Alguns leitores nos têm escrito a respeito de nosso artigo A Gaudium et Spes: um anti-Syllabus? Muitos nos cumprimentam pelo apresentado, outros questionam, querendo elucidar algumas dúvidas que restaram, e ainda contrapondo supostos argumentos contrários a ele. Uns poucos raivosos, no entanto, aproveitam para atacar o Veritatis Splendor.
Pois bem, aproveitamos para responder tanto a uns quanto a outros, expondo a verdade. Não é do nosso feitio atacar pessoas e apostolados, mas ensinar o correto. Pelo esplendor da verdade, as trevas se dissipam.
1. Alguns desses que nos atacam, e também aqueles que, com caridade, nos questionam, apontaram que o Cardeal Ratzinger, ao mencionar que a Gaudium et Spes seria um anti-Syllabus, também acrescentou que a Constituição Pastoral referida, do Vaticano II, era também “a expressão da reconciliação da Igreja com os princípios do mundo moderno”.
Isso é falso! O então Cardeal nunca disse isso. A frase correta do hoje Sumo Pontífice afirmava que a Gaudium et Spes é "uma reconciliação oficial da Igreja com a nova época estabelecida a partir do ano de 1789". Aparentemente, trata-se da mesma coisa dita com palavras distintas. Só aparentemente, como veremos...
Não quis a Gaudium et Spes reconciliar-se com os princípios do mundo moderno, pois tais são contrários à razão e à fé e, nesse sentido, foram condenados pelo Syllabus e por todo o Magistério Ordinário da Igreja. Admitir a reconciliação com os princípios do mundo moderno, com a filosofia moderna, seria reconhecer ou a falibilidade da Igreja na condenação anterior, ou a defectibilidade da Igreja durante o Concílio, e, em qualquer caso, a porta resta aberta para o relativismo. Como o Papa, que condena tão veementemente esse relativismo e os princípios liberais triunfantes no mundo moderno, e, ao mesmo tempo, defende o Vaticano II, cairia em contradição? Será que o Papa não lê o que escreve, ou não entende o que fala? Na mente de alguns, parece que não.
A reconciliação proposta pela Gaudium et Spes não foi em relação aos princípios do mundo moderno, aos princípios e postulados de 1789, mas com o próprio mundo moderno. Ratzinger está se referindo à era moderna e não aos princípios que a ela deram origem. Ora, se toda a sociedade vive esta época, é preciso que a Igreja faça algo a respeito das pessoas que nela vivem ou que por ela são influenciadas. Daí nasce a razão em se reconciliar, visando a conversão das almas, através da pregação pelo diálogo. É isso que demonstramos: a Gaudium et Spes só foi um “anti-Syllabus” na medida em que pregou sua mesma doutrina do modo oposto: em vez de condenar o erro, apresentou o acerto. Usou, pois, o método moderno, em uma linguagem moderna para convencer o homem moderno da realidade que, entretanto, é perene!
2. Na abertura do Concílio, o Beato João XXIII parece, segundo alguns de nossos detratores, indicar a aceitação, pelo Vaticano II, dos postulados de 1789, i.e., da Revolução Francesa.
Isso também é falso. O próprio discurso do Papa mostra que a Igreja deseja se reconciliar com o mundo moderno, para salvá-lo, para dirigí-lo à sua verdadeira dignidade ("mas fazer crescer sua dignidade; não a condená-lo, mas a apoiá-lo e salvá-lo").
Bem sabemos, conforme o ilustre pensador católico Louis Veuillot, que “[d]uas potências vivem e se acham em luta no mundo moderno: a Revelação e a Revolução. Esses dois poderes negam-se reciprocamente, e aqui está o problema fundamental.” (A ilusão liberal, XXIII) Não quer a Gaudium et Spes a paz com a Revolução, mas converter seus filhos. Não quer submeter-se à mentalidade moderna, mas usar parte da sua linguagem – e somente a parte que for adequada, e, após purificada, compatível com a fé católica –, para chegar ao homem que a professa, ao homem com essa mentalidade. Não fosse isso, a Gaudium et Spes não condenaria tão duramente o humanismo autônomo que é uma das bases do pensamento moderno, liberal, triunfante em 1789, tal como o faz especialmente no número 56.
A Gaudium et Spes não utiliza uma linguagem tomista, escolástica, e por isso pode confundir quem só com ela está acostumado (ou a canoniza de tal modo a não perceber que é apenas um meio, excelente, o mais sublime, o mais importante, mas ainda assim um meio). Sua redação é mais parecida com o estilo agostiniano. E, como em Santo Agostinho, é preciso entender todo o contexto, e ler a partir de uma visão de uma conjunto, para daí, sim, extrair uma conclusão legítima. Quem não toma essa devida cautela, está fadado a encontrar na Constituição Pastoral uma inexistente diretriz progressista e contrária, em essência, ao Syllabus, e assim ou se regozijar e inaugurar uma “Nova Igreja”, ou, se escandalizar e apor ao Vaticano II a pecha de ilegítimo, herético ou anátema.
3. É preciso dizer que onde o Syllabus condena a reconciliação com o mundo moderno está se condenando a aceitação deste mundo com todos os seus equívocos. Claro que esta não é a mentalidade do Vaticano II. O ecumenismo do Vaticano II não é uma aceitação do erro, mas um diálogo com o mundo que erra, para salvar as almas deste erro.
Evidentemente o acolhimento que a Igreja faz das almas que estão no erro, não significa uma corroboração com o erro, logo a Gaudium et Spes não vai contra a condenação no. 80 do Syllabus: “[que] O Pontífice Romano pode e deve conciliar-se e transigir com o progresso, com o Liberalismo e com a Civilização moderna.”
4. Enfim, não faltaram aqueles que, em uma tentativa de justificar sua posição equivocada, apelaram para uma outra frase do então Cardeal Ratzinger, interpelando Mons. Lefebvre: “Excelência, mas não estamos no tempo da Quanta Cura!”
Aparentemente, Ratzinger estaria contrariando a Quanta Cura ou dizendo que sua doutrina era só para uma época, o que seria, então, modernismo – relativizar a doutrina. Todavia, não foi isso que o hoje Papa quis dizer. Sua frase não pode ser entendida nesse sentido – por que alguns, podendo entender de outro modo, fazem questão de entender pelo pior?
O que a expressão de Ratzinger a Lefebvre significa que a época atual já não é mais favorável à Igreja e que esta situação exige uma postura diferente da mesma. Não se trata de uma condenação à Quanta Cura ou desprezo pela mesma, mas uma constatação de que, se estamos em um tempo diferente, talvez novos remédios precisem ser aplicados. A doutrina da Quanta Cura é a mesma, segue intocável: o que se quer é aplicar a mesma doutrina de outro modo.
Desta forma concluímos e esclarecemos que a Gaudium et Spes está em plena conformidade com a Doutrina Tradicional da Santa Igreja Católica.
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui