Veritatis Splendor - LEITOR NOS INDAGA SOBRE A INFABILIDADE E OBRIGATORIEDADE DO VATICANO II

LEITOR NOS INDAGA SOBRE A INFABILIDADE E OBRIGATORIEDADE DO VATICANO II

Por Alessandro Lima

Publicado em 11/07/2007

Nome do Leitor: Sandro Pelegrineti de Pontes

Religião: Católico

Prezado Alessandro Lima, a paz de Cristo. Salve Maria!

Ficou uma dúvida após ler o seu artigo a favor do Vaticano II, que você publicou na manhã de hoje.

Por que o Papa Paulo VI não colocou os mesmos argumentos que você? Por que ele não disse que o concílio, sendo ecumênico e aprovado pelo papa, obriga SOLENEMENTE a todos?  E se de fato obriga, porque fazer a distinção entre concílio pastoral e dogmático? Por que há 40 anos o próprio papa não disse isso que você disse hoje?  

E mais: por que Paulo VI recusou-se a decretar SOLENEMENTE o concílio como sendo infalível? Ora, pelo seu artigo, sendo o Vaticano II de obrigação a todos, obviamente está implicito que ele é infalível. O que gera outra dúvida: se existe a possibilidade dele não ser infalível, e de seus textos serem reformados no dia de amanhã, estamos solenemente obrigados a darmos a nossa adesão a ele hoje?

Aguardando, me despeço.

Sandro de Pontes

Obs 01.: penso eu que mesmo que você prove que o Vaticano II não ensinou heresias, ainda que você mostre que ele ensine corretamente a partir de um grande esforço de hermenêutica, ainda sim o Vaticano II será condenável, pelo simples fato dele ser MUITO ambíguo. Porque NUNCA UM CONCÍLIO se expressou tão mal em dois mil anos de existência da Igreja, e nunca houve tantas e contraditórias interpretações, mesmo entre aqueles que aceitam seus textos. Aliás, ambiguidade é a especialidade dos textos conciliares (qualquer semelhança com as condenações da Pascendi não é mera coincidência).

 

Prezado Sandro, a Paz de Nosso Senhor!

Ainda que eu consiga mostrar a ortodoxia nos textos do Vaticano II, você me diz que isso não seria suficiente? Ora meu amigo me desculpe, mas você, mas quem disse que o texto do Vaticano II é muito ambíguo? Foi o Papa? Já li várias obras de D. Lefevbre, inclusive a sua clássica “Do liberalismo à Apostasia”, e nem mesmo este fervoroso Bispo defendeu tamanha bobagem. Mas eu sei de quem você toma argumentos como este.

É verdade que existem hoje duas hermenêuticas dos textos conciliares, conforme o Papa Bento XVI mesmo se referiu em seu discurso à Cúria Romana em 22 de Dezembro de 2005. Isto demonstra não a ambigüidade dos textos, mas a inclinação do espíritos. Vou lhe dar exemplos recentes.

Depois da publicação do Motu Proprio do Papa Bento XVI, “liberando” a Missa Tridentina, com a carta do Papa que o acompanha, mais a sua entrevista à ACI sobre sua decisão, apareceram três hermenêuticas dos referidos textos.

Neles o Papa ratificou a autoridade do Vaticano II. Mesmo assim, um líder “rad-trads” que você bem conhece, se referiu ao Papa como um “ex-defensor do Vaticano II”. Faltou explicar por que então o “ex-defensor do Vaticano II” ratificou a autoridade do Concílio. Os “rad-trads” leram os textos do Papa com a hermenêutica anti-Vaticano II.

O Papa Bento XVI liberando a Missa Tradicional deu um belo recado também ao Clero “moderninho”. Alguns Bispos modernistas se sentiram atacados com a decisão do Papa, pois as invencionices litúrgicas que promoviam estam com os dias contados. Estes leram os textos de Bento XVI com a hermenêutica pró-modernismo.

Por fim, enquanto “gregos” e “troianos” ficaram descontentes, os verdadeiros tradicionalistas, os verdadeiros católicos, exultaram de alegria com o Motu Proprio, sua carta de acompanhamento e a entrevista do Papa explicando ambos. Quem está realmente com Roma, exultou de alegria, pois viu que o Papa trabalhou muito bem pela Unidade da Igreja.

Dito tudo isto, lhe pergunto: será que os textos dos Papa são ambíguos? Será que não são suficientemente claros? Será que eles dão margem a tanta discussão, reserva e contrariedade? Ou será que isso é fruto das mazelas do espírito humano?

A Igreja possui uma Doutrina perene e um Código de Direito. É sempre bom que os Papas façam referência à Tradição, porém só o simples fato da Doutrina existir é suficiente para que a devamos observar, mesmo que os Papas não se refiram a ela. Algo semelhante ocorre com o CDC (Código de Direito Canônico), que dificilmente serão referenciados em exposições doutrinárias, por se tratarem de Leis disciplinares.

Se o seu pensamento estivesse correto, as Leis da Igreja conforme constam no CDC só poderiam ser aplicadas se referenciadas pelos Papas, o que é falso. Seria o mesmo que dizer que ninguém poderia batizar seu filho só com um Padrinho ou uma Madrinha, pois embora tal situação esteja prevista no CDC, nenhum Papa falou a respeito.

Além disto, tudo que os Papas e outros organismos da Igreja ensinam, têm como fundo a Doutrina e o CDC. Logo, não é preciso que os Papas digam que um Concílio Ecumênico legitimamente convocado e aprovado por eles obrigam toda a Igreja, já que essa sempre foi a prática da Igreja e isto consta no CDC (ver cân 347).

O cân. 347 não faz distinção entre Concílio Ecumênico Dogmático ou não-Dogmático. Diz o cân. que um Concílio convocado e aprovado pelo Papa tem poder de obrigar, e ponto final.

Então você me pergunta: se um Concílio não-Dogmático tem poder de obrigar, qual é a diferença para o Concílio Dogmático?

Um Concílio Dogmático obriga para sempre, pois tem como objeto o dogma e o dogma não é passível de reforma e revisão. Por isso a Igreja ensina a crer com Fé divina no dogma.

Um Concílio não-Dogmático, também obriga, mas suas decisões podem ser revistas, isto é, suas decisões não são absolutas. Podemos comparar um Concílio Pastoral com um Código de Trânsito. Embora suas decisões não sejam absolutas, sejam passíveis de revisão, todos devem obedecê-lo até que a autoridade competente revogue suas decisões e instaure outras. O mesmo acontece com a Constituição Federal, embora seus ensinamentos não sejam absolutos, isto é, para sempre, ela tem força de obrigar.

Este negócio de que Concílio Pastoral não tem força de obrigar é doutrina “rad-trad” e não católica. Também a proposição de que o dogma não existe é doutrina modernista e não católica. Tradicionalismo “rad-trad” e Modernismo são dois erros opostos.

A Igreja é uma instituição sobrenatural.

A sua outra pergunta é porque Paulo VI recusou-se a fazer um Concílio Infalível. Se alguém pode responder a isso, creio que seja o próprio Papa. O que sabemos é que a Igreja quis expor a Doutrina Católica de uma nova forma, visando converter o homem moderno. E para isto, não é preciso criar dogmas. Se a Igreja fez bem ou não, essa é uma outra discussão, que cuja autoridade me falta para fazê-lo.

Os tradicionalistas “criaram um novo dogma” de que todo Concílio tem que ser dogmático. Onde se encontra isso na Doutrina Católica? Se alguém encontrar a definição deste dogma, eu serei mais um a crer nele, pois só quero crer naquilo que é Doutrina da Igreja.

O mesmo cuidado que se deve tomar com as doutrinas modernistas, devemos em relação às doutrinas tradicionalistas. Nenhuma das duas é católica. A Igreja não ensina que só o dogma deve obrigar (tradicionalistas) e nem ensina que nada obriga (modernistas).

Também é importante dizer que as diretrizes de um Concílio Pastoral não são infalíveis, pois não é exposição de doutrina. Porém, o Concílio é infalível na exposição da doutrina, pois não ensinou coisas novas, mas a doutrina de sempre, embora de uma outra forma. Este é o Magistério Ordinário, que o Papa Paulo VI disse ter gozado o Concílio.

Quem tem autoridade para dizer se a Igreja errou ou não na exposição da Doutrina é o Papa, ou um novo Concílio aprovado por ele. Se a Igreja errou na exposição da Doutrina no Vaticano II, ela pecou. Mas a Igreja é Santa, não pode pecar, logo ela não errou no Vaticano II.

Achamos fácil julgar o CVII em relação aos outros Concílios porque ainda vivemos sua história e não vivemos a história dos Concílios anteriores. Para nós é fácil aceitar as decisões dos Concílios anteriores porque seus oponentes não vivem mais. Estamos bem longe de toda controvérsia que deles surgiram.

Com o Vaticano II é diferente, pois nós estamos vivendo toda sua polêmica, conhecemos seus oponentes. Ora, se no passado deu razão àqueles que estiveram de acordo com a Igreja, por que agora seria diferente? Por quê agora deveríamos seguir orientações contrárias ao que a Igreja vêm ensinando?

Um outro grande erro é confiar em nossas próprias capacidades para encontrarmos a Verdade. A Verdade não se busca. Ela é revelada pela Igreja, e a esta Revelação se dá assentimento de inteligência e vontade. A Verdade está e sempre estará na Igreja: “Recuse imitações”.

Na Igreja, prezado Sandro, sempre apareceram os seus “salvadores” que também eram gente muito piedosa, mas cuja piedade não ultrapassou o orgulho. A Igreja não é um clube, não é uma instituição humana que depende de “salvadores” de “guardiões” da ortodoxia para “não sair da linha”. A Igreja não está sujeita às políticas e armações dos homens. A Igreja é Santa, guiada pelo Espírito Santo, é Cristo quem a governa.

Colabore com a Igreja, promovendo uma observância da liturgia conforme as normas, promovendo a celebração da Missa Tradicional. Crie grupos para estudar a doutrina dos Papas e dos Concílios. Em sua paróquia ajude a escolher bem os ministros de cursos e palestrantes. Tudo isso é muito útil, combatermos o Modernismo e não atacaremos a Autoridade da Igreja.

Confie na Igreja. Só ela é Coluna e Fundamento da Verdade (cf. 1Tm 3,15).

Em Cristo Jesus,

Prof. Alessandro Lima.


Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui