O Concílio do Vaticano II foi o Vigésimo Primeiro Concílio Ecumênico da História da Santa Igreja Católica. Como todos os demais, após sua realização uma grande divergência e confusão se iniciaram por conta de espíritos desonestos.
Neste tempo em que os juízos quanto ao Concílio são dos mais diversos, creio que aqui se aplica muito bem a parábola do semeador:
“Disse ele [Cristo]: Um semeador saiu a semear. E, semeando, parte da semente caiu ao longo do caminho; os pássaros vieram e a comeram. Outra parte caiu em solo pedregoso, onde não havia muita terra, e nasceu logo, porque a terra era pouco profunda. Logo, porém, que o sol nasceu, queimou-se, por falta de raízes. Outras sementes caíram entre os espinhos: os espinhos cresceram e as sufocaram. Outras, enfim, caíram em terra boa: deram frutos, cem por um, sessenta por um, trinta por um. Aquele que tem ouvidos ouça. [...] Ouvi, pois, o sentido da parábola do semeador: quando um homem ouve a palavra do Reino e não a entende, o Maligno vem e arranca o que foi semeado no seu coração. Este é aquele que recebeu a semente à beira do caminho. O solo pedregoso em que ela caiu é aquele que acolhe com alegria a palavra ouvida, mas não tem raízes, é inconstante: sobrevindo uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, logo encontra uma ocasião de queda. O terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a palavra, mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas a sufocam e a tornam infrutuosa. A terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz fruto: cem por um, sessenta por um, trinta por um” (Mt 13,4-9.18-23).
Na parábola do semeador, Cristo ensina que a semente é a “palavra do Reino [de Deus]”.
No Concílio a Santa Igreja exerceu seu múnus de ensinar e expor a Sã Doutrina confiada a Ela por Nosso Senhor, cumprindo o mandato do Divino Salvador: "Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19). Daí advém o caráter pastoral do Concílio: a pregação “da palavra do Reino” aos homens do tempo atual.
Assim como a parábola, nem toda semente querida pelo Concílio germinou e deu frutos.
Com efeito, algumas caíram ao longo do caminho. Sobre estas diz o Senhor que é o ensino da Igreja que não foi compreendido e, portanto logo foi abandonado. Aqui estão os tradicionalistas que não pouparam ataques ao Concílio acusando a Santa Igreja de ter se afastado da Doutrina Católica. Eles possuem grande dificuldade de encontrar nos textos do Concílio a Doutrina perene da Igreja e acabam por rejeitá-lo. Notem que a causa do infortúnio das sementes não é o terreno: “os pássaros vieram e a comeram”. Com efeito, os tradicionalistas amam a Igreja, amam a Sã Doutrina e amam o Papa. Porém permitiram que Satanás plantasse a dúvida em seus corações. Com efeito, ensina o Senhor que os pássaros que comeram as sementes são o “Maligno [que] vem e arranca o que foi semeado no seu coração”. Esta dúvida semeada por Satanás no seio dos tradicionalistas está tão enraizada que chegam a duvidar das recentes canonizações realizadas pelo Papas ou a veracidade das recentes revelações da Igreja (por exemplo, a polêmica acerca do Terceiro Segredo de Fátima).
Outras sementes caíram em solo pedregoso. Porém quando nasceu o Sol foram queimadas, pois não possuíam raízes, dada a pouca terra do terreno. Diz o Senhor que o terreno pedregoso são aqueles que acolhem “com alegria a palavra ouvida, mas não tem raízes, é inconstante: sobrevindo uma tribulação ou uma perseguição por causa da palavra, logo encontra uma ocasião de queda”. Estes são os fiéis que perderam a Fé devido à crise atual da Igreja. Alguns se tornaram ateus, outros foram para as falsas religiões, outros se fizeram tradicionalistas ou modernistas. Por causa da fé superficial que possuem são como a "onda do mar, levantada pelo vento e agitada de um lado para o outro" (cf. Tg 1,6).
Algumas sementes caíram entre espinhos. Diz o Senhor que “O terreno que recebeu a semente entre os espinhos representa aquele que ouviu bem a palavra, mas nele os cuidados do mundo e a sedução das riquezas a sufocam e a tornam infrutuosa”. Estes são os progressistas ou modernistas. Conhecem bem a Doutrina Católica, mas se deixaram levar pelos “cuidados do mundo e a sedução das riquezas”. São exatamente os modernistas que possuem sede insaciável de novidades. Pautam a vida cristã não segundo os limiares perenes do Evangelho conforme foi confiado à Igreja, mas segundo os rudimentos do mundo. Para eles a Verdade é relativa e está sempre sujeita ao desenrolar da História. Os modernistas transviaram o Concílio e obtiveram muito êxito na deformação das aplicações de suas diretrizes. Transformaram o agiornamento da Igreja tão querido pelo Concílio numa Anti-Igreja. Seu liberalismo é como um câncer que destrói o organismo onde está inserido. São eles os principais demolidores da Igreja.
Na parábola do Senhor, o Semeador (figura da Igreja) vai percorrendo um caminho, semeando a “palavra do Reino”. O terreno com seus vários tipos é figura dos fiéis da Igreja.
Entre o terreno cujas sementes foram comidas (os tradicionalistas) e o terreno onde as sementes foram sufocas por espinhos (os modernistas), está o terreno pedregoso, cuja terra boa é superficial (os fiéis inconstantes). Quantos fiéis não perderam a Fé por causa do embate tradicionalista x modernista? Como a metáfora da parábola se aplica ao nosso tempo...
Enfim a parábola diz que algumas sementes deram muitos frutos, pois caíram em terra boa. Disse o Senhor que a terra boa “é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz fruto: cem por um, sessenta por um, trinta por um”. Estes são aqueles que confiaram e confiam na Igreja.
O católico deve permanecer fiel à Igreja, mesmo quando Ela não ensina infalivelmente, recusando tudo o que não estiver de acordo com este ensino:
Não assentimento de fé, mas religioso obséquio de inteligência e vontade deve ser prestado à doutrina que o Sumo Pontífice ou o Colégio dos Bispos, ao exercerem o magistério autêntico, enunciam sobre a fé e os costumes, mesmo quando não tenham a intenção de proclamá-la por ato definitivo; portanto os fiéis procurem evitar tudo o que não esteja de acordo com ela. (CDC cân. 752) (grifos meus).
Nosso Senhor orou especialmente por Pedro (cf. Lc 22,31-32) para que confirmasse toda a Igreja. Dizer que os Papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II foram coniventes com o erro é afirmar que a oração do Senhor não foi atendida desde o Concílio do Vaticano II e que Ele desde então não esteve com Sua Igreja "todos os dias, até o fim do mundo" (cf. Mt 28,20).