Espaço do Leitor

“católico de verdade” entra em contradição sobre o Vaticano II

[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: Renato
Cidade/UF: Rio de Janeiro/ RJ
Religião: Católica

Mensagem
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Como é bom ver que os movimentos ” modernos ” , ” carismaticos ” e ” libertacionários ” estão no fundo unidos no pensamento.

Quando li o modernista Hans Kung (estranhamente só tem 2 artigos dele no site!) confirmar o quê os CATÓLICOS DE VERDADE SEMPRE DESCONFIARAM , eu pensei: Vocês fazem parte da mesma ” escola ”!

Ele disse que  o Concílio Vaticano II conseguiu introduzir e integrar na catolicidade o paradigma da reforma protestante e o paradigma iluminista da modernidade. E então carismaticos, e então moderninhos, e então teologos da libertação; que desculpas vocês darão para os católicos agora?

Caro Sr. Renato, a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Infelizmente terei que começar a minha resposta ao senhor fazendo alguns reparos. Nós do Veritatis Splendor não somos ” modernos ” , ” carismaticos ” e ” libertacionários ”. Parece que a sua carta foi entregue no endereço errado.

Em nosso site não há dois artigos do teólogo modernista Hans Kung, mas dois artigos que o citam em seu desfavor. Logo, a sua observação de que “estranhamente só tem 2 artigos dele no site” não foi atenta e foi maldosa; pois o senhor sugere que sejamos também modernistas. Aliás essa é acusação gratuita que sempre recebemos pelo simples fato de defendermos a justa hermenêutica do Vaticano II. Mas até hoje NINGUÉM conseguiu mostrar em nossos artigos o suposto modernismo que temos.

E infelizmente, o senhor toma as palavras do modernista Hans Kung como se fossem a legítima voz da Igreja.

Pelo visto o senhor leu mais uma falácia escrita pelo Sr. Orlando Fedeli em http://www.montfort.org.br/index.php?secao=veritas&subsecao=igreja&artigo=hk_vii&lang=bra.Essas bobagens que o senhor repetiu (pelo visto sem pensar) estão lá.

Ele escreve que “Só os afetados por cegueira voluntária é que teimam na defesa do mal que dizem não ver. Pobres almas perdidas, perambulando através da fumaça de Satanás, que o Concílio Vaticano II permitiu entrar no Templo de Deus. Na verdade, o Vaticano II protestantizou os católicos, ao introduzir na Igreja o subjetivismo e o relativismo protestante e iluminista“.

Como se vê o “juiz” montfortiano já decretou a danação das almas alheias. Decretou até a perdição da alma do Papa que defende o Vaticano II (1).

Ora, para Fedeli todos aqueles que defendem o Vaticano II são gatos do mesmo saco. Pior, para ele o Vaticano II é o modernismo engendrado na Igreja. Este tipo de visão simplista, generalista e obtusa é a mesma dos protestantes que chamam todos os católicos que têm imagens em casa ou que possuem devoção por algum santo de idólatras. De outra forma, é o mesmo princípio que Richard Dawkins (2) usa para afirmar que todos aqueles que crêem em Deus são ignorantes e idiotas: o princípio da desonestidade e da má fé.

E continua Fedeli: “[…] Só nega isso quem trabalha para manter a fumaça de satanás na Igreja, sob pretexto de que desobedecer a esse Concílio pastoral seria cair em heresia. Como se o Vaticano II tivesse proclamado dogmas“.

Segundo o sofisma montfortiano, como o Vaticano II não declarou dogmas, então pode ser tranquilamente rejeitado… Teria sido menos infeliz se tivesse dito “Como se o Vaticano II tivesse proclamado dogmas ou doutrinas definitivas”. Ora, só para citar alguns exemplos os Concílios Ecumênicos IV Constantinopla, I e III e V Latrão também não declararam dogmas. Podem ser rejeitados também?

Como se isso não bastasse, os anti-Vaticano II normalmente caem em vários anátemas da Igreja, inclusive do Concílio de Trento que eles transformam num Super Concílio:

Cân. 6. Se alguém disser que o cânon da Missa contém erros e, portanto, deve ser ab-rogado: seja excomungado” (Sacrifício da Missa, Doutrina do Sacrifício da Missa Cap. IX. Sessão XXII celebrada no dia 17 de setembro de 1562. DENZINGER 1756).

Cân. 7. Se alguém disser que as cerimônias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade: seja excomungado” (Ibidem. DENZINGER 1757).

Portanto, segundo o Concílio de Trento é IMPOSSÍVEL que a Igreja formule uma liturgia da Santa Missa que contenha erros contra a Fé ou que incentive a impiedade. É por esse e outros anátemas que dizemos que os ultra-tradicionalistas são hereges e não porque o Vaticano II seja um Super Concílio.

Eu pensava que CATÓLICOS DE VERDADE ouvissem o que ensinam e orientam os legítimos pastores da Igreja e não hereges ou gurus alheios. Dizer que a verdadeira hermenêutica do Vaticano II está com os modernistas é negar o que sempre ensinou a Igreja:

É pois evidente… que Jesus Cristo instituiu na Igreja um magistério vivo, autêntico e, além disso, perpétuo, que ele investiu da sua própria autoridade, revestiu do espírito de verdade, confirmou por milagres e quis e mui severamente ordenou que os ensinamentos doutrinais desse magistério fossem recebidos como os seus próprios” (Papa Leão XIII, Encíclica Satis Cognitum, 20).

Eu pensei que o Vaticano II fosse um legítimo Concílio da Igreja e não um conciliábulo.

Para alguém que se considera um CATÓLICO DE VERDADE, o senhor está dando muita atenção ao que dizem os modernistas. E o seu erro já foi bem identificado pelo Papa Bento XVI já no início do seu pontificado:

Surge a pergunta: por que a recepção do Concílio, em grandes partes da Igreja, até agora teve lugar de modo tão difícil? Pois bem, tudo depende da justa interpretação do Concílio ou como diríamos hoje da sua correta hermenêutica, da justa chave de leitura e de aplicação. Os problemas da recepção derivaram do fato de que duas hermenêuticas contrárias se embateram e disputaram entre si. Uma causou confusão, a outra, silenciosamente mas de modo cada vez mais visível, produziu e produz frutos. Por um lado, existe uma interpretação que gostaria de definir “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”; não raro, ela pôde valer-se da simpatia dos mass media e também de uma parte da teologia moderna.” (3) (grifos meus).

O senhor nos acusa de sermos modernistas, mas é o senhor que adota a hermenêutica dos mordernistas para o que ensinou o Vaticano II. Quanta contradição não?

Continua o Pontífice:

“Por outro lado, há a “hermenêutica da reforma”, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja, que o Senhor nos concedeu; é um sujeito que cresce no tempo e se desenvolve, permanecendo porém sempre o mesmo, único sujeito do Povo de Deus a caminho. A hermenêutica da descontinuidade corre o risco de terminar numa ruptura entre a Igreja pré-conciliar e a Igreja pós-conciliar. Ela afirma que os textos do Concílio como tais ainda não seriam a verdadeira expressão do espírito do Concílio” (Ibidem) (grifos meus).

Esse texto do Papa caiu como uma luva para o senhor, não é mesmo? Aí o senhor vai me dizer: “mas, o discurso do Papa não é infalível!”. E eu lhe responderei: é verdade, como também não são infalíveis os discursos anti-vaticano II dos ultra-tradicionalistas. Não infalível por não infalível, eu prefiro sempre ficar com as palavras do Papa.

Viva o Papa!

Notas

(1) GRILLO, Marcos Monteiro. Apostolado Veritatis Splendor: AFINAL, BENTO XVI É FAVORÁVEL OU CONTRÁRIO AO CONCÍLIO VATICANO II?. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5195. Desde 5/19/2008.

(2) Famoso cientista americano militante do ateísmo fundamentalista. Sua última obra conhecida é “Deus, um delírio”.

(3) XVI, Bento. Apostolado Veritatis Splendor: DISCURSO DO PAPA BENTO XVI À CÚRIA ROMANA NA APRESENTAÇÃO DOS VOTOS DE NATAL. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/4014. Desde 10/30/2006.

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