31. Depois do dilúvio, novamente recomeçaram a existir cidades e reis do seguinte modo: a primeira cidade foi Babilônia, Orec, Arcat e Calana, na terra de Senaar, e seu rei se chamava Nebrot. Destas saiu Assur, que deu nome aos assírios. Nebrot construiu as cidades de Nínive, Roboom, Calac e Dasen (esta entre Nínive e Calac). No início, Nínive foi uma grande cidade. Outro filho de Sem, filho de Noé, chamado Mesraim, gerou os Ludomim, os que se chamam Enemiguim, os Labiim, os Neptalim, os Patrosinim e os Caslonim, de onde saíram os Filistiim. Dos filhos de Noé e de sua consumação e genealogia fizemos um resumo no livro anteriormente citado. Recor- daremos agora o que ali foi omitido sobre cidades e reis, assim como acontecimentos do tempo em que havia uma só e mesma língua. Antes das línguas se dividirem, existiram as cidades anteriormente descritas. No tempo em que iam se dividir, decidiram, por própria conta e não segundo Deus, edificar uma cidade e uma torre, cujo topo chegasse até o céu, para adquirir fama gloriosa. Como se atreveram a empreender tão grande obra contra o conse- lho de Deus, Deus atirou por terra a cidade deles e arrasou a torre. A partir disso, ele mudou as línguas dos homens e deu fala diferente a cada um. A própria Sibila indicou isso, anunciando a ira que deveria vir ao mundo: "Mas quando se cumprirem as ameaças do grande Deus, que um dia ameaçara os mortais, quando construiram a torre na terra da Assíria... tinham todos a mesma língua e quiseram subir até o céu estrelado. Nesse momento, o Imortal impulsionou fortemente os ares, e os ventos derrubaram a grande torre elevada, semeando a discórdia nas fileiras dos mortais. Depois que a torre caiu, as línguas humanas se dividiram nas muitas falas dos mor- tais." E o resto.
Isso aconteceu na Caldéia. Em Canaã houve uma cidade chamada Carran. Nesse tempo, o primeiro rei do Egito foi o faraó, que, segundo os egípcios, se chamava também Necaot. E assim foram os outros reis que lhe sucederam. Na terra de Senaar, entre os chamados caldeus, o primeiro rei foi Arioc; depois deste, veio outro chamado Elasar, depois Codolagomor, rei de Elam; depois deste, Targal, rei dos povos que se chamam assírios. Houve outras cinco cidades no território de Cam, filho de Noé: a primeira se chamava Sodoma; e as outras, Gomorra, Adama, Seboim e Balac, também chamada Segor. Os nomes de seus reis são: Balas, rei de Sodoma; Barsas, rei de Gomorra; Senaar, rei de Adama; Himor, rei de Seboin; Balac, rei de Segor, que também se chama Balac. Esses ficaram submetidos a Codolagomor, rei dos assírios, du- rante doze anos. E no décimo terceiro ano se separaram de Codolagomor. E assim aconteceu que os quatro reis dos assírios fizeram guerra contra os cinco reis. Este foi o começo das guerras sobre a terra. Derrotaram os gigantes Caranain e com eles nações fortes, os omeus na mesma cidade, e os correus nos montes chamados Seir até a cidade chamada Terebinto de Farã, que está no deserto. Nesse mesmo tempo, havia um rei justo chamado Melquisedec, na cidade de Salém, que agora se chama Hierosólima. Este foi o primeiro de todos os sacerdotes do Altíssimo e dele a cidade de Jerusalém recebeu o nome, aquela que antes chamamos Hierosólima. Depois de Melquisedec, podemos ver que houve sacerdotes por toda a terra. Depois dele, reinou Abimelec em Gerara, e depois outro Abimelec. Depois reinou Efrom, também chamado Queteu. São esses os nomes desses primeiros reis; os nomes dos outros reis dos assírios, que vieram muitos anos depois, foram omitidos pela crônica. Dos nossos últimos tempos, recordam-se os reis da Assíria: Teglafasar, depois Salamanasar e depois Senacarim. Este último teve como triarca Adramalec, o etíope, que também foi rei do Egito. Contudo, tudo isso, comparado com as nossas Escrituras, é coisa muito recente.
32. Daí se podem julgar as histórias dos estudiosos e amantes da antiguidade, pois são recentes os últimos fatos a que aludimos sem utilizar os santos profetas. Em todo caso, no início eram poucos os homens que habitavam a terra da Arábia e da Caldéia e foi apenas depois da divisão das línguas que começaram, em seus territórios, a ser muitos e a multiplicar-se por toda a terra. Então alguns foram viver no Oriente e outros foram para os territórios do grande continente e para o Norte, de modo que se estenderam até a Bretanha, nas regiões árticas; outros foram para a terra de Canaã, também chamada Judéia e Fenícia, para os territórios da Etiópia, Egito e Líbia, e para a chamada zona tórrida, até as regiões do Ocidente. Outros ocuparam a terra que vai da costa e da Panfília, da Ásia, Grécia, Macedônia e, mais além, a Itália e as chamadas Gálias, Espanhas e Germânias, de modo que agora toda a terra está cheia de seus habitantes.
Portanto, o povoamento da terra pelos homens se fez, no princípio, em três direções, para o Oriente, para o meio- dia e para o Ocidente. Depois, com o afluxo de gerações humanas, foi habitado o restante. Os historiadores igno- raram isso e querem dizer que o mundo é esférico e comparável com um cubo! Mas como podem ser verdadei- ros nisso, se ignoram a criação do mundo e seu povoamento? Quando os homens aumentaram e se multiplicaram conforme as regiões, como acabamos de dizer, também foram povoadas as ilhas do mar e as outras regiões.
Comparação das duas histórias
33. Quem dos chamados sábios, poetas e historiadores foi capaz de dizer a verdade nessas coisas? Eles próprios são muito posteriores e introduzem uma multidão de deuses, que também nasceram depois de muitos anos que as cidades tinham sido fundadas. E também são posteriores aos reis, aos povos e às guerras. Seria preciso que tivessem mencionado tudo, mesmo o que aconteceu antes do dilúvio, sobre a criação do mundo, a formação do homem e o que aconteceu depois, se é fato que os profetas dos egípcios ou os caldeus e outros historiadores falaram pelo espírito divino e puro, e era verdade o que eles anunciavam. E não só deveriam dizer-nos o passado e o presente, mas também anunciar de antemão o futuro do mundo. Daí se demonstra que todos os outros estão errados e que só nós, cristãos, possuímos a verdade, pois somos ensinados pelo Espírito Santo, que nos falou pelos santos profetas e nos anuncia tudo antecipadamente.
34. Quanto ao resto, procura investigar com empenho as coisas de Deus, isto é, o que os santos profetas disseram, a fim de que, comparando o que nós dizemos e o que os outros dizem, possas encontrar a verdade.
Que os nomes dos chamados deuses são apenas
nomes de homens, como já apontamos antes, podemos demonstrá-lo pelas histórias que eles próprios escreve- ram. Quanto às suas imagens, que são fabricadas diaria- mente até hoje, são meros ídolos, "obras de mãos huma- nas". Esses ídolos são cultuados por uma multidão de homens insensatos, enquanto desprezam o Criador e Artífice do Universo, que alimenta todo o ser que respira, acreditando em inúteis ensinamentos e transmitindo uns aos outros, de pai para filho, uma doutrina errônea, cheia de insensatez.
O ensinamento dos autores sagrados sobre moral
Deus, porém, Pai e Criador do universo, não abando- nou a humanidade, mas deu-lhe uma lei e lhe enviou seus santos profetas, para anunciar e ensinar todo o gênero humano, a fim de que cada um de nós viva vigilante e conheça que há um só Deus. Também nos ensinaram a nos afastarmos da sacrílega idolatria, do adultério, do assassínio, da fornicação, do roubo, da avareza, do perjúrio, da mentira, da ira e de toda dissolução e impureza. E que aquilo que o homem não quer que façam a ele, também ele não faça a ninguém. Dessa forma, ele deve praticar a justiça, para escapar dos castigos eternos e se tornar digno da vida eterna que vem de Deus.
35. A lei divina não proíbe apenas adorar aos ídolos, mas também aos elementos, ao sol, à lua e aos demais astros; também não se deve cultuar o céu, a terra, ornar, as fontes, os rios, mas deve-se servir unicamente o Deus verdadeiro e Criador do universo, com santidade de cora- ção e intenção sincera. Com efeito, a lei santa diz: "Não cometerás adultério, não matarás, não roubarás, não levantarás falso testemunho, não desejarás a mulher do teu próximo." Do mesmo modo os profetas. Salomão nos ensinou que não se deve pecar nem por sinais ou piscar de olhos: "Que teus olhos vejam o que é direito, que tuas pálpebras se inclinem sobre o que é justo." Moisés, que também é profeta, diz sobre a uni cidade de Deus: "Este é O vosso Deus, aquele que firmou o céu e alicerçou a terra, cujas mãos mostraram toda a milícia celeste, mas não a mostou para que caminheis atrás dela." Isaías também diz: "Assim diz o Senhor, ele que firmou o céu e colocou os alicerces da terra e de tudo o que ela contém, ele que dá respiração ao povo sobre ela e alento para os que a pisam. Este é o Senhor vosso Deus." O próprio Isaías diz ainda: "Diz o Senhor: Eu fiz a terra e o homem sobre ela; com minha mão firmei o céu". E em outro capítulo: "Este é o vosso Deus, aquele que preparou os cumes da terra; não terá fome, nem se fatigará, nem é possível encontrar a profundeza de seu pensamento." Do mesmo modo Jeremias: "Aquele que fez a terra com a sua força, que levantou o orbe com a sua sabedoria, que segundo o seu pensamento estendeu o céu e grande quantidade de água no céu, reuniu as nuvens dos confins da terra, fez relâm- pagos para a chuva e tirou os ventos de seus depósitos."
Cumpre notar que os profetas disseram coisas bem coerentes e concordes, falando todos com um só e mesmo espírito sobre a monarquia de Deus, a origem do mundo e a criação do homem. E não só falaram, mas também sofreram dor, chorando sobre o gênero humano alheio a Deus, denunciaram os sábios aparentes pelo erro em que viviam e endurecimento do coração deles. Assim diz Jeremias: "Todo homem se tornou néscio por sua ciência, todo fundidor de ouro se cobriu de vergonha por suas obras de ourivesaria, em vão o cunhador de prata cunha moeda; não há alento neles; perecerão no dia da visitação." Davi também diz a mesma coisa: "Corromperam-se e se tornaram abomináveis em suas obras; não há quem rea- lize obras boas, não há um só. Todos se desviaram, todos unanimemente se tornaram inúteis." Igualmente Habacuc: "Para que serve ao homem o que ele grava? Ele gravou uma imaginação mentirosa. Ai daquele que diz à pedra: 'Levanta-te', e à madeira: 'Sustém-te'."
Do mesmo modo falaram os outros profetas da verda- de. Para que enumerar toda a multidão de profetas, que foram muitos e disseram infinitas coisas, coerentes e concordes entre si? Os que quiserem podem, lendo seus escritos, conhecer exatamente a verdade e não extraviar- se em especulação e trabalho inútil. Portanto, esses foram os profetas dos hebreus, dos quais falamos: homens iletrados, pastores e ignorantes.(1)
Concordância com a Sibila
36. Quanto à Sibila, que foi profetisa entre os gregos e demais nações, começa a sua profecia recriminando o gênero humano: "Homens mortais e de carne, que não sois nada, como vos apressais a vos exaltar, sem olhar para o fim da vida, e não tremeis,. nem temeis a Deus, que vos vigia, conhecedor altíssimo, que tudo vê, testemunha de tudo, criador que tudo alimenta, que infundiu em tudo doce alento e que se fez guia de todos os mortais?
Único Deus, que impera sozinho, máximo e não criado, onipotente, invisível, e o único que tudo vê, embora não seja visto por nenhum olho de carne. Com efeito, que carne pode ver com os olhos o celeste e verdadeiro, o Deus imortal, que habita no eixo do mundo? Os homens, nasci- dos mortais, homens apenas em seus ossos, veias e carnes, não podem olhar de frente sequer os raios do sol.
Reverenciai àquele que é único, ao guia do mundo, o único que foi para o eterno e desde o eterno. Nascido de si mesmo, incriado, que tudo domina para sempre, que distribui julgamento a todos os mortais em luz comum.
Recebereis O justo pagamento do vosso mau querer, pois deixando de glorificar ao Deus verdadeiro, à fonte perene e de oferecer-lhe sagradas hecatombes, sacrificastes aos demônios do Hades.
Caminhais no orgulho e na loucura e, abandonando o caminho direito e reto, vos haveis desviado e andais errantes entre os espinhos e estacas. Vãos mortais, cessai já de errar entre sombras através da negra noite escura, abandonai a sombra da noite e recebei agora a luz. Este é aquele que a todos se manifesta, ele não erra. Vinde, não sigais a sombra e as trevas para sempre. Olhai: sobre tudo brilha a doce luz do sol. Conhecei e coloca i sabedoria em vossos peitos: existe um único Deus que nos envia chuvas, ventos, terremotos e relâmpagos, fomes, pestes e lutos fúnebres, neve e geada... Para que citar tudo? Ele guia o céu e domina a terra; unicamente ele existe."
E disse contra os que são chamados deuses gerados: "Se todo o gerado se corrompe inteiramente, Deus
não pode ter sido formado dos músculos do homem e de matriz. Unicamente Deus, porém, se ergue acima de tudo, ele que fez o céu, o sol, as estrelas e a lua, a terra fértil em frutos, as ondas infladas do ponto, as altas montanhas e as correntes perenes das fontes.
Ele criou a incontável multidão de peixes dos rios, alimenta também os répteis, que se arrastam sobre a terra, e as aves variadas, de voz sonora e gorgeios, com plumagem dourada, de canto claro, que turbam o ar com suas asas.
Colocou a multidão de feras selvagens nas florestas da montanha, submeteu a nós mortais todos os animais e para todos fez um guia por sua mão formado, submetendo ao homem variedade incompreensível de coisas. De fato, qual carne pode compreendê-Ias uma a uma? Somente pode conhecê-Ias quem no princípio as fez: o Imortal, o Criador e Eterno, que habita o éter, que oferece aos bons o bom e pródigo pagamento, e aos maus e injustos reserva sua cólera e ira, guerra e peste, dores e lágrimas.
Homens, por que, inutilmente envaidecidos, vos desenraizais? Envergonhai-vos de elevar gatos e insetos à condição de deuses! Não é loucura e raiva que tira o bom- senso, existirem deuses que roubam os pratos e carregam as panelas?
Ao invés de morar no céu dourado e florido, é visto comido pelo caruncho e coberto de espessas teias de aranha.
Insensatos, adorais serpentes, gatos e cães, e cultuais aves, répteis e feras do campo, estátuas de madeira, imagens manufaturadas e montes de pedras nos cami- nhos, quejá é vergonhoso apenas nomear. Esses são deuses enganosos dos homens sem discernimento, de cuja boca veneno mortal se derrama; aquele Deus, porém, que tem a vida e a luz imortal e perene derrama sobre os homens prazer mais doce do que o mel... Somente diante dele deve-se inclinar a fronte, entrando nas sendas dos séculos piedosos.
Tendo abandonado tudo isso, essa taça cheia de justiça, vinho puro, abundante, plena sem mistura algu- ma, a arrastastes em vossas loucuras, todos loucos de espírito, e mesmo assim não quereis despertar, reaver mente sensata e conhecer a Deus rei, aquele que tudo vê. Por isso, virá sobre vós uma chama de fogo abrasador e sereis queimados em seu ardor para sempre, o dia todo, envergonhados de vossos ídolos enganosos e inúteis; mas os que honram ao Deus verdadeiro e perene, herdarão vida para sempre, habitando junto ao jardim florido do paraíso e comendo o doce pão do céu estrelado."
É evidente que isso é verdadeiro, proveitoso, justo e digno de ser amado por todos os homens; também é evidente que aqueles que praticam o mal serão necessa. riamente castigados, conforme mereçam as suas ações.
Concordância com textos poéticos
37. Alguns poetas chegaram a falar a mesma coisa, como que emitindo oráculos contra si mesmos e testemunhando contra aqueles que fazem o mal, dizendo que serão casti- gados. Ésquilo diz: "Aquele que faz, também deve sofrer". Píndaro diz também: "Pois aquele que fez algo convém que também sofra." Igualmente Eurípides: "Suporta o que sofrer, pois fazendo gozaste. É uma lei maltratar o inimigo se o pegas". Ele mesmo diz novamente: "Causar danos aos inimigos: creio que isso é ser homem." De modo semelhan- te Arquíloco: "Eu conheço uma grande coisa: àquele que me fez algum mal, responder com um mal maior."
Sobre o fato de que Deus tudo vê e nada lhe é oculto, mas que, sendo misericordioso, espera pelo momento de julgar, Dioniso diz: "O olho da Justiça olha com rosto tranqüilo, mas vê tudo ao mesmo tempo."
Que deverá haver julgamento e que os malvados se tornarão repentinamente presa dos males, Ésquilo também o deu a entender, dizendo: "A desgraça chega até os mortais com pés velozes, conforme o pecado de quem ultrapassa o lícito. Vês ajustiça silenciosa e invisível para aquele que dorme, que caminha, que se assenta. Cedo ou tarde, ela te alcança na encruzilhada. Não esconde a noite para aquele que realiza o mal. Ao fazer alguma coisa de mal, pensa que alguém a está vendo." E Simônides tam- bém diz: "Não existe desgraça inesperada para os ho- mens; em pouco tempo Deus transtorna tudo". De novo Eurípides: "Nunca se deve considerar como coisa sólida a fortuna do homem mau, nem a felicidade excessiva, nem a raça dos injustos, pois o tempo, que não nasceu de ninguém, manifesta as maldades dos homens." Ainda Eurípides: "A divindade não é sem inteligência, mas pode distinguir os juramentos falsos e os que a eles se obrigam." E Sófocles: "Se agiste mal, também deves sofrer o mal."
Que Deus examinará todo juramento injusto e qualquer outro pecado, os poetas quase o disseram, assim como falaram, querendo ou sem querer, coisas concordes com os profetas sobre a conflagração do mundo, apesar de serem muito posteriores a estes e de terem tirado tudo isso da lei e dos profetas.
38. Não importa se foram anteriores ou posteriores. (2) O importante é que falaram de acordo com os profetas. Sobre a conflagração, por exemplo, o profeta Malaquias predisse: "Eis que chega o dia do Senhor como fornalha ardente e abrasará todos os ímpios." E Isaías: "A ira do Senhor virá como granizo que cai com violência e como água no vale que arrasta tudo."
Portanto, a Sibila, os outros profetas, e até os filóso- fos e poetas falaram claramente sobre a justiça, sobre o julgamento e o castigo. Falaram também sobre a providência, que Deus cuida de nós não apenas enquanto vivemos, mas também depois de mortos, embora o disses- sem contra a vontade, convencidos que foram pela própria verdade. Entre os profetas, Salomão disse sobre os mortos: "A carne será curada e os ossos serão cuidados." E o próprio Davi: "Meus ossos humilhados se regozijarão." De acordo com eles, disse Tímocles: "Para os mortos, a misericórdia é o Deus benigno."
Os escritores que falaram sobre a multidão dos deu- ses acabaram por admitir a unicidade ou monarquia de Deus; aqueles que afirmaram a não-providência, depois falaram sobre a providência; aqueles que negaram o julgamento, mais tarde o afirmaram; aqueles que nega- ram a sensação após à morte, depois a confessaram. Homero, por exemplo, diz em uma passagem: "A alma, como um sonho, alçou vôo e partiu." Em outra passagem: "A alma, saindo dos membros, voou para o Hades." Ainda: "Enterra-me quanto antes, pois quero atravessar as portas do Hades."
Creio que sabes perfeitamente como falaram os outros autores que leste. Aquele que busca a sabedoria de Deus e que lhe agrada pela fé, justiça e boas obras entenderá tudo isso. Com efeito, um dos profetas dos quais falamos, chamado Oséias, diz o seguinte: "Quem é sábio e conhecerá estas coisas, inteligente e as entenderá? Porque os caminhos do Senhor são retos e os justos entrarão neles, mas os ímpios cairão de fraqueza nesses caminhos."
É preciso que quem ama o saber, aprenda. Portanto, procura ter conversas mais freqüentes, para que, ouvindo de viva voz, aprendas com exatidão a verdade.
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(1) Deve-se observar que nem todos os profetas eram rudes, ignorantes ou pastores. Só Amós era passtor. Entre eles encontram-se homens cultos, letra- dos, de corte como Isaías, Ezequiel, por exemplo.
(2) Antes, cap 12, Teófilo se esforçara em mostrar a anterioridade dos autores bíblicos sobre os pagãos. Agora diz que isso não tem importância, mas deve-se procurar neles a confluência de doutrina.
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui