Próprio dos Santos, há pequenas modificações no modo de se fazer a combinação entre ambos. Mesmo no Próprio do Tempo, em que se mantém a divisão clássica dos tempos litúrgicos, há variações: o antigo "Tempo depois de Pentecostes" e o "Tempo depois da Epifania" são hoje o chamado "Tempo Comum". Algumas festividades foram mudadas de seu dia também. Não só isso, mesmo a graduação das festas mudou, sendo hoje a divisão bem mais simples, o que é um ponto positivo da reforma litúrgica.
 
O modo de se combinar certos rito com a Missa foi modificado igualmente. E também o Ofício Divino mudou: suprimiu-se a hora de Prima, e as Matinas passaram a se chamar Ofício das Leituras, podendo ser recitado a qualquer hora. A distribuição dos salmos no Saltério seguiu um esquema de quatro semanas, e vários textos do Ordinário foram mudados, em que pese a essência permanecer a mesma. Uma grande riqueza foi acrescentada no Próprio, notadamente no Ofício das Leituras, com farta citação patrística. Tanto é assim que, no rito antigo, era um só breviário e, no rito novo, agora são quatro volumes!
 
Já na Missa mesmo, algumas distinções:
 
a) no rito antigo, a celebração começava com as orações ao pé do altar, logo após a procissão de entrada, seguindo-se o Confiteor, o Introitus, o Kyrie e o Gloria; já no rito novo, não há as orações ao pé do altar, havendo, após a procissão, o Introitus (se não foi cantado durante a procissão), o Confiteor, o Kyrie e o Gloria, mudando, então a ordem;
b) o próprio Confiteor era dito de uma outra forma, um pouco mais longa, e sempre duas vezes, uma pelo sacerdote, outra pelo povo; hoje é só uma;
c) após a absolvição que se seguia ao Confiteor, o sacerdote recitava uma outra fórmula, pela reforma suprimida, em que clamava o perdão e a indulgência dos pecados, durante a qual os fiéis se persignavam;
d) havia um só modo de recitar o ato penitencial, qual seja o Confiteor, e hoje há três: o Confiteor, o "Tende misericórdia" e um Kyrie seguido de tropários;
e) como o ato penitencial era sempre o Confiteor, o Kyrie sempre se dizia, mas hoje ele é dito salvo quando houver, no ato penitencial, a fórmula com o Kyrie e seus tropários;
f) o Kyrie continha nove invocações e hoje tem seis, salvo quando, cantado em gregoriano, a melodia obriga às nove;
g) o Gloria era sempre dito, exceto na Quaresma, Advento e Missas pelos defuntos; hoje só em Domingos, Solenidades, festas e quando há alguma ocasião especial (formaturas, ação de graças), sendo, igualmente, suprimido naqueles tempos;
h) como o calendário litúrgico é distinto em ambas as formas, as leituras nem sempre coincidem;
i) aliás, havia sempre uma só leitura, o salmo, o aleluia e o Evangelho, e hoje só é assim nos dias feriais, nas festas e memórias, dado que nos Domingos e Solenidades, há mais uma leitura, o que é uma grande riqueza;
j) as leituras eram distribuídas em um lecionário de um ano apenas, e hoje, no rito novo, o lecionário dominical é trienal e o ferial bienal, aumentando, consideravelmente, as leituras bíblicas;
k) no rito antigo não havia as preces dos fiéis, sendo tal prática restaurada pelo rito novo;
l) o Credo era sempre o Niceno, e hoje pode-se usar tanto o Niceno quanto o Apostólico;
m) o Ofertório era maior, com as orações ditas em voz baixa; a antífona do Ofertório era obrigatória; hoje, o Ofertório é mais simples, e a antífona é apenas uma opção, podendo ser cantado algum hino ou mesmo ser dito o Ofertório em voz alta; as preces para o Lavabo são distintas, mas o "De coração contrito" é o mesmo em ambas as formas;
n) a Oração Eucarística era apenas o Cânon Romano e hoje temos, além dele, mais três que constam do Missal Romano, sem contar as duas para diversas necessidades, aquelas próprias para Missas com Crianças e outras que foram anexadas;
o) o Pai Nosso era dito em pelo sacerdote, e o povo apenas repetia a última frase; hoje é dito por todos;
p) a Comunhão era dada obrigatoriamente na boca e estando o fiel de joelhos; se bem que essa é a forma mais correta e mais louvável de se comungar, resta lícita a prática da Comunhão na mão ou, ainda que na boca, de joelhos;
q) a concelebração só existia na Missa do Crisma e nas Ordenações; hoje pode-se sempre concelebrar;
r) era obrigatório o uso do manípulo; hoje esse paramento é facultativo;
s) a bênção era dada após o "Ite, Missa est", e hoje a ordem se inverteu;
t) após os ritos finais, o sacerdote lia o Último Evangelho, i.e., o Prólogo do Evangelho de São João, cerimônia que foi suprimida no rito novo;
u) não só o Ordinário da Missa (a parte fixa, isso que até agora comentamos) foi modificado, com cerimônias alteradas, outras suprimidas e ainda algumas outras acrescentadas; também o Próprio da Missa (a parte variável) sofreu alterações: a Coleta, a Oração sobre as Oferendas, a Pós Comunhão, o Prefácio e as Antífonas foram aumentadas, outras alteradas, resgatando-se textos medievais e patrísticos riquíssimos;
v) muitos formulários de Missa foram acrescentados: Missas para diversas necessidades, Missas votivas, Missas rituais, Próprios de Santos, Comuns de Santos etc;
w) o rito antigo era obrigatório em latim, exceto a Liturgia da Palavra - que pode ser feita em vernáculo -, e o novo pode ser todo em latim ou em vernáculo;
x) a posição do sacerdote no rito antigo era "versus Deum", e no rito novo pode ser "versus Deum", "versus populum" (a mais comum) ou mesmo um misto entre ambas ("versus Deum" na Liturgia Eucarística e "versus populum" na Liturgia da Palavra);
y) o incenso estava reservado para as Missas Cantadas e para as Missas Solenes, e hoje qualquer Missa pode ter incenso.
 
Enfim, os livros litúrgicos mudaram, permanecendo, entretanto, as características básicas. Para alguns críticos, trata-se de um outro rito, fabricado, mas há uma certa continuidade, sim. Poderia melhorar nesse ponto, com mais naturalidade no desenvolvimento do rito, e sobre isso comentamos na resposta que está em: http://www.veritatis.com.br/article/4108

Para uma comparação entre os dois ritos, veja o seguinte documento: http://www.salve-regina.com/Liturgie/Synopsis_Ritus_Romanus.pdf . Também recomendo o site: http://www.catholicliturgy.com . Nele há os Ordinários para as duas formas do rito romano.

Espero ter auxiliado.
 
Em Cristo,



Todos os artigos disponíveis neste sítio são de livre cópia e difusão deste que sempre sejam citados a fonte e o(s) autor(es).

Para citar este artigo:

BRODBECK, Rafael Vitola. Apostolado Veritatis Splendor: LEITOR QUER SABER DIFERENÇAS ENTRE O RITO NOVO E O TRIDENTINO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4276. Desde 25/05/2007.



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