1. 1Romanos, o que aconteceu ultimamente em vossa cidade sob Urbico e o que os governadores estão fazendo, sem razão, em todo o império, forçou-me a compor o presente discurso em vosso favor. Com efeito, sois da nossa mesma natureza e irmãos nossos, por mais que, por causa da vaidade de vossas supostas dignidades, não o reconheçais, nem o desejeis. 2O fato é que em todas as partes há gente disposta a nos levar à morte. Exceto os que estão persuadidos de que os iníquos e intemperantes serão castigados com o fogo eterno e que os virtuosos e que viveram de modo semelhante a Cristo, viverão impassíveis com Deus, isto é, exceto os que são cristãos, todo aquele que é repreendido pelo pai, vizinho, filho, amigo, marido ou mulher por causa de uma falta, se volta contra nós, por sua obstinação no mal, por seu amor ao prazer e por sua impotência para seguir o que é bom; com estes, os malvados demônios, por causa do ódio que nos professam e porque têm a seu serviço tais juízes, como se, de fato, os governantes fossem endemoninhados. 3E para que vos fique clara a causa de tudo o que aconteceu sob Urbico, contarei o caso em pormenores.
Um drama doméstico
2. 1Certa mulher vivia com o seu marido, homem dissoluto, e antes de se tornar cristã, se entregara à vida licenciosa. 2Todavia, logo que conheceu os ensinamentos de Cristo, não só se tornou casta, como procurava também persuadir seu marido à castidade, referindo-lhe os mesmos ensinamentos e anunciando-lhe o castigo do fogo eterno, preparado para os que não vivem castamente e conforme a reta razão. 3Ele, porém, obstinado na dissolução, com a sua conduta desanimou a sua mulher. 4Com efeito, esta considerava uma coisa ímpia continuar partilhando o leito com um homem que só procurava meios de prazer a todo custo, contra a lei da natureza e contra o que é justo, e decidiu divorciar-se. 5Seus parentes, todavia, a dissuadiam e a aconselhavam que tivesse ainda um pouco de paciência, com a esperança de que, algum dia, pudesse mudar o homem. Então, ela violentou-se a si mesma e esperou. 6O marido teve que fazer uma viagem para Alexandria e logo a mulher ficou sabendo que ele cometia lá maiores excessos ainda. Depois disso, para não se tornar cúmplice de tais iniqüidades e impiedades, permanecendo no matrimônio e partilhando o leito e a mesa com tal homem, ela apresentou o que entre vós se chama "libelo de repúdio", e separou-se. 7Então, aquele excelente marido, que deveria ter-se alegrado pelo fato de sua mulher, antes entregue à vida fácil com escravos e diaristas, entre bebedeiras e todo tipo de maldade, ter agora deixado tudo isso e só desejar que ele também, dado às mesmas farras, pusesse fim a tudo isso, ficou, pelo contrário, despeitado por ela ter-se divorciado contra a sua vontade e a acusou diante dos tribunais, dizendo que ela era cristã. 8A mulher, contudo, apresentou a ti, imperador, um memorial, solicitando autorização para dispor antes de sua propriedade, e responder diante dos tribunais à acusação que lhe era feita, depois que estivesse resolvida a questão dos seus bens. Tu concedeste o que ela solicitou. 9O que antes fora marido, não podendo, na ocasião, fazer nada contra a mulher, voltou-se contra certo Ptolomeu, que Urbico chamara do seu tribunal, por ter sido mestre dela nos ensinamentos de Cristo. Eis o ardil que ele usou. 10O centurião que prendera Ptolomeu era seu amigo, e ele o persuadiu para que o detivesse e lhe perguntasse apenas se era cristão. 11Ptolomeu, que era por caráter amante da verdade, incapaz de enganar ou dizer uma coisa por outra, confessou que era de fato cristão. E isso bastou para que o centurião o acorrentasse e o atormentasse por muito tempo no cárcere. 12Finalmente, quando Ptolomeu foi levado diante do tribunal de Urbico, a única pergunta que lhe fizeram foi igualmente se era cristão. 13De novo, consciente dos bens que devia à doutrina de Cristo, confessou o que é ensinamento da divina virtude. 14Com efeito, quem nega alguma coisa, seja o que for, ou a nega porque a condena ou recusa confessá-la por saber que é indigno ou alheio a ela; nada disso convém ao verdadeiro cristão. 15Urbico ordenou que ele fosse condenado ao suplício; mas certo Lúcio, que também era cristão, vendo um julgamento realizado tão contra toda a razão, disse a Urbico: 16"Por que motivo condenaste à morte um homem, que ninguém provou ser adúltero, ou fornicador, ou assassino, ou ladrão, ou salteador, ou, por fim, réu de algum crime, mas que apenas confessou levar o nome de cristão? Urbico, não estás julgando de modo conveniente ao imperador Pio, nem ao filho de César, amigo do saber, nem ao sacro Senado.
17Urbico não respondeu nada. Dirigiu-se a Lúcio, e lhe disse: "Parece-me que também tu és cristão!"
18Lúcio respondeu: "Com muita honra." E sem mais, o prefeito deu ordem para que ele também fosse conduzido ao suplício. 19Lúcio declarou-lhe que até agradecia por isso, pois sabia que ia se livrar de tão perversos tiranos e que iria ao Pai e rei dos céus. 20Por fim, um terceiro, que sobreveio, também foi condenado à morte.
O suicídio não é lícito
3(4). 1Contudo, para que não se diga: "Matai-vos uns aos outros, e ide de uma vez para o vosso Deus, e não nos incomodeis mais", quero dizer por que não fazemos isso e também por que, ao ser interrogados, confessamos corajosamente a nossa fé. 2Nós aprendemos que Deus não fez o mundo por acaso, mas por causa do gênero humano, e já dissemos que ele se compraz com aqueles que imitam as suas qualidades e, em troca, se desagrada com aqueles que, por palavras ou obras, se entregam ao mal. 3Portanto, se todos nos matássemos a nós mesmos, seríamos culpados de que nascesse alguém que seria instruído nos ensinamentos divinos e, no que dependeria de nós, seríamos responsáveis pelo desaparecimento do gênero humano e, fazendo isso, também nós agiríamos de modo contrário ao desígnio de Deus. 4Quanto a não negarmos a ser interrogados, isso se deve ao fato de nós não termos consciência de ter cometido nenhum mal e, ao contrário, consideramos como impiedade não sermos em tudo verazes. Sabemos que isso é agradável a Deus, e nos apressamos em vos livrar agora da injusta preocupação contra nós.
A obra dos demônios
4(5). 1Caso ocorresse a alguém a idéia de que, se confessamos a Deus como protetor, não estaríamos, como dizemos, sob o poder dos iníquos, sofrendo seus castigos, resolverei também essa dificuldade. 2Tendo Deus feito o mundo inteiro, submetido as coisas terrestres aos homens e ordenado os elementos do céu, impondo-lhes também uma lei divina para o crescimento dos frutos e variação das estações -os quais também claramente ele fez para os homens -, entregou-o, assim como as coisas sob o céu, aos cuidados dos anjos que para isso designou. 3Mas os anjos, violando essa ordem, deixaram-se vencer por seu amor pelas mulheres e geraram filhos, que são os chamados demônios[1]. 4Além disso, mais adiante, escravizaram o gênero humano, algumas vezes por meio de sinais mágicos; outras por terrores e castigos que infligiam; outras, ensinando-lhes a sacrificar e oferecer para eles incensos e libações de que necessitam, depois que se submeteram às paixões de seus desejos. Finalmente, foram eles que semearam entre os homens assassínios, guerras, adultérios, vícios e maldades de todo tipo. 5Daí, os poetas e narradores de mitos, não tendo idéia de que os anjos e os demônios, que deles nasceram, cometeram com homens e mulheres e fizeram em cidades e nações tudo o que lhes escreveram, depois o atribuiram ao próprio Deus e aos filhos carnalmente nascidos dele e aos chamados seus irmãos, Posêidon e Plutão, e igualmente aos filhos destes. 6Com efeito, os poetas chamaram os seus deuses com o nome que cada demônio tinha posto em si mesmo e em seus filhos.
Deus não tem nome
5(6). 1O Pai do universo, sendo ingênito, não tem nome imposto, pois todo aquele que tem nome supõe outro mais antigo que o tenha imposto. 2Pai, Deus, Criador, Senhor, Soberano não são propriamente nomes, mas denominações tiradas de seus benefícios e de suas obras. 3Quanto a seu Filho, o único que propriamente se diz Filho, o Verbo, que está com ele antes das criaturas e é gerado, quando no princípio criou e ordenou por seu meio todas as coisas, chama-se Cristo por sua unção e porque Deus ordenou por seu meio todas as coisas, nome que também compreende um sentido incognoscível, da mesma maneira que a denominação "deus" não é nome, mas uma concepção ingênita da natureza humana de uma realidade inexplicável. 4"Jesus", em troca, é nome de homem que tem a sua própria significação de "salvador". Sim, com efeito, como já dissemos, o Verbo se fez homem por desígnio de Deus Pai e nasceu para a salvação dos que crêem e destruição dos demônios. Podeis comprová-lo por aquilo que, agora mesmo, está acontecendo diante de vossos olhos. De fato, em todo o mundo e em vossa própria cidade imperial, muitos dos nossos, isto é, cristãos, conjurando pelo nome de Jesus Cristo, que foi crucificado sob Pôncio Pilatos, curaram e ainda agora continuam curando muitos ende- moninhados que não puderam sê-Io por todos os outros exorcistas, encantadores e feiticeiros. E assim destroem e expulsam os demônios que possuem os homens.
Os cristãos conservam o mundo
6(7). 1Assim, Deus também adia pôr um fim à confusão e destruição do universo, por causa da semente dos cristãos, recém-espalhada pelo mundo, que ele sabe ser a causa da conservação da natureza. 2De fato, se assim não fosse, vós não teríeis poder para fazer nada daquilo que faz eis conosco, nem seríeis manejados pelos demônios, como instrumentos de sua ação; mas descendo o fogo de julgamento, já teria separado tudo sem exceção, do mesmo modo como não deixou vivo ninguém antes do dilúvio, a não ser aquele que nós chamamos Noé, juntamente com os seus, e que vós chamais Deucalião, do qual nasceu de novo numerosa multidão de homens, uns maus, outros bons. 3Com efeito, nós dizemos que acontecerá a conflagração universal, mas não, como dizem os estóicos por causa da transformação de umas coisas em outras, pois Iisso nos parece muito torpe. Também não dizemos que os homens agem ou sofrem por necessidade do destino, mas que cada um age bem ou peca por sua livre determinação[2]. Acrescentamos ainda que, por obra dos perversos demônios, homens bons, como Sócrates e outros semelhantes, foram perseguidos e aprisionados, e, ao contrário, Sardanapalo, Epicuro e outros de sua laia viveram, ao que parece, na abundância, glória e felicidade. 4Não entendendo isso, os estóicos disseram que tudo acontece por necessidade do destino. 5Mas não é assim; no princípio, Deus criou livres tanto os anjos como o gênero humano e, por isso, receberam com justiça o castigo de seus pecados no fogo eterno. 6 A natureza de tudo o que tem princípio é esta: ser capaz de vício e de virtude, pois ninguém seria digno de louvor se não pudesse também voltar-se para um desses extremos. 7Demonstram isso aqueles homens que, em todas as partes, legislaram e filosofaram conforme a reta razão, ao mandarem que se façam algumas coisas e se evitem outras. 8Os próprios filósofos estóicos, em sua doutrina sobre costumes, têm em alta estima esses mesmos princípios. Isso prova que eles não estão no caminho certo na sua metafisica sobre os princípios e o incorpóreo. 9De fato, ao dizer que tudo o que os homens fazem acontece por necessidade do destino ou que Deus não é outra coisa senão isso que constantemente se muda, se transforma e se dissolve nos mesmos elementos, torna-se patente que têm idéia apenas do corruptível e que Deus, em suas partes e como um todo, se produz em meio a toda maldade ou, por fim, que a virtude e a maldade nada são. Isso choca-se contra toda idéia prudente, contra toda razão e inteligência.
A semente do Verbo
7(8). 1Sabemos que alguns que professaram a doutrina estóica foram odiados e mortos. Pelo menos na ética eles se mostram moderados, assim como os poetas em determinados pontos, por causa da semente do Verbo, que se encontra ingênita em todo o gênero humano. Assim é Heráclito, como antes dissemos, e entre os do nosso tempo, Musônio e outros que conhecemos. 2Com efeito, como já anotamos, os demônios sempre se empenharam em tornar odiosos aqueles que, de algum modo, quiseram viver conforme o Verbo e fugir da maldade. 3Portanto, não é de se admirar se eles, desmascarados, procuram também tornar odiosos, e com mais empenho ainda, àqueles que vivem não apenas de acordo com uma parte do Verbo seminal, mas conforme o conhecimento e contemplação do Verbo total, que é Cristo. Eles receberam merecido tormento e castigo, aprisionados no fogo eterno. 4Se eles agora são vencidos pelos homens em nome de Jesus Cristo, isso é aviso do futuro castigo no fogo eterno que os espera, juntamente com aqueles que os servem. 5Todos os profetas anunciaram isso de antemão e isso também nos ensinou o nosso mestre Jesus.
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[1] Justino se mostra aqui devedor de seu meio e de seu tempo. Mostra-se ingênuo, embora filósofo, sobre a origem e ação dos demônios. Não se deve esquecer que esta é a ?época de ouro da demonologia?
[2] Os estóicos criam num destino-providência, num fatum. Para uma compreensão melhor desta questão, cf. Leitura acessível em R., Frangiotti, A Doutrina Tradicional da Providência: implicações sociopolítica, Ed. Paulinas, 1986.
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui