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Ano - IX quarta-feira, 17 de março de 2010
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A FÉ CRISTÃ PRIMITIVA (Volume Único)


Meditações sobre a Saudação à Virgem

  
Espaço do Leitor>Conc. Ecum. Vaticano II

LEITOR DIZ QUE NOSSO ARTIGO SOBRE O VATICANO II É TENDENCIOSO


Por Alessandro Lima

[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site]

Nome do leitor: Daniel

Cidade/UF: Fortaleza-CE

Religião: Católica

Mensagem
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Quanto ao artigo do Prof. Alessandro Lima, "Pode um católico negar obediência ao Concílio Vaticano II"

Alguns comentários, a fim de enriquecer o debate:

1- O Concílio de Jerusalém aconteceu nos primórdios do cristianismo. Nele, a Igreja nascente define como desnecessária a circuncisão para a adesão a fé. Provavelmente esta decisão provocou uma tomada de consciência mais profunda do fato de que havia, sim, uma nova religião, distinta do judaísmo. A comparação com o Vaticano II é descabida. O que querem dizer usando esse exemplo? Que o Concílio Vaticano II com suas "mudanças" estaria fundando uma nova religião, a qual devemos aceitar por obediência?

Prezado Daniel, a Santa Paz!

Bom saber que temos leitores em Fortaleza! Gosto muito de sua cidade, pois minha família paterna tem origem no Ceará e muitos parentes moram em Fortaleza.

Você não entendeu a comparação que fiz entre o Concílio de Jerusalém e o Vaticano II. Quando me referi à carta que os apóstolos mandaram Paulo e Barnabé entregar aos cristãos de Antioquia, Síria e Cilícia, diz mostrar que nem só de dogmas vive o Catolicismo, pois aquela carta não tinha definições dogmáticas, mas pastorais. Aliás, nenhum Concílio foi totalmente dogmático, isto é, não se preocupou somente com a definição de dogmas.

2- Alguns outros Concílios foram reações a heresias e cismas. Assim, o sentido era de refutar as heresias, e confirmar a sã doutrina. Nada de novo era proposto, apenas a Revelação já concluída com a morte do último apóstolo era colocada mais claramente. O Vaticano II não foi resposta a nenhuma heresia ou cisma anterior, nem quis ser dogmático, apenas pastoral. O risco que se corre é o contrário, pois ao apresentar as verdades da Tradição e do Magistério de um modo "novo", o Vaticano II pode ser interpretado erroneamente com uma visão modernista, já condenada por Papas anteriores ao Concílio (vide a Encíclica de Pio X Pascendi Dominici Gregis sobre as doutrinas modernistas - http://www.vatican.va/holy_father/pius_x/encyclicals/documents/hf_p-x_enc_19070908_pascendi-dominici-gregis_po .html). Assim, temos que cuidar de ler o Concílio com os olhos voltados para a Tradição, fugindo da "hermenêutica da descontinuidade" que nos fala Bento XVI, hermenêutica esta tão cara a certos movimentos ávidos por "novidades" (Discurso à Cúria Romana na apresentação dos votos de Natal de 2005 - http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2005/december/documents/hf_ben_xvi_spe_20051222_roman-curia_po.html).

Você está certo em quase tudo. Você diz que o Vaticano II por não ter definido dogmas não protegeu a Igreja de erros. Isso não é verdade. Os “rad-trads” dizem que o Vaticano II por não ter condenado os erros do seu tempo, como o Comunismo, não agiu conforme a Fé. Com efeito, um dogma é uma proteção segura para a Fé, porém há outras também, como os ensinamentos dos Papas. Ora, os quatro Papas anteriores à Era Conciliar condenaram o Comunismo (1). É uma loucura insana pretender julgar a Igreja, pois Ela é uma Instituição Divina, Cristo sua cabeça. Os desígnios de Deus são diferentes dos homens.

 

3- O Código de Direito Canônico foi escrito após o Vaticano II, e portanto influenciado por este. O que dizia o Código anterior ao Vaticano II?

Ora, prezado Daniel, nem preciso me preocupar em lhe dizer o que dizia o CDC de 1917, pois o que vale é o código novo. Além disso, o CDC possui natureza eclesiástica e não divina. Antes de 1917 a Igreja não tinha um código de leis canônicas. É um sofisma pretender que o código de 1917 possua mais autoridade do que o atual, por ser anterior ao Concílio. Não sou eu e nem é você quem define qual código é válido ou não. Quem define isto, caríssimo, é a Santa Igreja e Ela definiu que o código vigente é o novo código.

4- Utilizar trechos de autores, no caso o do então Cardeal Ratzinger, sem referência à época e ao contexto em que foram ditos, não quer dizer muita coisa. O texto pode mudar seu sentido se apresentado em outro contexto. O autor pode escrever algo em uma época e pensar diferente em outra. Deixo claro que concordo com o que o atual Papa diz no trecho, mas bem que se podiam pegar inúmeros outros trechos dele mesmo que dessem a entender algo diferente.

Você está certíssimo. O Card. Ratzinger escreveu como teólogo. Suas obras ou de qualquer outra personalidade da Igreja, não são doutrina católica. Doutrina católica é o que a Igreja ensina através dos Concílios, dos Papas, suas Congregações e o CDC. Eu apenas quis mostrar que há outras obras ou entrevistas do Card. Ratzinger que desmentem os “rad-trads”, logo o quadro não é bem como eles pintam.

5- O artigo mistura todos os "movimentos" tradicionalistas em um mesmo "caldeirão", ao colocar o "et-cetera" quando enumera alguns sites tradicionalistas. Ora, pelo menos 2 Institutos defensores da Tradição, que eu tenha notícia, são reconhecidos pela Santa Sé. O Instituto do Bom Pastor (vide www.ibp-la.org e também http://en.wikipedia.org/wiki/Institute_of_the_Good_Shepherd para mais informações) e também, no Brasil, a Administração Apostólica São João Maria Vianney (vide http://www.adapostolica.org/). Estes Institutos estão em plena comunhão com a Santa Sé, e têm permissão para celebrar a Missa segundo o rito de antes do Vaticano II, o rito chamado de São Pio V. O dilema sobre a "Nova Missa" está no coração das disputas sobre o Vaticano II. Muitos crêem erroneamente que utilizar o Missal antigo é negar o Vaticano II. O Instituto do Bom Pastor tem permissão inclusive, resguardando o Magistério da Igreja, de tecer críticas ao Vaticano II. Não conheceriam isto os senhores? Estariam propondo rejeitar Instituições em plena comunhão, ainda que ad experimentum, pela Santa Sé?

Com efeito, o uso do termo “tradicionalistas” para designar os radicais é inadequado. Por isso eu agora uso “rad-trads” para me referir a eles. Os verdadeiros tradicionalistas estão em comunhão com a Santa Igreja. E você está certíssimo novamente ao dizer que a utilização do Missal Tradicional (o termo Antigo Missal é inadequado pois parece que o Missal de S. Pio V ficou velho, que não deve mais ser usado) não é negar o Vaticano II, como afirmam os “rad-trads”. Lhe digo, mais, se o Motu Proprio do Papa demorou tanto para sair (quase dois anos), creio que isso também se deveu à preocupação da Santa Sé de não passar a falsa impressão de que o Vaticano II estaria sendo revogado.

6- É notável a aproximação de Bento XVI com o movimento tradicionalista. Podem pesquisar na Internet que um Motu Proprio será divulgado nos próximos dias pelo Papa "liberando" a Missa de São Pio V. Aliás, segundo as palavras do Cardeal Castrillon Hoyos, presidente da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, (vide < www.acidigital.com/noticia.php?id=9975>) "(...)esta liturgia, que nunca foi abolida(...)".

Eu discordo plenamente. O Papa Bento XVI (não confundir com o Card. Ratzinger) nunca se afastou do verdadeiro tradicionalismo, que é aquele que ama a Tradição da Igreja e REALMENTE cumpre o que a Igreja ensina. O Papa está trabalhando para aproximar os “rad-trads” do verdadeiro tradicionalismo, que eles abandonaram para ceder a ensinamentos cismáticos de forte orientação sedevacantista.

CONCLUINDO, creio que o artigo é tendencioso, atribui irresponsavelmente erros à totalidade dos tradicionalistas, e portanto é injusto e no mínimo questionável.

Espero que depois dos meus esclarecimentos que você possa ver meu artigo com olhos mais amigos.

Que Cristo lhe abençoe sempre.

Prof. Alessandro Lima.

Notas

(1) PIO XI, Papa. Apostolado Veritatis Splendor: DIVINI REDEMPTORIS. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/3220. Desde 22/8/2005.

PIO XII, Papa. Apostolado Veritatis Splendor: EVANGELII PRAECONES. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1251. Desde 5/9/1999.

JOÃO XXIII, Papa. Apostolado Veritatis Splendor: MATER ET MAGISTRA - Parte I. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1281. Desde 5/9/1999.

PAULO VI, Papa. Apostolado Veritatis Splendor: ECCLESIAM SUAM. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/625. Desde 3/5/2001.



Todos os artigos disponíveis neste sítio são de livre cópia e difusão deste que sempre sejam citados a fonte e o(s) autor(es).

Para citar este artigo:

LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: LEITOR DIZ QUE NOSSO ARTIGO SOBRE O VATICANO II É TENDENCIOSO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4364. Desde 11/07/2007.



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