Meu irmão, que a paz de Jesus e Maria esteja convosco e sua familia.
Um Pastor protestante (J.L.) me mandou [algumas] considerações sobre a [autoridade da] Igreja Católica. [...] Gostaria que você, meu irmão, dentro das suas possibilidades de tempo, me desse uma ajuda... Por gentileza, quando tiver condições, me ajude mandando as respostas...
Um abração, fique com Deus Nosso Pai. (Joaquim)
Ainda recentemente, recebi um outro "tratado", chamado "15 Razões Porque Deixei de ser Católico" (aliás, o autor dessa outra "obra" demonstra tamanho desconhecimento do Catolicismo que certamente jamais foi católico, não tendo portanto como ter "deixado de ser" católico...) e que estou refutando razão por razão (desde quando a irracionalidade pode ser chamada de razão??). Como esse outro "tratado" se assemelha um pouco com este que você me enviou, abordarei apenas os pontos que considero de maior relevância e digno de algum destaque...
É bom que analisemos bem a expressão: "A Igreja é a coluna e o fundamento da Verdade". A coluna serve para apoiar algo com firmeza, mas, para isso é necessário que ela esteja firmada em terreno sólido, ou seja, bem fundamentada, caso contrário o que deve ser sustentado virá a baixo. Observe, então, a construção da frase usada por São Paulo: Verdade -> Fundamento -> Coluna -> Verdade, isto é, estando a Igreja edificada sobre a Verdade então ela não tem como ensinar a mentira; em termos lógicos: caminhos verdadeiros conduzem à Verdade; caminhos falsos conduzem ao Erro.
Observe-se que é graças a essa transmissão de poder de Jesus para os Apóstolos (em especial a Pedro, que detém a *chave do Reino* - cf. Mt 16,19) que Paulo, devidamente inspirado pelo Espírito Santo, pôde escrever com segurança 1Tim 3,15, visto acima.
Pois bem, se fosse lícito fundar igrejas por aí (como, aliás, diga-se de passagem, fez o prezado autor desse "tratado" que agora comento) teríamos que dizer que a Igreja original fundada por Jesus, em algum momento de sua História, deixou de ter a assistência do próprio Cristo, o que soaria como anti-bíblico, tendo em vista a passagem transcrita acima (Mt 28,18-20), pois Ele deu a certeza de que estaria *sempre* com a sua Igreja até o fim dos tempos. Acrescente-se a isso o que lemos em Mt 16,18b: "E as portas do Inferno não prevalecerão contra ela [a Igreja]". Estas palavras são de suma importância! Cristo está declarando que o Maligno tentará, mas não conseguirá submeter a sua Igreja (a propósito, é interessante ler a parábola do joio que cresce no meio do trigo e que só será arrancado e queimado no fim dos tempos [Mt 13,24-30]: é a figura da Igreja - os pecadores estão junto com os santos; só no final o Senhor separará os cabritos das ovelhas [Mt 25,31-46]). Cristo desejou e orou pela unidade da sua Igreja (Jo 17,21) e afirmou que um Reino ou casa não pode sobreviver dividido (Mt 12,25), o que, certamente, poderia emglobar a Igreja se esta aceitasse a divisão como algo "normal" (como afirmam, infelizmente, alguns [falsos] pastores).
Portanto, todo aquele que favorece a divisão e dispersa as ovelhas que foram confiadas de modo geral a Pedro (Jo 21,15-17) - em outras palavras, fica fundando igrejocas por aí - não conhece o Senhor. Jesus os compara a ladrões e assaltantes (Jo 10,1) e adverte que suas ovelhas devem fugir destes (Jo 10,5).
Olhando com atenção essas passagens bíblicas, percebemos que a verdadeira Igreja de Jesus possui 4 marcas que a distinguem das seitas fundadas pelos falsos pastores que introduzem "heresias destruidoras" (cf. 2Ped 2,1): una, santa, católica (universal) e apostólica. Qual outra Igreja, além da Igreja Católica, mantém sua unidade através de um sólido conjunto de doutrinas e organização eclesiástica? Qual outra Igreja, além da Igreja Católica, foi fundada pelo próprio Senhor Jesus Cristo, tendo Dele recebido sua autoridade, podendo ser chamada de "coluna e fundamento da Verdade"? Qual outra Igreja, além da Igreja Católica, se espalha sobre todo o orbe terrestre conhecido, sendo de cunho realmente universal? Qual outra Igreja, além da Igreja Católica, existe desde a era apostólica, tendo sucessores legitimamente ordenados conforme a orientação apostólica??
Ora, se algum dia a Igreja Católica, de fato, tivesse apostasiado da fé ou pregado heresias - como gosta de afirmar o autor do já citado "tratado" - nesse dia (que, felizmente, nunca houve) Cristo teria quebrado sua promessa e hoje não teríamos segurança alguma. Bem dizia Santo Agostinho (que era muito estimado por Lutero e Calvino): "Devemos seguir a religião cristã, na comunhão daquela Igreja que é católica. E ela é chamada de católica não apenas por seus fiéis mas também pelos seus inimigos" (A Verdadeira Religião 7,12).
Infelizmente, porém, a confusão voltou a reinar no séc. XVI... Como alguns livros do Antigo Testamento contradiziam várias doutrinas da Reforma, os protestantes resolveram riscá-los de suas Bíblias. Fizeram isso seguindo a "autoridade" dos judeus da Palestina. Tentaram fazer o mesmo com certos livros do Novo Testamento, como a Epístola de Tiago, que Lutero chamava "carinhosamente" de "Carta de Palha", porque contradizia frontalmente a sua doutrina de justificação unicamente pela fé. Como suscitou muita discórdia, voltaram atrás e mantiveram o cânon do NT igual ao da Igreja Católica. Caíram, assim, em gigantesca contradição: para o AT, aceitaram a "autoridade" dos judeus (quem lhes conferiu tal autoridade, já que só definiram o seu cânon dezenas de anos após a morte de Jesus?); para o NT, aceitaram a autoridade da Igreja Cristã (católica).
O triste de tudo isto é ver os protestantes afirmarem que foi o Concílio de Trento que incluiu mais livros no AT. Se isso fosse verdade, porque então a Bíblia de Guttemberg, impressa um século antes da Reforma Protestante, já trazia esses livros? E porque todos os padres da Igreja Primitiva os citavam em seus escritos??
Sabemos que a Palavra de Deus é verdade. A Bíblia é *parte* da Palavra de Deus. A Igreja, como já vimos, é a coluna e o fundamento da Verdade. Desde o princípio, a Igreja afirma que a Palavra de Deus é formada, além da Bíblia evidentemente, também pela Sagrada Tradição e pelo Magistério da Igreja. E não podia ser para menos: as Escrituras se encerram com o último escrito de origem apostólica: o Apocalipse de São João. A Palavra de Deus, contudo, não pode nem está limitada a esse período de tempo
Ainda antes de morrer, Jesus disse a seus Apóstolos: "Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora. Mas, quando vier o Espírito da Verdade, ele vos guiará em toda a verdade. Não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido, e vos anunciará o que há de vir" (Jo 16,12-13). E o Espírito Santo desceu sobre a Igreja no dia de Pentecostes (v. At 2), cumprindo a promessa de Cristo. E permanecerá com ela até o fim, quando Cristo há de vir.
Assim, torna-se perfeitamente claro que a Igreja de Cristo (leia-se "Igreja Católica", pois é a única que existe desde aqueles tempos) jamais poderia se desviar da Verdade, uma vez que a promessa de Cristo e a assistência do Espírito Santo não se restringiria apenas até a morte do último Apóstolo (a saber, São João). Muito pelo contrário, a Igreja Católica sempre contou e sempre contará com a assistência do Divino Espírito Santo e, tendo Cristo prometido estar com ela até o fim, será ela "a coluna e o fundamento da Verdade" (1Tim 3,15) até a consumação dos séculos.
Prova: as Igrejas Ortodoxas, oriundas do Cisma de 1054 e que até hoje ainda não se encontram em comunhão plena com a Igreja de Roma também ensinam que a Palavra de Deus é formada pela Bíblia, Sagrada Tradição e Magistério. Logo, tal conceito não se trata de inovação do Concílio de Trento que só se iniciou em 1542 (quase 500 anos depois do Cisma do Oriente).
A doutrina carrega consigo o caráter de imutabilidade. É uma verdade da fé revelada pelo Senhor à sua Igreja e, como tal, não pode a Igreja, por si só, introduzir qualquer alteração. É o caso da Santíssima Trindade, da presença real de Cristo na Eucaristia... O tempo passa, mas a doutrina permanece a mesma.
A disciplina, por sua vez, pode ser alterada. Não é uma verdade de fé, mas é parte integrante do múnus de ensinar da Igreja, visando o bem dos fiéis e de sua fé, sempre sensível ao contexto e ao tempo. É o caso do celibato, da liturgia da Missa, das velas... O tempo passa e a disciplina pode ser alterada, adaptando-se ao momento presente da Igreja. Sobre assuntos disciplinares a Igreja goza de especial autoridade para manter, revogar ou alterar certa prática.
Consequência prática: existem hoje mais de 30.000 denominações que se dizem cristãs, cada qual seguindo uma doutrina diferente. Veja-se o [mau] exemplo do autor do "tratado": fundou uma igreja e agora está (até quando??) numa igreja presbiterana que diz ser "renovada" (o que vem a ser esta expressão "renovada" ligada à igreja presbiteriana? Certamente deve professar algo que nem Calvino, nem John Knox - fundadores do presbiterianismo - ousaram professar).
Tirando a autoridade da Igreja, a Sola Scriptura abriu caminho para o subjetivismo e o liberalismo religioso. Basta um "pastor" discordar de certa doutrina da sua igreja ou receber uma "luz especial" do Espírito Santo(?) e pronto: lá está ele fundando a sua própria igreja. A descrença existente no mundo contemporâneo - pode ter certeza disso - e o descrédito no Cristianismo são devidos em grande parte à legitimação da divisão trazida pelo protestantismo e sua idéia da Sola Scriptura. Porém sabemos muito bem que todo aquele que causa divisão na Esposa do Senhor (=a Igreja) não herdará o Reino de Deus (Gál 5,19-21). Tal conduta é chamada - com razão - de obra da carne por São Paulo. E o que esperar da carne senão a própria corrupção? (cf Rm 8,5-8; 1Cor 15,50; Gál 6,8; etc.).
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui