Documentos da Igreja

Ecclesia in oceania – parte iii

CAPÍTULO III 

PROCLAMANDO A VERDADE DE JESUS CRISTO NA OCEÂNIA 

« Achando-Se Jesus junto ao lago de Genesaré e comprimindo-se sobre Ele a multidão para escutar a palavra de Deus, viu duas barcas estacionadas à beira do lago. Os pescadores que delas haviam descido lavavam as redes. Entrou numa das barcas, que era de Simão, pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra e, sentando-Se, pôs-Se a ensinar, da barca, a multidão » (Lc 5, 1-3). 

UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO 

Evangelização na Oceânia 

18. A evangelização é a missão que a Igreja tem de proclamar ao mundo a verdade de Deus revelada em Jesus Cristo. Os Padres Sinodais acharam por bem escolher a communio como tema e meta da evangelização na Oceânia (60) e base de toda a planificação pastoral. Na evangelização, a Igreja manifesta a sua comunhão íntima e age como um único corpo, esforçando-se por levar a humanidade inteira à unidade com Deus através de Cristo. Cada baptizado tem a obrigação de proclamar, por palavras e obras, o Evangelho ao mundo onde vive.(61) O Evangelho deve ser ouvido na Oceânia por todos: crentes e não crentes, nativos e imigrantes, ricos e pobres, jovens e idosos; todos têm o direito de ouvir a Boa Nova, pelo que os cristãos têm a obrigação grave de comunicá-la. Hoje é necessária uma nova evangelização, para que cada um possa ouvir, compreender e acreditar na misericórdia de Deus oferecida, em Jesus Cristo, a todos os povos. 

Durante a Assembleia Especial, os bispos puseram em comum o rico tesouro de experiências pastorais deles e das pessoas com quem trabalham mais estreitamente; e individuaram assim conjuntamente novas perspectivas para o futuro da Igreja na Oceânia. Muitos deles falaram da dificuldade do isolamento, da necessidade de atravessar distâncias enormes e da vida em ambientes inóspitos. Mas relataram também experiências muito positivas que atestam o vigor da fé e da communio, quando as pessoas acolhem o Evangelho e descobrem o amor de Deus. Os Padres Sinodais falaram ainda das esperanças e medos, dos sucessos e desilusões, do crescimento e declínio das Igrejas particulares na Oceânia. A alguns pareceu que a Igreja na Oceânia se encontra numa encruzilhada, o que requer importantes decisões para o futuro. À vista dos grandes desafios colocados pelas novas circunstâncias no Continente, todos concordaram que chegou o tempo de apresentar novamente o Evangelho aos povos do Pacífico, permitindo-lhes ouvir a palavra de Deus com renovada fé e encontrar uma vida mais abundante em Cristo; mas, para isso, há necessidade de novos caminhos e métodos de evangelização, inspirados por uma fé, esperança e caridade mais profundas no Senhor Jesus. 

Como primeiro passo para a necessária « renovação da mente » (cf. Rom 12, 2), os bispos apregoaram os numerosos esforços para aplicar as orientações do Concílio Vaticano II, sublinhando que estas estão a ser gradualmente actuadas e que há necessidade doutras iniciativas para reforçar a fé daqueles que a deixaram enfraquecer e para apresentá-la de forma mais persuasiva à sociedade em geral. O convite à renovação é um chamamento para proclamar ao mundo a verdade de Jesus Cristo, dando testemunho d’Ele até ao sacrifício supremo do martírio. A isto mesmo é chamada hoje a Igreja na Oceânia, sendo essa também a razão fundamental que motivou a celebração da Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos.(62) 

Mas é fácil que este chamamento de Deus não chegue a ser ouvido, por causa da transformação global que está a afectar a identidade cultural e as instituições sociais da região. Alguns temem que as mudanças possam minar os alicerces da fé, deixando-se cair no abatimento de espírito e no desânimo. Perante isto, precisamos de recordar que o Senhor nos dá a força necessária para superar tais tentações; a fé n’Ele é como uma casa construída sobre a rocha: « Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa; mas não ruiu, porque estava fundada sobre a rocha » (Mt 7, 25). Com a força do Espírito Santo, a Igreja na Oceânia está a preparar-se para uma nova evangelização de povos que hoje têm fome de Cristo. « É este o tempo favorável; este é o dia da salvação » (2 Cor 6, 2). 

Muitos Padres Sinodais mostraram-se preocupados pelo reduzido peso público da fé cristã na Oceânia, observando que tem diminuído a sua influência em âmbitos relacionados com o bem comum, a moralidade pública e administração da justiça, o estatuto do matrimónio e da família, ou mesmo o direito à vida. Alguns bispos assinalaram que a doutrina da Igreja por vezes é posta em questão pelos próprios católicos; quando isto é verdade, não deve surpreender que a voz da Igreja seja menos influente na vida pública. 

Os desafios da modernidade e pós-modernidade, embora sentidos por todas as Igrejas particulares da Oceânia, são experimentados com maior intensidade por aquelas que vivem em sociedades mais afectadas pela secularização, pelo individualismo e pelo consumismo. Numerosos bispos puderam constatar sinais de diminuição da fé e da prática católica na vida das pessoas, quando estas aceitaram como norma de discernimento e conduta uma visão completamente secularizada. A este propósito, já o Papa Paulo VI acautelava os crentes, fazendo notar « o perigo que há de se reduzir tudo a um certo humanismo puramente terrestre, em que se esquece a dimensão moral e espiritual da vida e já não se cuida da necessária relação do homem com o Criador ».(63) A Igreja vê-se obrigada a cumprir a sua missão evangelizadora num mundo cada vez mais secularizado: o sentido de Deus e da sua amorosa providência diminuiu em muitas pessoas e até em sectores inteiros da sociedade, e o indiferentismo prático em relação às verdades e valores religiosos ofusca o rosto do amor divino. Por isso, « entre as prioridades de um renovado empenho de evangelização, conta-se a de promover um retorno ao sentido do sagrado, a uma consciência da centralidade de Deus na globalidade da experiência humana ».(64) A nova evangelização é uma prioridade para a Igreja na Oceânia. De certo modo, a sua missão é simples e clara: propor uma vez mais à sociedade humana o Evangelho integral da salvação em Jesus Cristo. É enviada ao mundo actual, aos homens e mulheres do nosso tempo, « a pregar o Evangelho, (…) a fim de se não desvirtuar a Cruz de Cristo. Porque a linguagem da Cruz (…) é poder de Deus » (1 Cor 1, 17-18).(65) 

Os agentes da evangelização 

19. À semelhança dos Apóstolos, os bispos são enviados às suas dioceses como primeiras testemunhas de Cristo ressuscitado. Unidos ao Sucessor de Pedro, formam um colégio responsável pela difusão do Evangelho no mundo. Durante a Assembleia Especial da Oceânia, os bispos reconheceram-se como os primeiros chamados a uma renovação da vida e testemunho cristão. Um maior estudo da Escritura e da Tradição, alimentado pela oração, conduzi-los-á a um conhecimento e amor mais profundo da fé. Poderão assim, como pastores do seu povo, contribuir ainda mais eficazmente para o trabalho da nova evangelização.(66) Como se vê claramente nos Actos dos Apóstolos, a característica peculiar da missão apostólica apoiada pelo Espírito Santo é a coragem de proclamar « a palavra de Deus com desassombro » (4, 31). Esta coragem foi-lhes dada como resposta à oração de toda a comunidade: « E agora, Senhor, (…) concede aos teus servos poderem anunciar a tua palavra com todo o desassombro » (4, 29). O mesmo Espírito torna, hoje também, os bispos capazes de falar clara e corajosamente diante duma sociedade que precisa de ouvir o anúncio da verdade cristã. Os católicos da Oceânia continuem a rezar fervorosamente pelos seus pastores para que sejam, como os Apóstolos, testemunhas audazes de Cristo; e o Sucessor de Pedro associa-se a eles numa tal súplica. 

Com os bispos, são chamados a proclamar o Evangelho todos os fiéis cristãos: sacerdotes, consagrados e leigos. A sua communio exprime-se num espírito de cooperação, sendo isto mesmo já um forte testemunho do Evangelho. Os sacerdotes são os colaboradores mais estreitos dos bispos e constituem para eles o maior auxílio na obra da evangelização, sobretudo nas comunidades paroquiais confiadas aos seus cuidados.(67) Oferecem o sacrifício de Cristo pelas necessidades da comunidade, reconciliam os pecadores com Deus e com a comunidade, fortificam os doentes na sua peregrinação para a vida eterna,(68) permitindo assim à comunidade inteira dar testemunho do Evangelho em todos os momentos da vida e na morte. Os homens e mulheres de vida consagrada são sinais vivos do Evangelho. Os votos de pobreza evangélica, castidade e obediência constituem itinerário seguro para um conhecimento e amor mais profundo a Cristo, e desta intimidade com o Senhor brota o seu serviço de consagração na Igreja, que assim se tem demonstrado uma graça maravilhosa na Oceânia.(69) Os leigos, por sua vez, têm como função específica consagrar o mundo a Deus; e muitos deles estão a adquirir um sentido mais profundo de quanto seja indispensável o seu papel na missão evangelizadora da Igreja.(70) Na sua actividade no mundo onde quer que seja, através do testemunho de amor no sacramento do matrimónio ou da generosa dedicação de pessoas chamadas à vida celibatária, os leigos podem e devem ser verdadeiro fermento em cada ângulo da sociedade na Oceânia. Disto mesmo depende em larga medida o êxito da nova evangelização. 

A nova proclamação de Cristo deve brotar duma renovação interior da Igreja e, vice-versa, toda a renovação na Igreja há-de ter como alvo a missão, para não cair vítima duma espécie de introversão eclesial. Cada aspecto da missão da Igreja no mundo deve partir duma renovação que derive da contemplação do rosto de Cristo.(71) Esta renovação, por sua vez, faz surgir novas estratégias pastorais. A tal respeito, a Assembleia Especial convidou as comunidades locais a contribuírem para a nova evangelização, cultivando um espírito de fraternidade nas suas liturgias e nas suas actividades sociais e apostólicas, abeirando-se dos católicos não praticantes ou afastados, reforçando a identidade das escolas católicas, oferecendo aos adultos oportunidades de crescer na fé através de programas de estudo e formação, ensinando e explicando de maneira eficaz a doutrina católica àqueles que estão fora da comunidade cristã, e procurando que a doutrina social da Igreja influa sobre a vida pública da Oceânia.(72) Em consequência destas e doutras iniciativas, o Evangelho poderá ser apresentado com maior convicção à sociedade e influenciar mais profundamente a sua cultura. 

Os primeiros cristãos foram impelidos pelo Espírito Santo a crerem em Cristo, proclamando-O como o único Salvador do mundo enviado pelo Pai. Em todo o tempo, o verdadeiro agente da renovação e evangelização é o Espírito Santo, que seguramente não deixará de ajudar a Igreja a encontrar agora, numa sociedade em rápida mutação, as energias evangelizadoras e os meios necessários. E a nova evangelização há-de proporcionar aos povos da Oceânia os mesmos frutos maravilhosos do Espírito Santo que saborearam os primeiros cristãos, quando encontraram o Senhor ressuscitado e receberam o dom do seu amor, que é ainda mais forte do que a morte. 

O primado da proclamação 

20. O kerygma é a palavra de Deus proclamada com o objectivo de pôr a humanidade numa justa relação com Deus através da fé em Cristo. Vemos a força do kerygma em acção na primeira comunidade de Jerusalém: « Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações » (Act 2, 42). Tal é a essência da vida cristã, o fruto da primeira evangelização. A adesão a Cristo manifesta-se através da fé na sua palavra proclamada pela Igreja. S. Paulo interroga-se: « E como pregarão se não forem enviados? » (Rom 10, 15); na verdade, Cristo enviou os seus Apóstolos, cuja voz « ressoou por toda a terra, e a sua mensagem até aos confins do mundo » (Sal 1918, 5). Como « testemunhas da verdade divina e católica »,(73) os missionários na Oceânia viajaram por terra e mar, atravessaram desertos e paludes, enfrentaram grandes dificuldades culturais no cumprimento da sua obra excepcional. Inspirados pela história do nascimento da Igreja na Oceânia, os Padres Sinodais sentiram a necessidade duma nova e corajosa pregação do Evangelho em nossos dias. 

A Igreja, ao querer proclamar o Evangelho na Oceânia, enfrenta um duplo desafio: por um lado as religiões e culturas tradicionais, e por outro o actual processo de secularização. Em ambos os casos, « a primeira e mais urgente missão é o anúncio de Cristo ressuscitado, que há-de ser proposto num encontro pessoal, capaz de levar o interlocutor à conversão do coração e ao pedido do baptismo ».(74) Quer se encontre com as religiões tradicionais quer com uma requintada filosofia, a Igreja proclama por palavras e obras « a verdade que existe em Jesus » (Ef 4, 21; cf. Col 1, 15-20). À luz desta verdade, ela oferece o seu contributo para a discussão sobre os valores e princípios éticos que concorrem para a felicidade da vida humana e a paz da sociedade. A fé deve apresentar-se sempre de forma racionalmente coerente, favorecendo assim a sua penetração em campos cada vez mais vastos da experiência humana. De facto, a fé tem em si mesma a força de plasmar a cultura, permeando até ao núcleo essencial as suas motivações. Alertadas tanto pela tradição cristã como pelas mudanças culturais contemporâneas, a palavra da fé e a da razão devem caminhar de mãos dadas com o testemunho de vida para que a evangelização produza fruto; mas sobretudo há necessidade duma proclamação intrépida de Cristo, há necessidade do « desassombro (parresia) da fé ».(75) 

Veja também  Carta do papa aos católicos da china

Evangelização e mass-media 

21. No mundo actual, os meios de comunicação social são cada vez mais poderosos como agentes da modernização, mesmo nas partes mais remotas da Oceânia. Têm um grande impacto na vida das pessoas, na sua cultura, pensamento moral e comportamento religioso, pelo que, se usados indiscriminadamente, podem ter um efeito nocivo sobre as culturas tradicionais. Os Padres Sinodais apelaram para uma maior consciência do poder dos mass-media, que « oferecem à Igreja uma oportunidade extraordinária de evangelizar, ser uma voz profética na sociedade, construir comunidade e solidariedade » (76) e para criar elos novos entre as pessoas. De facto, muitas vezes os mass-media proporcionam o único contacto que a Igreja tem com os católicos não praticantes ou mais afastados da comunidade, devendo por conseguinte ser utilizados de forma criativa e responsável.(77) 

Onde for possível, a Igreja forme um plano pastoral para as comunicações sociais a nível nacional, diocesano e paroquial. É necessária uma coordenação dos esforços eclesiais para garantir melhor a preparação daqueles que representam a Igreja nos mass-media,(78) e encorajar leigos de fé comprovada a entrarem profissionalmente nos meios de comunicação social como resposta a uma vocação. É um sinal de esperança o facto de haver cristãos empenhados nos mass-media que mostram o seu compromisso com os valores cristãos. Com a sua assistência, podem ser produzidos profissionalmente materiais e programas religiosos que transmitam os valores humanos e morais, ainda que o financiamento de tais actividades constitua muitas vezes um problema. Um centro católico de meios de comunicação para toda a Oceânia poderia ser uma válida ajuda para a utilização dos mass-media no campo da evangelização. Os bispos afirmaram a sua preocupação pelos critérios de honestidade nos meios de comunicação públicos e denunciaram o alto nível de violência que neles se verifica.(79) Os responsáveis eclesiais devem colaborar para a redacção dum código de comportamentos éticos nos mass-media.(80) Também as famílias e os jovens precisam de assistência para avaliarem criticamente o conteúdo dos programas; daí que as instituições educativas católicas tenham uma função vital nesta obra de ajudar as pessoas, sobretudo jovens, a fazerem uma análise crítica dos mass-media. A fé cristã desafia-nos a ser ouvintes, telespectadores e leitores que sabem escolher.(81) 

Os bispos mostraram-se preocupados também com a utilização da publicidade nos mass-media, realçando a grande influência que ela tem como estímulo tanto para o bem como para o mal. O processo de globalização e a crescente situação de monopólio nos mass-media conferiram-lhe ainda maior poder sobre as pessoas. Com a força sugestiva das imagens, a publicidade propaga muitas vezes uma cultura consumista, que reduz a pessoa àquilo que possui ou que pode comprar. Isto leva-a a pensar que não há mais nada para além do que uma economia de consumo pode dar. « A maior preocupação com o seu poder provém do facto de que ela, na sua maioria, propaga incessantemente uma ideologia que é nitidamente contrária à visão da fé católica ».(82) É importante, pois, que os fiéis, sobretudo os jovens, sejam preparados para adoptarem uma atitude crítica perante a publicidade, realidade omnipresente na vida de hoje; para isso, têm de ser formados com um sentido claro e forte dos valores humanos e cristãos que estão na base da visão católica da vida. 

O ACTUAL DESAFIO DA FÉ  

Catequese 

22. Na sua missão de « proclamar a verdade de Jesus Cristo » na Oceânia de hoje, a Igreja é chamada a renovar a sua catequese, o ensino e a formação da fé. O impacto dos mass-media na vida das pessoas ilustra bem como uma nova realidade social exige formas inovadoras de apresentar a fé. O objectivo da catequese é educar as crianças, os jovens e os adultos na fé; isto comporta sobretudo « um ensino da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com o fim de os iniciar na plenitude da vida cristã ».(83) Os Padres Sinodais propuseram um maior investimento de meios económicos e de pessoas para se alcançar mesmo os sujeitos que mais facilmente ficam ignorados. A necessidade de cursos completos para adultos e crianças com especiais limitações, que não frequentam escolas católicas, reclama uma atenção particular e planificação sistemática. Basilar entre todos os direitos humanos é a liberdade de religião, que inclui o direito de ser instruído na fé.(84) « Todos os baptizados, pelo facto mesmo do seu baptismo, possuem o direito de receber da Igreja um ensino e uma formação que lhes permitam chegar a ter uma verdadeira vida cristã ».(85) Isto exige que os governos e os responsáveis escolares garantam o respeito efectivo deste direito. « Quando há uma autêntica colaboração entre o governo e a Igreja relativamente à instituição e funcionamento das escolas, a educação das crianças e jovens da nação é imensamente promovida ».(86) Religiosos e religiosas, leigos e sacerdotes têm trabalhado para conseguir este objectivo, frequentemente com prodigiosos esforços e muitos sacrifícios. O seu trabalho deve ser consolidado e ampliado para que todos os baptizados cresçam na fé e na compreensão da verdade de Cristo. 

Ecumenismo 

23. Os Padres Sinodais consideraram a separação dos cristãos como um grande obstáculo à credibilidade do testemunho da Igreja, tendo expresso o desejo ardente de que cesse o escândalo da divisão e sejam feitos novos esforços de reconciliação e diálogo, para que o esplendor do Evangelho possa irradiar mais claramente. 

Em muitas regiões missionárias da Oceânia, as diferenças entre Igrejas e Comunidades Eclesiais conduziram, no passado, ao antagonismo e à contraposição. Nos tempos recentes, porém, o relacionamento tem sido mais positivo e fraterno. A Igreja na Oceânia tem dado grande prioridade ao ecumenismo, revestindo-se de novidade e abertura as actividades ecuménicas; estas são acolhidas favoravelmente como oportunidade para « um diálogo de salvação »,(87) que tem em vista uma maior compreensão e mútuo enriquecimento. O ardente desejo da unidade na fé e no culto é um dos dons do Espírito Santo à Oceânia,(88) e a cooperação nas áreas da assistência caritativa e da justiça social é um sinal claro de fraternidade cristã. O ecumenismo encontrou na Oceânia um terreno fértil onde lançar raízes, porque, em muitos lados, as comunidades locais sentem-se intimamente unidas. Um desejo ainda mais intenso de unidade na fé ajudará a conservar unidas estas comunidades. Este anseio duma comunhão mais profunda em Cristo estava simbolizado, no Sínodo, pela presença de delegados fraternos doutras Igrejas e Comunidades Eclesiais. As suas contribuições foram estimulantes e proveitosas para avançar rumo à unidade querida por Cristo. 

No trabalho ecuménico, é essencial que os católicos estejam bem preparados no conhecimento da doutrina, tradição e história da Igreja, para que, compreendendo mais profundamente a sua fé, saibam empenhar-se melhor no diálogo e colaboração ecuménica. Além disso, há necessidade de um « ecumenismo espiritual », ou seja, o ecumenismo de oração e conversão do coração. A oração ecuménica frutificará na partilha de vida e de serviços, de modo que os cristãos realizem juntos tudo o que for possível nas circunstâncias actuais. Um « ecumenismo espiritual » pode levar também ao diálogo doutrinal ou, onde este já exista, à sua consolidação. Os Padres Sinodais consideraram muito útil haver, para uso conjunto, edições da Sagrada Escritura e orações ecumenicamente aceites. Esperam ver dada maior atenção às necessidades pastorais das famílias cujos membros pertencem a comunidades cristãs diferentes. Encorajaram também as comissões eclesiais a partilharem, se possível, os serviços sociais com outras comunidades cristãs. É bom que os responsáveis cristãos ajam de comum acordo e façam declarações comuns sobre questões religiosas e sociais, quando tais declarações forem necessárias e oportunas.(89) 

Grupos fundamentalistas 

24. Há que distinguir o ecumenismo da aproximação eclesial a grupos ou movimentos religiosos fundamentalistas, alguns dos quais são de inspiração cristã. Nalgumas regiões missionárias, os bispos estão preocupados com a influência que eles têm sobre a comunidade católica. Alguns grupos fundamentam as suas ideias numa leitura da Bíblia que usa frequentemente imagens apocalípticas, ameaças de um futuro negro para o mundo, e promessas de recompensas económicas para os seus sequazes. Enquanto alguns destes grupos são abertamente hostis à Igreja, outros desejariam entrar em diálogo. Nas sociedades mais desenvolvidas e secularizadas, cresce a preocupação com grupos cristãos fundamentalistas que arrastam a juventude para longe da Igreja e até das suas famílias. Muitos movimentos diversos oferecem uma espécie de espiritualidade como suposto remédio para os efeitos nocivos duma cultura tecnológica alienante, contra a qual muitas vezes as pessoas se sentem impotentes. A presença e actividade de tais grupos e movimentos são um desafio para a Igreja, obrigando-a a revitalizar o seu serviço pastoral e a ser mais acolhedora para com os jovens e quantos vivem em grave carência espiritual ou material.(90) É uma situação que clama também por melhor catequese bíblica e sacramental e uma formação espiritual e litúrgica apropriada. Há necessidade ainda duma nova apologética, de acordo com as palavras de S. Pedro: « Estai sempre prontos a responder (…) a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança » (1 Ped 3, 15). Deste modo, os fiéis estarão mais seguros na sua fé católica e menos expostos à sedução destes grupos e movimentos que, muitas vezes, acabam por dar precisamente o contrário do que prometem. 

Diálogo inter-religioso 

25. Maiores oportunidades de viajar e possibilidades mais acessíveis de migração deram como resultado um encontro sem precedentes entre as culturas do mundo, explicando-se assim a presença na Oceânia das grandes religiões não cristãs. Algumas cidades têm comunidades hebraicas, compostas por um número considerável de sobreviventes do Holocausto, podendo elas desempenhar uma função importante nas relações entre hebreus e cristãos. Em certos lugares, encontram-se também estabelecidas há muito tempo comunidades muçulmanas; noutros, há comunidades de hindus; e noutros ainda, têm-se fundado centros budistas. É importante que os católicos conheçam melhor tais religiões, as suas doutrinas, modos de vida e culto. Quando pais pertencentes a estas religiões inscrevem os filhos em escolas católicas, a Igreja tem uma missão especialmente delicada. 

A Igreja na Oceânia deve estudar mais cuidadosamente as religiões tradicionais das populações indígenas, para entrar com maior eficácia no diálogo que o anúncio cristão requer. « O anúncio e o diálogo, cada um no próprio âmbito, são ambos considerados elementos componentes e formas autênticas da única missão evangelizadora da Igreja. Ambos são orientados para a comunicação da verdade salvífica ».(91) Para prosseguir um diálogo frutuoso com estas religiões, a Igreja precisa de peritos em filosofia, antropologia, religiões comparadas, ciências sociais e sobretudo em teologia. 

ESPERANÇA PARA A SOCIEDADE

A doutrina social da Igreja 

26. A Igreja considera o apostolado social como parte integrante da sua missão evangelizadora para dirigir uma palavra de esperança ao mundo; e o seu compromisso nesta linha é visível na contribuição que dá para o progresso humano, na promoção dos direitos humanos, na defesa da vida e dignidade humana, justiça social e na protecção do ambiente. Profundamente solidários com o seu povo, os Padres Sinodais reafirmaram a sua determinação de actuar contra as injustiças, a corrupção, as ameaças à vida e as novas formas de pobreza.(92) 

Nos fins do século XIX, quando a sociedade industrial e consumista dava os seus primeiros passos, a Igreja na Oceânia acolheu favoravelmente a doutrina social do Papa sobre os direitos dos trabalhadores ao emprego e a um justo salário. Nos países da Oceânia em vias de desenvolvimento, a doutrina social da Igreja tem sido bem recebida, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, e os bispos locais têm-na ensinado de forma eficaz e aplicada às questões sociais emergentes. As declarações feitas pela Federação das Conferências dos Bispos Católicos da Oceânia, pelas diversas Conferências Episcopais e pelos bispos individualmente tocam todos os âmbitos do ensinamento social da Igreja e mostram como esta tem procurado promover a causa dos indígenas e os direitos das nações mais pequenas, e ainda robustecer os vínculos da solidariedade internacional; tem também ajudado a desenvolver formas democráticas de governo que respeitem os direitos humanos, o estado de direito e a sua justa aplicação. 

Este empenho pela justiça social e a paz é, sem dúvida, uma parte integrante da missão da Igreja no mundo; (93) mas a sua missão não está subordinada a um poder político. « A Igreja preocupa-se com os aspectos temporais do bem comum em razão da sua ordenação ao Bem soberano, nosso fim último ».(94) A doutrina social da Igreja deve ser ensinada e actuada ainda mais eficazmente na Oceânia, sobretudo através de estruturas como as Comissões de Justiça e Paz. A referida doutrina há-de ser « apresentada claramente aos crentes em termos facilmente inteligíveis, e testemunhada por um estilo de vida simples ».(95) É necessária uma análise mais incisiva das injustiças económicas e da corrupção para que se possam propor medidas adequadas para vencê-las. Encorajem-se as organizações católicas consagradas à acção em prol da justiça para permanecerem atentas às novas formas de pobreza e injustiça e ajudarem a eliminar as suas causas. 

Veja também  Como amar o Papa

Direitos humanos 

27. Os Padres Sinodais fizeram votos de que os povos da Oceânia se tornem ainda mais conscientes da dignidade humana, baseada no facto de todos terem sido criados à imagem de Deus (cf. Gen 1, 26). O respeito da pessoa humana comporta a defesa dos direitos invioláveis que derivam precisamente da sua dignidade de pessoa. Todos os direitos básicos são anteriores à sociedade e como tal devem ser reconhecidos.(96) A falta de respeito pela dignidade ou pelos direitos da pessoa é contrária ao Evangelho e atenta contra a sociedade humana. A Igreja encoraja jovens e adultos a responder de modo eficaz à injustiça e à violação dos direitos humanos, alguns dos quais se encontram ameaçados ou necessitam de ser melhor respeitados na Oceânia. 

Entre eles, conta-se o direito ao trabalho e ao emprego que permite à pessoa sustentar-se, criar e educar uma família. O desemprego dos jovens é uma grave preocupação, que em alguns países aumenta a incidência do suicídio entre a juventude. Os sindicatos têm um papel insubstituível a realizar na defesa dos direitos dos trabalhadores. Para serem fiéis às suas obrigações, os políticos, os governantes e a polícia devem ser honestos e evitar a corrupção em todas as suas formas, porque é sempre uma grave injustiça aos cidadãos. Os responsáveis eclesiais, cooperando com os políticos, os homens de negócios e os chefes da sociedade, podem dar uma válida ajuda para se formular directrizes éticas nas questões que tocam o bem comum e garantir que sejam postas em prática. 

Sem a pretensão de serem peritos neste campo, os pastores precisam de estar bem informados sobre os problemas económicos e o seu impacto na sociedade. Os Padres Sinodais lembraram que « uma teoria que faça do lucro a regra exclusiva e o fim último da actividade económica é moralmente inaceitável »; (97) o chamado « racionalismo económico » (98) é um princípio que tende a dividir cada vez mais as nações, as comunidades e os indivíduos em ricos e pobres. As nações mais pequenas da Oceânia são particularmente vulneráveis às políticas económicas baseadas numa filosofia social deste tipo, que tem um escasso sentido de justiça distributiva e pouco se preocupa em assegurar a cada um as necessárias condições de vida e um desenvolvimento humano integral. O facto de serem as famílias que padecem com tais políticas económicas é particularmente inquietante. Os bispos assinalaram outro fenómeno destrutivo na Oceânia que é a difusão do jogo de azar, sobretudo nos casinos, que promete uma solução rápida e espectacular das dificuldades económicas quando, na realidade, precipitam as pessoas numa situação ainda pior. 

Os povos indígenas 

28. As políticas económicas injustas são especialmente danosas para os povos indígenas, as nações jovens e as suas culturas tradicionais; é missão da Igreja ajudar as culturas indígenas a preservarem a sua identidade e manterem as suas tradições. O Sínodo animou a Santa Sé a prosseguir na tutela da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.(99) 

Um caso especial são os aborígenes australianos, cuja cultura luta pela sobrevivência. Durante milénios e milénios, procuraram viver em harmonia com o ambiente, muitas vezes agreste, do seu « grande país »; mas agora a sua identidade e cultura estão gravemente ameaçadas. Ultimamente, porém, os seus esforços conjuntos para garantirem a sobrevivência e obterem justiça começaram a dar fruto. Na Aula Sinodal, foi referido um provérbio próprio da vida nas florestas da Austrália: « Se permanecerdes intimamente unidos, vós sereis como uma árvore de pé no meio de um incêndio que queima a madeira na floresta. As folhas estão a arder e a casca robusta seca-se e é queimada; mas dentro da árvore a linfa continua a correr, e debaixo da terra as raízes estão ainda robustas. Como aquela árvore, vós sobrevivestes às chamas e tendes ainda a força para renascer. O tempo para este renascer é agora ».(100) A Igreja sempre apoiará a causa dos povos indígenas que pedem um justo e equitativo reconhecimento da sua identidade e dos seus direitos.(101) Os Padres Sinodais exprimiram o seu apoio às aspirações do povo indígena por uma solução justa para a complicada questão da alienação das suas terras.(102) 

Às vezes a verdade foi sufocada por governos e suas instituições ou ainda por comunidades cristãs; é necessário que as injustiças feitas aos indígenas sejam honestamente reconhecidas; o Sínodo apoiou a instituição de « Comissões pela Verdade »,(103) sempre que possam ajudar a resolver injustiças históricas e promover a reconciliação no seio da sociedade mais alargada ou da nação. O passado não pode ser desfeito, mas um reconhecimento honesto das injustiças passadas pode originar medidas e atitudes que ajudem a corrigir os efeitos nocivos quer para a comunidade indígena quer para a sociedade inteira. A Igreja exprime profundo pesar e pede perdão pelos seus filhos que foram ou são ainda cúmplices destes agravos. Conscientes das vergonhosas injustiças feitas aos povos indígenas da Oceânia, os Padres Sinodais pediram incondicionalmente desculpa pela parte que nelas tiveram membros da Igreja, sobretudo no caso de crianças separadas à força das suas famílias.(104) Os governos são convidados a fomentar com maior vigor programas que melhorem as condições e o nível de vida dos grupos indígenas nas áreas vitais da saúde, educação, emprego e habitação. 

Ajuda ao desenvolvimento 

29. Como, na Igreja primitiva, cada comunidade cristã estava ligada às outras pela hospitalidade oferecida aos peregrinos, pela ajuda recíproca e pela partilha de recursos materiais e humanos, assim a solidariedade prática entre as Igrejas particulares na Oceânia torna patente ao mundo a communio. Muitas economias nacionais da Oceânia estão ainda dependentes da ajuda internacional e necessitam de contínuo apoio económico para o desenvolvimento. Enquanto a ajuda é generosamente oferecida pelas instituições internacionais para o desenvolvimento sócio-económico, a Igreja tem dificuldade em obter ajuda directa para os seus projectos pastorais, apesar de muitos deles se estenderem para além dos confins da comunidade católica. Por isso, o Sínodo recomendou que as instituições de apoio ligadas à Igreja revejam os seus critérios, para abrir os seus recursos às obras apostólicas que são um pré-requisito para o desenvolvimento social que há-de melhorar o nível de vida.(105) 

Os Padres Sinodais pediram também que a Igreja presente nas regiões mais ricas da Oceânia « partilhe os seus recursos com as diversas Igrejas particulares do Pacífico e as ajude a estabelecer contactos com organismos financiadores ».(106) E a Igreja na Oceânia também não pode ficar indiferente ao destino das Igrejas mais pobres da vizinha Ásia, sempre que se encontram necessitadas da sua ajuda e dos seus serviços. O Sínodo reconhece com gratidão as generosas contribuições em dinheiro e recursos dadas pelos católicos para programas de ajuda, e de modo especial a obra do laicado empenhado, em situações por vezes muito difíceis, a melhorar as condições humanas na Oceânia. 

A sacralidade da vida 

30. Nas sociedades mais secularizadas e ricas da Oceânia, o direito à vida é um dos mais ameaçados. Verifica-se aqui uma profunda contradição, porque frequentemente são sociedades que falam, com muita insistência, dos direitos humanos e ao mesmo tempo negam o mais básico de todos. Não disse porventura o próprio Cristo: « Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância » (Jo10, 10)? De facto, « o Evangelho da vida está no centro da mensagem de Jesus ».(107) Na luta actual entre uma « cultura da vida » e uma « cultura da morte », a Igreja tem de defender o direito à vida desde o momento da concepção até à morte natural, com todas as fases do seu desenvolvimento. Os valores morais e sociais que deveriam plasmar a sociedade estão baseados na sacralidade da vida criada por Deus. A apresentação duma visão clara da origem da humanidade em Deus criador e do seu destino eterno ajudará muitas pessoas a intuírem o verdadeiro valor da vida. Não é que a Igreja queira impor a sua moralidade aos outros; deseja simplesmente ser fiel à sua missão de partilhar a verdade inteira acerca da vida, como lhe foi ensinada por Jesus Cristo. A exaltação da sacralidade da vida é uma consequência da visão cristã da existência humana. Esta verdade deve ser ensinada pela Igreja não só no âmbito da comunidade católica, mas igualmente, de modo profético, à sociedade inteira, para anunciar a força e a beleza do Evangelho da vida. 

Para isso, é essencial tanto o testemunho das instituições sanitárias católicas como o dos mass-media na promoção do valor da vida. Para apresentarem à opinião pública, de modo claro e fiel, a posição da Igreja em questões bioéticas e sanitárias, os bispos, sacerdotes e profissionais de leis e de saúde precisam de ser adequadamente preparados.(108) A vida deve ser promovida e a sua sacralidade defendida contra qualquer ameaça de violência nas suas múltiplas formas, sobretudo violência contra os mais débeis que são os idosos, os moribundos, as mulheres, as crianças, os deficientes e os nascituros. 

O meio ambiente 

31. A Oceânia é uma parte do mundo com grande beleza natural, tendo conseguido guardar áreas que permanecem intactas. Ainda hoje a região oferece aos povos indígenas um lugar para viverem em harmonia com a natureza e uns com os outros.(109) Dado que a criação foi confiada à gestão do homem, o mundo natural não é simplesmente um conjunto de recursos para desfrutar, mas também uma realidade que deve ser respeitada e venerada como dom que lhe foi confiado por Deus. É tarefa do ser humano cuidar, preservar e cultivar os tesouros da criação. Os Padres Sinodais pediram aos povos da Oceânia para se alegrarem sempre com a glória da criação num espírito de acção de graças ao Criador. 

Mas, a beleza natural da Oceânia não escapou aos estragos da incúria e avidez humanas. Os Padres Sinodais encorajaram os governos e os povos da Oceânia a proteger este ambiente precioso para as gerações presentes e futuras.(110) Uma especial responsabilidade deles é assumir, em nome da humanidade inteira, a gestão do Oceano Pacífico, que reúne mais de metade das reservas hídricas da terra. A boa conservação deste e dos outros oceanos é crucial para o bem-estar dos povos não só na Oceânia mas por toda a parte do mundo. 

Os recursos naturais da Oceânia devem ser protegidos contra as políticas nocivas de algumas nações industrializadas e de multinacionais cada vez mais poderosas, que podem levar ao desflorestamento, à expropriação da terra, à poluição de rios com actividades mineiras, à pesca desenfreada de espécies lucrativas, ou à contaminação dos fundos marinhos com escórias industriais e nucleares; o depósito destas últimas na região constitui um perigo mais para a saúde da população indígena. Contudo é importante também reconhecer que a indústria pode trazer grandes benefícios, quando opera no devido respeito pelos direitos e cultura da população local e pela integridade do meio ambiente. 

A ACTIVIDADE SÓCIO-CARITATIVA

Instituições católicas 

32. A história da Igreja na Oceânia não pode ser narrada sem mencionar as contribuições excepcionais da Igreja no campo da educação, da saúde e da assistência social. As instituições católicas permitem que a luz do Evangelho penetre nas culturas e sociedades, evangelizando-as, por assim dizer, a partir de dentro. Graças ao trabalho dos missionários cristãos, antigas formas de violência têm cedido o lugar a práticas inspiradas no direito e na justiça. Através da educação, têm sido formados dirigentes cristãos e cidadãos responsáveis, e os valores morais cristãos têm forjado a sociedade. Nos seus programas de educação, a Igreja procura a formação integral da pessoa humana, vendo no próprio Cristo a humanidade em plenitude. O apostolado sócio-caritativo testemunha, por palavras e acções, a plenitude do amor cristão. Um tal testemunho de amor leva as pessoas a interrogarem-se sobre a sua origem e perguntarem-se porque é que os cristãos são diferentes nos seus valores e comportamento.(111) E, deste modo, Cristo toca a vida dos outros, encaminhando-os para uma maior percepção do que significa falar de « civilização do amor » (112) e empenhar-se na sua edificação. 

A Igreja serve-se da liberdade religiosa na sociedade para proclamar Cristo publicamente e partilhar com abundância o seu amor através da criação de instituições nele inspiradas. O direito de a Igreja fundar instituições educativas, sanitárias e de assistência social baseia-se precisamente em tal liberdade. O apostolado social destas instituições pode ser mais eficaz quando os governos não se limitam a tolerar mas cooperam nesta área com as autoridades eclesiais, no respeito inequívoco pela função e competência de cada um. 

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Educação católica 

33. Os pais são os primeiros educadores dos filhos quanto aos valores humanos e à fé cristã; e têm o direito fundamental de escolher a educação idónea para eles. As escolas assistem os pais no exercício deste direito, ajudando os estudantes a desenvolver-se como devem. Nalgumas situações, a escola católica é o único contacto que os pais têm com a comunidade eclesial. 

A escola católica possui uma identidade eclesial, porque é parte da missão evangelizadora da Igreja.(113) Um dos traços distintivos da educação católica é que está aberta a todos, especialmente aos pobres e aos mais débeis da sociedade.(114) É vital a colaboração entre a escola e a paróquia, e que aquela esteja integrada no programa pastoral paroquial, sobretudo no que se refere aos sacramentos da confirmação, penitência e eucaristia. 

Na escola primária, os professores desenvolvem nas crianças aquele potencial de fé e de compreensão que há-de florescer plenamente nos anos seguintes. A escola secundária representa um meio privilegiado para « a comunidade católica proporcionar aos estudantes uma formação intelectual, profissional e religiosa »; (115) durante estes anos, os estudantes normalmente chegam a um maior discernimento acerca da fé e da vida moral, baseando-as num conhecimento mais pessoal de Jesus Cristo como Caminho, Verdade e Vida. Uma tal fé, nutrida em família, na escola e na paróquia através da oração e dos sacramentos, manifesta-se por meio duma sólida e recta vida moral. Numa sociedade cada vez mais secularizada, o grande desafio para as escolas católicas é apresentar a mensagem cristã de modo persuasivo e sistemático, tendo presente que « a catequese corre o risco de ficar estéril, se uma comunidade de fé e de vida cristã não acolher os que estão a ser formados ».(116) Por isso, os jovens devem ser verdadeiramente integrados na vida e actividade da comunidade. 

Os Padres Sinodais quiseram agradecer a obra dos religiosos e religiosas e dos leigos que tão generosamente têm trabalhado no campo da educação católica,(117) fundando e dotando de pessoal as escolas católicas, afrontando muitas vezes grandes dificuldades com enorme sacrifício. A sua contribuição para a Igreja e a sociedade civil na Oceânia tem sido incalculável. No contexto actual da educação, as congregações religiosas, os institutos e as sociedades de vida apostólica têm toda a razão para estimar a sua vocação. Mulheres e homens consagrados fazem falta nas instituições educativas para dar um testemunho radical dos valores evangélicos e, desse modo, inspirá-los a outros. Recentemente, a generosa resposta dos leigos às necessidades de hoje abriu novas perspectivas para a educação católica. Para os leigos empenhados no ensino, este, mais do que profissão, é visto como uma vocação para formar estudantes, um serviço laical amplamente difuso e indispensável na Igreja. Ensinar é sempre um desafio, mas com a colaboração e o estímulo de pais, sacerdotes e religiosos, a participação dos leigos no campo da educação católica pode ser um valioso serviço ao Evangelho e um caminho de santificação cristã tanto para o professor como para os alunos. 

A identidade e o sucesso da educação católica estão inseparavelmente ligados ao testemunho de vida dado pelo corpo docente. Por isso, os bispos recomendaram, a « quem é responsável pelo recrutamento dos professores e administradores para as nossas escolas católicas, que tenha em conta a vida de fé daqueles que são assumidos ».(118) Os professores que vivem profundamente a sua fé serão agentes duma nova evangelização, criando um clima positivo para o crescimento da fé cristã e alimentando espiritualmente os estudantes confiados aos seus cuidados. Gozam de particular influência, quando são católicos praticantes, comprometidos na sua comunidade paroquial e leais para com a Igreja e a sua doutrina. 

Hoje, a Igreja na Oceânia está a ampliar o seu empenho no campo educativo. Leigos católicos diplomados recebem grande ajuda de institutos superiores católicos, de colégios e universidades, que os alimentam intelectualmente, educam profissionalmente e apoiam a sua fé, para poderem ocupar o seu lugar na missão da Igreja no mundo. Esta aventura ao nível superior da educação está ainda a começar na Oceânia e exige especiais dons de sensatez e discernimento na sua evolução. As universidades católicas são comunidades que reúnem professores dos vários ramos do saber humano; dedicam-se à pesquisa, ao ensino e a outros serviços de acordo com a sua missão cultural. É, para elas, uma honra e uma responsabilidade consagrarem-se sem reservas à causa da verdade.(119) Pede-se-lhes que observem os mais altos parâmetros da pesquisa e ensino académico como um serviço à comunidade local, nacional e internacional. Têm assim uma função vital na sociedade e na Igreja que é preparar futuros profissionais e dirigentes capazes de tomarem a sério as suas responsabilidades cristãs. Os bispos consideraram essencial manter um contacto pessoal com os universitários e promover qualidades de liderança naqueles que labutam no nível superior da educação. 

A pesquisa e o ensino nas instituições universitárias devem levar os valores cristãos ao mundo das artes e das ciências. A Igreja necessita de peritos em filosofia, ética e teologia moral, para que os valores humanos sejam adequadamente compreendidos no contexto duma sociedade tecnológica cada vez mais complexa; e a unidade de conhecimento não estará completa enquanto não for permitido à teologia iluminar todo o campo da investigação. Há que ter particular cuidado com a selecção e formação de professores para trabalhar na área da teologia. « A constituição apostólica Ex corde Ecclesiæ determina que a maioria dos professores nas universidades católicas e noutros institutos superiores católicos devem ser católicos activos. Os responsáveis pelo recrutamento de pessoal escolham cuidadosamente professores que sejam não apenas competentes no âmbito da sua especialidade, mas possam também servir de modelo para os jovens ».(120) A presença de católicos activos nas instituições académicas superiores é vital e constitui um verdadeiro serviço à Igreja e à sociedade. 

Assistência sanitária 

34. Jesus curou os doentes e consolou os aflitos. Depois de ressuscitado, continua o seu ministério de cura e consolação através daqueles que levam a misericórdia divina aos débeis e doentes. Este ministério da Igreja na Oceânia constitui, para muitas pessoas, a prova mais saliente e tangível do amor de Deus. A missão messiânica da misericórdia,(121) feita de cura e perdão, deve ser continuada sem parcimónia e segundo modalidades novas que correspondam às necessidades actuais. 

A história da assistência sanitária na Oceânia demonstra a sua estreita ligação com a missão da Igreja e como engloba os vários âmbitos sanitários, incluindo o fornecimento dos mais elementares serviços médicos às zonas mais remotas. A Igreja foi das primeiras instituições a ocupar-se daqueles que eram segregados pela sociedade como, por exemplo, os leprosos e os doentes da SIDA. Além disso, administra escolas hospitalares, onde os profissionais da saúde são excelentemente preparados. Devido à crise actual que atravessa a prestação e o financiamento dos cuidados médicos na Oceânia, algumas instituições estão a passar sérias dificuldades, mas não se pode permitir que isso comprometa o empenho fundamental da Igreja nesta área. 

O ensinamento da Igreja sobre a dignidade da pessoa humana e a sacralidade da vida deve ser exposto aos responsáveis das leis e das decisões judiciárias, sobretudo quando as suas posições têm consequências sobre a saúde, a administração dos hospitais e a prestação dos serviços médicos. Hoje os hospitais e as instituições sanitárias católicas estão na vanguarda da luta que a Igreja trava pela vida humana, desde o momento da concepção até à sua morte natural. Os Padres Sinodais reconheceram o zelo das congregações religiosas que fundaram o sistema sanitário católico na Oceânia. A Igreja e a sociedade inteira têm para com elas uma dívida imensa de gratidão. A sua presença nos hospitais deve continuar, juntamente com leigos preparados para trabalhar com os diversos institutos de vida consagrada segundo o espírito do seu carisma. Estas pessoas fazem com que o Evangelho da vida seja proclamado sem ambiguidades numa sociedade que muitas vezes se sente confusa relativamente aos valores morais. Para se neutralizar a influência duma « cultura da morte », os Padres Sinodais recomendaram que se incitem todos os cristãos a darem a sua ajuda para que a grande herança do serviço sanitário católico não seja comprometida.(122) 

As universidades católicas têm uma função mestra a desempenhar na educação de profissionais da saúde capazes de aplicar a doutrina católica aos novos desafios que incessantemente se levantam no campo médico. De toda a forma possível, devem ser promovidas e, onde não existam, instituídas as associações de médicos católicos, de enfermeiros e de agentes sanitários. Os administradores e o pessoal das instituições católicas precisam de formação para aplicar os princípios morais católicos na sua vida profissional. Esta é uma tarefa delicada, quando alguns dos que trabalham em hospitais católicos não estão familiarizados com estes princípios ou não concordam com eles; mas, se a doutrina for apresentada de forma apropriada, tais pessoas acabam muitas vezes por sentir a paz que deriva de viver em harmonia com a verdade e cooperam de boa vontade. 

A fé na cruz redentora de Cristo dá novo significado à doença, ao sofrimento e à morte. Os Padres Sinodais apontaram a necessidade de apoiar aqueles que possuem ou administram estruturas para testemunhar a compaixão de Cristo a quantos sofrem, de modo particular a pessoas inválidas, aos doentes da SIDA, aos idosos, aos moribundos, aos povos indígenas e aos que vivem em áreas isoladas.(123) Uma particular atenção reservaram os bispos a quantos prestam tais serviços nas áreas mais remotas, como a selva, ilhas pequenas ou o sertão australiano. Muitas vezes dispondo de escassos recursos e pouco apoio económico, eles oferecem, com o seu zelo, um poderoso testemunho do amor de Deus pelo pobre, o doente e o abandonado. Quer trabalhem em hospitais, quer cuidem dos idosos, quer prestem outras formas de assistência sanitária ao mais pequeno dos seus irmãos e irmãs (cf. Mt 25, 40), saibam que a Igreja aprecia imenso a sua dedicação e generosidade e agradece-lhes por estarem na vanguarda da caridade cristã. 

Serviços sociais 

35. Jesus, ao longo da sua vida na terra, era sensível a toda a fraqueza e aflição humana. « No centro do seu ensino pôs as oito bem-aventuranças, que são dirigidas aos homens provados por diversos sofrimentos na vida temporal ».(124) Seguindo os passos do Senhor, a missão caritativa da Igreja estende-se aos mais necessitados: os órfãos, os pobres, as pessoas sem abrigo, os abandonados e excluídos. Uma tal missão é cumprida por quem cuida dos necessitados através de iniciativas pessoais ou mediante instituições criadas para acorrer às várias necessidades a nível paroquial, diocesano, nacional e internacional. 

Não há lugar aqui para um elenco exaustivo dos serviços sociais prestados pela Igreja na Oceânia; de alguns, porém, foi feita menção especial na Aula Sinodal. A Igreja oferece serviços de consultoria a sujeitos com dificuldades pessoais ou sociais procurando reforçar as famílias, a fim de prevenir separações matrimoniais e divórcios ou tratar as suas dolorosas consequências. Dar alimento aos pobres, instituir centros de assistência para várias categorias de pessoas, ajudar os que não têm abrigo e os « meninos de rua » são apenas uma pequena parte do apostolado social da Igreja na Oceânia. De forma silenciosa e reservada, alguns grupos paroquiais e associações apostólicas trabalham para remediar as feridas frequentemente encobertas causadas pela pobreza nos subúrbios ou nas áreas rurais. Grupos há que ajudam a levar a paz e a reconciliação entre clãs, tribos ou outros grupos em conflito. As mulheres, sobretudo mães, gozam duma eficácia extraordinária na promoção de meios pacíficos para resolver conflitos.(125) A solicitude da Igreja estende-se também às pessoas dependentes do álcool, das drogas, do jogo de azar, e às vítimas de abuso sexual. Os Padres Sinodais mencionaram também os refugiados e quantos procuram asilo: o seu número está a crescer e a sua dignidade humana reclama que sejam acolhidos e tratados com os devidos cuidados. Dado que as nações da Oceânia dependem dos oceanos e dos mares, os Padres Sinodais preocuparam-se também dos marinheiros, que trabalham muitas vezes em duras condições e vivem sujeitos a muitas provações

É frequente haver voluntários que oferecem o seu tempo, energias e serviços profissionais a estas formas de apostolado, sem qualquer remuneração. É que quantos escolheram, como modo de vida, amar sacrificando-se a si próprios, não o fizeram à espera de agradecimento ou recompensa humana, nem haveria uma adequada; toda a sua preocupação é desempenhar a parte que lhes cabe na missão eclesial de proclamar a verdade de Jesus Cristo, seguir o seu caminho e viver a sua vida. Estas pessoas são de importância fundamental em qualquer planificação para uma nova evangelização dos povos da Oceânia. A fé é despertada pela pregação da palavra de Deus, e a esperança é alimentada pela promessa do seu Reino, mas a caridade é infundida pelo Espírito Santo, « Senhor que dá a vida ».