Eu nasci em uma família de "católicos não praticantes", como tem aos montes nesse Brasil. Tive uma infância muito feliz, era muito esperta, brincalhona, etc. Mas apesar dos meus pais não serem praticantes, minhas avós o eram. E minha avó materna sempre ia buscar a gente para ir à missa, o que eu achava muito chato. Eu era avessa à igreja, etc, e teria tudo para ter a mesma opinião e a mesma vida dos meus irmãos e da minha mãe. Mas aprouve a Deus que não fosse assim.
Aos meus 12, 13 anos, vi minha avó materna ter um derrame cerebral (AVC) e ela foi levada para o HASP (hospital adventista), onde tinha convênio. De lá a encaminharam a uma clínica que eles têm de tratamentos naturais em São Roque. Para ficar mais perto, minha mãe comprou um sítio do lado da clínica.
Não demorou e tive contato com eles, com suas doutrinas, e como eu praticamente não tive formação católica, não foi difícil me envolver com eles. Em pouco tempo eu estava batizada para desgosto da Dinda (uma tia que era minha "avó" de criação, pois meu pai perdeu a mãe ainda menino e ela era ainda minha madrinha de batismo!). Quando eu fui para lá, o fiz só lendo as literaturas deles, jamais me mostraram os dois lados da história. E para mim, a Igreja Católica era a Babilônia, a mulher de Apocalipse 17, o Papa era o Anticristo, enfim. E não tinha discussão, eu não queria saber de provas "adulteradas" pela Igreja Católica! Como o Scott Hahn, eu era anticatólica e antipapista no osso! Não admitia o contrário.
Com o passar do tempo, a igreja adventista se tornou inviável teologicamente (eu aprendi a pensar e pesquisar... onde? num seminário deles), eu vi as inúmeras contradições no ensino adventista e fui para a IPB. Lá eu fiz muitos amigos, assim como no meio adventista. Aliás, isso é um ponto forte no meio protestante: a comunhão, a koinonia é muito valorizada.
Lá aprendi (ao contrário de no meio adventista) a ter um raciocínio mais crítico e mais lógico, aprendi a basear o que cria em estudos e não porque alguém disse ser assim. Eu tomei gosto pela teologia, comecei a estudar, estudar. Mas não abria mão do meu anticatolicismo! De jeito nenhum! E quando vinham com essa de ecumenismo, eu "esfregava" na cara do sujeito as confissões reformadas, que mostram o papa como anticristo, e a conversa acabava aí...
Um dia, num dos muitos debates na rede, conheci católicos, mas "católicos mesmo"! Que não se dobravam aos argumentos que eu colocava e ainda me desafiavam com questões e mais questões. Eu participava ativamente de uma lista (Cristãos Reformados) de discussão, da qual a Sonia Miranda, da mesma forma ex-protestante, também participou. Era uma lista de orientação calvinista E lá apareceu um rapaz, membro do VS (na época eu não sabia) que eu conhecia de outras listas, o Rondinelly. O avisei para ir com calma, mas não funcionou. Entraram em um debate cerrado e feio com um dos pastores que havia lá. Ele e outros católicos que havia foram banidos, etc
Mas dali, começou um papo em off, em pvt. Com o Rondinelly e com um outro amigo também, o Rafael Perszel. Os dois me mostrando que não era assim, etc. E um dia, um deles questionou-me se a minha posição doutrinária sobre a Ceia (Eucaristia) era "imexível". Disse que não, mas queria bases históricas, escritos cristãos dos 2 primeiros séculos. Afinal eu não via como ser diferente. Estava certa que a História me daria razão. Me mandou. Eu li e fiquei meio sem graça. O que responder? Precisava estudar mais o assunto. E aí começou. Foi muito tempo estudando.
Com a cabeça "a milhão", falei com um pastor amigo meu e ele me desencorajou a continuar a pesquisar, me falou um monte de coisas. E eu pensei que ele estaria certo. Mas e como eu responderia a eles? Não, tinha que estudar mais mesmo e provar o "erro" deles. E aí quando comecei a me aprofundar, cada vez mais eu via não ter opção.
Aí, na moita, comecei a ir à Igreja Católica aqui perto. Eu não sabia de nada, só queria descobrir mais. A coisa começou a apertar. Os estudos seguiam e vi que não conseguia mais sustentar o Sola Scriptura, afinal, como me foi mostrado, os cristãos primitivos não tinham acesso à Escritura. A imprensa aparece só mais de 1000 anos depois. E aí?
Eu já tinha dois pontos cruciais nos quais era impossível contra-argumentar: Escritura/Tradição e Eucaristia. Fui a uma igreja procurar um padre para pedir ajuda e ao expor a situação, o padre (um frade Carmelita Descalço) diz assim para mim: "filha, você não precisa ficar em conflito, sendo boa presbiteriana você estará servindo a Deus e agradando a Ele". Eu me segurei, mas quase grito. E falei: "Ô padre, você não vê que estou pirando com tanto conflito?". E ele me manda rezar mais. É o que eu faço.
Um dia cai na minha mão a vida de Sta. Teresinha do Menino Jesus. Fico fascinada com a fé daquela menina e me pergunto o que tem na missa de tão fascinante, que uma menina de 10, 12 anos via e eu não? Até que um dia, um rapaz de Campos me fala da missa tridentina. Fiquei curiosa, afinal, para mim isso era peça de museu. Minha mãe falava que era assim quando ela era garota e tal. A minha curiosidade foi maior e fui até lá. Peguei um ônibus e fui a Campos – RJ.
Ali eu conheci Dom Fernando Rifan, Padre José Gualandi, só pra começo. Depois foram mais pessoas. Eu fui conhecer e ver o que era afinal "a missa de costas" que a mamãe falava. Chegando lá, esse rapaz que conheci na internet também (santa internet, rsrs), me apresenta a Dom Rifan. Fui à missa no meio da semana lá. Missa rezada, comum. Entendi quase nada. Mas tinha um "quê" de sobrenatural ali que eu não sabia explicar. Eu assisti pela primeira vez à uma missa tridentina e fiquei me perguntando, que raios tinha ali, que eu não tinha entendido uma palavra, mas estava fascinada, arrebatada? Quando soube que Sta. Teresinha quando viva, ia nessa missa, eu entendi o seu fascínio pela Missa. Algo sobrenatural, o misterium fidei.
Mas aqui em Sampa não tinha. Eu ficava então ora indo na missa aqui do lado, ora indo esporadicamente a Campos para respirar de novo aquele ar solene da missa tridentina. Pedimos a Dom Fernando que mandasse um padre para cá, mas não era algo simples.
Por outro lado, eu continuava a ir à igreja protestante ao mesmo tempo. Não é simples desligar-se de tantos laços.
E afortunadamente, tempos mais tarde, os padres de Campos fizeram aqui também uma capela. E eu ia lá. Mas me faltava a koinonia, a comunhão, a vida fraterna lá. E conheci em um domingo daqueles um rapaz, amigo meu até hoje, que ia (vai até hoje) à FSSPX. Oras, eu via eles serem tão difamados, quis ver se eles eram os monstros que diziam que eram. Eu fui e conheci pessoas maravilhosas.
Zelosos pela missa, etc, mas a meu ver tinham uns defeitos, pois eram parados no tempo, apesar do seu zelo litúrgico. E também comecei a me sentir sufocada intelectualmente e artisticamente, já que qualquer coisa era errada, e tal. Por ex., eu vi uma Sta. Teresinha muito linda, estilizada. Ah, não pode, é moderno, não pode. Um dia perguntei por que eles usavam terno, pois é moda moderna, o homem usa isso só desde a Revolução Francesa.
E além disso, me incomodava muito as saudades que tinha de todos meus amigos que tinha deixado. Não desabafei, não procurei alguém, nada! Simplesmente um dia fui de novo na igreja presbiteriana e quando isso aconteceu, eu não tive coragem de ir falar e me abrir com o padre. Tive vergonha! Pode? Passou um ano, mas não tive paz, até que retomei, de fato, o caminho de casa. Eu fui procurar a Igreja de novo, mas desta vez com a consciência que não podia me fechar em uma redoma e não falar com ninguém, que senão eu cairia no mesmo erro novamente.
Falei com a Sônia, abri o jogo com ela e comecei a ver pontos que tinham ficado mal resolvidos. Fui na igreja mas não ia comungar. Queria dar um tempo até que tivesse "tudo nos trinques", tinindo. Depois de um tempo estudando e orando, me dei conta que se eu fosse esperar o tempo necessário até não haver mais nada a se questionar, eu levaria anos e anos. E se eu não vivesse esses anos todos? Daí eu resolvi me abrir com o pessoal no Orkut. Qual não foi minha surpresa: ganhei uma pá de amigos, de pessoas para quem eu podia me abrir e com isso ganhei confiança. Fui me confessar e voltei a ir à missa e comungar. Agora tenho que me preparar, estudar, para poder me crismar, que seria a coroação do meu retorno à Igreja.
E desde então, Deus tem me presenteado. Eu tomei contato com a Obra também, e vi ali um meio maravilhoso de formação e crescimento espiritual. Uma moça de lá se dispôs a me ajudar e tenho tido com ela aulas de doutrina. Há também recolhimentos mensais muito bons. Além disso, me envolvi de novo na capela Sta Luzia (dos padres de Campos, ligados a Dom Rifan) e tenho gratas surpresas: haverá lá um curso de crisma (do qual participarei certamente, pois faço questão de ser crismada no rito tridentino) e a providência Divina atendeu as nossas preces, já que Dom Rifan me fala que teremos, ou no ano que vem, ou se possível, esse ano já, um padre em definitivo em SP.
Esse foi o meu caminho (não sem pedras) de retorno à Roma.
Juliana Fragetti Ribeiro Lima, 36 anos, autônoma, paulistana (São Paulo – SP)
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui