Espaço do Leitor

Dúvidas sobre os santos, espírito santo, dom de línguas e pluralismo religioso

[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: Erilande D de Brito
Cidade/UF: Ji Paraná / Rondônia
Religião: Católica

Mensagem
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Olá, tenho estado um pouco aflita. O fato é que tenho varias amigas que eram católicas como eu e que tornaram-se todas evangélicas. Freqüentei algumas reuniões e cultos, até gostei, mas não me sentia em casa, não consigo abandonar minha doutrina de berço. O fato é que muitas vezes tenho me sentido incomodada com questionamentos delas, tais como: Você acredita em santos? Santos foram pessoas como nos que já morreram, onde na Bíblia fala do poder deles de intercederem por nós. Alguém tem poder após a morte. Quais citações a Bíblia faz sobre a morte? Não temos que ir direto ao Pai? e quanto ao batismo no Espírito Santo ou o dom de línguas. Então me pergunto Por que tantas coisas, porque tantas divisões se o Deus é um só. O que os homens estão fazendo com a Palavra de Deus. Já não sabemos nem mesmo a quem seguir ou acreditar, ficamos pensando se estamos certos ou errados. Qual caminho seguir. Minha afilhada de 9 anos estes dias me perguntou exatamente isto. “Tia por que tantas divisões de religiões” O que é certo? Por favor, me orientem e me esclareçam.

Obrigada,
Erilande

Prezada Erilande,

A paz de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!

Agradecemos pelo confiança em nos escrever. A sua aflição é compreensível. Em meio ao subjetvismo — em que cada um tem a sua “verdade” — e em meio ao relativismo — em que não há verdades absolutas e definitivas, pelo contrário, “tudo é relativo” — é natural que as pessoas que realmente anseiam pela verdade se sintam angustiadas.

Graças a Deus, nós católicos podemos ter a certeza da verdade, pois temos a Igreja como nossa Mãe e Mestra. Tudo que a Igreja ensina, com a autoridade que lhe foi confiada por Deus, nós podemos ter certeza que é verdade. Se não fosse pela autoridade da Igreja, estaríamos perdidos, à deriva, sem saber para onde ir. Mas Deus, por Sua infinita sabedoria e bondade, não nos deixou sós. Cristo escolheu, dentre os seus discípulos, Apóstolos aos quais confiou o governo de Sua Igreja, sob a chefia de Pedro. E para que a Igreja não ficasse sem comando quando esses Apóstolos morressem, fez-se necessário que eles tivessem legítimos sucessores, os quais constituem o Magistério de hoje sob a chefia máxima do sucessor de Pedro, ou seja, o Papa, e assim será até o fim dos tempos.

Essa autoridade da Igreja, que é uma autoridade verdadeiramente divina (visto que foi outorgada pelo próprio Deus Filho), já basta para dirimir toda e qualquer dúvida. Para sabermos a verdade, basta conhecermos o que a Igreja ensina, isto em matéria de fé e de moral. Mas, quando as pessoas ignoram ou rechaçam a autoridade da Igreja, começam as especulações vãs, os questionamentos etc., como infelizmente acontece no protestantismo, onde cada um se julga no direito de crer e ensinar o que bem entende.

Com relação aos santos, é preciso deixar claro, em primeiro lugar, que para nós católicos a Revelação não consiste exclusivamente na Bíblia (como prega o princípio protestante do Sola Scriptura), mas também na Sagrada Tradição. Enquanto a Bíblia consiste na Revelação escrita, a Tradição conserva a Revelação oral, isto é, que não foi registrada por escrito. Veja que a própria Bíblia faz referência à Tradição:

“Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos* que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa.” (II Tess. 2,15 – * outras versões da Bíblia usam a palavra “tradições” em vez de “ensinamentos“)

“Intimamo-vos, irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à tradição que de nós tendes recebido.” (II Tess. 3,6)

“Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever.” (Jo. 21,25)

Ainda sobre a Tradição e a Sagrada Escritura, convém lermos atentamente o que ensina o Catecismo da Igreja Católica ( http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s1c2_50-141_po.html ):

76. A transmissão do Evangelho, segundo a ordem do Senhor, fez-se de duas maneiras:

oralmente, «pelos Apóstolos, que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo»;

por escrito, «por aqueles apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação» (40).

… CONTINUADA NA SUCESSÃO APOSTÓLICA

77. «Para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os bispos como seus sucessores, “entregando-lhes o seu próprio ofício de magistério”» (41). Com efeito, «a pregação apostólica, que se exprime de modo especial nos livros inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão ininterrupta, até à consumação dos tempos» (42).

78. Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, denomina-se Tradição, enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora estreitamente a ela ligada. Pela Tradição, «a Igreja, na sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e tudo em que acredita» (43). «Afirmações dos santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição, cujas riquezas entram na prática e na vida da Igreja crente e orante» (44).

79. Assim, a comunicação que o Pai fez de Si próprio, pelo seu Verbo, no Espírito Santo, continua presente e activa na Igreja: «Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito Santo – por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja, e, pela Igreja, no mundo – introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza» (45).

II. A relação entre a Tradição e a Sagrada Escritura

UMA FONTE COMUM…

80. «A Tradição sagrada e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim» 16. Uma e outra tornam presente e fecundo na Igreja o mistério de Cristo, que prometeu estar com os seus, «sempre, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20).

… DUAS FORMAS DE TRANSMISSÃO DISTINTAS

81. «A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito divino».

«A sagrada Tradição, por sua vez, conserva a Palavra de Deus, confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, e transmite-a integralmente aos seus sucessores, para que eles, com a luz do Espírito da verdade, fielmente a conservem, exponham e difundam na sua pregação» (47).

82. Daí resulta que a Igreja, a quem está confiada a transmissão e interpretação da Revelação, «não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência» (48).

TRADIÇÃO APOSTÓLICA E TRADIÇÕES ECLESIAIS

83. A Tradição de que falamos aqui é a que vem dos Apóstolos. Ela transmite o que estes receberam do ensino e do exemplo de Jesus e aprenderam pelo Espírito Santo. De facto, a primeira geração de cristãos não tinha ainda um Novo Testamento escrito, e o próprio Novo Testamento testemunha o processo da Tradição viva.

É preciso distinguir, desta Tradição, as «tradições» teológicas, disciplinares, litúrgicas ou devocionais, nascidas no decorrer do tempo nas Igrejas locais. Elas constituem formas particulares, sob as quais a grande Tradição recebe expressões adaptadas aos diversos lugares e às diferentes épocas. É à sua luz que estas podem ser mantidas, modificadas e até abandonadas, sob a direcção do Magistério da Igreja.

III. A interpretação da herança da fé

A HERANÇA DA FÉ CONFIADA À TOTALIDADE DA IGREJA

84. O depósito da fé (49) («depositum fidei»), contido na Tradição sagrada e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos Apóstolos ao conjunto da Igreja. «Apoiando-se nele, todo o povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração, de tal modo que, na conservação, actuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis» (50).

O MAGISTÉRIO DA IGREJA

85. «O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo (51), isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma.

86. «Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado» (52).

87. Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo aos Apóstolos: «Quem vos escuta escuta-me a Mim» (Lc 10, 16) (53), recebem com docilidade os ensinamentos e as directrizes que os seus pastores lhes dão, sob diferentes formas.”

A intercessão dos santos junto a Deus é matéria de fé que remonta aos primórdios do cristianismo, e foi ratificada pelo Magistério, ratificação essa da qual podemos citar três exemplos (grifos meus):

“O santo Sínodo ordena a todos os bispos e aos demais que têm o múnus e a responsabilidade de ensinar, que, segundo o uso da Igreja católica e apostólica recebido desde os primeiros tempos da religião cristã, e segundo o consenso dos santos Padres e os decretos dos sagrados Concílios, instruam diligentemente os fiéis, em primeiro lugar, acerca da intercessão dos Santos, sua invocação, a honra devida às relíquias e o uso legítimo de imagens, ensinando-lhes que os Santos que reinam com Cristo oferecem a Deus as suas orações pelos homens; que é bom e útil invocá-los suplicantes e recorrer às suas orações e a seu poder e auxílio, para obter benefícios de Deus por seu Filho Jesus Cristo, nosso Senhor, que é nosso único salvador e redentor; <ensinando ainda> que opinam impiamente os que negam a invocação dos Santos que gozam no céu a eterna felicidade, ou invocá-los para que rezem por cada um de nós é idolatria ou se opõe à palavra de Deus e é contrário à honra devida ao ‘único mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo’ [cf. 1Tm 2,5], ou que é tolice rezar com palavras ou com a mente aos que reinam no céu.” (Concílio de Trento, Decreto sobre a invocação, a veneração e as relíquias dos santos e sobre as imagens sagradas, 3 dez. 1563.)

“Deste modo, enquanto o Senhor não vier na Sua majestade e todos os Seus anjos com Ele (cfr. Mt. 25,31) e, vencida a morte, tudo Lhe for submetido (cfr. 1 Cor. 15, 26-27), dos Seus discípulos uns peregrinam sobre a terra, outros, passada esta vida, são purificados, outros, finalmente, são glorificados e contemplam «claramente Deus trino e uno, como Ele é»(146); todos, porém, comungamos, embora em modo e grau diversos, no mesmo amor de Deus e do próximo, e todos entoamos ao nosso Deus o mesmo hino de louvor. Com efeito, todos os que são de Cristo e têm o Seu Espírito, estão unidos numa só Igreja e ligados uns aos outros n’Ele (cfr. Ef. 4,16). E assim, de modo nenhum se interrompe a união dos que ainda caminham sobre a terra com os irmãos que adormeceram na paz de Cristo, mas antes, segundo a constante fé da Igreja, é reforçada pela comunicação dos bens espirituais (147). Porque os bem-aventurados, estando mais ìntimamente unidos com Cristo, consolidam mais firmemente a Igreja na santidade, enobrecem o culto que ela presta a Deus na terra, e contribuem de muitas maneiras para a sua mais ampla edificação em Cristo (cfr. 1 Cor. 12, 12-27) (148). Recebidos na pátria celeste e vivendo junto do Senhor (cfr. 2 Cor. 5,8), não cessam de interceder, por Ele, com Ele e n’Ele, a nosso favor diante do Pai (149), apresentando os méritos que na terra alcançaram, graças ao mediador único entre Deus e os homens, Jesus Cristo (cfr. 1 Tim., 2,5), servindo ao Senhor em todas as coisas e completando o que falta aos sofrimentos de Cristo, em favor do Seu corpo que é a Igreja (cfr. Col. 1,24) (150). A nossa fraqueza é assim grandemente ajudada pela sua solicitude de irmãos.” (Concílio Vaticano II, Constituição Dogmática Lumem Gentium Sobre a Igreja, n. 49, 21 nov. 1964.)

“As testemunhas que nos precederam no Reino, especialmente as que a Igreja reconhece como ‘santos’, participam da tradição viva da oração, pelo exemplo modelar de sua vida, pela transmissão de seus escritos e pela sua oração hoje. Contemplam a Deus, louvam-no e não deixam de velar por aqueles que deixaram na terra. Entrando ‘na alegria’ do Mestre, eles foram ‘postos à frente do muito’. A sua intercessão é o mais alto serviço que prestam ao plano de Deus. Podemos e devemos pedir-lhes que intercedam por nós e pelo mundo inteiro.” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2683.)

Com relação ao “batismo no Espírito Santo”, é importante observar que, conforme o ensinamento da Igreja, o católico torna-se “templo do Espírito Santo” por ocasião do Batismo (Catecismo da Igreja Católica, n. 1279), e, através do sacramento da Confirmação (ou Crisma), recebe “a efusão plena do Espírito Santo” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1302) e “uma força especial do Espírito Santo para difundir a fé pela palavra e pela ação, como verdadeiras testemunhas de Cristo, para confessar com valentia o nome de Cristo e para nunca sentir vergonha com relação à cruz” (Catecismo da Igreja Católica, n. 1303). Portanto, não há que se falar em “batismo no Espírito Santo” como um súbito e extraordinário “derramamento do Espírito Santo” sobre o fiel, tal como supostamente acontece em celebrações “carismáticas”. Como vimos, o recebimento do Espírito Santo está relacionado e condicionado aos sacramentos do Batismo e da Confirmação. Não obstante, com relação ao dom de línguas [1] e demais “dons extraordinários”, convém observar o que ensina a já citada Constituição Dogmática Lumem Gentium (grifos meus):

“Além disso, este mesmo Espírito Santo não só santifica e conduz o Povo de Deus por meio dos sacramentos e ministérios e o adorna com virtudes, mas «distribuindo a cada um os seus dons como lhe apraz» (1 Cor. 12,11), distribui também graças especiais entre os fiéis de todas as classes, as quais os tornam aptos e dispostos a tomar diversas obras e encargos, proveitosos para a renovação e cada vez mais ampla edificação da Igreja, segundo aquelas palavras: ; «a cada qual se concede a manifestação do Espírito em ordem ao bem comum» (1 Cor. 12,7). Estes carismas, quer sejam os mais elevados, quer também os mais simples e comuns, devem ser recebidos com acção de graças e consolação, por serem muito acomodados e úteis às necessidades da Igreja. Não se devem porém, pedir temerariamente, os dons extraordinários nem deles se devem esperar com presunção os frutos das obras apostólicas; e o juízo acerca da sua autenticidade e recto uso, pertence àqueles que presidem na Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito mas julgar tudo e conservar o que é bom (cfr. 1 Tess. 5, 12. 19-21)” (Lumem Gentium, n. 12).

Finalmente, com relação à diversidade de religiões, recomendo enfaticamente a leitura da declaração Dominus Iesus, a qual acredito que responderá boa parte das suas dúvidas, se não todas, referentes ao chamado “pluralismo religioso”. Ademais, eu jamais poderia escrever algo sobre esse tema melhor do que Joseph Ratzinger, que escreveu o referido documento e é nosso atual Papa!

Bem, estimada irmã Erilande, esperamos ter respondido suas dúvidas a contento. No mais, louve a Deus por estar na verdadeira Igreja de Cristo, a Igreja Católica Apostólica Romana, a qual, como nossa Mãe e Mestra, nos indica com segurança o caminho rumo ao Céu.

Em Cristo,

Marcos M. Grillo

[1] A respeito do dom de línguas, informamos que em breve será publicado por este apostolado um e-book sobre o tema.

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