Espaço do Leitor Respostas a Leitores (por Leandro Martins de Jesus)

Leitor pergunta sobre a “doação” do Vaticano para a Igreja

– É verdade que o Vaticano foi doado por Mussolini em troca de apoio da Igreja Católica a um governo sanguinário? Segundo o site “Wikipedia” e outros, o Vaticano – tanto o terreno quanto a autonomia – foi concedido em troca de apoio a um governo violento… (Marcelo)

Caro Marcelo,

Que a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja conosco!

Essa informação é totalmente mentirosa e deturpada. Mussolini não doou nada para a Igreja, e esta não fez nenhum acordo para apoiar governo nenhum. Para que compreendas a criação do Estado do Vaticano, é preciso ter em mente a formação do Estado Pontifício e seus desdobramentos na História da Igreja, culminando com o fim da Questão Romana aos 11/02/1929.

O Estado Pontifício foi formado da seguinte forma: Em 476 o Império Romano cai aos pés dos bárbaros Ostrogodos que tomaram a cidade de Roma. Os Bizantinos reconhecem o domínio Ostrogodo. Em 553 os Bizantinos fazem da província itálica uma província do Império Bizantino, com seu governador (exarca) em Ravena. Em 568 os Lombardos invadem o norte da Itália, não atacando Ravena. O Império Bizantino não agradava a população do centro e sul da península, com impostos e falta de proteção. O papado ia aumentado o seu prestígio moral e político, defendendo as populações carentes. A estima devotada ao Papa fazia que muitos nobres ao morrerem ou entrarem para um monastério deixassem seus bens e territórios ao Papa, dessa forma foi-se organizando o “Patrimônio de São Pedro,” que possuía terras da Itália e ilhas adjacentes.

Em 739 os Lombardos hostilizavam as populações itálicas e cercaram Roma. O Papa Gregório III tentou resolver a situação recorrendo aos Francos, mas não conseguiu o apoio. O sucessor de Gregório III, o Papa Zacarias (740-52) conseguiu paz com os Lombardos e um bom relacionamento com os Francos. Em 747, Pepino tornou-se mordomo (os reis “reinavam” e os mordomos governavam “sem coroa”) do Palácio Real dos Francos. Em 751 Pepino depôs o último rei merovíngio, Childerico III.

O Papa Zacarias permitiu o golpe de Estado, que proporcionou o título de Rei a Pepino, que já o possuía de fato. Em 754 Estevão II (752-57) veio a Gália para ungir Pepino como Rei. O Rei Lombardo Aistulfo (749-56) depois de ter tomado Ravena ameçava Roma. O Papa Estevão II pediu auxílio aos Francos. Pepino em duas campanhas militares (755 e 756) venceu Aistulfo e apesar dos protestos de Bizâncio, doou solenemente por escrito ao Papa os territórios de Comacchio, o exarcado e a Pentápole; o documento de doação (Donatio Pippini) foi colocado sobre o túmulo de São Pedro.

Funda-se o Estado Pontifício (756), independente de Bizâncio, jurisdicionado pelo Papa e protegido pelos Francos.

Vejamos o que nos diz MATOS: “A benção da Igreja retirou do golpe de Estado o seu caráter de ilegitimidade. Não estranhamos assim a gratidão, por parte de Pepino, que teve oportunidade de demonstrá-la concretamente, quando o rei Lomgobardo Astolfo, que sitiara Ravena, começou suas investidas também contra Roma. O Papa Estevão II pediu exílio a Pepino. Duas vezes ele se deslocou com seu exército para a Itália, a fim de combater Astolfo. Na segunda vez, em 756, obrigou a retirada e, para garantir melhor proteção ao Papa, ofereceu a Igreja, além de Ravena, um grande número de lugares que, anexadas a Roma e ao antigo território pontifício, formariam um verdadeiro país no centro da Itália. Foi a famosa Donatio Pippini – a doação de Pepino – que deu origem ao Estado Pontifício. Os protestos do Imperador bizantino, a quem pertencia Ravena, não foram respondidos. Um documento falsificado serviu como prova de que Pepino não fazia outra coisa senão devolver ao Papa uma antiga doação feita por Constantino. O pontífice ofereceu ao Rei a dignidade de Patrício dos Romanos. Pouco faltava para ser substituído pelo título de Imperador, o que se realizou efetivamente, com a figura de Carlos Magno (cf. MATOS, H. Cristiano. Introdução à História da Igreja. 5ª ed. Belo Horizonte: O Lutador,1997.p,193-195).

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Assim, de 756 até 1870 a Igreja tinha jurisdição legítima sobre as terras do Estado Pontifício. A partir de 1823 começaram a surgir na Itália campanhas em favor da Unificação da Península Itálica, o que implicava na extinção do Estado Pontifício. O Papa dessa época era Pio IX.

Em abril de 1848 o rei do Piemont – Sardenha, Carlos Alberto, — que encabeçava o movimento de Unificação da Itália — declarou guerra a Áustria que apoiava o Estado Pontifício. Diante do conflito Pio IX declarou-se neutro, para não contestar os italianos e nem magoar a Áustria, país católico. Essa atitude de Pio IX irou os nacionalistas italianos que cercaram o Palácio do Quirinal (residência do Papa) o ameaçando. O Papa Pio IX terminou tendo que fugir para Gaeta, no Reino de Nápolis aos 24/11/1848.

Aos 09/12/1849 em Roma, a Assembléia Constituinte proclamou a Republica, seguindo-se a diversas profanações cometidas pelos chefes revolucionários, como por exemplo, o saque de Igrejas, clérigos maltratados, “celebrações” por sacerdotes depravados, etc.

Pio IX em Gaeta pede ajuda as potencias européias conseguindo o apoio da Áustria (por ambição) e da França (por rivalidade). Após lutas, o general francês Oudinot ocupou Roma em julho de 1849 restabelecendo a soberania pontifícia, assim, Pio IX retornou a Roma em 1850.

Depois desses acontecimentos, os ânimos dos italianos nacionalistas que se concentravam no reino de Piemonte-Sardenha ficaram muito irritados pela presença das tropas austríacas e francesas na Itália para evitar novos ataques ao Estado Pontifício. O resultado é que outra campanha bélica ocorrida foi favorável aos franco – piemonteses, que expulsaram os austríacos, dessa forma, os italianos tomaram posse de grande parte do Estado Pontifício, Pio IX agora sem apoio tentou montar um exército de voluntários, que improvisado e sem preparo foi vencido aos 18/09/1860 em Castelfidardo. Vitor – Emanuel II (1849-70) ocupou novas províncias pontifícias e foi proclamado “rei da Itália”.

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Para piorar a situação, no sul da Itália Giuseppe Garibaldi, patriota e inimigo ferrenho do poder temporal dos Papas derrubou o rei de Nápolis fundando a Republica Napolitana, marchando para Roma. Em 1861 o Estado Pontifício já tinha perdido por força das armas dois terços dos seus territórios. Os Piemonteses continuaram a pressionar o Papa para que cedesse o restante dos Estados Pontifícios. Em 1867 Giuseppe Garibaldi quase toma a cidade de Roma com uma incursão de 6.000 homens, vencidas pelas tropas papais e francesas.

Por fim em 1870 a Estado Pontifício caiu em frente a 60.000 piemonteses, uma vez que as tropas franco – alemãs que ajudavam na defesa do que sobrara do Estado Pontifício havia sido retirada por Napoleão III. Em 1871 Vitor Emanuel se apossou da residência dos Papas, o Quirinal, ficando o Papa recluso ao Vaticano.

Os piemonteses queriam “legalizar” a usurpação dos Estados Pontifícios realizando um plebiscito que lhe deu razão, e publicando uma “lei das garantias” concedendo regalias ao Papa, o que de modo algum não foi aceito. De 1870 até 1929 os Papas se consideraram prisioneiros no Vaticano, frente à usurpação dos Estados Pontifícios.

Em 06/02/1922, o Cardeal Aquiles Ratti é eleito Papa, tomando o nome de Pio XI, este versado em conhecimento e diplomacia. Em meio à mudança do governo da Itália, com o surgimento do Fascismo (1) que tomou medidas favoráveis à Igreja, tais como obrigatoriedade do ensino religioso nas escolas, dispensa do serviço militar para os clérigos, retorno dos símbolos cristãos (Cruz, etc) para órgãos públicos (escolas, tribunais, hospitais, etc) preparam o a ocasião para a assinatura do Tratado do Latrão. Benito Mussolini, chefe do Governo, agindo movido pela conveniência política de conciliar a Itália com o Vaticano assina o Tratado do Latrão (2) em 11/02/1929, que reconhecia a absoluta soberania do Papa sobre a pequena Cidade do Vaticano (somente 0,44 Km? que sobrara do Estado Pontifício tomado pelas armas!), findando-se a Questão Romana. A Igreja perdia as terras do Estado Pontifício que outrora possuía, ficando apenas com o mínimo território independente para o desenvolvimento de suas atividades administrativas.

Pio XI justificou a necessidade do Estado do Vaticano, como “um mínimo território para o exercício da jurisdição”, para que a Igreja mantivesse a sua sede física neste mundo, e independente de qualquer governo e soberano, para assim poder exercer suas atividades livremente. Assim como a alma tem como sede o corpo, a Igreja que é teândrica (3) necessita de um corpo para exercer “um poder espiritual confiado a homens em proveito de homens”

“(…) um mínimo de território que baste para o exercício da jurisdição, o território sem o qual não poderia subsistir… Parece-nos, em suma, ver as coisas tais como elas se realizavam na pessoa de São Francisco: este tinha apenas o corpo estritamente necessário para poder deter a alma unida a si. O mesmo se deu com outros santos: seu corpo estava reduzido ao estrito necessário para servir à alma, para continuar a vida humana e, com a vida, sua atividade benfazeja. Tornar-se-á claro a todos, esperamo-lo, que o Sumo Pontífice não possui como território material senão o que Ihe é indispensável para o exercício de um poder espiritual confiado a homens em proveito de homens. Não hesitamos em dizer que nos comprazemos neste estado de coisas; comprazemo-nos por ver o domínio material reduzido a limites tão restritos que… os homens o devem considerar como que espiritualizado pela missão espiritual imensa, sublime e realmente divina que ele é destinado a sustentar e favorecer” (L’Osservatore Romano de 13 de fevereiro de 1929; PR, 394/1995 apud AQUINO, Felipe. Escola da Fé III. O Sagrado Magistério. Lorena-SP:Cleofas,2001,p.65). [grifo nosso]

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Eis em síntese os desdobramentos históricos que concluíram com a Igreja sendo usurpada, ficando apenas com o pequeno Estado do Vaticano, para o desenvolvimento de suas atividades administrativas.

Para um maior aprofundamento sobre o assunto, recomendo a leitura dos seguintes artigos:

– “A Fundação do Estado Pontifício” em http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=SANTA&id=deb0263

– “Pio IX. A queda do Estado Pontifício” em http://www.cleofas.com.br/virtual/texto.php?doc=SANTA&id=deb0265

In caritate Christi,
Leandro.

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NOTAS:

(1) O fascismo é uma doutrina totalitária de extrema-direita desenvolvida por Benito Mussolini na Itália, a partir de 1919, e durante seu governo (1922–1943 e 1943–1945). Fascismo deriva de fascio, nome de grupos políticos ou de militância que surgiram na Itália entre fins do século XIX e começo do século XX; mas também de fasces, que nos tempos do Império Romano era um símbolo dos magistrados: um machado cujo cabo era rodeado de varas, simbolizando o poder do Estado e a unidade do povo. Os fascistas italianos também ficaram conhecidos pela expressão camisas negras, em virtude do uniforme que utilizavam. (cf. Verbete: Fascismo in: http://tiosam.com/?q=Facismo#Fascismo_e_Cristianismo acesso em 14/08/2007.)
(2) A independência do Vaticano só foi reconhecida em 11 de fevereiro de 1929, por meio do Tratado de São João Latrão ou simplesmente Tratado de Latrão, assinado pelo ditador fascista Benito Mussolini e a Santa Sé, representada pelo cardeal Pietro Gasparri, secretário de Estado do papa Pio XI. O Tratado de Latrão formalizou a existência do Estado do Vaticano (cidade do Vaticano, palácio de Castelgandolfo e as três basílicas patriarcais de São João de Latrão, Santa Maria Maior e São Paulo Extramuros) Estado soberano, neutro e inviolável, sob a autoridade do papa. Por outro lado, a Igreja Católica renunciava aos territórios que havia possuído na Idade Média e reconhecia Roma como capital da Itália. (Verbete: Tratado de Latrão in: http://pt.wikipedia.org/wiki/Tratado_de_Latr%C3%A3o acesso em 14/08/2007.)
(3) Possui uma realidade divina e humana.