Veritatis Splendor - II APOLOGIA - CAPS 8 AO 15

II APOLOGIA - CAPS 8 AO 15

Por Santo Justino de Roma

Fonte: Coleção Patrística - Padres Apostólicos I - Ed. Paulus

Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin

Publicado em

Pressentimento do martírio

8(9). 1Eu mesmo espero ser vítima das ciladas de algum desses demônios aludidos e ser cravado no cepo, ou pelo menos, das ciladas de Crescente, esse amigo da desordem e da ostentação. 2Não merece o nome de filósofo um homem que, sem saber uma palavra sobre nós, nos calunia publicamente, como se nós, cristãos, fôssemos ateus e ímpios, espalhando essas calúnias para congratular-se e agradar a multidão transviada. 3De fato, se ele nos persegue sem ter encontrado a doutrina de Cristo, é homem absolutamente mau e que se coloca muito abaixo do próprio vulgo dos ignorantes, os quais com freqüência se preservam de falar do que não entendem e, principalmente, de levantar falsos testemunhos; se leu, não entendeu a sua sublimidade; se a entendeu e age assim para ninguém suspeitar que ele é cristão, então é ainda mais miserável e mau, pois se deixa vencer pela opinião vulgar e irracional e pelo medo. 4Quero que saibais que, ao propor-lhe e fazer-lhe certas perguntas sobre o caso, lhe fiz ver e o convenci de que não sabe absolutamente nada. 5Para provar que digo a verdade, se não vos foram comunica das as notas de nossas discussões, estou disposto a repetir minhas perguntas e respostas e isso também seria uma façanha digna de imperadores. 6Mas se as minhas perguntas e respostas já tivessem chegado ao vosso conhecimento, por elas ficaria claro para vós que ele não entende nada sobre nossa religião. Se ele sabe e, a exemplo de Sócrates, como eu disse antes, não se atreve a falar por medo daqueles que o escutam, não é homem que ama o saber, mas a opinião, como quem não aprecia o dito socrático tão digno de ser apreciado: "Não se deve estimar nenhum homem, acima da verdade." 7Contudo, é impossível que um cínico, pondo o fim supremo na indiferença, conheça bem alguma coisa fora dessa indiferença.

Existe uma justiça eterna

9. 1E os que se consideram filósofos não aleguem que são apenas ruídos e espantalhos o que afirmamos sobre o castigo que os iníquos sofrerão no fogo eterno, e que nós exigimos que os homens vivam retamente por medo e não porque a virtude é bela e gratificante. A eles responderemos brevemente: se a coisa não é como dizemos, então não existe Deus ou, se existe, não se importa em nada com os homens; a virtude e o vício nada seriam, como já dissemos, nem os legisladores castigariam com justiça os que transgridem as boas ordenações. 2Todavia, como os legisladores não são injustos e o Pai deles ensina, através do Verbo, a fazer o que ele mesmo faz, não são injustos os que a eles aderem. 3E se nos objetam que existe diversidade de leis entre os homens e que aquilo que uns consideram bom, outros o consideram mau, e o que é belo para estes é vergonhoso para aqueles, respondemos da maneira que segue. 4Em primeiro lugar, sabemos que os anjos maus estabelecem leis semelhantes à sua própria maldade, nas quais se comprazem os homens que estão com eles; por outro lado, ao chegar depois a reta razão, ela demonstra que nem todas as opiniões, nem todas as leis são boas, mas umas são boas e outras más. Assim ou algo semelhante responderemos a eles. E, se houver necessidade, o diremos mais em pormenores. 5Por enquanto, volto ao que me propus.

Possuímos o Verbo inteiro

10. 1Portanto, a nossa religião mostra-se mais sublime do que todo o ensinamento humano, pela simples razão de que possuímos o Verbo inteiro[a], que é Cristo, manifestado por nós, tornando-se corpo, razão e alma.

2Com efeito, tudo o que os filósofos e legisladores disseram e encontraram de bom, foi elaborado por eles pela investigação e intuição, conforme a parte do Verbo que lhes coube. 3Todavia, como eles não conheceram o Verbo inteiro, que é Cristo, eles freqüentemente se contradisseram uns aos outros. 4Aqueles que antes de Cristo tentaram investigar e demonstrar as coisas pela razão, conforme as forças humanas, foram levados aos tribunais como ímpios e amigos de novidades. 5Sócrates, que mais se empenhou nisso, foi acusado dos mesmos crimes que nós, pois diziam que ele introduzia novos demônios e que não reconhecia aqueles que a cidade considerava como deuses. 6O fato é que, expulsando da república Homero e outros poetas, ele ensinou os homens a rejeitar os maus demônios, que cometeram as abominações de que falam os poetas, e ao mesmo tempo os exortava ao conhecimento de Deus, para eles desconhecido, por meio de investigação racional, dizendo: "Não é fácil encontrar o Pai e artífice do universo, nem, quando o tivermos encontrado, é seguro dizê-lo a todos." 7Foi justamente o que o nosso Cristo fez por sua própria virtude. 8Com efeito, ninguém acreditou em Sócrates, até que ele deu a sua vida por essa doutrina; em Cristo, porém, que em parte foi conhecido por Sócrates, - pois ele era e é o Verbo que está em tudo, e foi quem predisse o futuro através dos profetas e, feito de nossa natureza, por si mesmo nos ensinou essas coisas - em Cristo acreditaram não só filósofos e homens cultos, mas também artesãos e pessoas totalmente ignorantes, que souberam desprezar a opinião, o medo e a morte; porque ele é a virtude do Pai inefável e não um vaso de humana razão.

O mito de Héracles

11. 1Contudo, os homens iníquos e os demônios não nos tirariam a vida, nem teriam poder sobre nós, se todo homem que nasce não tivesse também que morrer. Por isso, nós vos agradecemos porque pagais uma dívida que temos. 2Todavia, cremos que é bom e oportuno mencionar aqui o conhecido relato de Xenofonte para que Crescente e os que são tão insensatos como ele o recordem. 3Xenofonte conta que, ao chegar a uma encruzilhada, vieram ao encontro de Héracles a virtude e a maldade, na forma de mulheres. 4A maldade estava vestida com roupas finas, tinha rosto atraente e adornado com enfeites, e disse a Héracles que, se ele a seguisse, ela o faria viver sempre no prazer e enfeitado com o mais belo ornamento, semelhante ao que ela usava. 5Ao contrário, a virtude, com rosto e veste severos, lhe disse: "Se seguires a mim, não te enfeitarei com beleza ou adorno passageiro e corruptível, mas com enfeites eternos e belos." 6Nós estamos persuadidos de que alcançam a felicidade todos aqueles que fazem dos bens aparentes e seguem o que parece duro e contra a razão. 7Porque a maldade veste as suas ações com as qualidades da virtude e do que é de fato bem, reme dando o incorruptível, pois ela de si não tem nada de incorruptível e nem é capaz de produzi-lo, e torna escravos seus os homens que se arrastam pelo chão, atribuindo à virtude os males próprios da maldade. 8Contudo, os que compreendem os bens verdadeiros, próprios da virtude, também se tornam incorruptíveis pela virtude. Que sejam assim os cristãos, os atletas e os heróis que fizeram aquelas façanhas atribuídas pelos poetas aos supostos deuses, qual- quer pessoa inteligente o pode deduzir, se souber tirar conseqüência do fato de que nós desprezamos a morte, da qual todos fogem.

O platônico se faz cristão

12.1Eu mesmo, quando seguia a doutrina de Platão, ouvia as calúnias contra os cristãos. Contudo, ao ver como caminhavam intrepidamente para a morte e para tudo o que é considerado espantoso, comecei a refletir que era impossível que tais homens vivessem na maldade e no amor aos prazeres. 2Com efeito, que homem amante do prazer, intemperante e que considere coisa boa devorar carnes humanas, poderia abraçar alegremente a morte, que vai privá-lo de seus bens, e que não procuraria antes, de todos os modos, prolongar indefinidamente a sua vida presente e esconder-se dos governantes, e menos ainda sonharia em delatar a si mesmo para ser morto? 3Por obra de homens perversos, os malvados demônios também já conseguiram isso. 4De fato, buscando condenar à morte alguns cristãos, fundados nas calúnias contra nós, arrastaram também escravos, meninos e mulheres e, por meio de incríveis tormentos, os forçaram a repetir contra nós o que o povo inventa, os mesmos crimes que eles cometem publicamente. Todavia, nada disso nos diz respeito e nada nos preocupa, pois temos o Deus eterno e inefável como testemunha de nossos pensamentos e ações. 5Com efeito, por qual motivo não haveríamos de proclamar publicamente que tudo isso é bom e demonstrar que se trata de uma divina filosofia, se bastasse dizer que ao matar um homem nós nos iniciamos nos mistérios de Saturno e que, ao fartar-nos de sangue, fazemos o mesmo que esse ídolo que tanto apreciais, ao qual se asperge não só com sangue de animais irracionais, mas também com sangue humano? E para semelhante rito de aspergir com o sangue dos executados, destinais o homem mais ilustre e mais nobre dentre vós. Por fim, quando dizem que abusamos dos varões e nos unimos sem temor com as mulheres, por que não dizer que, fazendo isso, estamos imitando a Zeus e aos outros deuses, alegando em nossa defesa os escritos de Epicuro e dos poetas? 6A verdade é que nos fazem guerra de mil modos, exatamente porque ensinamos a fugir de semelhantes doutrinas e daqueles que praticam tais coisas ou imitam tais exemplos, como mesmo nestes discursos que vos dirigimos, nos esforçamos por fazer. Contudo, a vossa guerra em nada vos importa, pois sabemos que o Deus que tudo vê é justo. 7Oxalá, agora mesmo subisse alguém à tribuna elevada e, com voz de ator, dali vos gritasse: "Envergonhai-vos, envergonhai-vos de imputar a pessoas inocentes a mesma coisa que praticais publicamente e atribuir aquilo que é próprio de vós e de vossos deuses àqueles que absolutamente nada têm a ver com isso. 8Convertei-vos, arrependei-vos!"

Sou cristão

13.1Eu também, ao perceber que os malvados demônios tinham lançado um véu sobre os divinos ensinamentos de Cristo, a fim de afastar deles os outros homens, desprezei da mesma forma aqueles que propagavam tais calúnias como o véu dos demônios e a opinião do vulgo. 2Confesso que todas as minhas orações e esforços tem por finalidade mostrar-me cristão, não porque as doutrinas de Platão sejam alheias a Cristo, mas porque elas não são totalmente semelhantes, como também as dos outros filósofos, os estóicos, por exemplo, poetas e historiadores. 3De fato, cada um falou bem, vendo o que tinha afinidade com ele, pela parte que lhe coube do Verbo seminal divino. Todavia, é evidente que aqueles que em pontos muito funda- mentais se contradisseram uns aos outros, não alcança- ram uma ciência infalível, nem um conhecimento irrefutável. 4Portanto, tudo o que de bom foi dito por eles, pertence a nós, cristãos, porque nós adoramos e amamos, depois de Deus, o Verbo, que procede do mesmo Deus ingênito e inefável. Ele, por amor a nós, se tornou homem para partilhar de nossos sofrimentos e curá-los. 5Todos os escritores só puderam obscuramente ver a realidade, graças à semente do Verbo neles ingênita. 6Com efeito, uma coisa é o germe e a imitação de algo, que é feita conforme a capacidade; e outra, aquele mesmo do qual se participa e imita, conforme a graça que também dele procede.

Que todos conheçam a verdade

14. 1Portanto, nós vos suplicamos que, subscrevendo como vos pareça, deis publicidade a este livro, a fim de que também os outros conheçam a nossa religião e se vejam livres da vã opinião e da ignorância em relação ao bem. Por sua própria culpa, eles se tornam responsáveis pelo castigo, 2pois na natureza humana existe a faculdade de conhecer o bem e o mal, e eles, que nos condenam sem saber se praticamos as coisas vergonhosas de que nos acusam, comprazem-se com deuses que as fizeram e ainda exigem dos homens coisas semelhantes. De modo que, pelo fato de nos condenar à morte, ao cárcere e a outra pena semelhante, como se tivéssemos feito tais coisas, eles dão a sentença contra si próprios, sem que sejam necessários outros juízes.

15. 1[Eu desprezei o ensinamento ímpio e enganoso da minha nação.]

2Se consentis em publicar este livro, nós gostaríamos de levá-Io ao conhecimento de todos, a fim de que, se possível, se convertam, porque foi só para esse fim que escrevi estes discursos. 3Com efeito, segundo julgamento prudente, as nossas doutrinas não são vergonhosas, mas superiores a toda filosofia humana. Se não são tais, ao menos não se parecem com as de Sotades, Filênida, Arquéstrato, Epicuro e outros, nem são semelhantes às de poetas que, oralmente ou por escrito, vós permitis que sejam conhecidas por todo mundo.

4Feito o que dependia de nós, aqui pomos ponto final. Acrescentamos nossa súplicas a Deus, para que a todos os homens de todo o mundo seja concedido conhecer a verdade. 5Oxalá também vós, em vosso interesse, julgueis com justiça, de acordo com vossa piedade e filosofia.

----------------------------------------------------------

[a] Deve-se distinguir entre o "Verbo inteiro", ingênito, inefável, o próprio Cristo, e o "Verbo seminal" que habita nos homnes, especialmente nos sábios


Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui