Espaço do Leitor

Dúvidas sobre o Vaticano II

[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: Alexandre Prado
Cidade/UF: Taubaté/SP
Religião: Católica

Mensagem
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Antes de começar minha carta, gostaria de dizer que a carta do tal padre Renato dificilmente deve ter sido escrita por um padre, a carta até que começa bem, apesar de vários erros de ortografia, porém, termina mal, essa história de “pensem o que vão escrever, pois sou padre etc.” é típico de adolescente, o Veritatis nem deveria ter respondido, é evidente a falsidade ideológica na questão, enfim…

Bem, aproveitando o gancho dado pelo nosso “padre”, seria muito apropriado que houvesse mais um Concílio, dessa vez dogmático (mesmo) para, ou esclarecer ou negar várias das idéias do Concílio Vaticano II, que, diga-se de passagem, é de inquestionável validade (como todo documento da Igreja tem validade, desde que não seja condenado pelo Papa), porém, pecou em não querer ser dogmático, e deu vazão a toda a confusão em que se encontra a Igreja hoje, com pessoas afirmando sobre a total invalidade do mesmo, outras agindo como se tudo o que a Igreja ensinou até então não tem mais validade, um outro tanto em cima do muro – particularmente, o que mais me incomoda é o desrespeito ao Missal de Paulo VI, e a perfeita negação de muitos padres da validade ou oportunidade da liberação da Missa Tridentina (de minha parte, prefiro o rito bracarense, mas isso é só um comentário sem importância).

Um dos problemas do Vaticano II é que adentrou em certos aspectos doutrinais que já haviam sido dogmatizados pela Igreja anteriormente, praticamente negando-os ou distorcendo-os – e, coisa grave, houve muito mal entendimento das intenções do Concílio (de tradicionalistas e modernistas), entretanto, é inegável que a vertente “modernista” está vencendo a batalha, nem tanto por convencimento do povo, mas pela ignorância que o mesmo tem das coisas da Igreja e de sua doutrina e ordenamentos, e os tradicionalistas pecam pelo exagero e dureza, o que afasta as pessoas –; essa é uma feição desse Concílio que também me preocupa, como pode-se desdizer o que a Igreja já disse anteriormente, ainda mais se foi por um pronunciamento ex-cathedra? Por exemplo, creio (mas não tenho certeza, já que não é minha especialidade) que foi dito em algum lugar que a “Igreja de Cristo É a Igreja Católica”, no entanto, conciliarmente resolveu-se dizer agora que a “Igreja de Cristo SUBSISTE NA Igreja Católica” o que dá margem para pessoas de má-fé se utilizarem dessa passagem para até mesmo negar a Igreja. É complicado… Já ouvi uma pessoa idosa dizer algo como “antes, você freqüentava a Igreja e sabia que Ela era a Igreja de Cristo, hoje, já não se sabe mais” – as pessoas mais novas, acostumadas com a situação atual, pois foram nela criadas, e assistindo a Canção Nova e ouvindo Padre Marcelo, não fazem a mínima idéia do tesouro litúrgico da Igreja, e pior, nem querem saber, contentam-se com o teatro e o circo.

Independente do que se diga, sendo Missa Nova ou Missa Antiga, é imprescindível que seja seguido o Missal, e que a Missa seja um local ao qual se vai, respeitosamente, assistir ao sacrifício de Deus (!) e não para se “louvar o Senhor Jesus”, que isso é coisa de evangélico – nós não somos evangélicos, somos católicos, devemos começar a agir como tais, mas quem sabe como deve agir um católico hoje? Praticamente não se têm mais modelos e estamos desprotegidos.

Veja também  Louvor e gratidão

Não sei como definir minha posição, mas sei que meu pensamento em vários aspectos coincide com o dos tradicionalistas; no entanto, em muitos aspectos sou totalmente contra o que eles dizem – voltando ao assunto primeiro, seria mesmo de muita utilidade um novo Concílio.

Prezado Alexandre,

A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Para esclarecer as idéias e as conseqüências do Concílio Vaticano II, a Igreja tem optado por oferecer a interpretação correta através de numerosos documentos magisteriais, como os que foram publicados durante o pontificado de João Paulo II: Dominus Iesus (resolvendo a questão do subsistit in) Ut unum sint (esclarecendo sobre o sentido do ecumenismo), Redemptionis Sacramentum (para tentar dar fim à confusão nascida da má implementação da reforma litúrgica); Ecclesia de Eucharistia (para reafirmar a teologia eucarística perene), por exemplo; ou então através de pronunciamentos, como o “Discurso do Papa Bento XVI à Cúria Romana” de 22/12/05 (orientando acerca da correta interpretação do Concílio, distinguindo a liberdade religiosa proclamada na Dignitatis Humanae das liberdades anteriormente condenadas).

Quanto ao Concílio não ter querido ser dogmático, isso deriva do fato de que não era questão da Igreja proclamar novos dogmas ou combater heresias; o Concílio tinha uma intenção ad intra, de renovar a vida espiritual dos fiéis, e uma intenção ad extra dialógica, de dirigir-se formalmente, pela primeira vez em sua história, aos demais cristãos, com seus meios insuficientes de salvação, e ao mundo inteiro (demais religiões e humanismo), com seus raios de Verdade, os quais reclamam a plenitude católica. Para as duas intenções fazia todo sentido a opção pela pastoralidade, como eu explico no artigo “O caráter ‘pastoral’ do Concílio Vaticano II e de seus documentos”, ao qual remeto o leitor.

A confusão na qual se encontra a Igreja deriva da interpretação do Concílio, da chamada hermenêutica da descontinuidade, como disse o Papa, através da qual alguns pensam e atuam como se a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo tivesse nascido na década de 60 do século passado. Essa interpretação é realizada através do recorte de determinadas passagens de seu contexto, quando a pastoralidade do Concílio exige uma compreensão sistemática, e não pontual, de seus textos, além de uma constante referência à Tradição (sobre isso falo também no artigo supramencionado). Isso gera a reação tradicionalista, que nega o Concílio e se aferra a uma tradição que parou no tempo e não incorporou as atualizações conciliares – ainda que não proclamadas de modo extraordinário –, por não conseguir compreender o sentido dessas atualizações e aceitar as interpretações progressistas.

No que diz respeito à possível negação de alguma idéia do Concílio, isso é bastante improvável, porque as idéias conciliares não contradizem a doutrina tradicional dogmatizada, embora, em algum caso, possam ser uma inovação em relação ao passado (um complemento), como a doutrina da Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa – o que sempre se pode buscar é uma melhor expressão das idéias conciliares, mas o mesmo se pode dizer inclusive das definições dogmáticas. A maior acusação tradicionalista ao Concílio de negar ou distorcer algo já definido anteriormente é a respeito da doutrina sobre a liberdade religiosa; na realidade, a liberdade proclamada pela DH como direito natural não é a mesma liberdade de cultos condenada do liberalismo, baseada numa liberdade de consciência onde o sujeito se torna o único referencial da verdade (religiosa ou de qualquer outra ordem). A distinção entre essa liberdade e a da DH, com a possibilidade de integrar a liberdade religiosa à doutrina moral católica, eu procurei evidenciar no artigo “A ‘Liberdade religiosa’ a partir da Dignitatis Humanae e o Magistério pré-conciliar”.  Também pode ser visto o artigo “A Dignitatis Humanae contradiz a doutrina católica?”, do prof. Alessandro Lima, e essa resposta que dei a um leitor: http://www.veritatis.com.br/article/4280, que remete a outro artigo, do Dr. Rafael Vitola, que abrange o tema mais amplo das relações Igreja-Estado.

Sobre o tema do “subsiste na”, já foi esclarecido na Dominus Iesus, como mencionei:

Com a expressão « subsistit in », o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que « existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição »,55 isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão com a Igreja Católica.56 Acerca destas, porém, deve afirmarse que « o seu valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».57 (n. 16)

Sem negar a identidade da Igreja de Cristo com a Igreja Católica visível, o Concílio afirmou a presença de elementos de santificação e verdade fora de sua estrutura, nas comunidades protestantes e igrejas cismáticas; ou seja, a Igreja de Cristo ou Igreja Católica (visível e invisível) é potencialmente mais ampla que seu corpo visível, e inclui o conjunto dos fiéis que pertencem formalmente à Igreja, mais aqueles que pertencem a sua alma (por ignorância invencível), ainda que sejam membros de outras confissões cristãs.

Alguns não sabem mais o que é a Igreja, porque os teólogos modernistas distorcerem a profundidade do ensinamento da Lumen Gentium, fruto da pastoralidade que fez reconhecer esses elementos de santificação e verdade fora do âmbito visível do catolicismo; a distorção consiste em atribuir esses elementos às próprias comunidades protestantes e igrejas cismáticas, e em geral, a todas as religiões, criando um clima de indiferentismo que só pode ser fruto de quem já perdeu a fé, e que atinge o povo católico, de modo que muitos vivem hoje uma fé pouco comprometida, não apostólica (pois se “todas as religiões salvam”…). A reação modernista ao “exclusivismo” (fruto do mau entendimento de que “fora da Igreja não há salvação”) é o relativismo; a postura católica ortodoxa é a de uma exclusividade (de Cristo, da Igreja) inclusiva, pois Deus não condenará quem não conheceu a Igreja sem culpa e viveu conforme a consciência moral.

Quanto à Missa Romana, nas suas duas formas, ordinária (pós-conciliar) e extraordinária (“tridentina”), trata-se sempre do sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo. Felizmente, existe um movimento em prol do decoro litúrgico que, passado o caos litúrgico inicial, penso que conseguirá superar a ignorância que ainda reina em muitos ambientes – nos quais a Missa é mal celebrada muitas vezes não por má fé, mas por um afã desmedido de criatividade e inculturação que se crê legítimo, em virtude da má formação recebida –, e se recuperará a solenidade e a gravidade da liturgia católica. A liberação do Missal antigo ainda fará muito bem, colocando as novas gerações de padres e fiéis em contato com o autêntico espírito da liturgia, e com elementos teológicos menos ressaltados na reforma – mais preocupada com a participação que com a teologia da Missa –, para que assim o novo Missal seja celebrado com muito mais fruto, e com a consciência de que o aspecto laudatório, ou o aspecto comensal da Eucaristia são elementos que não podem obnubilar o sacrifício expiatório de Cristo.

Os modelos a seguir serão sempre, em primeiro lugar, os santos. E os temos em nossos tempos. Pense num São Josemaría Escrivá, morto em 1975, e canonizado recentemente, lembrando que seus ensinamentos sobre a santidade dos leigos através do trabalho têm tudo a ver com muitos ensinamentos do Vaticano II. Pense na Beata Teresa de Calcutá e seu testemunho de caridade. Pense no Servo de Deus João Paulo II e seu testemunho apostólico. Pense também nas diversas novas espiritualidades particulares, que, ainda que seus fundadores não tenham sido canonizados ou estejam vivos, constituem verdadeiros programas de vida para o católico que se identifica com as mesmas; lembrando que os novos movimentos e comunidades portadores dessas espiritualidades, ainda que com algumas eventuais deficiências, se esforçam por ser fiéis ao Sumo Pontífice e à correta interpretação do Concílio.

Finalmente, amigo, sua posição, independentemente da etiqueta que possa receber, é a de alguém preocupado com a situação de crise que vive a Igreja, de alguém que quer compreender o significado dessa crise e ajudar a Esposa de Cristo a voltar a brilhar com todo seu esplendor. Certamente essa crise tem relação com o Concílio, mas não no sentido apontado pelos tradicionalistas. Estude mais o assunto; aqui no site, além dos artigos que eu indiquei, há vários outros sobre o tema Vaticano II, sobre a crise da Igreja, sobre os problemas litúrgicos e doutrinários, etc. Assim você estará em condições de defender a Santa Igreja Católica, e difundir seu divino ensinamento, também presente no Vaticano II.

Um grande abraço, em Cristo e Maria,

Joathas Bello