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A Bíblia é imprescindível para a Igreja Católica?

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Nome do leitor: W.

Cidade/UF: Campos dos Goitacazes / RJ

Religião: Cristã

Confissão: católica


Que a paz de Cristo esteja com todos nós e que o espírito de Deus os ilumine em cada esclarecimento prestado.

A longevidade da Igreja de Cristo, como sabemos, foi prevista pelo próprio criador. Essa longevidade teria sido prejudicada se não houvesse a Bíblia? Até que ponto a Igreja foi ou é dependente da Bíblia? Por que lhes faço essa pergunta? Que Deus me perdoe, mas a Bíblia é um instrumento que sugere questionamentos, e em mãos de aproveitadores, que usam a palavra como meio de enriquecimento pessoal, dificulta em muito a evangelização católica. Tenho consciência de que perto de vocês eu sou um leigo no assunto, mas, perto de mim existem muitos mais leigos que eu, e por isso afirmo que o estrago que esses pastores fazem na cabeça das pessoas é algo de espantoso. Usam uma ferramenta que deveria unir para separar e causar confrontos e dissidências.

 

Prezado W.,

A paz de Nosso Senhor Jesus Cristo!

Agradecemos pelo contato e pela confiança depositada em nosso apostolado. Seu questionamento é bastante interessante e oportuno. Inicialmente, é importante observar que a Bíblia, tal como a conhecemos hoje, não surgiu “do nada”, nem “caiu pronta do céu”, ao contrário, é fruto de um longo processo de redação e de compilação, processo esse que, iniciado pelo povo hebreu, no seio do judaísmo, veio a ser concluído tão-somente quando a Igreja deu a palavra final no que se refere ao cânon sagrado, ou seja, à lista dos livros que deveriam compor a Bíblia. Essa lista não se fez sozinha nem se “auto-legitimou”, tendo sido necessária a intervenção da autoridade religiosa competente:

"O estabelecimento definitivo de um cânon de livros sagrados é sempre competência da autoridade religiosa, que, através de uma ‘definição conciliar’ ou de outra forma de decisão por via da autoridade, fixa a lista dos livros canônicos e exclui ao mesmo tempo os livros não admitidos.” [1]

É interessante ressaltar que nos primórdios do cristianismo havia uma grande quantidade de textos “candidatos” a ingressar no cânon bíblico, como demonstra o Prof. Alessandro Lima, co-fundador deste apostolado, em sua importante obra “O cânon bíblico: a origem da lista dos livros sagrados”:

“Com a morte de todos os Apóstolos, já no início do segundo século, seus discípulos assumem seu Ministério, confirmando toda a Igreja na Doutrina Apostólica que receberam pessoalmente de seus mentores. Neste período começaram a aparecer seus próprios escritos. Dentre eles se destacam a Primeira Carta de Clemente aos Coríntios, as sete Cartas de Inácio de Antioquia, as Cartas de Policarpo de Esmirna, as cartas de Pápias de Hierápolis e etc. Muitas destas cartas eram recebidas como canônicas pelos fiéis.

Como se vê, o conjunto de livros que deveriam ser considerados canônicos pela Igreja Cristã ainda era uma grande interrogação nos primeiros séculos.

A literatura oriunda dos grupos heréticos começou a confundir os primeiros cristãos, porque estas lhes eram apresentadas como escrituras oriundas dos Apóstolos (ex.: o Evangelho de Tomé, o Evangelho de Filipe, etc.); e aos poucos foram tomando lugar nos estudos catequéticos e nas celebrações de culto.

É neste contexto que a literatura cristã pós-apostólica cresceu de forma exponencial, pois vários textos em defesa da antiga Fé Apostólica foram produzidos contra os grupos heréticos. Nesta disputa, um tema que não poderia faltar, é claro, são os livros que deveriam ser considerados canônicos.” [2]

Dessa forma, os primeiros não tinham à mão a Bíblia como a conhecemos hoje, e sim uma grande variedade de textos, sem que se soubesse exatamente quais poderiam (e deveriam) ser considerados canônicos. Em outras palavras, nos primórdios da fé cristã a Bíblia, no sentido de um conjunto fechado de livros (como é hoje), simplesmente não existia! Nessa época, tudo que existia era o testemunho dos Apóstolos e dos seus discípulos, e a autoridade da Igreja, até que essa mesma autoridade definisse o cânon bíblico, ou mais especificamente, o cânon do Novo Testamento, o que só veio a acontecer por volta do século IV:

“O cânon neotestamentário que se imporá mais tarde no concílio de Calcedônia (451) é o mesmo encontrado já em Atanásio (296-373): 4 evangelhos, At, 7 Cartas apostólicas (Tg, 1-2Pd, 1-2-3Jo, Jd), 14 Cartas de Paulo (incluída Hb) e Ap. Muitos manuscritos de origem egípcia do século IV seguem esta ordem de livros.

A mesma lista se encontra em Anfíloco, bispo de Icônio (+ 394), na ordem que prevaleceu mais tarde: Hb depois de Fm e as cartas católicas depois das paulinas.

Inclusive igrejas que não chegaram a aceitar as decisões do concílio de Calcedônia reconheciam esta lista de 27 livros canônicos, os mesmos da relação estabelecida muito mais tarde por Trento.” [3]

A partir do que foi exposto podemos fazer as seguintes inferências:

  • Os primeiros cristãos não tinham à sua disposição a Escritura Sagrada tal como a conhecemos hoje, mas sim uma variedade de livros cuja canonicidade variava de acordo com as opiniões então existentes;
  • Essa situação de indefinição perdurou durante mais de 300 anos, até que a Igreja, com a autoridade que lhe é intrínseca, proclamou a lista dos livros canônicos. Antes dessa proclamação a Bíblia que nós conhecemos hoje realmente não existia;
  • Durante os primeiros 300 anos da Era Cristã, a palavra final em matéria de fé e de moral, isto é, em matéria de doutrina, cabia à Igreja , e podemos dizer que continuou a ser assim durante os 1.100 anos seguintes, até que: 1) a invenção da imprensa, por volta do século XIV, colocou a Bíblia ao alcance de mais pessoas (o primeiro livro impresso por Gutemberg, considerado o inventor da imprensa, foi justamente a Bíblia, em 1455); e 2) pouco mais de 50 anos depois disso eclodiu a chamada “Reforma Protestante”, engendrada e impulsionada por interpretações particulares da Bíblia, feitas à margem da autoridade da Igreja (ao contrário do que foi feito nos 1.500 anos precedentes!).

Dessa forma, resta claro que o problema não está na existência da Bíblia em si, mas sim nas interpretações que foram e continuam a ser feitas desrespeitando-se e desprezando-se a autoridade da Igreja, autoridade essa sem a qual, “ironicamente”, a Bíblia que os protestantes esgrimam contra a Igreja Católica não existiria!

Sendo assim, pode-se perguntar: por que Deus quis, por intermédio da Sua Igreja, constituir uma Escritura Sagrada, visto que, séculos mais tarde, essa mesma Escritura viria a dar ensejo a tanta discórdia e desunião? O Catecismo da Igreja Católica nos ajuda a encontrar uma resposta para essa questão:

“101. Na condescendência de sua bondade, Deus, para revelar-se aos homens, fala-lhes em palavras humanas: ‘Com efeito, as palavras de Deus, expressas por línguas humanas, fizeram-se semelhantes à linguagem humana, tal como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza humana, se fez semelhante aos homens’.

(...)

 

104. Na Sagrada Escritura, a Igreja encontra incessantemente seu alimento e sua força , pois nela não acolhe somente uma palavra humana, mas o que ela é realmente: a Palavra de Deus. ‘ Com efeito, nos Livros Sagrados o Pai que está nos céus vem carinhosamente ao encontro de seus filhos e com eles fala’ ”.”

A Bíblia é, pois, um ato de bondade e de misericórdia de Deus, que quis vir ao nosso encontro e falar conosco em palavras humanas, assim como Cristo assumiu a forma humana, tornando-se semelhante a nós. Não obstante, a Bíblia não poderia (nem pode) jamais ser abstraída da Tradição e da Igreja no seio da qual foi gerada. É o que também nos ensina o Catecismo:

“84. ‘O patrimônio sagrado’ " da fé (‘depositum fidei’), contido na Sagrada Tradição e na Sagrada Escritura, foi confiado pelos apóstolos à totalidade da Igreja. ‘Apegando-se firmemente ao mesmo, o povo santo todo, unido a seus Pastores, persevera continuamente na doutrina dos apóstolos e na comunhão, na fração do pão e nas orações, de sorte que na conservação, no exercício e na profissão da fé transmitida se crie uma singular unidade de espírito entre os bispos e os fiéis.’

85. ‘O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo’ , isto é, foi confiado aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma.

86. ‘Tal Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a serviço dela, não ensinando senão o que foi transmitido, no sentido de que, por mandato divino, com a assistência do Espírito Santo, piamente ausculta aquela palavra, santamente a guarda e fielmente a expõe, e deste único depósito de fé tira o que nos propõe para ser crido como divinamente revelado ."

87. Os fiéis, lembrando-se da palavra de Cristo a seus apóstolos: ‘Quem vos ouve a mim ouve’ (Lc 10,16 ), recebem com docilidade os ensinamentos e as diretrizes que seus Pastores lhes dão sob diferentes formas.”

Assim, somente em consonância com a única Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, a Igreja Católica Apostólica Romana, e à luz da Tradição e dos ensinamentos do Magistério, é que podemos conhecer a verdadeira interpretação da Escritura Sagrada, interpretação essa que está acima dos “questionamentos” subjetivistas e dos “aproveitadores, que usam a palavra como meio de enriquecimento pessoal”, e a única interpretação capaz de evitar “confrontos e dissidências”.

À guisa de complemento, recomendo a leitura dos artigos abaixo, todos publicados em nosso site:

· A Biblia não pode ser interpretada à margem da Igreja

· A dificuldade de esclarecer aos "intérpretes" da Bíblia

· A interpretação da Bíblia

· A livre interpretação das Sagradas Escrituras

· A suficiência material e a suficiência formal das Escrituras

· Leia a Bíblia?

· 2Timóteo 3,16-17 e a "Sola Scriptura"

· 10 objeções rápidas à "Sola Scriptura"

· A autoridade bíblica

· A Bíblia como a "única regra de fé"

· A Bíblia mal utilizada

· A eucaristia segundo a Bíblia (ilogismos da "Sola Scriptura")

· A morte da "Sola Scriptura"

· A origem da falsa doutrina na "Sola Scriptura"

· Debate sobre a "Sola Scriptura": Alexandre C. Dias Jr. x Hercílio Leal - [1][2][3][4][5]

· Diálogo fictício sobre a "Sola Scriptura"

· Diálogo sobre o papel da Igreja e a "Sola Scriptura"[1][2][3][4]

· Erros de John McArthur sobre a "Sola Scriptura" - [1][2]

· Examinando as provas da "Sola Scriptura"

· Examinando a "Sola Scriptura"

· Leitor se espanta com a afirmação de que a Bíblia não é a única regra de fé

· Leitor usa Santos Padres para fundamentar a "Sola Scriptura" - [1]***

· Lutero e a autoridade das Escrituras

· "O Cristianismo é uma religião construída ao redor de um livro: a Bíblia"

· O legado do banquinho de um pé só...

· O nó górdio da "Sola Scriptura"

· O que é "Sola Scriptura"?

· Os nobres de Beréia: exemplo de "Sola Scriptura"?

· Os primitivos Padres da Igreja acreditavam na "Sola Scriptura"?

· O problema da autoridade na "Sola Scriptura"

· Os erros fundamentais da "Sola Scriptura"

· Os protestantes e a "Sola Scriptura"?

· Sagrada Tradição, "Sola Scriptura" e divisão católica

· Sobre a "Sola Scriptura"

· "Sola Scriptura": silogismo ou sofisma?

· Somente a Bíblia?

· Somente a Bíblia? 21 razões para rejeitar a Sola Scriptura[1][2][3][4][5][6][7][8][9][10][11][12][13][14][15][16][17][18][19][20][21][22][23][24]

· Tudo está na Bíblia?

 

 

Um abraço fraterno,

Marcos M. Grillo

 

[1] BARRERA, Julio Trebolle. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996, p. 179.

[2] LIMA, Alessandro. O cânon bíblico: a origem da lista dos livros sagrados. São José dos Campos, SP: ComDeus, 2007, pp. 40-41.

[3] BARRERA, Julio Trebolle. Idem, pp. 281-282.