Veritatis Splendor - A DECLARAÇÃO DO CARD. CASTRILLON HOYOS SOBRE A FSSPX E A UR DO VATICANO II

A DECLARAÇÃO DO CARD. CASTRILLON HOYOS SOBRE A FSSPX E A UR DO VATICANO II

Por Alessandro Lima

Publicado em 27/07/2007

Um amigo meu há poucos dias contestou uma resposta que dei a um leitor de Limeira-SP (1), onde contesto a declaração do Card. Castrillon Hoyos que dizia que a FSSPX não está fora da Igreja, mas em comunhão imperfeita.

Muito bem, este meu amigo, muito querido e inteligente, disse que com a minha declaração eu havia condenado o Vaticano II. Pois no decreto Unitatis Redintegratio (UR) que trata do ecumenismo, segundo ele, afirma que os hereges protestantes estão em comunhão imperfeita com a Igreja. Se esta comunhão imperfeita serve para os protestantes por que então não serviria para a FSSPX?

Pretendo esclarecer tudo isto em duas partes. Na primeira mostrarei que a UR não diz aquilo que meu amigo acha que ela diz, demonstrando seu afinar com a Tradição. Na segunda, também com o auxílio da Tradição, justificarei meu comentário sobre a declaração do Card. Castrillon Hoyos sobre a FSSPX.

Primeira Parte: a comunhão imperfeita com a Igreja na UR.

Para esclarecermos toda esta questão faz-se necessário reproduzir um trecho da UR:

"3. Nesta una e única Igreja de Deus já desde os primórdios, surgiram algumas cisões, que o Apóstolo censura como gravemente condenáveis. Dissensões mais amplas, porém, nasceram nos séculos posteriores. Comunidades não pequenas separaram-se da plena comunhão da Igreja católica. Algumas vezes não sem culpa dos homens de ambas as partes. Contudo, os que agora em tais Comunidades nascem e são imbuídos na fé em Cristo não podem ser argüidos do pecado da separação, e a Igreja católica os abraça com fraterna reverência e amor. Aqueles que crêem em Cristo e foram devidamente batizados estão constituídos numa certa comunhão, embora não perfeita, com a Igreja católica” (grifos meus).

É preciso notar que o trecho acima se refere APENAS àqueles que nasceram em comunidades que “separaram-se da plena comunhão da Igreja Católica” e que “são imbuídos na fé em Cristo”. Como diz o próprio trecho estas pessoas estão em comunhão imperfeita.

Ora, isto está em conformidade com o que ensinou S. Pio X, o grande inimigo dos modernistas. No seu Catecismo lemos:

170) Mas quem se encontrasse, sem culpa sua, fora da Igreja, poderia salvar-se?

Quem, encontrando-se sem culpa sua - quer dizer, em boa fé - fora da Igreja, tivesse recebido o batismo, ou tivesse desejo, ao menos implícito, de o receber e além disso procurasse sinceramente a verdade, e cumprisse a vontade de Deus o melhor que pudesse, ainda que separado do corpo da Igreja, estaria unido à alma dEla, e portanto no caminho da salvação” (Papa S. Pio X. Terceiro Catecismo da Doutrina Cristã, Do nono artigo do Credo, § 2o - Da Igreja em particular) (grifos meus).

O que a UR fez foi precisar ainda mais a doutrina católica, já que nela está EXPLICITAMENTE dito quem fora do corpo da Igreja está isento de culpa da separação, logo em comunhão imperfeita: “os que agora em tais Comunidades [separadas] nascem e são imbuídos na fé em Cristo”.

O que significa ser ou estar imbuído na fé em Cristo? Os melhores dicionários dizem que o verbo imbuir significa mergulhar em líquido, embeber, penetrar e infundir. Logo, ser ou estar imbuído na fé em Cristo significa estar embebido ou mergulhado nela. Ou ainda a fé ter-lhe penetrado ou infundido. Aqueles que vivem sua fé cristã segundo a lei natural e a moral estão imbuídos na fé verdadeira, estão imbuídos em Cristo, embora não de forma plena.

Com um olhar mais atento sobre o trecho da UR que transcrevemos acima, será possível verificar que a declaração não se refere a todos os protestantes ou cismáticos. Esta declaração exclui da comunhão imperfeita com a Igreja e do pecado de culpa os apóstatas e os hereges pertinazes.

Os apóstatas da Fé (que estão presentes nas comunidades cristãs separadas) são aqueles que antes católicos passaram para as seitas (protestantes) ou para as comunidades cismáticas (ortodoxos), pois não nasceram em tais comunidades, mas foram para lá desviados. Os hereges pertinazes são aqueles que negam com veemência e constância a Verdade cristã conforme é ensinada pela Igreja Católica. Estes não vivem “em boa fé”, não “são imbuídos na fé em Cristo”.

A distinção feita pela UR está em conformidade com S. Pio X: “O corpo da Igreja consiste no que Ela tem de visível e de externo, quer na associação dos seus membros, quer no seu culto e no seu ministério de -ensino, quer no seu governo e ordem externa” (Ibidem, 164) e “A alma da Igreja consiste no que Ela tem de interior e de espiritual, isto é, a Fé, a Esperança, a Caridade, os dons da graça e do Espírito Santo, e todos os tesouros celestes que lhe provieram dos merecimentos de Cristo Redentor e dos Santos” (Ibidem, 163). Ainda segundo S. Pio X, não estão em comunhão com a Igreja aqueles que "aqueles que [nesta vida] não pertencem nem à alma nem ao corpo da Igreja, quer dizer, aqueles que estão em estado de pecado mortal e se encontram fora da verdadeira Igreja" (Ibidem, § 6o - Daqueles que estão fora da Igreja, 223). Quem são? S. Pio X nos responde: “Encontram-se fora da verdadeira Igreja os infiéis, os judeus, os hereges, os apóstatas, os cismáticos e os excomungados” (Ibidem, 224) (grifos meus). “Os hereges são as pessoas batizadas que recusam com pertinácia crer em alguma verdade revelada por Deus e ensinada como de fé pela Igreja Católica: por exemplo, os arianos, os nestorianos e as várias seitas dos protestantes” (Ibidem, 227) (grifos meus).

Note que S. Pio X faz uma distinção entre as pessoas que buscam Deus sinceramente e estão nas seitas (ligados à alma da Igreja) e as aquelas que negam a Verdade com pertinácia. Logo, S. Pio X não se contradiz e nem está em contradição com a UR.

Notem novamente que não se incluem na citação da UR, os protestantes que vieram da Fé Católica, isto é os apóstatas, que “são aqueles que abjuram, isto é, renegam, com ato externo, a fé católica, que antes professavam” (Ibidem, 228). Também não se incluem na UR os protestantes que “são as pessoas batizadas que recusam com pertinácia crer em alguma verdade revelada por Deus e ensinada como de fé pela Igreja Católica: por exemplo, os arianos, os nestorianos e as várias seitas dos protestantes” (Ibidem, 227), pois não vivem “em boa fé” logo não “são imbuídos da fé em Cristo”.

Até aqui tivemos a oportunidade de demonstrar que a UR não considera todos os hereges ligados à alma da Igreja (comunhão imperfeita) e que seu ensino é conforme a Doutrina Tradicional.

Segunda Parte: Sobre a comunhão da FSSPX com a Igreja Católica segundo a Tradição

Vamos finalmente tratar da questão da FSSPX conforme a declaração do Card. Castrillon Hoyos.

Segundo S. Pio X “Encontram-se fora da verdadeira Igreja os infiéis, os judeus, os hereges, os apóstatas, os cismáticos e os excomungados” (Ibidem, 224) (grifos meus).

Os cismáticos são os cristãos que, não negando explicitamente dogma algum, se separam voluntariamente da Igreja de Jesus Cristo, ou dos legítimos Pastores” (Ibidem 229) (grifos meus) e "os excomungados são aqueles que por faltas graves são fulminados com excomunhão pelo Papa ou pelo Bispo, e portanto são separados, como indignos, do corpo da Igreja, a qual espera e deseja a sua conversão" (Ibidem, 230) (grifos meus).

Ora, a FSSPX separou-se voluntariamente da Igreja, por motivos que achavam justo fazê-lo, tudo bem, mas separaram-se do Papa e dos demais Bispos em comunhão com ele. O Papa João Paulo II excomungou D. Lefebvre por ter sagrado bispos sem o mandato pontifício, ferindo no entender do Papa a unidade da Igreja.

Considerando que a Igreja não errou no Vaticano II, que a excomunhão do Papa foi válida (assunto que dá pano para a manga...) e o que ensinou S. Pio X, a FSSPX não está em comunhão imperfeita com a Igreja, mas fora dela. Caso contrário, ela está na Igreja. Ou é oito ou oitenta. Meio termo é impossível. Por isso, contestei as declarações do Card. Castrillon Hoyos, que penso foram equivocadas.

Considerações Finais

Posso até ter exagerado na dose e ter feito observações indevidas. Posso ter errado na forma, ter escolhido palavras e expressões menos adequadas, e quem sabe até inadequadas, afinal tudo isso é possível no calor da batalha. Mas creio que não errei na matéria.

Feliz de mim que posso contar com um verdadeiro irmão e amigo em Cristo, que faz da divergência de entendimento uma oportunidade para entendimento e crescimento na Fé; e não querelas vãs que nenhum proveito trazem.

Graças a Deus que "o temor do Senhor é o princípio da sabedoria" (cf. Pr 1,7). Logo não é confiando em nós mesmos que se pretende entender tudo que a fé nos apresenta (cf. At 8,26-31). Por isso nos ensinou o Santo Profeta que "se não creres, não compreendereis" (cf. Is. 7,9).

Fique aqui com o meu sincero e profundo abraço, muito prezado e amado de Andradas-MG.

Em Cristo Nosso Senhor,

Prof. Alessandro Lima.

Notas

(1) LIMA, Alessandro. Apostolado Veritatis Splendor: Leitor nos interpela a respeito de artigo sobre o CVII. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4346. Desde 2/7/2007.


Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui