Veritatis Splendor - II LIVRO A AUTÓLICO - CAP 21 AO 30

II LIVRO A AUTÓLICO - CAP 21 AO 30

Por Teófilo de Antioquia

Fonte: Coleção Patrística Vol II - Padres Apologistas - Ed. Paulus

Tradução: Ivo Storniolo, Euclides M. Balancin

Publicado em

 

Retomada de Gn sobre a tentação e queda de Adão e Eua

21. A serpente, porém, era a mais astuta de todas as feras sobre a terra que o Senhor Deus fizera. A serpente disse à mulher: 'Como é que Deus disse: Não comas de toda árvore do jardim?' A mulher disse à serpente: 'Nós come- mos de toda árvore do jardim; mas a respeito do fruto da árvore que está no meio do paraíso, Deus nos disse: Não comais dele, nem o toqueis para que não morrais'. A serpente disse à mulher: 'Não morrereis de morte. É que Deus sabia que no dia em que dele comerdes vossos olhos se abrirão e sereis como deuses, conhecendo o bem e o mal.' E a mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos para ver e preciosa para entender; então, tomando de seu fruto, comeu e deu também a seu marido; eles comeram e os olhos de ambos se abriram, perceberam que estavam nus, colheram folhas de figueira e fizeram cinturões para si. Então ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim depois do meio-dia, e Adão e sua mulher se esconderam da face de Deus no meio da árvore do paraíso. O Senhor Deus chamou Adão e lhe disse: 'Onde estás?' Adão respondeu: 'Ouvi tua voz no jardim e temi, pois estava nu, e me escondi'. Deus disse: 'Quem te disse que estavas nu, senão que comeste da única árvore que te mandei não comeres?' Adão disse: 'A mulher que me destes, foi ela que me deu da árvore e eu comi'. Então Deus disse à mulher: 'Por que fizeste isso?' A mulher respondeu: 'A serpente me enganou e eu comi'. O Senhor Deus disse à serpente: 'Porque fizeste isso serás maldita entre todas as feras da terra. Caminharás sobre teu peito e sobre teu ventre, e comerás terra todos os dias de tua vida. Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela: ela esmagará a tua cabeça e tu lhe morderás o calcanhar'. E disse à mulher: 'Multiplicarei muito as tuas tristezas e o teu gemido; darás à luz a teus filhos na dor, estarás voltada para teu marido e ele te dominará'. E disse a Adão: 'Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste da única árvore que te mandei não comer, a terra será maldita em teus trabalhos, a cultivarás na tristeza todos os dias de tua vida; ela produzirá espinhos e cardos para ti e comerás a erva do campo. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto até que voltes para a terra de onde foste tirado, porque és terra e à terra retornarás". Esse é o relato da santa Escritura sobre a história do homem e do jardim.

22. Agora me dirás: "Tu dizes que Deus não deve estar circunscrito a nenhum lugar. Como agora dizes que Deus passeava no jardim?" Ouve minha resposta. Deus, o Pai do universo, é imenso e não está limitado a um lugar, pois não existe lugar para seu descanso. O seu Verbo, porém, pelo qual ele fez todas as coisas, sendo sua potência e sabedoria, tomando a figura do Pai e Senhor do universo, foi ele que se apresentou no jardim em figura de Deus e conversava com Adão. De fato, a própria divina Escri- tura nos ensina que Adão disse ter ouvido a sua voz. Que outra coisa é essa voz senão o Verbo de Deus, que é também seu Filho? Filho não à maneira como poetas e mitógrafos dizem que nascem filhos dos deuses por união carnal, mas como a verdade explica que o Verbo de Deus está sempre imamente no coração de Deus. Porque antes de criar alguma coisa, o tinha por conselheiro, pois era sua mente e pensamento. E quando Deus quis fazer tudo o que havia deliberado, gerou esse Verbo proferido, como primogênito de toda criação, não esvaziando-se de seu Verbo, mas gerando o Verbo e conversando sempre com ele. Por isso, as santas Escrituras e todos os portadores do espírito nos ensinam, dentre as quais João diz: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus", dando a entender que no princípio existia apenas Deus e nele o seu Verbo. Depois diz: "E Deus era o Verbo. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito." Portanto, sendo o Verbo Deus e nascido de Deus, quando o Pai do universo quer, ele o envia a algum lugar e, chegando aí, ele é ouvido e visto, pois é enviado por ele e se encontra em algum lugar.(1)

23. Portanto, Deus fez o homem no sexto dia, mas sua modelação foi manifestada no sétimo dia, quando fez também o jardim, para que estivesse em lugar melhor e local excelente. Que isso seja verdade, a própria expe- riência o demonstra. Com efeito, como não considerar a dor que as mulheres sofrem no parto e como logo se esquecem disso, para que se cumpra a palavra de Deus que o gênero humano cresça e se multiplique? O mesmo se diga da condenação da serpente: como nos parece odiosa, arrastando-se sobre o seu próprio ventre e comendo terra, para que também isso seja demonstração do que antes foi dito.

24. Deus ainda fez brotar da terra toda árvore formosa à vista e boa para comer. De fato, no princípio havia apenas o que foi criado no terceiro dia: plantas, sementes e ervas; mas o que havia no jardim nasceu com extrema beleza e formosura, pois se diz que era uma plantação plantada pelo próprio Deus. Quanto ao resto das plantas, no mundo há semelhantes. Todavia, há duas árvores, a da vida e a da ciência, que não existem em nenhuma terra, mas somente no jardim do Éden. Que o jardim seja terra e esteja plantado sobre a terra, a Escritura diz: "E Deus plantou um jardim em Éden, ao Oriente, e colocou aí o homem, e Deus ainda fez brotar da terra toda árvore formosa à vista e boa para comer." Pelas expressões "ainda da terra" e "para o Oriente", a divina Escritura claramente nos ensina que o jardim estava sob o nosso céu, assim como o Oriente e a terra. O que se chama Éden em hebraico é traduzido por "delícias". A Escritura indica que de Éden saía um rio para regar o jardim e que a partir daí se dividia em quatro braços. Dois deles são o Fison e o Geon, que regam as partes orientais, principalmente o Geon, que rega toda a terra da Etiópia e que dizem aparecer no Egito com o nome de Nilo. Quanto aos outros dois rios, os chamados Tigre e Eufrates, são bem conheci- dos entre nós, pois correm perto de nossas regiões.

Como dissemos acima, Deus colocou o homem no jardim, para que o cultivasse e o guardasse, e mandou que ele comesse de todos os frutos, portanto também da árvore da vida, e mandou que só não experimentasse da árvore da ciência. E Deus o transportou da terra da qual fora criado para ojardim, dando-lhe ocasião de progresso, para que crescendo e chegando a ser perfeito e até declarado deus, subisse então até o céu, possuindo a imortalidade, pois o homem foi criado como ser intermédio, nem comple- tamente mortal nem absolutamente imortal, mas capaz de uma e outra coisa, assim como seu lugar, o jardim, se considerarmos a sua beleza, é lugar intermédio entre o mundo e o céu.

Quando a Escritura diz "trabalhar", não dá a enten- der outro trabalho, mas a observância do mandamento de Deus, a fim de que o homem, violando-o, não se perca, como efetivamente aconteceu quando se perdeu pelo pecado.

A desobediência expulsa o homem do paraíso

25. A própria árvore da ciência era boa e bom era também o seu fruto. Não produziu, como pensam alguns, a árvore da morte, pois o que produziu esta foi a desobediência. De fato, em seu fruto não havia outra coisa senão ciência, e a ciência é boa, desde que seja usada devidamente. Aconte- ce que, por sua idade, Adão era uma criança e por isso ainda não podia receber de modo digno a ciência. Quando uma criança nasce, não pode imediatamente comer pão, mas primeiro se alimenta de leite e depois, conforme vai crescendo em idade, usa-se alimento sólido. Algo parecido aconteceu com Adão. Não foi também por inveja, como pensam alguns, que Deus lhe proibiu comer da ciência.

Além disso, Deus queria prová-lo, para ver se era obedien- te ao seu mandamento, e também queria que o homem permanecesse o mais tempo possível simples e inocente na idade de criança. Com efeito, é coisa santa, não só diante de Deus, mas também diante dos homens, que os filhos se submetam aos pais em simplicidade e inocência. Portanto, se os filhos devem se submeter aos pais, quanto mais o homem a Deus, Pai do universo? Além do mais, não é normal que as crianças pequenas tenham pensamentos acima de sua idade, pois assim como o crescimento em idade acontece ordenadamente, do mesmo modo o enten- der e o sentir. Por outro lado, quando uma lei manda abster-se de algo e não se obedece, é evidente que não é a lei que nos traz o castigo, mas a transgressão e a desobediência. Com efeito, se um pai manda seu filho abster-se de certas coisas e ele não obedece à ordem do pai, este o açoita e castiga; contudo, não é por isso que se dirá que tais coisas são os açoites, mas que é a desobediência que acarreta o castigo ao desobediente. Assim, foi a desobe- diência que acarretou ao primeiro homem ser expulso do jardim do Éden; não porque a árvore da ciência tivesse alguma coisa de mau, mas foi por causa de sua desobediência que o homem atraiu trabalho, dor, tristeza e caiu finalmente sob o poder da morte.

26. Também foi um grande beneficio feito por Deus ao homem que este não permanecesse sempre em pecado, mas, de certo modo, como se tratasse de um desterro, o expulsou do paraíso, para que pagasse por tempo determi- nado a pena de seu pecado e, assim educado, fosse nova- mente chamado. Tendo sido o homem formado neste mundo, misteriosamente se escreve no Gênesis como se ele tivesse sido colocado duas vezes no jardim. A primeira vez se realizou quando foi aí colocado; a outra se realizaria depois da ressurreição e do julgamento.

Podemos ainda dizer mais. Do mesmo modo como um vaso que depois de fabricado tem algum defeito, é nova- mente fundido e modelado para que fique novo e inteiro, assim acontece com o homem através da morte: de certo modo se quebra, para que na ressurreição surja sadio, isto é, sem mancha, justo e imortal.

Quanto ao fato de Deus chamar e dizer: "Adão, onde estás?", Deus não o fez como se não soubesse, mas, por causa de sua longanimidade, oferecia ao homem ocasião de penitência e confissão.

O homem é, por natureza, mortal ou imortal

27. Poder-se-á dizer: "O homem não foi criado mortal por natureza?" De jeito nenhum. "Então foi criado imortal?" Também não dizemos isso. "Então não foi nada?" Também não dizemos isso. O que afirmamos é que por natureza não foi feito nem mortal, nem imortal. Porque se, desde o princípio, o tivesse criado imortal, o teria feito deus; por outro lado, se o tivesse criado mortal, pareceria que Deus é a causa da morte. Portanto, não o fez mortal, nem imortal, mas, como dissemos antes, capaz de uma coisa e de outra. Assim, se o homem se inclinasse para a imorta- lidade, guardando o mandamento de Deus, receberia de Deus o galardão da imortalidade e chegaria a ser deus; mas se se voltasse para as coisas da morte, desobedecendo a Deus, seria a causa da morte para si mesmo, porque Deus fez o homem livre e senhor de seus atos. O que o homem atraiu sobre si mesmo por sua negligência e desobediência, agora Deus o presenteou com isso, através de sua benevolência e misericórdia, contanto que o homem lhe obedeça. Do mesmo modo como o homem, deso- bedecendo, atraiu sobre si a morte, assim também, obede- cendo à vontade de Deus que quer, pode adquirir para si a vida eterna. De fato, Deus nos deu lei e mandamentos santos, e todo aquele que os cumpre pode salvar-se e, ten- do alcançado a ressurreição, herdar a incorruptibilidade.

O ensinamento dos autores sagrados sobre a história da humanidade

28. Adão foi expulso do jardim e nessas condições ele conheceu a sua esposa Eva, que Deus havia feito de sua costela para que fosse sua mulher. Não porque não pudes- se plasmar a mulher separadamente, mas porque sabia de antemão que os homens haveriam de nomear uma multidão de deuses. Sendo presciente e sabendo que o erro haveria de nomear, através da serpente, uma multidão de deuses -embora não havendo mais do que um Deus, já desde aquele tempo o erro pensava em semear subrepticiamente multidão de deuses, dizendo: "Sereis como deuses" -para que não se pudesse imaginar que um Deus fez o homem e outro fez a mulher, fez os dois de uma única criação. Entretanto, Deus fez junto a mulher não só para mostrar o mistério de sua monarquia e unicidade, mas também para lhes mostrar maior benevolência. Depois que Adão disse a Eva: "Esta sim é osso dos meus ossos e carne da minha carne", profetizou mais dizendo: "Por isso o homem deixará seu pai e sua mãe e juntar-se-á à sua mulher, e os dois serão uma só carne". Isso se vê que se cumpre em nós mesmos. Com efeito, quem, legitimamen- te casado, não abandona sua mãe e seu pai, toda a sua parentela e todos os seus familiares, apegando-se e unin- do-se à sua mulher, a qual quer acima de todos? Sabe-se que houve aqueles que sofreram até à morte por amor a suas esposas.

Esta Eva, por ter sido extraviada desde o princípio pela serpente e por ter-se tornado guia do pecado, o demônio perverso, que também se chama Satã e que lhe falou então através da serpente, nomeia esta Eva em seus gritos até hoje, quando age nos homens por ele possuídos. O demônio também se chama dragão, por ter-se afastado de Deus, pois no princípio foi um anjo. Teria muito que falar sobre este. Agora, porém, deixemos de lado sua explicação, pois já tratamos dele em outros discursos.

O ciúme de Caim

29. Quando Adão conheceu a sua mulher Eva, esta con- cebeu e deu à luz um filho chamado Caim. E disse: "Tive um homem por meio de Deus". Novamente deu à luz um filho, chamado Abel, que era pastor de ovelhas, enquanto Caim cultivava a terra. A história dos dois irmãos é muito longa para adaptá-Ia à situação de minha exposição; por isso, o próprio livro que se chama Origem do mundo pode informar os estudiosos a respeito de seus pormenores.

Satanás, vendo que Adão e Eva não só viviam, mas geravam filhos, foi tomado de inveja por não ter podido levá-Ios à morte. Vendo que Abel era agradável a Deus, agiu sobre seu irmão Caim e fez com que este matasse seu irmão Abel. Assim começou a existir a morte neste mun- do, que faz caminho até hoje por todo o gênero humano. Deus, porém, sendo compassivo e querendo dar a Caim, como a Adão, ocasião de penitência e confissão, disse: "Onde está o teu irmão Abel?" Caim, desconfiado de Deus, respondeu: "Não sei. Por acaso sou guarda do meu irmão?" Irritado contra ele, Deus disse: "Por que fizeste isso? A voz do sangue de teu irmão clama da terra a mim. Agora, tu és maldito da terra, que se abriu para receber de tua mão o sangue de teu irmão. Ficarás gemendo e tremendo sobre a terra." Por isso, a partir daí, a terra temerosa já não recebe o sangue do homem, nem de nenhum animal, manifestando assim que ela não é culpada, mas que o homem é transgressor.

Início da construção da cidade

30. Caim também teve um filho, chamado Henoc. E edificou urna cidade, à qual chamou de Henoc, o nome de seu filho. Então teve início a construção de cidades, antes do dilúvio, e não corno Homero mente, dizendo: "Porque ainda não havia sido construída cidade de míseros ho- mens." Henoc teve um filho chamado Gaidad, o qual gerou Meel, Meel gerou Matusala e Matusala gerou Lamec. Lamec tornou para si duas mulheres, cujos nomes eram Ada e Sela. Daí começou a poligamia e também a música. De fato, Lamec teve três filhos: Obel, Jubal e Tobel. Obel foi pastor, habitando em tendas; Jubal foi o inventor do saltério e da cítara; Tobel foi ferreiro, trabalhando com martelo em bronze e ferro. Até aqui chega a lista da descendência de Caim, que é esquecida daqui para frente, por ter ele matado o seu irmão.

Para substituir Abel, Deus concedeu a Eva que con- cebesse e gerasse outro filho, que se chamou Set, do qual procede todo o gênero humano até hoje. Aos que desejam e têm vontade de conhecer todas as outras gerações, é fácil mostrar para eles nas santas Escrituras. Nósjá tratamos em outra parte corno indicamos acima, da formação das genealogias no primeiro livro Sobre as histórias.

O Espírito Santo nos ensina tudo isso por intermédio de Moisés e dos outros profetas, de modo que os nossos livros dos que adoramos a Deus, são mais antigos e sobretudo mais verdadeiros que os de todos os historiado- res e poetas.(2) Eles fantasiam que foi ApoIo o inventor da música; outros que foi Orfeu, dizendo que ele inventou a música tomando-a do canto das aves. Vê-se, porém, que é tudo palavrório vão e sem fundamento, pois esses nasce- ram muitos anos depois do dilúvio. Quanto a Noé, que é chamado Deucalião por alguns, tratamos a respeito dele no livro antes mencionado, no qual, se te agrada, podes tu mesmo ler.

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(1) Primeiras especulações da vida intradivina, da geração do Verbo. Mesmo afirmando a divindade do Verbo e sua coeternidade com o Pai, Teófilo não escapa de certa subordinação do Verbo: se o Verbo é Deus igual ao Pai, porque se circunscrever a um lugar?

(2)Teófilo retoma a velha idéia dos apologistas anteriores e vai dedicar quase todo o Livro III desta obra para demonstrar a anterioridade de Moisés e dos profetas em relação aos poetas e filósofos pagãos. Trata-se do argumento da antiguidade.


Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui