Patrologia

O catálogo sagrado dos primeiros cristãos

Como poderemos ver nos testemunhos primitivos que irei transcrever, na Igreja Primitiva somente alguns livros que hoje consideramos canônicos eram comumente aceitos por toda Igreja, outros tinham sua canonicidade contestada. O Cânon Bíblico, ao contrário do que alguns pensam não chegou até nós pronto, mas foi resultado um grande trabalho que o Espírito Santo realizou através da Tradição Apostólica e do Magistério da Igreja Católica.

Enquanto não era chegado o tempo em que a Igreja Católica definiria de um único Catálogo Sagrado para todos os cristãos (Concílio Ecumênico de Hipona, 8 de Outubro de 393), muitos catálogos foram propostos e observados pelos primeiros cristãos.

Orígenes nos chama a atenção para algo interessante: “Observe-se que os livros do Antigo Testamento, segundo a tradição hebraica, são vinte e dois, número das letras de seu alfabeto.”

Os livros sagrados segundo Justino de Roma (155 d.C)

Justino, considerado o maior apologista da verdadeira fé no segundo século, costumava utilizar o Antigo Testamento para provar através das profecias a legitimidade e a antiguidade da fé Cristã. Utilizava freqüentemente a Tradução dos Setenta, e sobre ela escreve:

“Entre os judeus, houve profetas de Deus, através dos quais o Espírito profético anunciou antecipadamente os acontecimentos futuros, e os reis, que segundo os tempos se sucederam entre os judeus, apropriando-se de tais profecias, guardaram-nas cuidadosamente tal como foram ditas e tal como os próprios profetas as consignaram em seus livros, escritos em sua própria língua hebraica. Quando Ptolomeu, rei do Egito, se preocupou em formar uma biblioteca e nela reunir os escritos de todo o mundo, tendo tido notícia dessas profecias, mandou uma embaixada a Herodes, que então era rei dos judeus, pedindo-lhe que mandasse os livros deles. O rei Herodes mandou os livros, como dissemos, em sua língua hebraica. Todavia, como seu conteúdo não podia ser entendido pelos egípcios, Ptolomeu pediu, por meio de uma nova embaixada, que Herodes enviasse homens para os verter para a língua grega. Depois disso, os livros permaneceram entre os egípcios até o presente e os judeus os usam no mundo inteiro. Estes, porém, ao lê-los, não entendem o que está escrito, mas considerando-nos inimigos e adversários, matam-nos, como vós o fazeis, e atormentam-nos sempre que podem fazê-lo, como podeis facilmente verificar. Com efeito, na guerra dos judeus agora terminada, Bar Kókeba, o cabeça da rebelião, mandava submeter a terríveis torturas somente os cristãos, caso estes não negassem e blasfemassem Jesus Cristo.” (I Apologia 31)

Quanto ao Novo Testamento, não achamos nas obras de Justino qualquer referência.

Os livros sagrados segundo Ireneu de Lião (170 d.C)

Ireneu foi um dos maiores apologistas da fé genuína do segundo século. Foi bispo de Lião (França), discípulo de Policarpo bispo de Esmirna (discípulo de São João).

Antigo Testamento

Quanto ao Antigo Testamento Ireneu usava a versão dos Setenta (Septuaginta). Eusébio transcreve um trecho da obra de Ireneu, onde ele relata como a esta tradução foi realizada com o auxílio divino:

“Antes que os romanos tivessem estabelecido o império, e quando os macedônios ainda dominavam a Ásia, Ptolomeu, filho de Lagos, muito desejoso de enriquecer com os melhores escritos dos homens a biblioteca que instituíra em Alexandria, pediu aos habitantes de Jerusalém suas Escrituras traduzidas para a língua grega.

Estes, naquela época ainda sujeitos aos macedônios, enviaram a Ptolomeu setenta anciãos, dos mais peritos nas Escrituras e no conhecimento das duas línguas e realizou-se desta forma o plano de Deus.

Ptolomeu, querendo provar particularmente a perícia de cada um, e a fim de evitar que, por confronto entre si, eles falseassem na tradução a verdade contida nas Escrituras, separou-os uns dos outros e ordenou-lhes que todos escrevessem a tradução do mesmo texto; assim fez relativamente a todos os livros.

Mas, ao se reunirem no mesmo lugar com Ptolomeu, e conferindo as traduções, Deus foi glorificado e as Escrituras foram reconhecidas como realmente divinas, pois todos haviam expressado idéias idênticas com idênticas palavras, idênticos nomes, do começo ao fim. Desta forma, até os pagãos presentes reconheceram terem sido as Escrituras traduzidas sob inspiração de Deus.

Não é de admirar tenha Deus agido desta maneira. Efetivamente, perdidas as Escrituras por ocasião do cativeiro do povo sob Nabucodonosor, e tendo os judeus após setenta anos regressado a seu país, mais adiante, no tempo de Artaxerxes, rei dos persas, ele próprio inspirou o sacerdote Esdras da tribo de Levi [cf. Esd 9,38-41] relativamente à reconstituição das palavras dos profetas anteriores e à restauração entre o povo da legislação promulgada por Moisés.” (HE V,8,10-15)

Novo Testamento

Eusébio transcrevendo trechos da obra de Ireneu, testemunha que segundo este as Escrituras do Novo Testamento são: “Mateus, no entanto, publicou entre os hebreus em sua própria língua um Evangelho escrito, enquanto Pedro e Paulo anunciavam a boa nova em Roma e lançavam os fundamentos da Igreja.

Mas, após a morte deles, Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos por escrito igualmente o que Pedro pregara. Lucas, porém, companheiro de Paulo, deixou num livro o Evangelho pregado por este último. Enfim, João, o discípulo que reclinou sobre o peito do Senhor [cf. Jô 13,25. 21,20], publicou também ele um evangelho, enquanto residia em Éfeso, na Ásia.” (HE V,8,2).

Eusébio afirma ainda que no quinto livro de “Contra as Heresias”, Ireneu faz menção do Apocalipse de João, da primeira carta de Pedro, o Pastor e do livro Sabedoria de Salomão (cf. HE V,8,5-8). Ainda segundo Eusébio, Ireneu na obra “Exposições diversas” “relembra a carta aos Hebreus e a Sabedoria dita de Salomão, incluindo trecho de ambas.” (HE V,26)

No entanto não podemos afirmar que Ireneu não recebia como canônicos os outros livros do que hoje compõe nosso Novo Testamento.

Os livros sagrados segundo Clemente de Alexandria

Segundo Eusébio, Clemente em sua obra Stromata “emprega também provas extraídas de Escrituras não aceitas de modo geral; cita, por exemplo, a Sabedoria dita de Salomão, a de Jesus filho de Sirac [Eclesiástico], a carta os Hebreus, as cartas de Barnabé, de Clemente [de Roma] e de Judas” (HE VI 13,6)

E continua: “Em Hyptyposes ele faz, em suma, exposições resumidas dos Testamentos de toda a Escritura, sem omitir as partes controvertidas, isto é, a Carta de Judas e as outras cartas católicas, e a carta de Barnabé e o Apocalipse, dito de Pedro. Acrescenta ser da autoria de Paulo a carta aos Hebreus, escrita para os hebreus em língua hebraica, mas que Lucas, depois de traduzi-la cuidadosamente, divulgou-a entre os gregos. Este o motivo por que se assemelham a tradução desta carta e os Atos” (HE VI,14,1-2). Eusébio ainda nos conta que Clemente ainda se refere à origem dos Evangelhos de Mateus e Marcos, dizendo que estes foram escritos primeiro (cf. HE VI,14,5-7).

Os livros sagrados segundo Orígines (+ ou – 212 d.C)

Antigo Testamento

Segundo o historiador eclesiástico da Igreja primitiva, Eusébio de Cesaréia “Ao explicar o salmo primeiro [na obra Stromata], Orígines apresenta um catálogo das Escrituras Sagradas do Antigo Testamento, escrevendo literalmente: ‘Observe-se que os livros do Antigo Testamento, segundo a tradição hebraica, são vinte e dois, número das letras de seu alfabeto’. Em seguida, um pouco mais adiante prossegue: ‘Os vinte e dois livros, conforme os hebreus, são os seguintes: O livro que damos o título de Gênesis, entre os hebreus traz inscrito, de acordo com as palavras iniciais: Bresith, que significam “No começo”; Êxodo, Ouellesmoth, isto é, “Eis os nomes”, Levítico, Ouicra, isto é, “Ele me chamou”; Números, Ammesphecodeim; Deuteronômio, Elleaddebareim: “Estas são as palavras”; Jesus, filho de Navé [Josué], Iosouebennoun; Juízes, Rute, entre eles foram um só livro, Sophteim; Reis primeiro e segundo livros, entre eles um só, Samuel: “O eleito de Deus”; Reis, terceiro e quarto livros, em um só, Ouammelch David, isto é: “Reino de Davi”; Paralipomenos, primeiro e segundo livros, em um só, Dabreiamein, isto é, “Palavra dos dias”; Esdras, primeiro e segundo livros, em um só, Ezra, isto é, “Auxiliar”; Livro dos Salmos, Spharthelleim; Provérbios de Salomão, Meloth; Eclesiastes, Koeleth; Cântico dos Cânticos – e não como alguns julgam, Cântico dos Cânticos [esta observação de Eusébio é para indicar que não se trata do livro Cântico dos Cânticos, sim do Eclesiástico]-, Sirassereim ; Isaías, Iessia; Jeremias, com as Lamentações e a Carta em um só livro, Ieremia; Daniel, Daniel; Ezequiel, Ezechiel; Jó, Job; Ester, Esther. Além destes, os Macabeus, intitulados Sarbethsabanaiel'”. (História Eclesiástica VI,25,1-2 – Eusébio de Cesaréia, 317 d.C).

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Estranhamente Orígenes não cita os 12 profetas menores e nem Cântico dos Cânticos. Dos deuterocanônicos apenas reconhece os dois livros dos Macabeus e Sabedoria de Sirácida.

Novo Testamento

Segundo Eusébio quanto ao que hoje chamamos de Novo testamento o testemunho de Orígenes é:

“Conforme aprendi da tradição sobe os quatro Evangelhos, os únicos também indiscutíveis na Igreja de Deus que há sob os céus, foi escrito em primeiro lugar o evangelho segundo Mateus; este anteriormente fora publicano e depois Apóstolo de Jesus Cristo. Ele o editou para os fiéis vidos do judaísmo, redigindo-o em hebraico. O Segundo é o Evangelho segundo Marcos, que escreveu conforme as narrações de Pedro, o qual o nomeia seu filho [segundo o espírito] na carta católica, nesses termos: ‘A que está em Babilônia [Roma], eleita como vós, vos saúda, como também Marcos, o meu filho’ [cf. 1Pd 5,13]. E o terceiro é o Evangelho segundo Lucas, elogiado por Paulo [cf. 2Cor 8,18-19; 2Tm 2,8; Cl 4,14) e composto para os fiéis provenientes da gentilidade. Enfim, o Evangelho segundo João.” (História Eclesiástica VI,25,4-6 – Eusébio de Cesaréia, 317 d.C).

Pelo testemunho de Orígenes os 4 Evangelhos são reconhecidos como canônicos em toda Igreja (“Conforme aprendi da tradição sobre os quatro Evangelhos, os únicos também indiscutíveis na Igreja de Deus que há sob os céus”). As palavras “os únicos indiscutíveis” testemunha que haviam ainda outros que eram aceitos por uns e renegados por outros.

Ainda sob a estreita de Eusébio “No quinto livro dos Comentários ao Evangelho segundo João, o mesmo Orígenes declara o seguinte acerca das Epístolas dos apóstolos: ‘Paulo, digno ministro do Novo Testamento, não segundo a letra, mas segundo o espírito, depois de ter anunciado o evangelho desde Jerusalém e suas cercanias até o Ilírico [cf. Rm 15,19], não escreveu a todas as Igrejas que ele havia instruído; mesmo àquelas que a escreveu, enviou apenas poucas linhas.” (História Eclesiástica VI,25,7 – Eusébio de Cesaréia, 317 d.C).

Aqui Orígenes reconhece como canônicas as cartas paulinas, embora não cite quais são. Quanto à controversa carta aos Hebreus, segundo Eusébio “Finalmente, externa-se da seguinte maneira sobre a Carta aos Hebreus, nas Homilias proferidas a respeito desta última: ‘O estilo da epístola intitulada Aos Hebreus carece da marca de simplicidade de composição do Apóstolo, que confessa ele próprio ser imperito no falar, isto é, no fraseado [cf. 2Cor 11,6]; no entanto, a carta é grego do melhor estilo, e qualquer perito em diferenças de redação o reconheceria. Efetivamente, os conceitos da Epístola são admiráveis e em nada inferiores aos das genuínas cartas apostólicas. Há de concordar quem ouvir atentamente a leitura das cartas do Apóstolo’. Mas adiante [diz Eusébio], [Orígenes] adita essas afirmações: ‘Mas, para exprimir meu próprio ponto de vista, diria que os pensamentos são do Apóstolo, enquanto o estilo e a composição originam-se de alguém que tem presente a doutrina do Apóstolo, e por assim dizer, de um redator que escreve as preleções de um mestre. Se, portanto, uma Igreja tem por certo que a carta provém do Apóstolo [Paulo], felicito-a, pois não será sem fundamento que os antigos a transmitiram como sendo da autoria de Paulo. Entretanto, quem escreveu a carta? Deus o sabe. A tradição nos transmitiu o parecer de alguns de ter sido redigida por Clemente, bispo de Roma [e discípulo de Pedro e Paulo], outros opinam ter sido Lucas, o autor do Evangelho e dos Atos.'” (História Eclesiástica VI,25,11 – Eusébio de Cesaréia, 317 d.C).

Como podemos ver, embora seja controversa a autoria da Carta aos Hebreus, Orígenes não só a considera canônica, como afirma que este é o mesmo parecer dos presbíteros que o antecederam. Observem que quanto ao livro dos Atos dos Apóstolos, Orígenes apenas mostra que o conhece, mas não emite seu parecer quanto à canonicidade do livro (“outros opinam ter sido Lucas, o autor do Evangelho e dos Atos”).

Ainda na estreita de Eusébio, sobre os outros livros afirma: “Pedro, sobre quem está edificada a Igreja de Cristo, contra a qual não prevalecerão as portas do inferno [cf. Mt 16,18], deixou apenas uma carta incontestada, e talvez ainda outra, porém controvertida.” (História Eclesiástica VI,25,8 – Eusébio de Cesaréia, 317 d.C). Orígenes não só reconhece a canonicidade da primeira epístola de São Pedro, como declara que o mesmo é o parecer comum da Igreja em seu tempo. E quanto à segunda Epístola que hoje se encontra em nosso cânon, ele afirma que não é aceita por todos (“e talvez ainda outra, porém controvertida”).

E continua “Que dizer de João, que reclinou sobre o peito de Jesus [cf. Jo 13,25; 21,20], deixou um evangelho, assegurou ser-lhe possível compor mais livros do que poderia o mundo conter [cf. 21,25], e escreveu o Apocalipse, mas recebeu a ordem de se calar e não escrever as mensagens das vozes das sete trombetas [cf. Ap 10,4]?” (História Eclesiástica VI,25,9 – Eusébio de Cesaréia, 317 d.C). Aparece-nos que aqui afirmar a canonicidade do Apocalipse de João.

“Legou-nos também uma Carta de muito poucas linhas e talvez outra e ainda terceira, pois nem todos admitem que estas sejam autênticas; aliás, as duas juntas não abrangem cem linhas” (História Eclesiástica VI,25,10 – Eusébio de Cesaréia, 317 d.C). Quanto às cartas de São João Apóstolo e Evangelista, Orígenes diz que comumente era reconhecida como canônica somente a primeira carta. Ainda não havia na Igreja antiga um parecer comum quanto à canonicidade das outras duas (“e talvez outra e ainda terceira, pois nem todos admitem que estas sejam autênticas”).

Como podemos ver, segundo Eusébio, Orígenes não emitiu nenhum parecer quanto às outras cartas que hoje consideramos canônicas que são as Epístolas Universais de São Judas Tadeu e São Tiago Menor e o livro de Atos.

Desta forma segundo Orígenes as Escrituras Sagradas são compostas pelos seguintes livros:

Antigo Testamento

1 – Gênesis (Bresith)
2- Êxodo (Ouellesmoth)
3- Levítico (Ouicra)
4- Números (Ammesphecodeim)
5 -Deuteronômio (Elleaddebareim)
6- Josué (Iosouebennoun)
7- Juíses e Rute (Sophteim)
8 – I e II Reis [I e II Samuel] (Samuel)
9 – III e IV Reis [I e II Reis] (Ouammelch David)
10 – Paralipomenos [I e II Crônicas] (Dabreiamein)
11 – I e II Esdras [Esdras e Neemias] (Ezra)
12 – Livro dos Salmos [Salmos] (Spharthelleim)
13 – Provérbios de Salomão [Provérbios] (Meloth)
14 – Eclesiastes (Keoleth)
15 – Cântico dos Cânticos [Eclesiástico] (Sirassereim)
16 – Isaías (Iessia)
17 – Jeremias, Lamentações e a Carta de Jeremias [Jeremias] (Ieremia)
18 – Daniel
19 – Ezequiel (Ezechiel)
20 – Jó (Job)
21 – Ester (Esther)
22 – Macabeus [I e II Macabeus] (Sarbethsabanaiel)

Novo Testamento

1 – Evangelho Segundo São Mateus
2 – Evangelho Segundo São Marcos
3 – Evangelho Segundo São Lucas
4 – Evangelho Segundo São João
5 – Apocalipse
6 – Atos (?)
7 – As Cartas Paulinas [será que incluía a Epístola aos Laodicenses?] 8 – Primeira Epístola de São Pedro
9 – Primeira Epístola de São João

A Lista de Santo Atanásio de Alexandria (367 dC)

No ano 367 dC, por ocasião da Festa da Páscoa, Santo Anatásio Bispo de Alexandria, escreve uma epístola onde relaciona os livros normalmente aceitos como canônicos pelos cristãos de seu tempo. A necessidade ocorre pq alguns hereges estavam escrevendo livros espúrios e atribuindo-os a autoria dos apóstolos e seus discípulos, para assim dar legitimidade e autoridade aos livros.

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Antigo Testamento

“Há, portanto, 22 Livros do Antigo Testamento, número que, pelo que ouvi, nos foram transmitidos, sendo este o número citado nas cartas entre os Hebreus, sendo sua ordem e nomes respectivamente, como se segue: Primeiro, o Gênesis. Depois, o Êxodo. Depois, o Levítico. Em seguida, Números e, por fim, o Deuteronômio. Após esses, Josué, o filho de Nun. Depois, os Juízes e Rute. Em seguida, os quatro Livros dos Reis, sendo o primeiro e o segundo listados como um livro, o terceiro e o quarto também, como um só livro. Em seguida, o primeiro e o segundo Livros das Crônicas, listados como um só livro. Depois, Esdras, sendo o primeiro e o segundo igualmente listados num só livro. Depois desses, há o Livro dos Salmos, os Provérbios, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. O Livro de Jó. Os doze Profetas são listados como um livro. Depois Isaías, um livro. Depois, Jeremias com Baruc, Lamentações e a Carta [de Jeremias], num só livro. Ezequiel e Daniel, um livro cada. Assim se constitui o Antigo Testamento.” (Epístola 39,4 – Santo Atanásio de Alexandria, 367 d.C).

Esta lista de 22 livros apresentada por Atanásio parece muito com o cânon judaico definido em Jâmnia (+ ou – 110 d.C), senão fosse pela exclusão de Ester e a inclusão de Baruc (livro deuterocanônico). Como a Igreja ainda não havia se pronunciado oficialmente sobre quais livros faziam parte da Sagrada Escritura, Atanásio refere-se a um cânon “citado nas cartas entre os Hebreus” e que pela divergência em relação ao cânon oficial judaico, nos faz pensar que estas cartas foram escritas antes do sínodo de Jâmnia. Para completar seu cânon, também faz uso da tradição dos presbíteros que lhe antecederam:

“Mas, para uma maior exatidão, acrescento também, escrevendo para não me omitir, que há outros livros, além desses, de fato incluídos no Cânon, indicados pelos Padres para leitura por aqueles recém-admitidos entre nós e que desejam receber instrução sobre a Palavra de Deus: a Sabedoria de Salomão, a Sabedoria de Sirac [Eclesiástico], Ester e Judite, Tobias, bem como aqueles chamados Ensinamento dos Apóstolos [Didaqué] e o Pastor. Quanto aos primeiros, meus irmãos, foram incluídos no Cânon; mas os últimos são para leitura, não havendo em lugar nenhum menção a eles como sendo escritos apócrifos.” (Epístola 39,7 – Santo Atanásio de Alexandria, 367 d.C)

Como podemos observar dos deuterocanônicos Atanásio apenas exclui os livros dos Macabeus.

Novo Testamento

“Não é tedioso repetir os [livros] do Novo Testamento. São os quatro Evangelhos, segundo Mateus, Marcos, Lucas e João. Em seguida, o Atos dos Apóstolos e as sete Epístolas, ou seja: de Tiago, uma; de Pedro, duas; de João, três; de Judas, uma. Em adição, vêm as 14 Cartas de Paulo, escritas nessa ordem: a primeira, aos Romanos, as duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos Efésios, uma aos Filipenses, uma aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, uma aos Hebreus, duas a Timóteo, uma a Tito e, por último, uma a Filemon. Além disso, o Livro da Revelação de João [Apocalipse].” (Epístola 39, Santo Atanásio de Alexandria, 367 d.C).

Como podemos ver o Novo Testamento de Atanásio é o mesmo que hoje guardamos.

Desta forma segundo Atanásio de Alexandria as Escrituras Sagradas são compostas pelos seguintes livros:

Antigo Testamento
1 – Gênesis
2- Êxodo
3- Levítico
4- Números
5 -Deuteronômio
6- Josué
7- Juíses
8 – Rute
9 – I e II Reis [I e II Samuel] 10 – III e IV Reis [I e II Reis] 11 – I e II Crônicas
12 – I e II Esdras [Esdras e Neemias] 13 – Salmos
14 – Provérbios
15 – Eclesiastes,
16 – Cântico dos Cânticos
17 – Jó
18 – Os doze profetas
19 – Isaías
20 – Jeremias, a Carta de Jeremias [Jeremias], Lamentações e Baruc
21 – Ezequiel
22 – Daniel
23 – Sabedoria de Salomão
24 – Sabedoria de Sirac [Eclesiástico] 25 – Ester
26 – Judite
27 – Tobias

Novo Testamento

Igual ao que guardamos hoje.

O Cânon de Melitão de Sardes (- ou – 120 d.C)

Segundo Eusébio, Melitão bispo da Igreja de Sardes “Nas Éclogas por ele exaradas, o mesmo autor, já no início do prefácio, cataloga os livros recebidos do Antigo Testamento. É oportuno reproduzi-lo aqui. Assim escreve: ?Melitão a Onésimo, seu irmão. Saudações, Visto que muitas vezes manifestaste o desejo, inspirado pelo zelo relativamente à doutrina, de possuir extratos da Lei e dos profetas sobre o Salvador e o conjunto de nossa fé, e ainda quiseste conhecer com exatidão o número dos antigos livros e a ordem que seguem, dediquei-me a tal tarefa, uma vez que conheço teu zelo pela fé e tua aplicação ao estudo da doutrina. O Amor de Deus sobretudo faz com que o aprecies, enquanto lutas tendo em mira a salvação eterna.

Tendo ido, portanto, ao Oriente e tendo estado até mesmo no lugar onde a Escritura foi anunciada e cumprida, tive exato conhecimento acerca dos livros do antigo Testamento. Levantei uma lista, que te envio. São os seguintes os seus nomes: de Moisés cinco livros: Gênesis, Êxodo, Números, Levítico, Deuteronômio; Jesus Navé [Josué], Juízes, Ruth; quatro livros dos Reis [I e II Samuel e I e II Reis], dois dos Paralipômenos [I e II Crônicas]; Salmos de Davi, Provérbios ou Sabedoria de Salomão [Provérbios e Sabedoria]; Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Jó; profetas: Isaías, Jeremias e os Doze num só livro; Daniel, Ezequiel, Esdras. Destas obras extraí alguns trechos, que distribuí por seis livros.? Tais as palavras de Melitão” (HE IV,26,14.)

1 – Gênesis
2- Êxodo
3- Levítico
4- Números
5 -Deuteronômio
6- Josué
7- Juíses
8- Ruth
9 – I e II Reis [I e II Samuel] 10 – III e IV Reis [I e II Reis] 11 – I e II Crônicas
12 – Salmos de Davi
13 – Provérbios e Sabedoria
14 – Eclesiastes
15 – Cântico dos Cânticos
16 – Jó
17 – Isaías
18 – Jeremias [Jeremias e Lamentações] 19 – os Doze profetas
20 – Daniel
21 – Ezequiel
22 – Esdras [Esdras e Neemias]

Melitão exclui Ester, e inclui o livro da Sabedoria.

Citações de Eusébio (317 d.C)

Eusébio cita trechos do historiador judeu Filón de Alexandria, em que este por admirar o modo de vida cristão, começa a relatar como os cristãos viviam e como eram suas assembléias. Depois Eubébio comenta que todas as coisas de que escreveu Filóm “De fato, relatam os Atos dos Apóstolos, livro tido por autêntico ” (HE II,17,6)

As Escrituras em Geral

Segundo Eusébio, Fílon em sua obra “A Vida contemplativa” ou “Os orantes”, sobre as escrituras cristãs escreve: “Possuem também escritos dos antigos, primeiros guias de sua seita, que deixaram numerosos monumentos de sua doutrina sob forma alegórica. Utilizam-nas como modelos de comportamento a imitar.” (HE II,17,11) Para Eusébio “Talvez os livros que ele aponta como sendo entre eles [os cristãos] os livros dos antigos sejam os evangelhos, e os escritos dos apóstolos e provavelmente algumas interpretações dos antigos profetas, tais os contidos na carta aos Hebreus e numerosas cartas de Paulo.” (HE II,17,12)

Mas a frente Eusébio nos dá um parecer mais detalhado sobre as cartas apostólicas recebidas ou as rejeitadas como autênticas:

Os Escritos de São Pedro

“Com efeito, de Pedro, apenas uma carta, classificada como primeira, é reconhecida por autêntica e os próprios antigos presbíteros utilizaram-na, citando-a em seus escritos como genuína. Quanto àquele enumerada como segunda, tivemos notícia de que não é testamentária, todavia muitos a consideram útil e foi tomada em consideração com as demais Escrituras.” (HE III,3,1)

Mais adiante ele escreve: “… as palavras de Pedro indicam também em que províncias ele próprio anunciou Cristo e transmitiu a doutrina do Novo Testamento aos circuncisos. Esclarece-o igualmente a carta que afirmamos ser tida por autêntica [a primeira carta], dirigida aos hebreus da Dispersão do Ponto, da Galácia, da Capadócia, da Ásia e da Bitínia [cf. 1Pd 1,1]” (HE III, 4,2)

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“Relativamente aos Atos que trazem seu nome [portanto, Atos de Pedro], ao Evangelho dito segundo Pedro, ao Kerygma e ao suposto Apocalipse de Pedro, sabemos que não foram de modo algum transmitidos entre os escritos católicos e que nenhum escritor eclesiástico, nem dentre os antigos, nem dos atuais, utilizou testemunhos tirados destas obras.” (HE III,3,2)

Mas adiante confirma seu parecer quanto aos escritos atribuídos a São Pedro: “Dos escritos atribuídos a Pedro, conheço apenas uma carta reconhecida pelos antigos presbíteros como autêntica. E é só” (HE III,3,4)

Os Escritos de São Paulo

Quanto às cartas paulinas escreve: “No tocando a Paulo evidentemente dele provêm as catorze cartas. Não seria justo deixar de reconhecer que alguns, no entanto, rejeitam a carta aos Hebreus, assegurando não ser recebida pela Igreja de Roma, por não ser da autoria de Paulo. […] De outro lado, os Atos que trazem seu nome [portanto, Atos de Paulo], não os aceito entre os livros autênticos.” (HE III,3,5)

Eusébio testemunha que muitos dos antigos não recebiam como canônica a Carta aos Hebreus, tal era o caso de “Caio de Roma, homem muito eloqüente, que vivia em Roma no tempo de Zeferino [bispo de Roma], num Diálogo contra Proclo, que disputava em favor da heresia catafrígia. Nesta obra, Caio refreia a temeridade e audácia dos adversários de comporem novas Escrituras; menciona somente treze cartas do santo Apóstolo [Paulo], não enumerando entre as demais a carta aos Hebreus, visto que, ainda hoje, em Roma pensam alguns não ser da autoria do Apóstolo.” (HE VI,20,3).

Eusébio, dá testemunho que o livro “O Pastor” de Hermas, era tido como canônico por alguns:

“Visto que o mesmo apóstolos [Paulo], nas saudações finais da carta aos Romanos entre outros, menciona Hermas [cf. Rm 16,14], a quem se atribui o livro intitulado Pastor, é bom saber que também este é contestado por alguns que não o colocam entre as obras recebidas, enquanto outros julgam-no muito útil, principalmente para os necessitados de iniciação elementar. Estamos cientes de que é lido publicamente nas Igrejas e verifiquei ter sido empregado por alguns dos autores mais antigos.” (HE III,3,6)

O Evangelho de Lucas e os Atos

Sobre o Evangelho de Lucas e o livro dos Atos diz: “Deles [dos apóstolos] [Lucas] aprendeu a cura das almas, conforme comprovou nos dois livros inspirados por Deus, o Evangelho que ele atesta ter composto conforme lhe transmitiram os que foram desde o início testemunhas oculares e ministros da palavra e aos quais seguiu desde o começo [cf. Lc 1,2-3] e os Atos dos Apóstolos, que não redigiu de acordo com o que ouviu, mas ao invés com o que viu com os próprios olhos.” (HE III,4,6)

Os Escritos de São João

Quanto aos escritos de São João escreve que: “E agora, assinalemos os escritos provindos incontestavelmente deste apóstolo. Em primeiro lugar, sem dúvida, há de ser recebido o Evangelho segundo João, reconhecido por todas as Igrejas debaixo do céu. Com razão os antigos colocam-no em quarto lugar, após os três outros [….]” (HE III,24,1-2)

Depois mais adiante: “Dos escritos de João além do Evangelho, a primeira das cartas não sofre contestação nem da parte de nossos contemporâneos, nem dos antigos. As duas outras são contestadas. Quanto ao Apocalipse, sua autenticidade é ainda discutível para muitos. De novo há de ser ponderada, a seu tempo, segundo o testemunho dos antigos” (HE III,24,17-18)

“A esta altura, parece-nos oportuno recapitular os escritos do Novo Testamento a que nos referimos. Sem dúvida, importa pôr em primeiro lugar o sagrado quaternário dos Evangelhos, seguido do livro dos Atos dos Apóstolos.

Em seguida, sejam mencionadas as Cartas de Paulo, na continuação das quais seja sancionada a primeira a João e igualmente a primeira carta de Pedro. No prosseguimento destas obras, colocar-se-á, se conveniente, o Apocalipse de João [….]. Tais são os livros recebidos. Entre os contestados mas apesar disso recebidos pela maioria, existe a carta atribuída a Tiago, a de Judas, a segunda carta de Pedro e as cartas enumeradas como segunda e a terceira de João, que sejam do Evangelista ou do outro, com idêntico nome.” (HE III,25)

Eusébio cita ainda o testemunho de Dionísio, presbítero de Alexandria e historiador da Igreja do início do segundo século. Segundo Eusébio, Dionísio reconhecia como canônicas o Evangelho de João e a primeira carta (cf. HE, VII,25). Dionísio dá testemunho que alguns de seus predecessores não recebiam como canônico o livro do Apocalipse: “Alguns dos nossos predecessores rejeitaram e repeliram inteiramente este livro. Criticaram-no capítulo por capítulo, declarando-o inteligível, ilógico e falsamente intitulado. Afirmam, de fato, não provir de João, nem ser uma revelação, porque completamente oculta sob o véu espesso do incognoscível” (HE, VII,25,1-2).

Os antigos presbíteros de Alexandria duvidavam até que o livro fosse de autoria de São João, atribuindo-lhe ao herege Cerinto a autoria do livro: “[…] o autor não seria um dos apóstolos, nem mesmo um dos santos ou membros da Igreja, e sim Cerinto, o fundador da heresia cerintiana, nome derivado do seu, o qual procurou dar sua produção um nome digno de crédito” (HE, VII,25,2).

No entanto, Dionísio prefere não duvidar da canonicidade do livro: “No entanto, não ouso rejeitar este livro que muitos irmãos apreciam, mas julgando que suas concepções ultrapassam meu entendimento, suponho ter cada passagem, de certo modo, significado oculto e maravilhoso. De fato, se não o compreendo, ao menos suspeito existir sob as palavras um sentido mais profundo.

Não meço, nem aprecio segundo meus próprios raciocínios; mas, atribuindo prioridade á fé, penso tratar-se de realidades elevadas demais para serem aprendidas por mim e não rejeito o que não compreendo, mas admiro-o tanto mais quanto não o contemplei.” (HE, VII,25,4-5)

Dionísio duvidava apenas que o Apocalipse fosse de autoria do Santo Apóstolo João: “Por conseguinte, que ele [o autor do livro] se chame João e este escrito se origine de João, não direi o contrário e concedo que se trata de homem santo e inspirado por Deus. Mas, não concordo facilmente que seja o apóstolo, filho de Zebedeu, irmão de Tiago, de quem são o Evangelho intitulado Segundo João e a carta católica [a primeira carta]” (HE, VII,25,7)

Conclusão de Eusébio

“Entre os apócrifos, ponham-se o livro dos Atos de Paulo, a obra intitulada O Pastor, o Apocalipse de Pedro, e além disso a Carta atribuída a Barnabé, o escrito chamado A doutrina dos Apóstolos [Didaqué], depois como já disse, o Apocalipse de João, se parecer bem. Alguns, conforme já declarei, o rejeitam, mas outros o inserem entre os livros recebidos.

Entre esses livros alguns ainda puseram o Evangelho segundo os Hebreus, que agrada sobretudo aos hebreus que aderiram a Cristo. Todos esses livros estão no número dos escritos contestados.

Achamos necessário fazer igualmente o catálogo dessas últimas obras, separando-as das Escrituras que segundo a tradição da Igreja, são verdadeiras, autênticas e reconhecidas, dos livros que, ao invés, não são testamentários, mas contestados, apesar de serem conhecidos pela maior parte dos escritores eclesiásticos. Assim, poderemos conhecer esses livros e os que, entre os hereges, são apresentados sob o nome do apóstolos, que se trate dos Evangelhos de Pedro, de Tomé, de Matias etc., ou dos Atos de André, de João e dos outros apóstolos. Jamais entre os escritores eclesiásticos que se sucederam, houve quem julgasse conveniente relembrá-los.” (HE III,25).

Autor: Alessandro Lima *.
* O autor é arquiteto de software, professor, escritor, articulista e fundador do Apostolado Veritatis Splendor.

Autor: Alessandro Lima *.

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