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Ano - IX quinta-feira, 18 de março de 2010
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O 21º Concílio


São Vicente de Lérins: Comonitório - Memorial contra os Hereges

  
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SOBRE TEÓLOGOS E LOBOS: DESMASCARANDO OS SITES RAD-TRADS


Por Marcio Antonio Campos

(observação inicial: “rad-trad” vem de “radical traditionalist”, termo que uso para designar as pessoas que se dizem católicas, mas em nome de um tradicionalismo de botequim, rejeitam o Concílio Vaticano II e o Missal promulgado por Paulo VI em 1969).

 

Que os teólogos da libertação e modernistas são todos mentirosos, qualquer bom católico sabe. No entanto, existe um grupo para quem tudo que os teólogos da libertação e padres modernistas dizem é a mais pura verdade e deve ser levado em consideração. Ironicamente, esse grupo é o dos rad-trads. Basta passar os olhos nos seus sites.

 

A essência do pensamento TL e modernista é a interpretação torta do Concílio Vaticano II. Todos os documentos são distorcidos para que os TLs e modernistas possam difundir suas idéias heréticas e dizer “ah, mas nos baseamos no Vaticano II, olhem só”. No pensamento modernista/TL, o Vaticano II passou a ensinar uma nova doutrina, e por isso todo o ensinamento da Igreja em 19 séculos pode ser jogado para escanteio.

 

E, assim, quando os modernistas/TLs proclamam a “nova doutrina do Vaticano II”, os bons católicos não acreditam; os bons padres não acreditam; o Vaticano não acredita; só quem acredita (além, obviamente, dos modernistas/TLs) são... os rad-trads. Como podem grupos aparentemente tão antagônicos se darem as mãos desse jeito?

 

Na verdade, eles não são tão antagônicos assim: na raiz de ambos os grupos está a interpretação torta do Vaticano II, a convicção de que o concílio se afastou do que a Igreja sempre ensinou, e a contestação à Hierarquia e a tudo (ou quase) que vem de Roma.

 

A tragédia dos rad-trads é que eles precisam dos TLs/modernistas para atingir seu objetivo. Quando um TL faz uma interpretação errada do Vaticano II, o rad-trad se aproveita disso para mostrar ao mundo que “o Vaticano II ensina o erro – vejam só o que esse modernista diz!”, esbravejam online. Ou seja, o rad-trad imputa ao Vaticano II o que o TL afirma, erradamente, sobre o Concílio.

 

Ora bolas, vejamos a seguinte situação:

 

Fulano afirma “A”

Sicrano distorce as afirmações e diz “Fulano afirmou B”

Beltrano ouve Sicrano e repete “Fulano afirmou B”

 

Vamos transferir esta situação para a vida da Igreja

 

O Vaticano II ensina a doutrina perene e imutável da Igreja.

TLs e modernistas distorcem o Concílio e dizem que o Vaticano II ensinou uma doutrina diferente daquela que a Igreja sempre proclamou.

Rad-trads ouvem os TLs e modernistas e repetem que que o Vaticano II ensinou uma doutrina diferente daquela que a Igreja sempre proclamou.

 

Não é muito difícil ver quem está errado nesta situação.

 

Na verdade, a situação é ainda mais grave, porque se torna uma calúnia contra a Igreja. Os rad-trads, ao atribuir ao Vaticano II ensinamentos que o Concílio não proclamou, acusam o Vaticano II de heresia, quando a heresia não está no Vaticano II, e sim nas interpretações erradas que os TLs e modernistas fazem do Concílio!

 

A respeito disso, vamos ver o que Bento XVI afirma num discurso à Cúria Romana em dezembro de 2005. Curiosamente, os rad-trads adoram este discurso. Logo veremos por que digo “curiosamente”. O trecho é um pouco longo, mas vale muito a pena:

 

“Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correcta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do facto de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir "hermenêutica da descontinuidade e da ruptura"; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna. Por outro lado, há a "hermenêutica da reforma", da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Ela afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam a verdadeira expressão do espírito do Concílio.

Seriam o resultado de compromissos em que, para alcançar a unanimidade, foi necessário arrastar atrás de si e confirmar muitas coisas antigas, já inúteis. Contudo, não é nestes compromissos que se revelaria o verdadeiro espírito do Concílio mas, ao contrário, nos impulsos rumo ao novo, subjacentes aos textos: somente eles representariam o verdadeiro espírito do Concílio, e partindo deles e em conformidade com eles, seria necessário progredir. Precisamente porque os textos reflectiriam apenas de modo imperfeito o verdadeiro espírito do Concílio e a sua novidade, seria preciso ir corajosamente para além dos textos, deixando espaço à novidade em que se expressaria a intenção mais profunda, embora ainda indistinta, do Concílio. Em síntese: seria necessário seguir não os textos do Concílio, mas o seu espírito. Deste modo, obviamente, permanece uma vasta margem para a pergunta sobre o modo como, então, se define este espírito e, por conseguinte, se concede espaço a toda a inconstância. Assim, porém, confunde-se na origem a natureza de um Concílio como tal. Deste modo, ele é considerado como uma espécie de Constituinte, que elimina uma constituição velha e cria outra nova. Mas a Constituinte tem necessidade de um mandante e, depois, de uma confirmação por parte do mandante, ou seja, do povo ao qual a constituição deve servir.

Os Padres não tinham tal mandato e ninguém lhos tinha dado; ninguém, afinal, podia dá-lo porque a constituição essencial da Igreja vem do Senhor e nos foi dada para que pudéssemos chegar à vida eterna e, partindo desta perspectiva, conseguimos iluminar também a vida no tempo e o próprio tempo. (...)

À hermenêutica da descontinuidade opõe-se a hermenêutica da reforma, como antes as apresentou o Papa João XXIII no seu discurso de abertura do Concílio em 11 de Outubro de 1962 e, posteriormente o Papa Paulo VI no discurso de encerramento a 7 de Dezembro de 1965. Desejo citar aqui somente as palavras tão conhecidas de João XXIII, nas quais esta hermenêutica é expressa inequivocavelmente quando diz que o Concílio "quer transmitir a doutrina pura e íntegra sem atenuações nem desvios" e continua: "O nosso dever não é somente guardar este tesouro precioso, como se nos preocupássemos unicamente pela antiguidade, mas dedicar-nos com diligente vontade e sem temor a esta obra, que a nossa época exige... É necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e apresentada de modo que corresponda às exigências do nosso tempo. De facto, uma coisa é o depósito da fé, isto é, as verdades contidas na nossa veneranda doutrina, e outra coisa é o modo com o qual elas são enunciadas, conservando nelas, porém, o mesmo sentido e o mesmo resultado" (S. Oec. Conc. Vat. II Constitutiones Decreta Declarationes, 1974, pp. 863-865).

 

(http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/speeches/2005/december/documents/hf_ben_xvi_spe_20051222_roman-curia_po.html)

 

Pois bem, Bento XVI contrapõe no texto duas maneiras diferentes de ver o Vaticano II; existe a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”, que cria um contraste entre Igreja pré- e pós-conciliar, como se o Vaticano II tivesse anulado tudo que veio antes. Mais ainda: que seria preciso seguir não os textos do Concílio, mas um certo “espírito” do Concílio. Esse é justamente o modo como os TLs e modernistas vêem o Vaticano II. E é a forma como os rad-trads também vêem o Concílio (exceto no ponto segundo o qual “o que vale” agora é o novo).

 

Mas também existe a “hermenêutica da reforma”, que vê o Vaticano II em união com toda a história da Igreja. E, segundo Bento XVI, este é o modo correto de ver o Concílio. O que os TLs chamam de “espírito do Concílio” pode até ser “espírito”, mas de porco, de Satanás; não do Concílio. É como se o Papa dissesse: querem saber o que a Igreja realmente disse no Vaticano II? Então vão ao texto, e não a interpretações tresloucadas.

 

Conseqüência: a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura” está errada. Os TLs/modernistas estão errados. Os rad-trads estão errados. Por isso é curioso que os rad-trads gostem tanto desse discurso e usem-no para atacar o Concílio. Mas eles não leram direito. O Papa não está criticando o Vaticano II, pelo contrário: está reafirmando sua validade e união com todo o ensinamento da Igreja!

 

Quando, enfim, todo católico ler o Vaticano II do modo como deve ser lido, sem interpretações modernistas, os rad-trads estarão em um mato sem cachorro: não terão mais a quem citar para justificar seus ataques ao Concílio, e definharão por falta de “comida” (ou lavagem, use o que achar melhor). Será um dia glorioso para a Igreja de Cristo, ao ver derrotados dois inimigos ao mesmo tempo.



Todos os artigos disponíveis neste sítio são de livre cópia e difusão deste que sempre sejam citados a fonte e o(s) autor(es).

Para citar este artigo:

CAMPOS, Marcio Antonio. Apostolado Veritatis Splendor: SOBRE TEÓLOGOS E LOBOS: DESMASCARANDO OS SITES RAD-TRADS. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4389. Desde 20/07/2007.



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