CAPÍTULO IV
OS IMENSOS HORIZONTES DA MISSÃO AD GENTES
31. O Senhor Jesus enviou os Seus Apóstolos, a todas as pessoas, a todos os povos e a todos os lugares da terra. Nos Apóstolos, a Igreja recebeu uma missão universal, sem limites, referindo-se à salvação em toda a sua integridade, segundo aquela plenitude de vida que Cristo veio trazer (cf. Jo 10, 10): ela foi « enviada para manifestar e comunicar a caridade de Deus a todos os homens e povos ».49
Esta missão é única, sendo a mesma a sua origem e fim; mas na sua dinamica de realização, há diversas funções e actividades. Antes de tudo, está a acção missionária, denominada « missão ad gentes » pelo Decreto conciliar: trata-se de uma actividade primária e essencial da Igreja, jamais concluída. Com efeito, a Igreja « não pode eximir-se da missão permanente de levar o Evangelho a quantos ? e são milhões e milhões de homens e mulheres ? ainda não conhecem Cristo Redentor do homem. Esta é a tarefa mais especificamente missionária que Jesus confiou e continua quotidianamente a confiar à Sua Igreja ».50
Um quadro religioso complexo e em mutação
32. Encontramo-nos hoje diante de uma situação religiosa bastante diversificada e mutável: os povos estão em movimento; certas realidades sociais e religiosas, que, tempos atrás, eram claras e definidas, hoje evoluem em situações complexas. Basta pensar em fenómenos tais como o urbanismo, as migrações em massa, a movimentação de refugiados, a descristianização de países com antiga tradição cristã, a influência crescente do Evangelho e dos seus valores em países de elevada maioria não cristã, o pulular de messianismos e de seitas religiosas. É uma alteração tal de situações religiosas e sociais, que se torna difícil aplicar em concreto certas distinções e categorias eclesiais, a que estávamos habituados. Já antes do Concílio, era comum atribuir, a algumas metrópoles ou regiões cristãs, a classificação de « terra de missão », e passados estes anos não se pode dizer que a situação melhorou.
Por outro lado, a obra missionária produziu abundantes frutos, em todas as partes do mundo, como o demonstram as Igrejas implantadas de uma forma tão sólida e amadurecida, que já é capaz de prover às necessidades das suas comunidades, a ponto de enviarem até pessoas a evangelizar outras Igrejas e territórios. Daí o contraste com áreas de antiga tradição cristã, carecidas de serem re-evangelizadas. Alguns perguntam-se inclusive se ainda é o caso de falar em actividade missionária específica, ou dos seus ambitos específicos ou se não deveríamos antes admitir que existe uma única situação missionária, havendo apenas uma única missão, igual em todo o lugar. A dificuldade é real, e a prova de quão difícil é interpretar esta realidade complexa e mutável em ordem ao mandato de evangelizar está patente no « vocabulário missionário »: por exemplo, há uma certa hesitação em usar os termos « missões » e « missionários », porque as consideram superadas por conterem resquícios históricos negativos; prefere-se usar o substantivo « missão » no singular, e o adjectivo « missionário » para qualificar toda a actividade da Igreja.
Estas dificuldades denotam uma mudança real, que contém aspectos positivos. A integração das « missões » na missão da Igreja, o confluir da missionologia para a eclesiologia, e a inserção de ambas no plano trinitário da salvação, deu um novo ar à própria actividade missionária, não concebida já como uma tarefa à margem da Igreja, mas antes inserida no amago da sua vida, como compromisso fundamental de todo o Povo de Deus. Torna-se necessário, porém, precaver-se contra o risco de nivelar situações muito diferentes, e reduzir ou até fazer desaparecer a missão e os missionários ad gentes. A afirmação de que toda a Igreja é missionária não exclui a existência de uma específica missão ad gentes, assim como dizer que todos os católicos devem ser missionários não impede ? pelo contrário, exige-o ? que haja missionários ad gentes, dedicados por vocação específica à missão por toda a vida.
A missão ad gentes conserva o seu valor
33. As diferenças de actividade, no âmbito da única missão da Igreja, nascem não de motivações intrínsecas à própria missão, mas das diversas circunstancias onde ela se exerce.51 Olhando o mundo de hoje, do ponto de vista da evangelização, podemos distinguir três situações distintas.
Antes de mais, temos aquela a que se dirige a actividade missionária da Igreja: povos, grupos humanos, contextos socio-culturais onde Cristo e o Seu Evangelho não é conhecido, onde faltam comunidades cristãs suficientemente amadurecidas para poderem encarnar a fé no próprio ambiente e anunciá-la a outros grupos. Esta é propriamente a missão ad gentes.52
Aparecem depois as comunidades cristãs que possuem sólidas e adequadas estruturas eclesiais, são fermento de fé e de vida, irradiando o testemunho do Evangelho no seu ambiente, e sentindo o compromisso da missão universal. Nelas se desenvolve a actividade ou cuidado pastoral da Igreja.
Finalmente, existe a situação intermédia, especialmente nos países de antiga tradição cristã, mas, por vezes, também nas Igrejas mais jovens, onde grupos inteiros de baptizados perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e do Seu Evangelho. Neste caso, torna-se necessária uma « nova evangelização », ou « re-evangelização ».
34. A actividade missionária específica, ou missão ad gentes, tem como destinatários « os povos ou grupos que ainda não crêem em Cristo », « aqueles que estão longe de Cristo », entre os quais a Igreja « não está ainda radicada »,53 e cuja cultura ainda não foi influenciada pelo Evangelho.54 Distingue-se das outras actividades eclesiais por se dirigir a grupos e ambientes não cristãos, caracterizados pela ausência ou insuficiência ao anúncio evang*lico e da presença eclesial. Vem a ser, portanto, a obra do anúncio de Cristo e do seu Evangelho, da edificação da Igreja local, da promoção dos valores do Reino. A peculiariedade da missão ad gentes deriva do facto de se orientar para os « não cristãos ». É preciso evitar, por isso, que esta « tarefa especificamente missionária, que Jesus confiou e continua quotidianamente a confiar à Sua Igreja »,55 se torne numa realidade diluída na missão global de todo o Povo de Deus, ficando desse modo descurada ou esquecida.
De resto, os confins entre o cuidado pastoral dos fieis, a nova evangelização e a actividade missionária específica não são facilmente identificáveis, e não se deve pensar em criar entre esses ambitos barreiras ou compartimentos estanques. Não se pode, no entanto, perder a tensão para o anúncio e para a fundação de novas Igrejas entre povos ou grupos humanos, onde elas ainda não existem, porque esta é a tarefa primária da Igreja, que é enviada a todos os povos, até aos confins da terra. Sem a missão ad gentes, a propria dimensão missionária da Igreja ficaria privada do seu significado fundamental e do seu exemplo de actuação.
Registe-se também uma real e crescente interdependência entre as diversas actividades salvíficas da Igreja: cada uma influi sobre a outra, estimula e ajuda-a. O dinamismo missionário permite uma troca de valores entre as Igrejas, e projecta para o mundo exterior influência positiva em todos os sentidos. As Igrejas de antiga tradição cristã, por exemplo, preocupadas com a dramática tarefa da nova evangelização, estão mais conscientes de que não podem ser missionárias dos não cristãos de outros países e continentes, se não se preocuparem seriamente comos não cristãos da própria casa: a actividade missionária ad intra é sinal de autenticidade e de estímulo para realizar a outra ad extra, e vice-versa.
A todos os povos, apesar das dificuldades
35. A missão ad gentes tem à sua frente uma tarefa imensa, que está muito longe de se ver concluída. Pelo contrário, quer desde o ponto de vista numérico devido ao aumento demográfico, quer do ponto de vista socio-cultural pelo despontar de novas relações e pela variação das situações, aquela missão parece destinada a possuir horizontes ainda mais vastos. A tarefa de anunciar Jesus Cristo a todos os povos apresenta-se enorme e desproporcionada relativamente às forças humanas da Igreja.
As dificuldades parecem insuperáveis e poderiam fazer desanimar, se se tratasse de uma obra puramente humana. Em alguns países, está proibida a entrada de missionários; noutros, é proibida tanto a evangelização, como a conversão e até mesmo o culto cristão. Há outros lugares, onde os obstáculos são de natureza cultural: a transmissão da mensagem evangélica mostra-se irrelevante ou incompreensível, e a conversão é considerada como abandono do próprio povo e cultura.
36. Não faltam também, ao Povo de Deus, as dificuldades internas, que são as mais dolorosas.
Já o meu predecessor Paulo VI indicava, em primeiro lugar, « a falta de fervor, tanto mais grave por nascer de dentro; manifesta-se no cansaço, na desilusão, no acomodamento e no desinteresse, e sobretudo na falta de alegria e de esperança ».56 Grandes obstáculos à acção missionária da Igreja são também as divisões, passadas e presentes, entre os cristãos,57 a descristianização em países cristãos, a diminuição das vocações para o apostolado, o contra-testemunho de fiéis e de comunidades cristãs que não reproduzem em suas vidas o modelo de Cristo. Mas uma das razões mais graves para o escasso interesse pelo empenhamento missionário é a mentalidade do indiferentismo, hoje muito difundida, infelizmente também entre os cristãos, frequentemente radicada em concepções teológicas incorrectas, e geradora de um relativismo religioso, que leva a pensar que « tanto vale uma religião como outra ». Podemos, por último, referir ainda ? como dizia o mesmo Pontífice ? a existência de « álibis que podem afastar da evangelização; os mais insidiosos são certamente aqueles para os quais se presume encontrar apoio neste ou naquele ensinamento do Concílio ».58
A este respeito, recomendo vivamente aos teólogos e aos profissionais da imprensa cristã que intensifiquem o seu serviço em favor da missão, para encontrarem o sentido profundo do seu importante trabalho, no verdadeiro caminho do sentire cum ecclesia.
As dificuldades internas ou externas não nos devem deixar pessimistas e inactivos. O que deve contar ? aqui, como nos demais sectores da vida cristã ? é a confiança que provém da fé, ou seja, a certeza de não sermos nós os protagonistas da missão, mas Jesus Cristo e o Seu Espírito. Somos apenas colaboradores e, depois de termos feito tudo o que estava ao nosso alcance, devemos dizer: « somos servos inúteis, só fizemos o que devíamos fazer » (Lc 17, 10).
Âmbitos da missão ad gentes
37. A missão ad gentes, devido ao mandato universal de Cristo, não tem fronteiras. Apesar disso, é possível identificar vários ambitos, em que ela se concretiza, para ficarmos com um quadro real da situação.
a) Ambitos territoriais. Normalmente a actividade missionária foi definida em relação a territórios concretos. O Concílio Vaticano II reconheceu a dimensão territorial da missão ad gentes,59 que ainda hoje permanece válida para determinar responsabilidades, competências e limites geográficos de acção. É certo que a uma missão uníversal deve corresponder uma perspectiva universal: a Igreja, com efeito, não pode aceitar que fronteiras geográficas e impedimentos políticos sejam obstáculos à sua presença missionária. Mas é verdade também que a actividade missionária ad gentes, sendo distinta do cui dado pastoral dos fiéis e da nova evangelização dos não praticantes, se exerce em territórios e grupos humanos bem delimitados.
O multiplicar-se das Igrejas jovens, nos últimos tempos, não deve iludir-nos. Nos territórios confiados a estas Igrejas, especialmente na Ásia, mas também na África, América Latina e na Oceania, existem várias zonas não evangelizadas: povos inteiros e áreas culturais de grande importancia, em muitas nações, ainda não foram alcançados pelo anúncio evangélico nem pela presença da Igreja local.60 Inclusive em países tradicionalmente cristãos, há regiões confiadas ao regime especial da missão ad gentes, com grupos e áreas não evangelizadas. Impõe-se, pois, nestes países, não apenas uma nova evangelização, mas, em certos casos, a primeira evangelização.61
As situações, porém, não são homogéneas. Mesmo reconhecendo que as afirmações sobre a responsabilidade missionária da Igreja não são dignas de crédito se não forem autenticadas por um sério empenho numa nuova evangelização nos Países de antiga tradição cristã, não parece justo equiparar a situação de um povo que nunca ouviu falar em Jesus Cristo, com a de um outro que o conheceu e aceitou, mas depois o rejeitou, embora continuando a viver numa cultura que absorveu em grande parte os princípios e valores evangélicos. Em relação à fé, são duas posições substancialmente diferentes.
Portanto, o critério geográfico, mesmo se provisório e não muito preciso, serve ainda para indicar as fronteiras para as quais se deve dirigir a actividade missionária. Existem Países e áreas geográficas e culturais onde faltam comunidades cristãs autóctones; noutros lugares, estas são tão pequenas, que não é possível reconhecer nelas um sinal claro da presença cristã; ou então, a estas comunidades, falta o dinamismo para evangelizar a própria sociedade, ou pertencem a populações minoritárias, não inseridas na cultura dominante. Em particular no Continente asiático, para onde deveria orientar-se principalmente a missão ad gentes, os cristãos são uma pequena minoria, apesar de às vezes se verificarem movimentos significativos de conversão e testemunhos exemplares de presença cristã.
b) Mundos e fenómenos sociais novos. As rápidas e profundas tranformações que caracterizam o mundo de hoje, particularmente no Hemisfério Sul, influem decididamente no quadro missionário: onde antes as situações humanas e sociais eram estáveis, hoje tudo está em movimentação. Pensemos, por exemplo, na urbanização e no massiço aumento das cidades, especialmente onde é mais forte a pressão demográfica. Em muitos Países, mais de metade da população vive em algumas megalópoles, onde os problemas do homem frequentemente pioram, entre outras razões, por causa do anonimato em que ficam imersas as multidões.
Nos tempos modernos, a actividade missionária desenvolveu-se sobretudo em regiões isoladas, longe dos centros civilizados e inacessíveis por dificuldades de comunicação, de língua e de clima. Hoje a imagem da missão ad gentes está talvez a mudar: lugares privilegiados deveriam ser as grandes cidades, onde surgem novos costumes e modelos de vida, novas formas de cultura e comunicação que depois influem na população. É verdade que a « escolha dos menos afortunados » deve levar a não descuidar os grupos humanos mais isolados e marginalizados, mas também é verdade que não é possível evangelizar as pessoas ou pequenos grupos, descuidando os centros onde nasce ? pode-se dizer ? uma nova humanidade, com novos modelos de desenvolvimento. O futuro das jovens Nações está-se a formar nas cidades.
Falando de futuro, não é possível esquecer os jovens que, em numerosos Países, constituem mais de metade da população. Como proceder para que a mensagem de Cristo atinja esses jovens não cristãos, que são o futuro de inteiros Continentes? Evidentemente já não bastam os meios tradicionais da pastoral: são necessárias associações e instituições, grupos e centros específicos, iniciativas culturais e sociais para os jovens. Eis um ambito onde os modernos Movimentos eclesiais têm largo campo de acção.
Entre as grandes transformações do mundo contemporâneo, as migrações produziram um novo fenómeno: os não cristãos chegam em grande número aos Países de antiga tradição cristã, criando novas ocasiões para contactos e intercambios culturais, esperando da Igreja o acolhimento, o diálogo, a ajuda, numa palavra, a fraternidade. De entre os emigrantes, os refugiados ocupam um lugar especial e merecem a máxima atenção. São já muitos milhões no mundo e não cessam de aumentar: fogem da opressão política e da miséria desumana, da fome e da seca que assume dimensões catastróficas. A Igreja deve acolhê-los no âmbito da sua solicitude apostólica.
Por fim, lembramos as situações de pobreza, frequentemente intoleráveis, que se criam em bastantes Países, e estão muitas vezes na origem de migrações em massa. Estas situações desumanas desafiam a comunidade cristã: o anúncio de Cristo e do Reino de Deus deve tornar-se instrumento de redenção humana para estas populações.
c) Áreas culturais, ou modernos areópagos. Paulo, depois de ter pregado em numerosos lugares, chega a Atenas e vai ao areópago, onde anuncia o Evangelho, usando uma linguagem adaptada e compreensível para aquele ambiente (Cf. At 17, 22-31). O areópago representava, então, o centro da cultura do douto povo ateniense, e hoje pode ser tomado como símbolo dos novos ambientes onde o Evangelho deve ser proclamado.
O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações, que está a unificar a humanidade, transformando-a ? como se costuma dizer ? na « aldeia global ». Os meios de comunicação social alcançaram tamanha importancia que são para muitos o principal instrumento de informação e formação, de guia e inspiração dos comportamentos individuais, familiares e sociais. Principalmente as novas gerações crescem num mundo condicionado pelos mass-média. Talvez se tenha descuidado um pouco este areópago: deu-se preferência a outros instrumentos para o anúncio evangélico e para a formação, enquanto os mass-média foram deixados à iniciativa de particulares ou de pequenos grupos, entrando apenas secundariamente na programação pastoral. O uso dos mass-média, no entanto, não tem somente a finalidade de multiplicar o anúncio do Evangelho: trata-se de um facto muito mais profundo porque a própria evangelização da cultura moderna depende, em grande parte, da sua influência. Não é suficiente, portanto, usá-los para difundir a mensagem cristã e o Magistério da Igreja, mas é necessário integrar a mensagem nesta « nova cultura », criada pelas modernas comunicações. É um problema complexo, pois esta cultura nasce, menos dos conteúdos do que do próprio facto de existirem novos modos de comunicar com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas O meu predecessor Paulo VI dizia que « a ruptura entre o Evangelho e a cultura é, sem dúvida, o drama da nossa época »;62 e 0 campo da comunicação moderna confirma plenamente este juizo.
Existem muitos outros areópagos do mundo moderno, para os quais se deve orientar a actividade missionária dos povos. Por exemplo, o empenhamento pela paz, o desenvolvimento e a libertação dos povos, sobretudo o das minorias; a promoção da mulher e da criança; a protecção da natureza, são outros tantos sectores a serem iluminados pela luz do Evangelho.
É preciso lembrar além disso, o vastíssimo areópago da cultura, da pesquisa científica, das relações internacionais que favorecem o diálogo e levam a novos projectos de vida. Convém estar atentos e empenhados nestas exigências modernas. Os homens sentem-se como que a navegar no mesmo mar tempestuoso da vida, chamados a uma unidade e solidariedade cada vez maior: as soluções para os problemas existenciais são estudadas, discutidas e experimentadas com o concurso de todos. Eis porque os organismos e as convenções internacionais se apresentam cada vez mais importantes, em muitos sectores da vida humana, desde a cultura à política, da economia à pesquisa Os cristãos, que vivem e trabalham nesta dimensão internacional, tenham sempre presente o seu dever de testemunhar o Evangelho.
38. A época em que vivemos é, ao mesmo tempo, dramática e fascinante. Se por um lado, parece que os homens vão no encalço da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo materialista, por outro lado, manifesta-se a angustiante procura de sentido, a necessidade de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentração e de oração. Não só nas culturas densas de religiosidade, mas também nas sociedades secularizadas, procura-se a dimensão espiritual da vida como antídoto à desumanização. Este fenómeno, denominado « ressurgimento religioso », não está isento de ambiguidade, mas traz com ele também um convite. A Igreja tem em Cristo, que se proclamou « o Caminho, a Verdade e a Vida » (Jo 14, 6), um imenso património espiritual para oferecer à humanidade. É o caminho cristão que leva ao encontro de Deus, à oração, à ascese, à descoberta do sentido da vida. Também este é um areópago a evangelizar.
Fidelidade a Cristo promoção da liberdade do homem
39. Todas as formas de actividade missionária se caracterizam pela consciência de promover a liberdade do homem, anunciando-lhe Jesus Cristo. A Igreja deve ser fiel a Cristo, já que é o Seu Corpo e continua a Sua missão. É necessário que ela « caminhe pela mesma via de Cristo, via de pobreza, obediência, serviço e imolação própria até à morte, da qual Ele saiu vitorioso pela sua ressurreição ».63 A Igreja, portanto, tem o dever de fazer todo o possível para cumprir a sua missão no mundo e alcançar todos os povos; e tem também o direito, que lhe foi dado por Deus, de levar a termo o seu plano. A liberdade religiosa, por vezes ainda limitada e cerceada, é a premissa e a garantia de todas as liberdades que asseguram o bem comum das pessoas e dos povos. É de se auspiciar que a autêntica liberdade religiosa seja concedida a todos, em qualquer lugar, e para isso a Igreja se empenha a fim de que tal aconteça nos vários Países, especialmente nos de maioria católica, onde ela alcançou uma maior influência. Não se trata porém, de um problema de maioria ou de minoria, mas de um direito inalienável de toda a pessoa humana.
Por outro lado, a Igreja dirige-se ao homem no pleno respeito da sua liberdade: 64 a missão não restringe a liberdade, pelo contrário, favorece-a. A Igreja propõe, não impõe nada: respeita as pessoas e as culturas, detendo-se diante do sacrário da consciência Aos que se opõem com os mais diversos pretextos à actividade missionária, a Igreja repete: Abrí as portas a Cristo!
Dirijo-me a todas as Igrejas particulares, antigas ou de formação recente. O mundo vai-se unificando cada vez mais, o espírito evangélico deve levar à supressão de barreiras culturais, nacionalistas, evitando qualquer isolamento. Já Bento XV admoestava os missionários do seu tempo a que nunca « esquecessem a dignidade pessoal para não pensarem mais na pátria terrena que na do céu »,65 A mesma recomendação vale hoje para as Igrejas particulares: abrí as portas aos missionários, pois « toda a Igreja particular que se separasse voluntariamente da Igreja universal perderia a sua referência ao desígnio de Deus e empobrecer-se-ia na sua dimensão eclesial »,66
Dirigir a atenção para Sul e Oriente
40. A actividade missionária ainda hoje representa o máximo desafio para a Igreja. À medida que se aproxima o fim do segundo Milénio da Redenção, é cada vez mais evidente que os povos que ainda não receberam o primeiro anúncio de Cristo constituem a maioria da humanidade. Certamente o balanço da actividade missionária dos tempos modernos é positivo: a Igreja está estabelecida em todos os continentes, e a maioria dos fiéis e das Igrejas particulares já não está na velha Europa, mas nos Continentes que os missionários abriram à fé.
Permanece, porém, o facto de que « os confins da terra » para onde o Evangelho deve ser levado, alargam-se cada vez mais e a sentença de Tertuliano, segundo a qual o Evangelho foi anunciado por toda a terra e a todos os povos,67 está ainda longe de se concretizar: a missão ad gentes ainda está no começo. Novos povos aparecem no cenário mundial e também eles têm o direito de receber o anúncio da salvação. O crescimento demográfico no sul e no oriente, em Países não cristãos, faz aumentar continuamente o número das pessoas que ignoram a redenção de Cristo.
É necessário, portanto, dirigir a atenção missionária para aquelas áreas geográficas e para aqueles ambientes culturais que permaneceram à margem do influxo evangélico. Todos os crentes em Cristo devem sentir, como parte integrante da sua fé, a solicitude apostólica de a transmitir aos outros, pela alegria e luz que ela gera. Essa solicitude deve-se transformar, por assim dizer, em fome e sede de dar a conhecer o Senhor, quando estendemos o olhar para os horizontes imensos do mundo não-cristão.
CAPÍTULO V
OS CAMINHOS DA MISSÃO
41. « A actividade missionária não é mais nem menos do que a manifestação ou epifania, e a realização do desígnio de Deus no mundo e na história: pela missão, Deus realiza claramente a história de salvação».68 Que caminhos segue a Igreja para conseguir este resultado?
A missão é uma realidade unitária, mas complexa; e explica-se de vários modos, alguns do quais são de particular importância, na presente situação da Igreja e do mundo.
A primeira forma de evangelização é o testemunho
42. O homem contemporâneo acredita mais nas testemunhas do que nos mestres,69 mais na experiência do que na doutrina, mais na vida e nos factos do que nas teorias. O testemunho da vida cristã é a primeira e insubstituível forma de missão: Cristo, cuja missão nós continuamos, é a « testemunha » por excelência (Ap 1, 5; 3, 14) e o modelo do testemunho cristão. O Espírito
Santo acompanha o caminho da Igreja, associando-a ao testemunho que Ele próprio dá de Cristo (cf. Jo 15, 26-27 ).
A primeira forma de testemunho é a própria vida do missionário, da família cristã e da comunidade eclesial, que torna visível um novo modo de se comportar. O missionário que, apesar dos seus limites e defeitos humanos, vive com simplicidade, segundo o modelo de Cristo, é um sinal de Deus e das realidades transcendentes. Mas todos na Igreja, esforçando-se por imitar o divino Mestre, podem e devem dar o mesmo testemunho,70 que é, em muitos casos, o único modo possível de se ser missionário.
O testemunho evangélico, a que o mundo é mais sensível, é o da atenção às pessoas e o da caridade a favor dos pobres, dos mais pequenos, e dos que sofrem. A gratuidade deste relacionamento e destas acções, em profundo contraste com o egoismo presente no homem, faz nascer questões precisas, que orientam para Deus e para o Evangelho. Também o compromiso com a paz, a justiça, os direitos do homem, a promoção humana, é um testemunho do Evangelho, caso seja um sinal de atenção às pessoas e esteja ordenado ao desenvolvimento integral do homem.71
43. O cristão e as comunidades cristãs vivem profundamente inseridos na vida dos respectivos povos, e são também sinal do Evangelho pela fidelidade à sua pátria, ao seu povo, e à sua cultura nacional, sempre porém na liberdade que Cristo trouxe. O cristianismo está aberto à fraternidade universal, porque todos os homens são filhos do mesmo Pai e irmãos em Cristo.
A Igreja é chamada a dar o seu testemunho por Cristo, assumindo posições corajosas e proféticas, face à corrupção do poder político ou económico; não correndo ela própria atrás da glória e dos bens materiais; usando os seus bens para o serviço dos mais pobres e imitando a simplicidade de vida de Cristo. A Igreja e os missionários devem ainda dar o testemunho da humildade, começando por si próprios, ou seja, desenvolvendo a capacidade de exame de consciência, a nível pessoal e comunitário, a fim de corrigirem nas suas atitudes aquilo que é anti-evangélico e desfigura o rosto de Cristo.
O primeiro anúncio de Cristo Salvador
44. O anúncio tem a prioridade permanente, na missão: a Igreja não pode esquivar-se ao mandato explícito de Cristo, não pode privar os homens da « Boa Nova » de que Deus os ama e salva. « A evangelização conterá sempre ? como base, centro e, ao mesmo tempo, vértice do seu dinamismo ? uma proclamação clara de que, em Jesus Cristo (...) a salvação é of erecida a cada homem, como dom de graça e de misericórdia do próprio Deus ».72 Todas as formas de actividade missionária tendem para esta proclamação que revela e introduz no mistério, desde sempre escondido e agora revelado em Cristo (cf. Ef 3, 3-9; Col 1, 25-29), o qual se encontra no amago da missão e da vida da Igreja, como ponto fulcral de toda a evangelização.
Na realidade complexa da missão, o primeiro anúncio tem um papel central e insubstituível, porque introduz « no mistério do amor de Deus, que, em Cristo, nos chama a uma estreita relação pessoal com Ele »73 e predispõe a vida para a conversão. A fé nasce do anúncio, e cada comunidade edesial consolida-se e vive da resposta pessoal de cada fiel a esse anúncio.74 Como a economia salvífica está centrada em Cristo, assim a actividade missionária tende para a proclamação do Seu mistério.
O anúncio tem por objecto Cristo crucificado, morto e ressuscitado: por meio d'Ele se realiza a plena e autêntica libertação do mal, do pecado e da morte; n'Ele Deus dá a « vida nova », divina e eterna. É esta a « Boa Nova », que muda o homem e a história da humanidade, e que todos os povos têm o direito de conhecer. Um tal anúncio tem de se inserir no contexto vital do homem e dos povos que o recebem. Além disso ele deve ser feito numa atitude de amor e de estima a quem o escuta, com uma linguagem concreta e adaptada às circunstancias. Para isso concorre o Espírito, que instaura uma união entre o missionário e os ouvintes, tornada possível enquanto um e os outros, por Cristo, entram em comunhão com o Pai.75
45. Sendo feito em união com toda a comunidade eclesial, o anúncio nunca é um facto pessoal. O missionário está presente e actuante em virtude de um mandato recebido, pelo que, mesmo se estiver sozinho, sempre viverá coligado, através de laços invisíveis mas profundos, à actividade evangelizadora de toda a Igreja.76 Os ouvintes, mais cedo ou mais tarde, entrevêem, por detrás dele, a comunidade que o enviou e o apoia.
O anúncio é animado pela fé, que gera entusiasmo e ardor no missionário. Como ficou dito, os Actos dos Apóstolos definem uma tal atitude com a palavra parresía, que significa falar com coragem e desembaraço; o mesmo termo aparece em S. Paulo: « No nosso Deus, encontramos coragem para vos anunciar o Evangelho, no meio de muitos obstáculos » (1 Tes 2, 2). « Rezai também por mim, para que, quando abrir a boca, me seja dado anunciar corajosamente o Mistério do Evangelho, do qual, mesmo com as algemas, sou embaixador, e para que tenha a audácia de falar dele como convém » (Ef 6, 19-20) .
Ao anunciar Cristo aos não cristãos, o missionário está convencido de que existe já, nas pessoas e nos povos, pela acção do Espírito, uma ansia ? mesmo se inconsciente ? de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz à libertação do pecado e da morte. O entusiasmo posto no anúncio de Cristo deriva da convicção de responder a tal ansia, pelo que o missionário não perde a coragem nem desiste do seu testemunho, mesmo quando é chamado a manifestar a sua fé num ambiente hostil ou indiferente. Ele sabe que o Espírito do Pai fala nele (cf. Mt 10, 17-20; Lc 12, 11-12), podendo repetir com os apóstolos: « nós somos testemunhas destas coisas, juntamente com o Espírito Santo » (At 5, 32). Está ciente de que não anuncia uma verdade humana, mas « a Palavra de Deus », dotada de intrínseca e misteriosa força (cf. Rm 1, 16).
A prova suprema é o dom da vida, até ao ponto de aceitar a morte para testemunhar a fé em Jesus Cristo. Como sempre, na história cristã, os « mártires », isto é, as testemunhas, são numerosas e indispensáveis no caminho do Evangelho. Também na nossa época, há tantos: bispos, sacerdotes, religiosos, religiosas, leigos, tantas vezes, heróis desconhecidos que deram a vida para testemunhar a fé. São esses, os anunciadores e as testemunhas por excelência.
Conversão e baptismo
46. O anúncio da Palavra de Deus visa a conversão cristã, isto é, a adesão plena e sincera a Cristo e ao seu Evangelho, mediante a fé. A conversão é dom de Deus, obra da Trindade: é o Espírito que abre as portas dos corações, para que os homens possam acreditar no Senhor e « confessá-l'O » (1 Cor 12, 3). Jesus, referindo-se a quem se aproxima d'Ele pela fé, diz: « ninguém pode vir a Mim, se o Pai, que me enviou, o não atrair » (Jo 6, 44).
Desde o início, a conversão exprime-se com uma fé total e radical: não põe limites nem impedimentos ao dom de Deus. Ao mesmo tempo, porém, determina um processo dinâmico e permanente que se prolonga por toda a existência, exigindo uma passagem contínua da « vida segundo a carne » à « vida segundo o Espírito » (cf. Rm 8, 3-13). Esta significa aceitar, por decisão pessoal, a soberania salvífica de Cristo, tornando-se Seu discípulo.
A Igreja chama a todos, a esta conversão, a exemplo de João Baptista que preparava o caminho para Cristo, « pregando um baptismo de conversão, em ordem ao perdão dos pecados » (Mc 1, 4), e a exemplo do próprio Cristo que, « depois de João ter sido preso, veio para a Galileia pregar a Boa Nova de Deus, dizendo: 'Completou-se o tempo, o Reino de Deus está próximo:arrependei-vos, e acreditai no Evangelho' » (Mc 1, 14-15 ).
Hoje o apelo à conversão, que os missionários dirigem aos não cristãos, é posto em discussão ou facilmente deixado no silêncio. Vê-se nele um acto de « proselitismo »; diz-se que basta ajudar os homens a tornarem-se mais homens ou mais fiéis à própria religião, que basta construir comunidades capazes de trabalharem pela justiça, pela liberdade, pela paz, e pela solidariedade. Esquece-se, porém, que toda a pessoa tem o direito de ouvir a « Boa Nova » de Deus que se revela e se dá em Cristo, para realizar em plenitude a sua própria vocação. A grandeza deste evento ressoa nas palavras de Jesus à samaritana: « Se tu conhecesses o dom de Deus », e no desejo inconsciente, mas intenso da mulher: « Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sêde » (Jo 4, 10.15).
47. Os Apóstolos, movidos pelo Espírito Santo, convidaram todos a mudarem de vida, a converterem-se e a receberem o baptismo. Logo depois do evento do Pentecostes, Pedro fala de modo convincente à multidão: « ao ouvirem aquelas palavras, os presentes sentiram-se emocionados até ao fundo do coração e perguntaram a Pedro e aos outros apóstolos: 'Que havemos de fazer, irmãos?' Pedro respondeu-lhes: 'Convertei-vos e peça cada um o baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados; recebereis então o dom do Espírito Santo' » (At 2, 37-38). E naquele dia baptizou cerca de três mil pessoas. Noutra ocasião, depois da cura de um paralítico, Pedro fala à multidão, dizendo de novo: « convertei-vos, pois, e mudai de vida, para que sejam apagados os vossos pecados! » (At 3, 19).
A conversão a Cristo está conexa com o baptismo: está-o não só per força da práxis da Igreja, mas por vontade de Cristo, que enviou a fazer discípulos em todas as nações, e a baptizá-los (cf. Mt 28, 19); está-o ainda por intrínseca exigência da recepção em plenitude da vida nova n'Ele: « Em verdade, em verdade, te digo ? assim falou Jesus a Nicodemos ? quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus » (Jo 3, 5). O baptismo, de facto, regenera-nos para a vida de filhos de Deus, une-nos a Jesus Cristo e unge-nos no Espírito Santo: aquele não é um simples selo da conversão, à maneira de um sinal exterior que a comprova e atesta; mas é o sacramento que significa e opera este novo nascimento do Espírito, instaura vínculos reais e inseparáveis com a Trindade, torna-nos membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja.
Recordamos tudo isto, porque uns tantos, precisamente onde se realiza a missão ad gentes, tendem a separar a conversão a Cristo, do baptismo, considerando-o como desnecessário. É verdade que, em certos ambientes, alguns aspectos sociológicos, referentes ao baptismo, lhe obscurecem o genuíno significado de fé. Isso fica-se a dever a diversos factores históricos e culturais, que é necessário suprimir onde ainda subsistam, para que o sacramento da regeneração espiritual surja em todo o seu valor: nesta tarefa, empenhem-se as comunidades eclesiais locais. Também é verdade que algumas pcssoas se dizem interiormente comprometidas com Cristo e com a Sua mensagem, mas sem quererem sê-lo sacramentalmente, porque, devido aos seus preconceitos ou por culpa dos cristãos, não chegam a perceber a verdadeira natureza da Igreja, mistério de fé e de amor.77 Desejo encorajar estas pessoas a abrirem-se plenamente a Cristo, recordando, a quantos sentem o fascínio de Cristo, que foi Ele próprio que quis a Igreja como « lugar » aonde, de facto, O podem encontrar. Ao mesmo tempo, convido os fiéis e as comunidades cristãs a testemunharem autenticamente Cristo com a sua vida nova.
Cada convertido é certamente um dom oferecido à Igreja, mas comporta também para ela uma grave responsabilidade, não só porque ele terá de ser preparado para o baptismo com o catecumenado, e depois continuar a sua instrução religiosa, mas também porque ? especialmente se é adulto ? traz como que uma energia nova, o entusiasmo da fé, o desejo de encontrar na própria Igreja o Evangelho vivido. Seria para ele uma desilusão se, entrando na comunidade eclesial, encontrasse aí uma vida sem fervor, privada de sinais de renovação. Não podemos pregar a conversão, se nós mesmos não nos convertermos todos os dias.
Formação de Igrejas locais
48. A conversão e o baptismo inserem na Igreja, onde ela já existe, ou então implicam a constituição de novas comunidades, que confessem Jesus Senhor e Salvador. Isto faz parte do desígnio de Deus, a Quem aprouve « chamar os homens a participar da Sua própria vida, não um a um , ma s con stit uído s co mo p ovo , no qual os Seus filhos dispersos fossem reconduzidos à unidade ».78
A missão ad gentes tem este objectivo: fundar comunidades cristãs, desenvolver Igrejas até à sua completa maturação. Esta é uma meta central e qualificativa da actividade missionária, de tal modo que esta não se pode considerar verdadeiramente concluída, enquanto não tiver conseguido edificar uma nova Igreja particular actuando normalmente no ambiente local. Disto fala amplamente o Decreto Ad gentes,79 e, já depois do Concílio, se consolidou a linha teológica que defende que todo o mistério da Igreja está contido em cada uma das Igrejas particulares, desde que esta não se isole, mas permaneça em comunhão com a Igreja universal e, por sua vez, se faça também missionária. Trata-se de um grande e longo trabalho, onde é difícil indicar as etapas em que cessa a acção propriamente missionária para se passar à actividade pastoral. Mas alguns pontos devem ficar daros.
49 Antes de mais, é necessário procurar estabelecer em cada lugar comunidades cristãs, que sejam « sinal da presença divina no mundo »80 e cresçam até se tornarem Igrejas. Não obstante o elevado número de dioceses, existem ainda vastas áreas onde as Igrejas locais não se encontram, ou são insuficientes relativamente à vastidão do território e à densidade da população: está ainda por realizar um grande trabalho de implantação e de desenvolvimento da Igreja. Não está terminada esta fase da história eclesial, dita plantatio Ecclesiae; pelo contrário, em muitos aglomerados humanos, está ainda por iniciar.
A responsabilidade de tal tarefa recai sobre a Igreja universal e sobre as Igreja particulares, sobre todo o Povo de Deus e sobre as diversas forças missionárias. Cada Igreja, mesmo aquela que é formada por neoconvertidos, é por sua natureza missionária; é simultaneamente evangelizada e evangelizadora, devendo a fé ser apresentada como dom de Deus, tanto a viver em comunidade (família, paróquia, associações) como a irradiar par o exterior, quer pelo testemunho de vida quer pela palavra. A acção evangelizadora da comunidade cristã, primeiramente no próprio território e depois, mais além, como participação na missão universal, é o sinalmais claro da maturidade da fé. Impõe-se uma conversão radical da mentalidade para nos tornarmos missionários ? e isto vale tanto para os indivíduos como para as comunidades. O Senhor chama-nos constantemente a sairmos de nós próprios, a partilhar com os outros os bens que temos, começando pelo mais precioso, que é a fé. À luz deste imperativo missionário, dever-se-á medir a validade dos organismos, movimentos, paróquias e obras de apostolado da Igreja. Somente tornando-se missionária é que a comunidade cristã conseguirá superar divisões e tensões internas, e reencontrar a sua unidade e vigor de fé.
As forças missionárias, vindas de outras Igrejas e Países, devem agir em comunhão com as forças locais, no desenvolvimento da comunidade cristã. Em particular, toca àquelas ? sempre segundo as directrizes dos Bispos e em colaboração com os responsáveis locais ? promover a difusão da fé e a expansão da Igreja nos ambientes e grupos não cristãos; cabe-lhes ainda animar o sentido missionário das Igrejas locais, para que a preocupação pastoral sempre traga associada a si, a da missão ad gentes. Assim cada Igreja fará verdadeiramente sua a solicitude de Cristo, o bom Pastor, que se prodigaliza pelo seu rebanho, mas pensa ao mesmo tempo nas « outras ovelhas que não são deste aprisco » (Jo 10, 16).
50. Tal solicitude constituirá motivo e estímulo para um renovado empenho ecuménico. Os laços existentes entre aactividade ecuménica e a actividade missionária tornam necessário considerar dois factores relativos a elas. Por um lado, temos de reconhecer que « a divisão dos cristãos prejudica a santíssima causa de pregar o Evangelho a toda a criatura e fecha a muitos o acesso à fé ».81 Na verdade, o facto de a Boa Nova da reconciliação ser proclamada por cristãos, que entre si se apresentam divididos, debilita o seu testemunho, e por isso é urgente trabalhar pela unidade dos cristãos, para que a actividade missionária possa ser mais incisiva. Ao mesmo tempo, não devemos esquecer que o próprio esforço em direcção à unidade, constitui por si um sinal da obra de reconciliação que Deus realiza no meio de nós.
Por outro lado, é verdade também que todos aqueles que receberam o baptismo em Cristo estão constituídos numa certa comunhão entre si, embora não perfeita. É sobre esta base que se fundamenta a orientação dada pelo Concílio: « Os católicos, banindo toda a forma de indiferentismo, de sincretismo e odiosa rivalidade, colaborem com os irmãos separados, em conformidade com as disposições do decreto sobre o Ecumenismo, por meio da comum profissão de fé em Deus e em Jesus Cristo diante dos gentios, na medida do possível, e pela cooperação em questões sociais e técnicas, culturais e religiosas ».82
A actividade ecuménica e o testemunho comum de Jesus Cristo, dado pelos cristãos pertencentes a diversas Igrejas e comunidades eclesiais, produziu já abundantes frutos, mas é ainda mais urgente que colaborem e testemunhem de comum acordo, neste tempo em que seitas cristãs e paracristãs semeiam a confusão com a sua acção. A expansão destas seitas constitui uma ameaça para a Igreja Católica e para todas as comunidades eclesiais com quem ela mantém um diálogo. Onde for possível e segundo as circunstâncias locais, a resposta dos cristãos poderá também ser ecuménica.
As « comunidades eclesiais de base » força de evangelização
51. Um fenómeno, com crescimento rápido nas jovens Igrejas, promovido pelos bispos ou mesmo pelas Conferências episcopais, por vezes como opção prioritária da pastoral, são as comunidades eclesiais de base (conhecidas também por outros nomes), que estão a dar boas provas como centros de formação cristã e de irradiação missionária. Trata-se de grupos de cristãos, a nível familiar ou de ambientes restritos, que se encontram para a oração, a leitura da Sagrada Escritura, a catequese, para a partilha dos problemas humanos e eclesiais, em vista de um compromisso comum. Elas são um sinal da vitalidade da Igreja, instrumento de formação e evangelização, um ponto de partida válido para uma nova sociedade, fundada na « civilização do amor ».
Tais comunidades descentralizam e simultâneamente articulam a comunidade paroquial, à qual sempre permanecem unidas; radicam-se em ambientes simples das aldeias, tornando-se fermento de vida cristã, de atenção aos « últimos », de empenho na transformação da sociedade. O indivíduo cristão faz nelas uma experiência comunitária, onde ele próprio se sente um elemento activo, estimulado a dar a sua colaboração para proveito de todos. Deste modo, elas tornam-se instrumento de evangelização e de primeiro anúncio, bem como fonte de novos ministérios; enquanto, animadas pela caridade de Cristo, oferecem uma indicação sobre o modo de superar divisões, tribalismos, racismos.
De facto, cada comunidade, para ser cristã, deve fundar-se e viver em Cristo, na escuta da Palavra de Deus, na oração onde a Eucaristia ocupa o lugar entral, na comunhão expressa pela unidade de coração e de alma, e pela partilha conforme as necessidades dos vários membros (cf. At 2, 42-47). Toda a comunidade recordava Paulo VI - deve viver em unidade com a Igreja particular e universal, na comunhão sincera com os Pastores e o Magistério, empenhada na irradiação missionária e evitando fechar-se em si mesma ou deixar-se instrumentalizar ideologicamente.83 O Sínodo dos Bispos afirmou: « uma vez que a Igreja é comunhão, as novas comunidades de base, se verdadeiramente vivem em unidade com a Igreja, elas representam uma verdadeira expressão de comunhão e um meio eficaz para construir uma comunhão ainda mais profunda. Por isso, são um motivo de grande esperança para a vida da Igreja ».84
Encarnar o Evangelho nas culturas dos povos
52. Desenvolvendo a sua actividade missionária no meio dos povos, a Igreja encontra várias culturas, vendo-se envolvida no processo de inculturação. Esta constitui uma exigência que marcou todo o seu caminho histórico, mas hoje é particularmente aguda e urgente.
O processo de inserção da Igreja nas culturas dos povos requer un tempo longo: é que não se trata de uma mera adaptação exterior, já que a inculturação « significa a íntima transfor mação dos valores culturais autênticos, pela sua integração no cristianismo, e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas ».85 Trata-se, pois, de um processo profundo e globalizante que integra tanto a mensagem cristã, como a reflexão e a práxis da Igreja. Mas é também um processo difícil, porque não pode comprometer de modo nenhum a especifícídade e a integridade da fé cristã.
Pela inculturação, a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e simultaneamente introduz os povos com as suas culturas na sua própria comunidade,gb transmitindo-lhes os seus próprios valores, assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro.8Ç Por sua vez, a Igreja, com a inculturação, torna-se um sinal mais transparente daquilo que realmente ela é, e um instrumento mais apto para a missão.
Graças a esta acção das Igrejas locais, a própria Igreja universal se enriquece com novas expressões e valores nos diversos sectores da vida cristã, tais como a evangelização, o culto, a teologia, a caridade; conhece e exprime cada vez melhor o mistério de Cristo, e é estimulada a uma renovação contínua. Estes temas, presentes no Concílio e no Magistério sucessivo, tenho-os afrontado repetidamente nas minhas visitas pastorais às jovens Igrejas.
A inculturação é um caminho lento, que acompanha toda a vida missionária e que responsabiliza os vários agentes da missão ad gentes, as comunidades cristãs à medida que se vão desenvolvendo, e os Pastores que têm a responsabilidade de discernimento e de estímulo na sua realização.89
53. Os missionários, provenientes de outras Igrejas e Países, devem inserir-se no mundo socio-cultural daqueles a quem são enviados, superando os condicionalismos do próprio ambiente de origem. Assim, torna-se necessário aprender a língua da região onde trabalham, conhecer as expressões mais significativas da sua cultura, descobrindo os seus valores por experiência directa. Eles só poderão levar aos povos, de maneira crível e frutuosa, o conhecimento do mistério escondido (cf. Rm 16, 25- 27; Ef 3, 5 ), através daquela aprendizagem. Não se trata, por certo, de renegar a própria identidade cultural, mas de compreender, estimar, promover e evangelizar a do ambiente em que actuam e, deste modo, conseguir realmente comunicar com ele, assumindo um estilo de vida que seja sinal de testemunho evangélico e de solidariedade com o povo.
As comunidades eclesiais em formação, inspiradas pelo Evangelho, poderão exprímir progressivamente a própria experiência cristã em modos e formas originais, em consonância com as próprias tradições culturais, embora sempre em sintonia com as exigências objectivas da própria fé. Para isso, especialmente no que toca aos sectores mais delicados da inculturaçáo, as Igrejas particulares do mesmo território devem trabalhar em comunhão entre si 90 e com toda a Igreja, certas de que só a atenção tanto à Igreja universal como à Igreja particular as tornará capazes de traduzirem o tesouro da fé, na legítima variedade das suas expressões.91 Portanto os grupos evangelizados oferecerão os elementos para uma « tradução » da mensagem evangélica,92 tendo presente os contributos positivos provenientes do contacto do cristianismo com as várias culturas, ao longo dos séculos, mas sem nunca esquecer os perigos de alteração, de quando em vez a tentar- nos.93
54. A propósito disto, continuam fundamentais algumas indicações. A inculturação, em seu correcto desenvolvimento, deve ser guiada por dois princípios: « a compatibilidade com o Evangelho e a comunhão com a Igreja universal ».94 Os Bispos, defensores do « depósito da fé », velarão pela fidelidade e, sobretudo, pelo discernimento,95 para o qual se requer um profundo equilíbrio: de facto corre-se o risco de se passar acriticamente de um alheamento da cultura para uma sobrevalorização da mesma, que não deixa de ser um produto do homem e, como tal, está marcada pelo pecado. Também ela deve ser « purificada, elevada, e aperfeiçoada ».96
Um tal processo requer gradualidade, para que seja verdadeiramente uma expressão da experiência cristã da comunidade: « será necessária uma incubação do mistério cristão no carácter do vosso povo - dizia Paulo VI em Kampala para que a sua voz nativa, mais límpida e franca, se levante harmoniosa no coro das vozes da Igreja universal ».97 Enfim, a inculturação deve envolver todo o povo de Deus, e não apenas alguns peritos, dado que o povo reflecte aquele sentido da fé, que é necessário nunca perder de vista. Ela seja guiada e estimulada, mas nunca forçada, para não provocar reacções negativas nos cristãos: deve ser uma expressão da vida comunitária, ou seja, amadurecida no seio da comunidade, e não fruto exclusivo de investigações eruditas. A salvaguarda dos valores tradicionais é efeito de uma fé madura.
O diálogo com os irmãos de outras religiões
55. O diálogo interreligioso faz parte da missão evangelizadora da Igreja. Entendido como método e meio para um conhecimento e enriquecimento recíproco, ele não está em con traposição com a missão ad gentes; pelo contrário, tem laços especiais com ela, e constitui uma sua expressão. Na verdade, a missão tem por destinatários os homens que não conhecem Cristo e o seu Evangelho, e pertencem, na sua grande maioria, a outras religiões. Deus atrai a Si todos os povos, em Cristo, desejando comunicar-lhes a plenitude da sua revelação e do seu amor; Ele não deixa de Se tornar presente de tantos modos, quer aos indivíduos quer aos povos, através das suas riquezas espirituais, das quais a principal e essencial expressão são as religiões, mesmo se contêm também « lacunas, insuficiências e erros ».98 Tudo isto foi amplamente sublinhado pelo Concílio e pelo Magistério sucesivo, sem nunca deixar de afirmar que a salvação vem de Cristo, e o diálogo não dispensa a evangelização.99
À luz do plano de salvação, a Igreja não vê contraste entre o anúncio de Cristo e o diálogo interreligioso; sente necessidade, porém, de os conjugar no âmbito da sua missão ad gentes. De facto, é necessário que esses dois elementos mantenham o seu vínculo íntimo e, ao mesmo tempo, a sua distinção, para que não sejam confundidos, instrumentalizados, nem considerados equivalentes a ponto de se puderem substituir entre si.
Recentemente escrevi aos Bispos da Ásia: « mesmo reconhecendo a Igreja de bom grado o quanto há de verdadeiro e de santo nas tradições religiosas do Budismo, do Induismo e do Islão - reflexos daquela verdade que ilumina todos os homens -, isso não diminui o seu dever e a sua determinação de proclamar sem hesitações Jesus Cristo que é 'o Caminho a Verdade, e a Vida' ( ... ) O facto de os crentes de outras religiões poderem receber a graça de Deus e serem salvos por Cristo independentemente dos meios normais por Ele estabelecidos, não suprime, de facto, o apelo à fé e ao baptismo que Deus dirige a todos os povos ».1·· Na verdade, o próprio Senhor, « ao inculcar expressamente a necessidade da fé e do baptismo, ao mesmo tempo corroborou a necesszdade da Igreja, na qual os homens entram pela porta do baptismo »,101 O diálogo deve ser conduzido e realizado com a convicção de que a Igreja é o camznho normal de salvação e que só ela possui a plenitude dos meios de salvação.loz
56. O diálogo não nasce de tácticas ou de interesses, mas é uma actividade que apresenta motivações, exigências, dignidade própria: é exigído pelo profundo respeito por tudo o que o Espírito, que sopra onde quer, operou em cada homem.103 Por ele, a Igreja pretende descobrir as « sementes do Verbo »,104 os « fulgores daquela verdade que ilumina todos os homens "105 - sementes e fulgores que se abrigam nas pessoas e nas tradições religiosas da humanidade. O diálogo fundamenta-se sobre a esperança e a caridade, e produzirá frutos, no Espírito. As outras religiões constituem um desafio positivo para a Igreja: estimulam-na efectivamente quer a descobrir e a reconhecer os sinais da presença de Cristo e da acção do Espírito, quer a aprofundar a própria identidade e a testemunhar a integridade da revelação, da qual é depositária para o bem de todos.
Daqui deriva o espírito que deve animar um tal diálogo, no contexto da missão. O interlocutor deve ser coerente com as próprias tradições e convicções religiosas, e disponível para compreender as do outro, sem dissimulações nem restrições, mas com verdade, humildade, e lealdade, sabendo que o diálogo pode enriquecer a ambos. Não deve haver qualquer abdicação, nem irenismo, mas o testemunho recíproco em ordem a um progresso comum, no caminho da procura e da experiência religiosa, e simultameamente em vista do superamento de preconceitos, intolerâncias e malentendidos. O diálogo tende à purificação e conversão interior que, se for realizada na docilidade ao Espírito, será espiritualmente frutuosa.
57. Ao diálogo, abre-se um vasto campo, podendo ele assumir múltiplas formas e expressões: desde o intercâmbio entre os peritos de tradições religiosas ou com seus representantes oficiais, até à colaboração no desenvolvimento integral e na salvaguarda dos valores religiosos; desde a comunicação das respectivas experiências espirituais, até ao denominado « diálogo de vida », pelo qual os crentes das diversas religiões mutuamente testemunham, na existência quotidiana, os próprios valores humanos e espirituais, ajudando-se a vivê-los em ordem à edificação de uma sociedade mais justa e fraterna.
Todos os fiéis e comunidades cristãs são chamadas a praticar o diálogo, embora não seja no mesmo grau e forma. Para isso é indispensável o contributo dos leigos, que « com o exemplo da sua vida e com a própria acção podem favorecer a melhoria das relações entre os crentes das diversas religiões » 106 enquanto alguns deles poderão mesmo oferecer uma ajuda na pesquisa e no estudo. 107
Sabendo que bastantes missionários e comunidades cristãs encontram, no caminho difícil e por vezes incompreendido do diálogo, a única maneira de prestar um sincero testemunho de Cristo e um generoso serviço ao homem, desejo encorajá-los a perseverar con fé e caridade, mesmo onde os seus esforços não encontrem acolhimento nem resposta. O diálogo é um caminho que conduz ao Reino e seguramente dará frutos, mesmo se os tempos e os momentos estão reservados ao Pai (cf. At 1, 7).
Promover o desenvolvimento educando as cosciências
58. A missão ad gentes desenvolve-se ainda hoje, na sua maior parte, nas regiões do hemisfério Sul, onde é mais urgente a acção em favor do desenvolvimento integral e da libertação de toda a opressão. A Igreja sempre soube suscitar, nas população que evangelizou, o impulso para o progresso, e hoje os missionários, mais do que no passado, são reconhecidos também como promotores de desenvolvimento por governos e peritos internacionais, que ficam admirados do facto de obterem notáveis resultados com escassos meios.
Na Encíclica Sollicitudo rei socialis, afirmei que « a Igreja não tem soluções técnicas para resolver o subdesenvolvimento como tal », mas « dá o primeiro contributo para a solução do urgente problema do progresso, quando proclama a verdade acerca de Cristo, de Si própria e do homem, aplicando-a a uma situação concreta ».108 A Conferência dos Bispos latino-ameri canos, em Puebla, afirmou que « o melhor servíço ao irmão é a evangelização, que o predispõe a realizar-se como filho de Deus, o liberta da injustiça e promove-o integralmente ».109 A missão da Igreja não é a íntervenção directa no plano económico, técnico, político ou do contributo material para o desenvolvimento, mas consiste essencialmente em oferecer aos povos não um « ter mais » mas um « ser mais », despertando as consciências com o Evangelho. « O progresso humano autêntico deve assentar as suas raízes sobre uma evangelização cada vez mais profunda ».110
A Igreja e os missionários são também promotores de desenvolvimento com as suas escolas, hospitais, tipografias, universidades, explorações agrícolas experimentais. O pro gresso de um povo, porém, não deriva primariamente do dinheiro, nem dos auxílios materiais, nem das estruturas técnicas, mas sobretudo da formação das consciências, do amadurecimento das mentalidades e dos costumes. O homem é que é o protagonista do desenvolvimento, não o dinheiro ou a técnica. A Igreja educa as consciências, revelando aos povos aquele Deus, que procuram sem O conhecer, a grandeza do homem criado à imagem de Deus e por Ele amado, a igualdade de todos os homens enquanto filhos de Deus, o domínio sobre a natureza criada e posta ao serviço do homem, o dever de se empenhar no progresso do homem todo e de todos os homens.
59. Com a mensagem evangélica, a Igreja oferece uma força libertadora e criadora de desenvolvimento, exartamente porque leva à conversão do coração e da mentalidade, faz reconhecer a dignidade de cada pessoa, predispõe à solidariedade, ao compromisso e ao serviço dos irmãos, insere o homem no projecto de Deus, que é a construção do Reino de paz e de justiça, já a partir desta vida. É a perspectiva bíblica dos « novos céus e da nova terra » (cf.Is 65, 17; 2 Ped 3, 13; Ap 21, 1 ), a qual inseriu na história, o estímulo e a meta para o avanço da humanidade. O progresso do homem vem de Deus, do modelo Jesus e deve conduzir a Deus.111 Eis porque entre anúncio evangélico e promoção do homem existe uma estreita conexão.
O contributo da Igreja e da sua obra evangelizadora para o desenvolvimento dos povos, não se restringe apenas ao hemisfério Sul, visando combater aí a miséria material e o subdesenvolvimento, mas envolve também o Norte, que está exposto à miséria moral e espiritual, causada pelo « superdesenvolvimento ».112 Uma certa concepção a-religiosa da vida moderna, dominante em algumas partes do mundo, está baseada na ideia de que, para tornar o homem mais homem, basta enriquecer e elevar o crescimento técnico e económico. Mas um desenvolvimento sem alma não pode bastar ao homem, e o excesso de opulência é tão nocivo como o excesso de pobreza. O hemisfério Norte construiu um « modelo de desenvolvimento », e quer difundi-lo para o Sul, onde o sentido de religiosidade e os valores humanos, que ali existem, correm o risco de serem submersos pela vaga do consumísmo.
« Contra a fome: muda de vida » é um lema, nascido em ambientes eclesiais, que indica, aos povos ricos, o caminho para se tornarem irmãos dos pobres: é preciso voltar a uma vida mais austera que favoreça um novo modelo de progresso, atento aos valores éticos e religiosos. A actividade missionária leva aos pobres a luz e o estímulo para o verdadeiro progresso, enquanto a nova evangelização, entre outras tarefas, deve criar, nos ricos, a consciência de que chegou o momento de se tornarem realmente irmãos dos pobres, na conversão comum ao « progresso integral », aberto ao Absoluto. 113
A caridade: fonte e critério da missão
60. « A Igreja em todo o mundo - disse-o durante a minha visita ao Brasil - quer ser a Igreja dos pobres. Ela deseja extrair toda a verdade contida nas Bem-aventuranças, e em particular na primeira: "Bem-aventurados os pobres em espírito ...". Ela quer ensinar e pôr em prática esta verdade como Jesus, que veio fazer e ensinar ».114
As jovens Igrejas, que, na sua maioria, vivem no meio de povos sofrendo de uma enorme pobreza, referem muitas vezes esta preocupação como parte integrante da sua missão. A Conferência dos Bispos latino-americanos, em Puebla, depois de ter recordado 0 exemplo de Jesus, escreve que « os pobres me recem uma atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de Deus, para serem seus filhos, essa imagem está ofuscada, e até ultrajada. Por isso, Deus toma a sua defesa e os ama. Daí resulta que os primeiros destinatários da missão são os pobres, sendo a sua evangelização, sinal e prova por excelência da missão de Jesus ».115
Fiel ao espírito das Bem-aventuranças, a Igreja é chamada à partilha com os pobres e oprimidos de qualquer género. Assim exorto os discípulos de Cristo e as comunidades cristãs, desde as famílias às dioceses, das paróquias aos institutos religiosos, a fazerem uma sincera revisão da própria vida, na perspectiva da solidariedade com os pobres. Ao mesmo tempo, agradeço aos missionários que, com a sua presença amorosa e o seu serviço humilde, trabalham para o desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade, levantando escolas, centros sanitários, leprosarias, casas de assistência para diminuidos físicos e anciãos, iniciativas para a promoção da mulher. Agradeço em particular, às religiosas, aos irmãos e aos leigos missionários, pela sua dedicação, enquanto encorajo os voluntários de Organizações não-governamentais, hoje cada vez mais numerosos, que se dedicam a estas obras de caridade e de promoção humana.
De facto são estas « obras de caridade » que dão testemunho da alma de toda a actividade missionária: o amor, que é e permanece o verdadeiro motor da missão, constituindo também « o único critério pelo qual tudo deve ser feito ou deixado de fazer, mudado ou mantido. É o princípio que deve dirigir cada acção, e o fim para o qual deve tender. Agindo na perspectiva da caridade ou inspirados pela caridade, nada é impróprio, e tudo é bom ».116
CAPÍTULO VI
OS RESPONSÁVEIS E OS AGENTES DA PASTORAL MISSIONÁRIA
61. Não existe testemunho sem testemunhas, como não há missão sem missionários. Com a finalidade de colaborem na Sua missão e continuarem a Sua obra salvífica, Jesus escolhe e envia pessoas como Suas testemunhas e apóstolos: « Sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins do mundo » (At 1, 8 ) .
Os Doze são os primeiros agentes da missão universal: eles constituem um « sujeito colegial » da missão, foram escolhidos por Jesus para permanecerem com Ele e serem enviados « às ovelhas perdidas da casa de Israel » (Mt 10, 6). Esta colegialidade não impede que dentro do grupo se singularizem figuras como Tiago, João e sobretudo Pedro, que ganhou tal relevo que se tornou usual a expressão: « Pedro e os outros apóstolos » (At 2, 14. 37 ). Graças a ele, abrem-se os horizontes da missão universal, onde depois sobressairá Paulo, que, por vontade divina, foi chamado e enviado aos gentios (cf. Gal 1, 15-16).
Na expansão missionária das origens, encontramos, ao lado dos apóstolos, outros agentes menos conhecidos, que não podemos esquecer: são pessoas, grupos, comunidades. Um típico exemplo de Igreja local é a comunidade de Antioquia, que de evangelizada passa a evangelizadora, enviando os seus missionários, aos gentios (cf. At 13, 2-3). A Igreja primitiva vive a missão como tarefa comunitária, embora reconheça, no seu seio, « enviados especiais », ou « missionários consagrados aos pagãos », como no caso de Paulo e Barnabé.
62. Tudo quanto, no início do cristianismo, se fez pela missão universal conserva ainda hoje a sua validade e urgência. A Igreja é por sua natureza missionária, porque o mandato de Cristo não é algo de contingente e exterior, mas atinge o próprio coração da Igreja. Segue-se daí que a Igreja toda e cada uma das Igrejas é enviada aos não cristãos. Mesmo as Igrejas mais jovens, precisamente « para este zelo missionário florescer nos membros da sua pátria », devem « participar o quanto antes e de facto na missão universal da Igreja, enviando também elas, por todo o mundo, missionários a pregar o Evangelho, mesmo se sofrem escassez de clero ».117 Muitas já assim fazem: eu encorajo-as vivamente a continuar.
Neste vínculo essencial de comunhão entre a Igreja universal e as Igrejas particulares, exercita-se o seu autêntico e pleno carácter missionário. « Num mundo que, com o encurtar das distâncias, se torna cada vez mais pequeno, as comunídades eclesiais devem coligarem-se entre si, trocando energías e meios, empenharem-se conjuntamente na única e comum missão de anunciar e viver o Evangelho ( ... ) As Igrejas denominadas jovens ( ... ) têm necessidade da força das antigas, enquanto estas precisam do testemunho e do estímulo das mais jovens, de tal modo que cada Igreja beba da riqueza das outras Igrejas ».118
Os primeiros responsáveis da actividade missionária
63. Como o Senhor ressuscitado confiou o mandato da missão universal ao colégio apostólico com Pedro à cabeça, assim essa responsabilidade íncumbe antes de maís ao colégío dos Bispos, tendo à sua cabeça o sucessor de Pedro.119 Consciente desta responsabilidade, no encontro com os Bispos, sinto o dever de a partilhar em ordem tanto à nova evangelização como à missão universal. Pus-me a caminho pelas estradas do mundo, « para anunciar o evangelho, para "confírmar os írmãos" na fé, para consolar a Igreja, para ir ao encontro do homem. São viagens de fé... São outras tantas ocasiões de catequese itinerante, de anúncio evangélico alargado a todas as latitudes, e de Magistério apostólico prolongado até aos hodíernos espaços planetários ».120
Os irmãos Bispos são comigo directamente responsáveis pela evangelização do mundo, quer corno membros do colégio episcopal, quer como pastores das Igrejas particulares. O Concílio declara a propósito disto: « O cuidado de anunciar o Evangelho, em toda a terra, pertence ao colégio dos pastores, aos quais, em comum, Cristo deu o mandato ».121 Aquele afirma também que os Bíspos « foram consagrados não apenas para uma diocese, mas para a salvação de todo o mundo ».122 Esta responsabilidade colegial tem consequências práticas. Do mesmo modo « o Sínodo dos Bispos, entre as suas obrigaÇões de ordem geral, deve seguír com partícular solicitude a actividade missionária, que constitui o dever mais alto e sagrado da Igreja ».123 A mesma responsabilidade se reflecte, em graus diferentes, nas Conferências episcopais e nos seus organismos a nível contínental, que, por isso mesmo, têm um contributo próprio a oferecer ao compromisso míssionário.124
Vasto é também o trabalho missionário de cada Bispo, enquanto pastor de uma Igreja partícular. Cabe-lhe a ele, « como cabeça e centro unificador do apostolado diocesano, promover, dirigir e coordenar a actividade missionária... Procure também que a actividade apostólica não fique limitada apenas aos convertidos, mas uma parte razoável de missionários e de subsídios seja destinada à evangelização dos não-cristãos ».125
64. Cada Igreja particular deve-se abrir generosamente às necessidades das outras. A colaboração entre as Igrejas, numa efectiva reciprocidade que lhes permite dar e receber, é também fonte de enriquecimento para todas, e estende-se a vários sectores da vida eclesial. A propósito disto, serve de exemplo a declaração dos Bispos, em Puebla: « Chegou finalmente a hora de a América Latina (...) se lançar em missão para além das suas fronteiras, ad gentes. É verdade que nós próprios temos ainda necessidade de missionários, mas devemos dar da nossa pobreza ».126
Com este espírito, convido os Bispos e as Conferências episcopais a actuarem generosamente tudo quanto está sugerido na Nota directiva, que a Congregação de Clero emanou, visando a colaboração entre as Igrejas particulares e especialmente a melhor distribuição de clero no mundo.127
A missão da Igreja é mais vasta que a « comunhão entre as Igrejas »: esta deve ser orientada não só para auxiliar a reevangelização, mas também e sobretudo na direcção da acção missionária específica. Dirijo o meu apelo a todas as Igrejas, jovens e antigas, para partilharem comigo esta preocupação, incrementando as vocações missionárias e superando as suas próprias dificuldades.
Missionários e Institutos ad gentes
65. Entre os agentes da pastoral missionária, hoje como no passado, ocupam um lugar de importância fundamental, aquelas pessoas e instituições às quais o Decreto Ad Gentes dedica um capítulo, especial sob o título: « os missionários ».128 A propósito disso, impõe-se uma reflexão profunda, sobretudo para os próprios missionários, que, devido às alterações no contexto da missão, podem ser induzidos a não compreenderem já o sentido da sua vocação, a não saberem já aquilo que hoje a Igreja espera especificamente deles.
Ponto de referência são estas palavras do Concílio: « embora o compromisso de difundir a fé recaia sobre todos os discípulos de Cristo, na medida das suas possibilidades, Cristo Senhor, do meio da multidão dos seus seguidores, sempre chama aqueles que quer, para conviverem com Ele e os enviar a pregar aos não cristãos. Por isso, Ele, por acção do Espírito Santo que distribui como quer os seus carismas para o bem das almas, acende no coração dos indivíduos a vocação missionária e, ao mesmo tempo, suscita no seio da Igreja aquelas instituições que assumem como dever específico a tarefa da evangelização, que diz respeito a toda a Igreja ».129
Trata-se, portanto, de uma « vocação especial », modelada a partir da dos apóstolos, e que se manifesta na totalidade com que se orienta o compromisso para o serviço da evangelização dos não cristãos: é compromisso que envolve toda a pessoa e vida do missionário, exigindo-lhe uma doacção de forças e de tempo sem limites. Aqueles que estão dotados dessa vocação, « enviados pela legítima autoridade, vão ter, por espírito de fé e obediência, com aqueles que se encontram longe de Cristo, entregando-se exclusivamente àquela obra para a qual, como ministros do Evangelho, foram assumidos ».130 Os missionários devem meditar no dom recebido e na resposta que ele implica e actualizar a sua formação doutrinal e apostólica.
66. Os Institutos Missionários devem empregar todos os recursos necessários, tirando proveito da sua experiência e criatividade na fidelidade ao seu carisma originário, para prepararem adequadamente os candidatos, e assegurarem o restabelecimento das energias espirituais, morais e físicas dos seus membros.l31 Sintam-se parte viva da comunidade eclesial e trabalhem em comunhão com ela. De facto, cada Instituto nasceu para a Igreja e deve enriquecê-la com as características próprias, segundo 0 seu espírito particular e sua especial missão, e os próprios Bispos são os guardiões dessa fidelidade ao carisma originário.132
Os Institutos missionários, de uma forma geral, nasceram nas Igrejas de antiga tradição cristã, e historicamente foram instrumentos da Congregação da Propaganda Fide, em vista da difusão da fé e da fundação de novas Igrejas. Eles acolhem hoje, numa medida sempre maior, candidatos provenientes das jovens Igrejas que eles fundaram, enquanto surgem novos institutos, precisamente nos países que antes só recebiam missionários e hoje já os enviam também. É de louvar esta dupla tendência, que demonstra a validade e actualidade da vocação missionária específica destes Institutos, hoje ainda « absolutamente necessários »: 133 não apenas para a actividade missionária ad gentes como é sua tradição, mas também para a animação missionária, tanto nas Igrejas de antiga tradição cristã, como nas mais jovens.
A vocação especial dos missionários ad vitam, isto é, por toda a vida, mantém toda a sua validade: representa o paradigma do compromisso missionário da Igreja, que sempre tem necessidade de doacções radicais e totais, de ímpulsos novos e corajosos. Os missionários e as missionárias, que consagraram a vida toda ao testemunho de Cristo ressuscitado entre os não cristãos, não se deixem, pois, atemorizar por dúvidas, incompreensões, recusas, perseguições. Rejuvenesçam a graça do seu carisma específico, e retomem corajosamente o seu caminho, preferindo - em espírito de fé, obediência e comunhão com os Pastores - os lugares mais humildes e difíceis.
Sacerdotes diocesanos para a missão universal
67. Colaboradores do Bispo, os presbíteros, por força do sacramento da Ordem, sáo chamados a partilhar a solicitude pela missão: « o dom espiritual que os presbíteros receberam na Ordenanão prepara-os, não para uma missão limitada e restrita, mas para uma vastíssima e universal missão de salvação "até aos confins da terra", uma vez que todo o ministério sacerdotal participa da mesma amplitude universal da missão confiada aos Apóstolos por Cristo ».134 Por isso, a própria formação dos candidatos ao sacerdócio deve procurar dar-lhes « aquele espírito verdadeiramente católico que os habitue a olhar para além dos confins da própria diocese, nação ou rito, indo ao encontro das necessidades da missão universal, prontos a pregar o Evangelho por todo o lado ».135 Todos os sacerdotes devem ter um coração e uma mentalidade missionária, estarem abertos às necessidades da Igreja e do mundo, atentos aos mais distantes e, sobretudo, aos grupos não cristãos do próprio meio. Na oração e, em particular no sacrifício eucarístico, sintam a solicitude de toda a Igreja pela humanidade.
Especialmente os sacerdotes, que se encontram em áreas de minoria cristã, devem-se sentir movidos por un singular zelo e empenho missionário: o Senhor confia-lhes não só o cuidado pastoral da comunidade cristã, mas também e sobretudo a evangelização dos seus compatriotas que não fazem parte do Seu rebanho. « Não deixarão de estar concretamente disponíveis ao Espírito Santo e ao Bispo, para serem enviados a pregar o Evangelho para além das fronteiras do seu país. Isto exigir- lhes-á não apenas maturidade na vocação, mas também uma capacidade, fora do comun, para se afastarem da própria pátria, etnia e família, bem como uma particular idoneidade para se inserirem, com inteligência e respeito, nas outras culturas ».136
68. Na encíclica Fidei Donum, Pio XII, com intuição profética, encorajou os Bispos a oferecerem alguns sacerdotes para um serviço temporário nas Igrejas de África, aprovando as ini ciativas, nessa linha, já existentes. Nos 25 anos desse Documento, eu quis sublinhar a sua grande novidade « que fez superar a dimensão territorial do serviço presbiteral, para o destinar a toda a Igreja ».137 Hoje está confirmada a validade e a fecundidade dessa experiência: na verdade, os presbíteros, denominados Fidei Donum, evidenciam o vínculo de comunhão en tre as Igrejas, dão um precioso contributo para o crescimento de comunidades carenciadas, enquanto recebem delas frescura e vitalidade de fé. Entretanto é necessário que o serviço mis sionário do sacerdote diocesano obedeça a alguns critérios e condições. Sejam enviados sacerdotes escolhidos de entre os melhores, idóneos e devidamente preparados para o trabalho peculiar que os espera.138 Eles devem-se inserir com espírito aberto e fraterno no novo ambiente da Igreja que os acolhe, e constituirão um único presbitério com os sacerdotes locais, sob a autoridade do Bispo;139 ( . . . ) . Faço votos de que este espírito de serviço aumente no seio do presbitério das igrejas antigas, e seja promovido no das Igrejas mais recentes.
A fecundidade missionária da consagração
69. Na inexaurível e multiforme riqueza do Espírito, se situam as vocações dos Institutos de vzáa consagrada, cujos membros « desde o momento em que se dedicam ao serviço da Igreja, por força da sua consagração, ficam obrigados a prestar o seu serviço especialmente na acção missionária, dentro do estilo própio do Instituto ».140 A história atesta a extraordinária e benemérita acção das Famílias religiosas, em favor da propagação da fé e da formação de novas Igrejas: desde as antigas Instituições monásticas até às Congregações modernas, passando pelas Ordens medievais.
a ) Seguindo o Concílio, convido os Institutos de vida contemplativa a estabelecer comunidades nas jovens Igrejas, para prestarem « entre os não cristãos um magnífico testemunho da majestade e da caridade de Deus, bem como da união estabelecida em Cristo ».141 Esta presença é benéfica em todo o mundo não cristão, mas especialmente naquelas regiões, onde as religiões têm em grande estima a vida contemplativa, na perspectiva da ascese e da busca do Absoluto.
b) Aos Institutos de vida activa, aponto os espaços imensos da caridade, do anúncio evangélico, da educação cristã, da cultura, e da solidariedade com os pobres, os discriminados, os marginalizados e os oprimidos. Tais Institutos, tendam ou não para um fim estritamente missionário, devem-se interrogar sobre a sua possibilidade e disponibilidade de alargar a própria acção, para expandir o Reino de Deus. Este apelo foi acolhido, nos últimos tempos, por bastantes Institutos, mas queria que fosse tido em meIhor consideração e mais adequadamente actuado por um autêntico serviço. A Igreja deve dar a conhecer os grandes valores evangélicos de que é portadora; ora ninguém os testemunha mais eficazmente, do que aquele que faz profissão de vida consagrada na castidade, pobreza e obediência, numa total doação a Deus e plena disponibilidade para servir o homem e a sociedade, segundo o exemplo de Cristo.142
70. Dirijo uma palavra de especial apreço às religiosas missionárias, nas quais a virgindade por amor do Reino se traduz em múltiplos frutos de uma maternidade segundo o Espírito: a missão ad gentes oferece-lhes precisamente um campo vastíssimo para « se doarem com amor, de modo total e indiviso ".143 O exemplo e a actividade da mulher virgem, consagrada à caridade para com Deus e o próximo, sobretudo do mais pobre, são indispensáveis como sinal evangélico, naqueles povos e culturas onde a mulher deve ainda percorrer um longo caminho em ordem à sua promoção humana e libertação. Faço votos de que muitas jovens cristãs sintam a sedução de se entregarem a Cristo con generosidade, extraindo da sua consagração a força e a alegria para O testemunharem entre os povos que O ignoram.
Todos os leigos são missionários em razão do baptismo
71. Os últimos Pontífices têm insistido bastante na importância do papel dos leigos para a actividade missionária.l44 Na Exortação apostólica Christifideles laici, também eu tratei explicitamente da « missão permanente de levar o Evangelho a todos quantos - e são milhões e milhões de homens e de mulheres - ainda não conhecem Cristo redentor do homem »,145 e do respectivo compromisso dos fiéis leigos. A missão é de todo o Povo de Deus: se é verdade que a fundação de uma nova Igreja requer a Eucaristia, e, por conseguinte, o ministério sacerdotal, todavia a missão, que comporta as mais variadas formas, é tarefa de todos os fiéis.
Aliás a participação dos leigos na expansão da fé é clara, desde os primeiros tempos do cristianismo, tanto a nível de indivíduos e famílias, como da comunidade inteira. Isto foi já recordado por Pio XII, ao referir na primeira encíclica missionária, as vicissitudes das missões laicais.146 Nos tempos modernos, também não faltou a participação activa dos missionários leigos e das missionárias leigas. Como não recordar o importante papel desempenhado por estas, o seu trabalho nas famílias, nas escolas, na vida política, social e cultural, e em particular o seu ensino da doutrina cristã? Mais: é necessário reconhecer, como um título de honra, que algumas Igrejas tiveram a sua origem, graças à actividade dos leigos e das leigas missionárias.
O Vaticano II confirmou esta tradição, ilustrando o carácter missionário de todo o Povo de Deus, em particular o apostolado dos leigos,147 e sublinhando o contributo específico que eles são chamados a dar na actividade missionária.148 A necessidade de que todos os fiéis compartilhem tal responsabilidade não é apenas questão de eficácia apostólica, mas é um dever-direito, fundado sobre a dignidade baptismal, pelo qual « os fiéis leigos participam, por sua vez, no tríplice ministério - sacerdotal, profético e real - de Jesus Cristo ».149 Por isso também « recai sobre eles o mandato do Senhor, tendo o direito de se empenharem individualmente ou reunidos em associação para que o anúncio da salvação seja conhecido e acolhido por todo o homem em qualquer lugar; tal obrigação vincula-os ainda mais naquelas situações onde os homens só poderão ouvir o Evangelho e conhecer Cristo através deles ».150 Além disse pela índole secular, que lhes é própria, cabe-lhes a vocação particular de « buscar o Reino de Deus, tratando das coisas temporais e orientando-as segundo o plano de Deus ».151
72. Os sectores da presença e da acção missionária dos leigos são muito amplos. « O primeiro campo (...) é o mundo vasto e complicado da política, da realidade social, da economia »,152 no plano local, nacional e internacional. No âmbito da Igreja, existem vários tipos de serviços, funções, ministérios e formas de animação da vida cristã. Recordo, como novidade surgida recentemente em bastantes Igrejas, o grande desenvolvimento dos « Movimentos eclesiais », dotados de dinamismo missionário.
Quando se inserem humildemente na vida das Igrejas locais e são acolhidos cordialmente por Bispos e sacerdotes, nas estruturas diocesanas e paroquiais, os Movimentos representan um verdadeiro dom de Deus para a nova evangelização e para a actividade missionária propriamente dita. Recomendo, pois, que se difundam e sirvam para dar novo vigor, sobretudo entre os jovens, à vida cristã e à evangelização, numa visão pluralista dos modos de se associar e exprimir.
Na actividade missionária, devem-se valorizar as várias expressões do laicado, respeitando a sua índole e finalidade: associações do laicado missionário, organismos cristãos de voluntariado internacional, movimentos eclesiais, grupos e sodalícios de vário género, sejam aproveitados na missão ad gentes e na colaboração com as Igrejas locais. Deste modo se favorecerá o crescimento de um laicado maduro e responsável cuja « formação, nas jovens Igrejas, se requer como elemento essencial e irrenunciável da plantatio Ecclesiae ".153
A obra dos catequistas e a variedade dos ministérios
73. Entre os leigos, que se tornam evangelizadores, contam-se, em primeiro lugar, os catequistas. O Decreto missionário define-os como sendo « aquele exército tão benemérito da obra das missões entre os pagãos ( ... ) que penetrados de espírito apostólico, prestam com seus relevantes serviços um singular e indispensável auxílio à causa da dilatação da fé e da Igreja »,154 Não é sem razão que as Igrejas de antiga data, ao empenharem-se numa nova evangelização, multiplicaram os catequistas e intensificaram a catequese. « O título de "catequistas" pertence, por antonomásia aos catequistas em terra de missão: Igrejas, hoje florescentes, sem eles não teriam sido edificadas ».155
Mesmo com a multiplicação dos serviços eclesiais e extraeclesiais, o ministério dos catequistas permanece ainda necessário e tem características peculiares: os catequistas são agentes especializados, testemunhas directas, evangeli zadores insubstituíveis, que representam a força basilar das comunidades cristãs, particularmente nas jovens Igrejas, como várias vezes pude dizer e constatar, nas minhas viagens mis sionárias. O novo código de Direito Canónico refere as suas tarefas, qualidades e requisitos.156
Mas não se pode esquecer que o trabalho dos catequistas vai-se tornando cada vez mais difícil e exigente, devido às mudanças eclesiais e culturais em curso. É válido ainda hoje o que o Concílio já sugeria: uma preparação doutrinal e pedagógica mais cuidada, a constante renovação espiritual e apostólica, a necessidade de « garantir um digno teor de vida e de segurança social » aos catequistas.157 É importante, por último, favorecer a criação e o fortalecimento de escolas para catequistas que, aprovadas pelas Conferências episcopais, confiram títulos oficialmente reconhecidos por estas últimas.158
74. Ao lado dos catequistas, é preciso recordar outras formas de serviço à vida da Igreja e à missão, e por conseguinte outros operadores: animadores da oração, do canto e da liturgia; chefes de comunidades eclesiais de base e de grupos bíblicos; encarregados das obras caritativas; administradores dos bens da Igreja; dirigentes das várias associações de apostolado; professores de religião nas escolas. Todos os fiéis leigos devem oferecer à Igreja uma parte do seu tempo, vivendo com coerência a própria fé.
A Congregação para a Evangelização dos Povos e outras estruturas da actividade missionária
75. Os responsáveis e os agentes da pastoral missionária devem-se sentir unidos na comunhão que caracteriza o Corpo místico. Por isto rezou Cristo, na Última Ceia: « Como tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles sejam em nós um só, para que o mundo creia que Tu Me enviaste » (Jo 17, 21). Nesta comunhão, está o fundamento da fecundidade da missão.
Mas a Igreja constitui também uma comunhão visível e orgânica, e por isso a missão exige uma união externa e ordenada das diversas responsabilidades e funções, para que todos os membros « façam convergir, em plena unanimidade, as suas forças para a edificação da Igreja ».159
Compete ao Dicastério missionário « dirigir e coordenar, em todo o mundo, a obra de evangelização dos povos e a cooperação missionária, salva sempre a competência da Congregação para as Igrejas Orientais ».160 Assim « é seu dever suscitar e distribuir, segundo as carências mais urgentes das regiões, os missionários (...) elaborar um programa orgânico de acção, emanar directrizes e princípios adequados à evangelização, dar o impulso inicial ».161 Só posso corroborar estas sábias orientações: para relançar a missão ad gentes é necessário um centro de propulsão, direcção e coordenação, que é a Congregação para a Evangelização. Convido as Conferências episcopais e seus organismos, os Superiores maiores das Ordens, Congregações e Institutos, os organismos laicais empenhados na actividade missionária, a colaborar fielmente com a referida Congregação, que tem a autoridade necessária para programar e dirigir a activídade e a cooperação missionária a nível universal.
Esta Congregação, tendo atrás de si uma longa e gloriosa experiência, é chamada a desempenhar um papel de primária grandeza, no plano da reflexão e dos programas operativos, de que a Igreja precisa para se orientar mais decididamente para a missão, nas suas várias formas. Com este objectivo, a Congregação deve manter estreitas relações com os outros Dicastérios da Santa Sé, com as Igrejas particulares, e com as diversas forças missionárias. Numa eclesiologia de comunhão, onde toda a Igreja é missionária, mas simultaneamente se confirmam como cada vez mais indispensáveis as vocações e instituições específicas para o trabalho ad gentes, continua a ser muito importante o papel de guia e coordenação do Dicastério missionário, para conjuntamente enfrentar as grandes questões de interesse comum, salvas as competências de cada autoridade e estrutura.
76. Para a direcção e coordenação da activídade missionária a nível nacional e regional, revestem-se de grande importância as Conferências episcopais e os seus diversos órgãos. O Concílio pede-lhes que « tratem de pleno acordo as questões mais graves e os problemas mais urgentes, sem transcurarem, porém, as diferenças locais »162 nem o problema da inculturação. De facto, existe uma acção ampla e regular neste campo, e os frutos são visíveis. Essa acção, porém, deve ser intensificada e melhor interligada com a de outros organismos das mesmas Conferências, para que a solicitude missionária não seja deixada apenas ao cuidado de um certo sector ou organismo, mas seja partilhada por todos.
Os organismos, que se empenham na actividade missionária, unam esforços e iniciativas sempre que isso seja útil. As Conferências dos Superiores Maiores dirijam esse empenhamento no seu âmbito, em contacto com as Conferências episcopais, segundo as indicações e as normas estabelecidas,163 recorrendo mesmo a comissões mistas.164 Enfim são de desejar encontros e formas de colaboração entre as várias instituições missionárias, no referente tanto à formação e ao estudo,165 como à acção apostólica.
Este artigo foi publicado durante a primeira fase do Apostolado Veritatis Splendor. Conheça o site novo aqui