Espaço do Leitor

O sacramento da crisma possui mesmo a plenitude do espírito santo?

A paz de Cristo! Em primeiro lugar, agradeço a resposta sobre os lugares sagrados, que me serviu bastante. Agora trago-vos outro questionamento: aqui na paróquia é muito difundida a idéia de que, na recepção do Sacramento da Confrmação, recebemos a "Plenitude do Espírito Santo". Só que nós não o recebemos- por completo- no Batismo? Afinal, qual a verdadeira relação do Espírito Santo com o Sacramento da Confirmação? Desde já grato pela atenção, Ivan Mendes

Olá caríssimo senhor Ivan.
Desde já agradecemos novamente vossa confiança neste apostolado que tem como maior objetivo a formação das almas na verdadeira doutrina de Cristo.

Por definição, os sacramentos são "um sinal sensível e eficaz da graça, instituído por Cristo para santificar as nossas almas" (TREESE, 1999, p.261) e, com exceção do batismo no nascimento, devem ser merecidos pelos fiéis na livre expressão da sua busca por Deus. São eles: Batismo, Confirmação, Eucarístia, Penitência, Unção dos Enfermos, Ordens Sagradas, Matrimônio. Cristo instituiu setes sacramentos e não seis, ou oito, por isso devemos ter todo cuidado para reconhecermos a vontade de Deus em cada uma dessas graças específicas e sua importância para a alma. Por isso a vossa dúvida sobre o sacramento da confirmação, é muito bem vinda e pertinente, e certamente atenderá a muitas outras pessoas.

É importante compreender que a confirmação, junto com o batismo e a eucaristia, formam os sacramentos da iniciação cristã. Deixe isso anotado. Somente através da participação destes três sacramentos que uma alma devota pode realmente alcançar a idade adulta da fé e então caminhar seguramente para uma rota de santidade. Neste sentido temos um maior entendimento da expressão "plenitude do Espírito Santo" e compreendemos algo muito importante: que nenhum sacramento por sí só encerra a presença total e plena do Espírito Santo em uma alma. Na verdade o Espírito Santo se manifesta com singularidades e graças particulares em cada um dos sete sacramentos; Ele está presente em todos mas não se encerra em nenhum deles. Sendo assim nenhum sacramento exclui um outro, agem pois em complementariedade.

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O ser humano, enquanto participante da Igreja Militante, está constantemente em busca da sua salvação, está como que em constante  construção. Se púdessemos enxergar nossa alma de uma maneira um pouco lúdica, poderíamos imaginar nela uma daquelas plaquinhas que ficam na frente de obras públicas que diz "desculpe o transtorno, estamos em construção". A santidade do homem está pois em constante construção na sua vida terrena, e é por isso que cada sacramento contribui com efeitos singulares nessa obra sempre inacabada da nossa santificação.

Dentro desta visão a sua paróquia está correta ao afirmar que no sacramento da confirmação recebemos a Plenitude do Espírito Santo. Mas isso de modo algum pode ser interpretado como uma suposta "quantidade" do Espírito Santo na alma sob um detrimento do batismo, mas sim como uma característica indelével da graça particular que o crismando recebe.

É plenitude do Espírito Santo porque:
– Encerra os sacramentos da iniciação cristã elevando a alma numa maior participação de seus compromissos batismais;
– Porque a natureza das graças recebidas está mais intimamente ligada a terceira pessoa da Santíssima Trindade do que qualquer outro sacramento;
– Aperfeiçoa a vinculação da alma com a Igreja e com a filiação divina;
– Associa a alma mais à sua missão de evangelização acompanhada de obras;
– É a consumação do batismo no revestimento dos sete dons do Espírito Santo, sabedoria, ciência, piedade, temor de Deus, bom conselho, fortaleza e entendimento;
– Dá ao crismando o poder de confessar a sua fé publicamente e conscientemente.

Quer dizer, ainda que absolutamente válido e eficaz para a salvação e a justificação da alma, não encontramos no batismo todos esses efeitos próprios de uma maior maturidade espiritual manifestados tão particularmente no sacramento da confirmação.Veja que este sacramento remonta aos próprios apóstolos, por exemplo, numa ocasião em que impôem as mãos sobre alguns cristãos que já haviam sido batizados;  episódio narrado por São Lucas no livro do Ato dos Apóstolos (Cap. 8, vers.14-19). Não contendo todos os efeitos da confirmação, o batismo espera portanto a sua consumação somente no dia do recebimento da crisma, quando junto com a eucaristia, a verdadeira iniciação cristã terá se realizado com verdadeira plenitude na alma:

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"(a confirmação) vincula-o mais perfeitamente à Igreja, enriquecido com a especial força do Espírito Santo, e torna-o mais estritamente obrigado à fé que, como verdadeira testemunha de Cristo, deve difundir e defender tanto por palavras quanto por obras" (LUMEN GENTIUM. 1968, n.11).

Caro senhor Ivan, assim como no momento da nossa concepção já temos o dom da vida mas só na idade adulta podemos usá-la de maneira consciente e pessoal, assim também na vida espiritual. No batismo já temos a vida interior pelo Espírito Santo, mas somente na confirmação a teremos com a maturidade, a personalidade e a força espiritual que um verdadeiro cristão busca.
 
Para manter em mente: o batismo justifica, a confirmação plenifica.
Esperamos ter sido útil na graça de Nosso Senhor:

Silvio L. Medeiros

Referência bibliográfica:
TRESE, Leo. A Fé explicada. Quadrante, São Paulo. 1999, 477p.