Espaço do Leitor

Leitora questiona sobre heterossexualidade

Uma leitora enviou-nos, por e-mail, o seguinte questionamento:

A pergunta é:

O que é a heterossexualidade?

Se você tiver dificuldades em responder, pode pedir ajuda aos seus amigos do Veritatis. Não tem problema para mim.

Faço essa pergunta porque acho que os própios heterossexuais não sabem com clareza. Percebo que na nossa sociedade está sendo influênciada pelo materialismo, onde só acreditam no que vêem. Tem muitas coisas que nós acreditamos sem nunca termos visto. Que está aqui e não pegamos, que passou e não sentimos, não é mesmo? Você sabe disso. Mas com relação ao analizar a heterossexualidade de alguém não acontece o mesmo, na maioria das vezes.

Por exemplo, se um rapaz de dezoito anos que nunca namorou, mesmo tendo jeito viril, algumas pessoas vão desconfiar. Se uma mulher ou um homem de quarenta anos que nunca casou, também vão desconfiar. Parece que, para a sociedade, ser heterossexual é preciso está necessariamente casado(a), ou pelos menos, ter “ficado” com o sexo oposto.
Vejamos o seguinte. Santa Teresinha do Menino Jesus, pelo que eu sei, nunca namorou. Será que ela era homossexual? Claro que não.

Conheço pessoas no bairro onde moro que nunca se viu namorando, e todas essas tem jeito heterossexual, tem amigos heterossexuais e se declaram heterossexuais. Mesmo elas vivendo em ambiente sempre heterossexual, alguns heteros são os que levantam as suspeitas, por quê? Me parece que o que vale para a sociedade é “ver para crer”. A sociedade corre o risco de blafemar contra os outros por causa dessa reflexão. Não tem cabimento um cristão pensar dessa forma, julgar uma pessoa como sendo homossexual só porque nunca a viu com um do sexo oposto, nem do mesmo. Isso é blasfêmia e das graves! Quantos católicos foram julgados dessa forma pelos própios católicos? Verdade seja dita: houve, existe e existirá pessoas heterossexuais que nunca se casarão, até o fim do mundo.
Então, é preciso esclarecer o que é de fato a heterossexualidade.

Que o Espírito Santo lhe ilumine para refletir, na verdade, comigo.

Que a Virgem Santíssima, verdadeira Mulher, interceda por você nessa reflexão. Amém.

Resposta:

Prezada leitora,

A Paz !

Espero que essa mensagem a encontre bem. Peço desculpas pela demora, mas o assunto é delicado, e merece ser tratado com cuidado.

Não me sinto qualificada para expor o assunto com autoridade, portanto o que posso compartilhar com você são as minhas pesquisas e a conclusão a que elas me levaram.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, sexualidade é “A forma de expressão ou o conjunto de formas de comportamento do ser humano, vinculado aos processos somáticos, psicológicos e sociais do sexo.”

“A sexualidade humana forma parte integral da personalidade de cada um. É uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado de outros aspectos da vida. A sexualidade não é sinônimo de coito e não se limita à presença ou não do orgasmo. Sexualidade é muito mais do que isso. É energia que motiva encontrar o amor, contato e intimidade, e se expressa na forma de sentir, nos movimentos das pessoas e como estas tocam e são tocadas.” (OMS) (1)

No site português “Amar com o Corpo”, lê-se que:

O homem é uma estrutura de corporalidade e espiritualidade. O espiritual tem uma expressão também corporal. Diversos aspectos da alma exprimem-se em diversos aspectos do corpo. Vemos com os olhos, ouvimos com os ouvidos, falamos com a boca, exprimimos a nossa alegria ou tristeza com a cara, os gestos, a voz. Dançamos, gritamos ou saltamos, rimos e choramos. E tudo isto são expressões corporais de situações do nosso espírito. Como diz o ditado, “a cara é o espelho da alma”.

Do mesmo modo, a sexualidade, para além da sua função generativa, é, na sua dimensão mais elevada, expressão corporal da nossa capacidade de amar, de entregar-nos a outra pessoa e receber a sua entrega. A liberdade e a capacidade de amar são o maior e o mais íntimo que tem a pessoa humana. Por isso a sexualidade, na medida em que é a sua expressão corporal, afecta o homem de maneira íntima e profunda, tanto para o bem como para o mal.(2)

O corpo é uma parte da personalidade humana. Como vimos, somos pessoas de carne e osso e para nos expressarmos e realizarmos necessitamos do nosso corpo. Fazemos tudo através dele. Para que essa expressão e realização saia bem temos de treinar o corpo. Há que aprender a dançar, a escrever, a andar, a falar, a pintar, a praticar qualquer desporto, a cantar e inclusive a comer. Se não, essas actividades fazem-se mal, duma forma tosca, sem graça, como pessoas incultas ou como animais. Para todo o tipo de expressão é necessário ter um corpo bem treinado. Esse treino é o modo de “personalizar” o corpo, para que não seja simplesmente carne e osso, mas expressão do meu eu, dos meus gostos, da minha pessoa. Através do treino e da educação, o corpo integra-se na nossa personalidade e permite-nos desenvolvê-la. O treino faz que a unidade de alma e corpo seja algo operativo, prático.

Se não há treino, ainda que a pessoa queira expressar-se e realizar-se, não poderá, sentirá a frustração de não poder comunicar o que tem dentro, de não poder realizar os seus sonhos. Em lugar de cantar, sairão uns uivos próprios de animais; em lugar de dançar, uns movimentos desajeitados e ridículos; em lugar de saber exprimir-se, falará como um inculto e não poderá transmitir o que sente; em lugar de comer com dignidade, parecerá um animal que satisfaz os seus instintos e provocará repugnância. Isto é uma coisa que todos sabemos.

Ora bem, o mesmo se passa com a nossa sexualidade. É a expressão corporal da nossa capacidade de amar e de nos entregarmos por inteiro, mas se não a educarmos, em lugar de servir para expressar e realizar o amor, arrastar-nos-á a comportar-nos como animais, como se passa com quem não sabe falar ou não sabe comer. Que a sexualidade seja expressão de amor é algo exclusivo e típico do homem. E, como tudo o que é tipicamente humano, é algo que está por realizar, algo que há que conseguir com base no exercício da própria liberdade.(3)

Por fim, com a palavra, o Catecismo da Igreja Católica:

“A sexualidade afeta todos os aspectos da pessoa humana, em sua unidade de corpo e alma. Diz respeito particularmente à afetividade, à capacidade de amar e de procriar e, de uma maneira mais geral, à aptidão a criar vínculos de comunhão com os outros.(2332)

Cabe a cada um, homem e mulher, reconhecer e aceitar sua identidade sexual. A diferença e a complementaridade físicas, morais e espirituais estão orientadas para os bens do casamento e para o desabrochar da vida familiar. A harmonia do casal e da sociedade depende, em parte, da maneira como se vivem entre os sexos a complementaridade, a necessidade e o apoio mútuos.(2333)

“Ao criar o ser humano, homem e mulher, Deus dá a dignidade pessoal de modo igual ao homem e à mulher.” “O homem é uma pessoa, e isto na mesma medida para o homem e para a mulher, pois ambos são criados à imagem e à semelhança de um Deus pessoal.”(2334)

Cada um dos dois sexos é, com igual dignidade, embora de maneira diferente, imagem do poder e da ternura de Deus. A união do homem e da mulher no casamento é uma maneira de imitar na carne a generosidade e a fecundidade do Criador: “O homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tomam uma só carne” (Gn 2,24). Dessa união procedem todas as gerações humanas(2335).”

Segundo o Dicionário Aurélio:

Heterossexualidade. Qualidade ou caráter de heterossexual.

Heterossexual. 1. Relativo a tendências e/ou atos sexuais entre indivíduos de sexo diferente. 2. Que pratica tais atos. 3. Indivíduo heterossexual.

De tudo o que foi apresentado, conclui-se facilmente que a sexualidade não se resume à “orientação sexual”; além do mais, a atividade sexual – ter relações sexuais ou não – não pode ser parâmetro para avaliação da sexualidade, pois aqueles que presentemente vivem a castidade por escolha – e mesmo os que nunca tiveram relações sexuais, não têm a sua sexualidade diminuída, e menos ainda a sua dignidade. Como exemplos podemos citar vários santos, e, como exemplo de pessoa não-católica, Gandhi, que, ainda jovem, escolheu a abstinência, com a anuência da esposa.

Jesus Cristo viveu o celibato de modo incondicional, não namorou mulheres, nem casou e é considerado por nós cristãos o exemplo máximo de homem que viveu plenamente a sua heterossexualidade na castidade e na caridade.

Sobre a Castidade:

“A sexualidade afeta todos os aspectos da pessoa humana, na sua unidade de corpo e alma. Por isso a castidade é imprescindível para o seguimento de Cristo, para o respeito aos outros e para uma ordem social justa, na qual o corpo e os sentimentos – e com eles a pessoa – não se convertam em meros instrumentos de prazer.

… se pode afirmar que ser casto exige um heroísmo impossível. Não é bem assim quando – além de contar com a ajuda de Deus na oração e nos sacramentos – se sabe antepor ao sexo outros interesses mais fortes: a fé, a família, o trabalho, o serviço aos outros, gostos humanos nobres, etc. E também empreender a luta: a boa ascética cristã, que não fabrica super-homens, mas sim pessoas que sabem o que é fortaleza e vontade firme. “Gravai-o na vossa cabeça – diz São Josemaría comparando a castidade às asas, que embora pesem são imprescindíveis para voar – decididos a não ceder se notais a mordida da tentação, que se insinua apresentando a pureza como um fardo insuportável. Ânimo! Para o alto! Até o sol, à caça do Amor” (Amigos de Deus, nº 177).”(4)

Você nos aponta uma tendência das pessoas em levantar suspeitas de homossexualidade sobre pessoas que não são vistas em público com um namorado(a), e afirma: “Não tem cabimento um cristão pensar dessa forma, julgar uma pessoa como sendo homossexual só porque nunca a viu com um do sexo oposto”. Realmente, você tem toda a razão, não tem cabimento mesmo. Heterossexualidade não é estar junto, ficar, namorar, ou ter atos sexuais com o sexo oposto, como a sociedade parece querer transmitir, mas perpassa nossas dimensões corporais, psicológicas e espirituais. Na verdade, não tem sentido um cristão julgar, pois nosso Mestre disse: “Não julgueis, e não sereis julgados (Mt 7,1).”

Mais uma vez, agradeço sua confiança e seu carinho, espero ter correspondido às suas expectativas e peço que ore pelo Apostolado Veritatis Splendor.

Ad Majorem Dei Gloriam,

Maite Tosta

(1)    http://www.marilandes.com.br/saiba_sex.htm

(2)    http://amarcomocorpo.no.sapo.pt/corporalidadepersonalidade.htm

(3)    http://amarcomocorpo.no.sapo.pt/caracterpessoalcorpo.htm

(4) http://www.quadrante.com.br/Pages/servicos02.asp?id=126&categoria=Valores_Virtudes  (Pablo Cabellos Llorente, Tradução Ed. Quadrante).

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