Grupos tradicionalistas anti-Vaticano II têm conseguido arrastar algumas almas incautas para a sua rejeição ao Novus Ordo Missae ou Missa de Paulo VI (também conhecida como Missa Nova).
Especialmente agora em que o Papa Bento XVI através de seu Motu Proprio SUMMORUM PONTIFCUM (1) alargou a possibilidade de celebração da Missa Tridentina ou Missa de S. Pio V (o rito romano que era a forma ordinária da Missa antes do Concílio Ecumênico do Vaticano II), essa turma têm utilizado o Motu Próprio do Papa como arma contra a Missa Nova, quando o próprio Pontífice disse que a publicação do documento “trata-se de chegar a uma reconciliação interna no seio da Igreja” (2). E depois se dizem obedientes ao Papa...
Infelizmente a “honestidade” dessa gente não pára por aí. O principal argumento deles para o aliciamento indevido contra a legítima e válida Missa de Paulo VI é a carta (3) que o Cardeal Alfredo Ottaviani juntamente com o Cardeal Antonio Bacci entregou ao Papa Paulo VI no dia 25 de setembro de 1969, contendo suas críticas à versão preliminar da Nova Missa.
Porém o que estes tradicionalistas anti-Vaticano II “esquecem” de mostrar é que as críticas do Card. Ottavianni não foram para a versão final do Novo Ordinário da Missa (Novus Ordo Missae), mas para uma versão preliminar cuja posterior revisão foi ordenada pelo Papa Paulo VI. Inclusive acredita-se que tal revisão foi motivada pela referida carta.
Também “esqueceram” de mostrar que o próprio Card. Ottaviani ficou muito satisfeito com a versão final do Novo Missal. Vejamos suas as palavras depois de sua carta crítica ao Papa Paulo VI:
“... Eu me alegrei profundamente com a leitura dos Discursos do Santo Padre sobre as questões do novo Ordo Missae, e sobretudo com suas precisões doutrinais contidas nos Discursos às Audiências Públicas de 19 e 26 de novembro: depois do que, eu creio, ninguém pode mais sinceramente se escandalizar. Para o mais, será necessário fazer uma obra prudente e inteligente de catequese, a fim de tirar algumas perplexidades legítimas que o texto pode suscitar.” E nessa carta ele lamenta: “... De minha parte, eu lamento somente que se tenha abusado de meu nome em um sentido que eu não desejaria, pela publicação de uma carta que eu tinha dirigido ao Santo Padre sem autorizar ninguém a publicá-la.” (Cardeal Ottaviani, carta a Dom Lafondo, ordem dos cavaleiros de Notre-Dame – Notre Doctrinale sur lê Nouvel Ordo Missae – cf. La Croix, de 23 de março de 1970, confirmation; Documentation Catholique, 67, 1970, pág. 215-216 e 343. Citado na Orientação Pastoral “Magistério Vivo da Igreja” de D. Fernando Rifan, Administrador Apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney).
Como se vê, o Card. Ottaviani lamentou que sua carta tivesse sido usada como um ataque à Missa Nova, como é feito até hoje, lamentavelmente. Cabe dizer ainda que este cardeal sempre rezou a Missa Nova depois que foi promulgada em sua forma final. Uma outra prova da sua adesão e amor à Missa de Paulo VI foi seu comentário sobre os ritos da Igreja (quase um ano depois da entrada em vigor da Missa Nova):
"A beleza da Igreja é igualmente resplandecente na variedade dos ritos litúrgicos que enriquecem seu culto divino quando eles são legítimos e se conformam com a fé. Precisamente a legitimidade de sua origem os protege e guarda contra a infiltração de erros... A pureza e a unidade da Fé estão dessa maneira também sustentadas pelo Magistério supremo do Papa e pelas leis litúrgicas.”" (Cruzado Español, de 25 de maio de 1970. Citado na Orientação Pastoral “Magistério Vivo da Igreja” de D. Fernando Rifan, Administrador Apostólico da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney).
É justo desejar manter as tradições litúrgicas da Igreja, especialmente aquelas que durante tantos séculos nutriram a espiritualidade de tantos fiéis, incluindo aí santos e doutores. Porém, utillizar a Missa como instrumento de ataque ao Magistério da Igreja é algo perverso. Seria como atrair um incauto através das belezas e riquezas da Sagrada Escritura com o intuito de fazê-lo caminhar pelo erro, não economizando ataques à Igreja Católica. Aliás, é justamente isso que fazem os protestantes.
Cabe ainda lembrar o que ensinou o Concílio de Trento:
"Cân. 6. Se alguém disser que o cânon da Missa contém erros e, portanto, deve ser ab-rogado: seja anátema" (Sacrifício da Missa, Doutrina do Sacrifício da Missa Cap. IX. Sessão XXII celebrada no dia 17 de setembro de 1562. DENZINGER 1756).
“Cân. 7. Se alguém disser que as cerimônias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade: seja excomungado” (Ibidem. DENZINGER 1757).
Logo, segundo o Concílio de Trento é IMPOSSÍVEL que a Igreja formule uma liturgia da Santa Missa que contenha erros contra a Fé ou que incentive a impiedade. Cai nos anátemas do Concílio Tridentino quem acredita que a liturgia da Missa Nova seja intrinsecamente má ou que incentiva a impiedade.
Notas
(1) PAPA, Bento XVI. Apostolado Veritatis Splendor: SUMMORUM PONTIFICUM. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4369. Desde 7/7/2007.
(2) XVI, Bento. Apostolado Veritatis Splendor: CARTA QUE ACOMPANHA O M.P. SUMMORUM PONTIFICUM, A TODOS OS BISPOS. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4372. Desde 7/7/2007.
(3) Esta carta é facilmente encontrada na Internet pelo nome de “Intervenção Ottaviani”. Um dos endereços disponíveis é http://oindividuo.com/pgci/ottaviani.htm.