Respostas Católicas

Desinformação anticlerical

Desinformação anticlerical

por  Marcelo Moura Coelho em 10 de Agosto de 2004

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Nestes tempos do politicamente correto, em que ter qualquer tipo de preconceito ou praticar qualquer forma de discriminação é considerado crime hediondo, existe um preconceito que não apenas sobrevive, como está ficando cada vez mais forte: o preconceito anti-religioso. As religiões seriam meramente o ópio do povo, serviriam no máximo para controlar as massas populares enquanto elas são ignorantes, pois quando ficarem inteligentes poderão se guiar somente pelo poder da razão. As religiões são retratadas como opositoras do progresso e da ciência, num pensamento que ainda ecoa a filosofia iluminista.

Um preconceito ainda maior existe em relação à Igreja Católica. O papel que a Igreja teve na formação da civilização ocidental, mais o fato de ela ser uma instituição religiosa única (por uma una, ao contrário das igrejas protestantes ou templos das outras religiões que não são subordinadas a um único comando.) transforma-na num dos sacos de pancada mais famosos da atualidade. E a revista Veja acaba de desferir mais um golpe contra Ela.

Na edição dessa semana, a revista apresenta uma reportagem de Mário Sabino e um artigo de Tales Alvarenga criticando a carta sobre o feminismo do cardeal Joseph Ratzinger (aprovada pelo papa João Paulo II), prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. A revista chama a carta de reacionária, retrógrada e anacrônica, argumentando que a Igreja hoje oprimiria as mulheres, quando no passado Ela foi sinônimo de libertação para elas.

A reportagem e o artigo são cheios de lugares comuns anticlericais e ambos terminam com uma profecia: A Igreja ainda aceitará o feminismo como um grande conquista. Mário Sabino chega a falar que a Igreja irá romper com essa tradição. Ao falar isso o jornalista mostra um total desconhecimento da realidade eclesiástica, pois um dos fatores que mais caracterizam a Igreja Católica diferenciado-a das denominações protestantes, é que um de seus fundamentos é justamente a Tradição. A Tradição e a Sagrada Escritura são os guias para as ações da Igreja, de modo que esta não pode contrariar aquelas.

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O jornalista, apesar de citar trechos da carta, parece que não a leu inteira. Ou se o fez, quis apenas citar trechos isolados que parecem negativos às mulheres. Em todo caso é bom ir direto à fonte. Neste caso, ler a carta. Já é bom deixar claro que a carta condena sim o feminismo. Mas isso de forma alguma significa que para a Igreja deprecie a mulher, muito pelo contrário. Na carta o cardeal Ratzinger faz uma apologia das mulheres de dar inveja a qualquer feminista.

O cardeal inicia sua carta expondo as duas visões modernas sobre a mulher. A primeira é aquela de tendência contestatória, em que mulheres e homens são inimigos, causando resultados nefastos nos relacionamentos humanos, principalmente na estrutura família. A segunda é aquela que propaga que declara não haver diferenças entre homem e mulher, a não ser condicionamentos histórico-culturais (que obviamente poderiam ser mudados, segundo a concepção feminista).

Logo depois o cardeal passa a expor aquilo que ele mesmo chama de ?dados fundamentais da antropologia bíblica?. Ratzinger enfatiza que, de acordo com o Gênesis, a mulher foi criada por Deus não para ser sua subalterna, mas sim para ser sua ?companheira de vida?. Só esse trecho já desmente qualquer conotação depreciativa que o documento teria.

O cardeal mostra também que para a Igreja, a posição subalterna que a mulher ocupou durante séculos é dos males resultantes do pecado original, citando um versículo do Gênesis: ?Sentir-te-ás atraída para o teu marido e ele te dominará? (Gen 3,16). Vê-se, portanto, que a submissão da mulher ao homem, ao invés de ser vista como um bem pela Igreja, como pensam as feministas, é retratado como um mal, como uma alteração dos planos divinos. O cardeal completa ainda que a antropologia bíblica ensina uma atividade relacional e não de desforra na resolução de problemas que envolvam a diferenças de sexo. Diferenças que segundo o cardeal não são apenas de natureza histórico-culturais, mas também de cunho físico, psicológico e espiritual.

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Prossegue o cardeal lembrando simbolismo bíblico, que no Antigo Testamento retratava Israel como a esposa de Deus e no Novo Testamento retrata a Igreja como a esposa de Cristo, retratando os papéis masculinos e femininos da história da salvação. Ora, qualquer um conheça um pouco a Bíblia sabe o importante papel que Israel e a Igreja desempenham nos planos de Deus, o que por si só desconfigura qualquer tipo de preconceito machista.

Outro erro cometido pelo jornalista, pelo articulista e pelas feministas é desconhecer o papel de Maria na Igreja Católica. Para os católicos Nossa Senhora é o maior ser humano que já existiu, existe ou existirá sobre a face da terra (seu filho não conta, pois era Deus que se fez homem), maior que qualquer santo, teólogo ou papa. Nós a veneramos como Rainha dos Céus, ?Mãe de meu Senhor” (Lc. 1, 43). Como poderia a Igreja venerar uma mulher, ao mesmo tempo em que a acha inferior?

Finalmente o cardeal fala da importância dos valores femininos na sociedade atual, enaltecendo-os: ?Uma tal intuição é ligada à sua capacidade física de dar a vida. Vivida ou potencial, essa capacidade é uma realidade que estrutura em profundidade a personalidade feminina. Permite-lhe alcançar muito cedo a maturidade, sentido da gravidade da vida e das responsabilidades que a mesma implica. Desenvolve em si o sentido e o respeito do concreto, que se opõe às abstrações, muitas vezes mortais para a existência dos indivíduos e da sociedade. É ela, enfim, que, mesmo nas situações mais desesperadas ? a história passada e presente são testemunho disso ?, possui uma capacidade única de resistir nas adversidades; de tornar a vida ainda possível, mesmo em situações extremas; de conservar um sentido tenaz do futuro e, por último, recordar com as lágrimas o preço de cada vida humana?. O cardeal ainda pontua que ?feminilidade é mais do que um simples atributo do sexo feminino. A palavra designa, com efeito, a capacidade fundamentalmente humana de viver para o outro e graças ao outro?. Como diabos um documento que faz tal elogio às mulheres pode ser chamado de reacionário, retrógrado e anacrônico?

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As feministas poderiam argumentar que ainda assim a Igreja quer negar às mulheres um papel no mundo do trabalho, relegando-as ao papel de mera dona de casa. Não é o que está escrito na carta: ?Isso implica também que as mulheres estejam presentes no mundo do trabalho e da organização social e que tenham acesso a lugares de responsabilidade, que lhes dêem a possibilidade de inspirar as políticas das nações e promover soluções inovadoras para os problemas econômicos e sociais?. Ou ainda: ?Portanto, a promoção da mulher no seio da sociedade deve ser compreendida e querida como uma humanização, realizada através daqueles valores que foram redescobertos graças às mulheres?.

O que o cardeal faz é condenar as mulheres que em prol do trabalho relegam suas famílias ao segundo plano. O cardeal ainda condena também o preconceito que sofrem as mulheres que escolhem ser donas de casa, lembrando que essas mulheres são socialmente estigmatizadas. Só não falou que quem mais as estigmatiza são as próprias feministas

Para finalizar, o cardeal ainda fala que a mulher tem uma fé mais intensa que o homem: ?Embora sejam atitudes que deveriam ser típicas de todo o batizado, na realidade é típico da mulher vivê-las com especial intensidade e naturalidade. Assim, as mulheres desempenham um papel de máxima importância na vida eclesial, lembrando essas disposições a todos os batizados e contribuindo de maneira ímpar para manifestar o verdadeiro rosto da Igreja, esposa de Cristo e mãe dos crentes?. Ou seja, Ratzinger fala que as mulheres vão para o Céu com mais facilidade que os homens!

Diante da transcrição desses trechos torna-se até desnecessário tecer argumentos contra a tese da revista Veja, tão claro é o documento.

Link da reportagem de Mario Sabino: http://veja.abril.uol.com.br/110804/p_086.html

Link do artigo de http://veja.abril.uol.com.br/110804/tales_alvarenga.html