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Ciência e filosofia

?Ciência? é investigação da realidade, busca da Verdade (da adequação de nosso pensamento à realidade), o mesmo que ?Filosofia? (etimologicamente ?amor à Sabedoria?).
 
Toda realidade (todo ente) tem esse duplo aspecto: por um lado é algo (ou alguém) ?real?; por outro, ele é ?algo? (ou ?alguém?) real. Então, a investigação da realidade (a Ciência) se faz nessas duas ?frentes? ou áreas: investiga-se o que é ser ?real? (e os modos de ser real: as realidades ?fechadas? ou ?coisas? e as realidades ?abertas? ou ?pessoais?); e o que as coisas (ou pessoas) são como ?tal? realidade. Em outras palavras, investiga-se a unidade do ser ou da realidade (caráter presente em tudo o que há, ou seja, caráter ?transcendental?, ?metafísico?) e a multiplicidade dos entes ou coisas (e pessoas) reais. Durante séculos, as duas tarefas estavam harmonizadas, e a diferença entre o ?filósofo metafísico? (estudioso do ser em geral), e o ?cientista experimental? (pesquisador dos entes particulares), era uma distinção dessas duas áreas, mas não uma separação entre as mesmas; inclusive um mesmo investigador poderia se ocupar de ambas tarefas, como Aristóteles, fundador de várias áreas particulares do saber ? aliás, é uma quimera pensar que o cientista moderno é um homem que faz ?experiência? com coisas concretas, ?metendo a mão na massa?: seus experimentos são modelos testados em laboratório (já veremos melhor a especificidade do conhecimento científico moderno), ao passo que o velho Aristóteles, por exemplo, ia coletando suas informações por onde passava, até ter uma base suficiente para um enunciado científico, por abstração das características particulares (só por curiosidade, para ver a amplitude e a perspicácia do conhecimento do Estagirita, que atuava sem outros meios de observação que seus cinco sentidos: o estudo que o Filósofo fez dos golfinhos, por exemplo, é extremamente atual!).

Quando uma parte da Ciência (= Filosofia = investigação da realidade nos dois aspectos acima), a ?Física?, que investigava a ?Natureza? ou o ?princípio do movimento dos corpos? (por isso a Física era também chamada ?Filosofia da Natureza?), descobriu que outra parte da Ciência, a ?Matemática? (que investigava os números e as figuras geométricas por si mesmos), poderia servir como instrumento para obter previsões no movimento dos corpos ? coisa com que a Física até então não havia se preocupado ?, passou (a Física) a interpretar as relações entre os (movimentos dos) corpos com fórmulas matemáticas, às custas de sacrificar a compreensão do que é o movimento. Aquela investigação unitária, do que é determinada coisa enquanto ela é ?real? (ou enquanto ela simplesmente ?é?), e enquanto ela é ?tal? realidade, se rompeu. E como a ruptura é uma cisão entre o caráter real e as propriedades mensuráveis das realidades, estas (realidades) ficaram reduzidas a suas medidas, proporções e relações, que, por assim dizer, ficaram ?pairando no ar?, sem nenhum ?suporte? real (?substância? ou ?essência?). Não se tratou só de abrir mão da investigação da realidade enquanto realidade (aquela parte da Ciência ou Filosofia conhecida como ?Metafísica?), mas do próprio caráter real, metafísico, de cada realidade (não é uma cisão entre um tipo de objeto e outros, mas dentro de cada objeto mesmo!); ou seja, não é que se estude ?tal realidade?, mas apenas, seja-me permitida a expressão, o ?tal?, desprovido de caráter real, essencial ou, antes, confundido com este caráter.

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Ao obter tantas previsões e destacar-se sobremaneira na Ciência, a Física teve seu caminho seguido por várias outras partes (da Ciência, ou Filosofia), tanto no investimento no método matemático, quanto na negligência a respeito da essência de seus objetos de estudo. Assim, por exemplo: a ?Biologia? estuda os diversos tipos de ?vida?, a configuração de seus organismos, seu surgimento, evolução, etc., mas não estuda formalmente o que é ?a? Vida (a Alma); a ?Química? estuda os diversos tipos de ?matéria? (as diversas substâncias químicas), sua estrutura, composição, suas transformações, etc., mas não estuda formalmente o que é ?a? Matéria; a ?Sociologia? estuda os diversos tipos de ?sociedade?, seus estratos, as relações sociais, mas não estuda ?a? Sociedade (a Realidade Social); etc. Penso que os exemplos são suficientes: a Física arrastou tanto aquelas que são denominadas ?ciências exatas? ou da ?natureza? (que agora tem um sentido completamente diferente de ?princípio do movimento dos corpos?, significando simplesmente ?conjunto de coisas mensuráveis? ou, mais grave, ?conjunto de coisas existentes?), quanto as chamadas ?ciências humanas e sociais? ? não entrarei aqui no mérito do desenvolvimento posterior das ciências humanas, em seu esforço por se livrarem do paradigma matemático, nem no do ?indeterminismo? da Física contemporânea, por exemplo, que revela que a aplicação da Matemática à natureza nos dá um saber probabilístico, e não certo; interessam aqui a gênese e as conseqüências da separação entre Filosofia e ?Ciência Moderna?.

A ?Filosofia? não é mais toda a ?Ciência? (nome que lhe foi usurpado pelas diversas ?ciências particulares?) e virou sinônimo de ?especulação teórica sem pé na realidade? (realidade entendida de modo reduzido, como ?aquilo que se pode medir?). Mas a nomenclatura ?Ciência Moderna?, por si já revela a existência de uma ?Ciência antiga e medieval?, inseparável da Metafísica, que era a ciência mais importante, cujo ápice, na Idade Média cristã, era a ?Teologia?, estudo da Realidade Absoluta, do Ser por excelência, Deus. A Teologia, por sua vez, tinha uma parte ?natural?, ou estudo de Deus feito com a razão somente (que já em Aristóteles constituía a parte mais importante da Metafísica), e também, a partir da Revelação cristã, constituía-se como ?Ciência Sagrada? ou especulação sobre Deus feita a partir dos dados fornecidos por essa Revelação. É verdade que nem todo ?cientista? ou ?filósofo? era necessariamente ?teólogo? ou ?metafísico?, mas não havia uma posição geral de enfrentamento. A Metafísica é hoje a disciplina filosófica por excelência, e também a Teologia separou-se da Filosofia, como reflexo das separações efetuadas na modernidade, entre Religião e Estado e Fé e Razão. A Revelação fugiria ao escopo da Razão humana; inclusive, para muitos filósofos, a própria teologia natural seria uma tarefa impossível de ser realizada.

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Antes de terminar, gostaria de fazer uma caracterização mais abrangente da Filosofia, daquilo que ?que restou dela?, e deixar claro, desde já, que tal situação não é de todo má, e que não estou postulando aqui uma ?reabsorção? das ciências particulares na Filosofia (ou na Teologia). O que sim é ruim é a separação entre esses três estratos (Teologia, Filosofia e Ciência) do conhecimento especulativo humano; uma maior autonomia de cada um deles que não perca de vista a unidade do saber (que se funda na unidade da realidade), enriquece a compreensão do real.

Este caráter de ?realidade? que a Filosofia investiga é suficientemente rico para que não falte trabalho ao filósofo! A realidade se atualiza (se faz presente) na nossa inteligência como Verdade, na nossa vontade como Bem, e na nossa afetividade como Beleza, três caracteres inseparáveis, e que também são ?transcendentais?, pertencem a cada realidade (perpassam a cada ente). Daí que a Filosofia, além do estudo da ?realidade enquanto realidade? (do ?ser enquanto ser?) ou ?Metafísica?, também comporta as seguintes disciplinas principais: ?Teoria do Conhecimento? ou ?Epistemologia?, estudo da Verdade ou realidade atualizada em nossa inteligência, de como o homem apreende e conhece a realidade (embora eu prefira o nome ?Noologia?, ?estudo do intelecto?, ou ?Psicologia filosófica?, como essa disciplina era chamada antes de Kant, uma vez que o ?conhecimento? racional não é o modo primário do ?saber? humano); ?Ética?, que é o estudo do Bem e das ações morais, de como o homem pode ser feliz, atualizando as possibilidades de realizar concretamente o bem (a Ética implica uma compreensão global de ?quem é o homem?, pois o ?ser? precede ao ?fazer?, e por isso também poderíamos compreendê-la como ?Antropologia Filosófica?); e ?Estética?, estudo do Belo, da ?pulcritude? da realidade que disponibiliza o homem a amar e a entregar-se mais à Verdade e ao Bem (e que se concretiza na obra de arte).

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Como as ciências particulares não se dedicam à investigação da essência dos seus objetos ? entendida essa investigação de modo clássico, do ?que é? a realidade que tem tais e tais características (ou seja, como a configuração de tais características conforma uma tal realidade, e não outra) ?, ou de sua própria ação, a Filosofia comporta também outras disciplinas menores, como a ?Filosofia da Ciência?, a ?Filosofia da Natureza?, a ?Filosofia Política?, a ?Filosofia do Direito?, etc.

Evidentemente, os conhecimentos adquiridos pelas ciências particulares ajudam a Filosofia a conhecer melhor as essências formais de cada realidade, incluindo aquelas que constituem seus objetos principais ? os conhecimentos da ?neurologia? ou da ?psicologia científica?, por exemplo, irão ajudar na compreensão formal da intelecção humana, que não se reduz aos processos neurológicos e psicológicos, mas relaciona-se intimamente com os mesmos (o contrário é supor o dualismo cartesiano). E também, da mesma forma, todo cientista não tem como deixar de realizar sua investigação sem uma visão geral da realidade, sem uma ?metafísica?, num sentido lato; o que ocorre é que, muitas vezes, tal visão é míope ? claro que há cientistas mais profundos, que têm uma visão metafísica mais elaborada, e reconhecem o devido papel da Filosofia no conhecimento da realidade.

Cabe aos ?cientistas? cristãos ? e incluo nessa rubrica a teólogos, filósofos e cientistas como se entende atualmente (a escolha desse termo é coerente com o que foi aqui exposto, e eu penso que preferível à das palavras ?intelectual? ou ?pensador?, que têm determinadas conotações ideológicas) ? indicarem e esclarecerem cada vez mais os nexos que unem a Teologia (fruto da especulação racional feita com Fé a respeito da Revelação), a Filosofia (incluindo a ?teologia natural?) e a Ciência (como entendida a partir da modernidade) ? o conhecimento dos novos rumos das ciências modernas, que não quis abordar, pode vir em auxílio dessa tarefa ?, e assim, lograrem um mais autêntico conhecimento da realidade, que leve em consideração a dimensão da profundidade e o Fundamento de toda verdade. O que fiz agora foi apenas indicar alguns apontamentos para uma pesquisa mais árdua sobre a questão.