Espaço do Leitor

Os cristãos (católicos) possuem o “monopólio da verdade”?

LEITOR(A) CATÓLICO(A) PERGUNTA SE OS CRISTÃOS (CATÓLICOS) POSSUEM O “MONOPÓLIO DA VERDADE”
[Leitor autorizou a publicação de seu nome no site] Nome do leitor: Roseni de Alencar silva
Cidade/UF: candói pr
Religião: Católica

Mensagem
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Gostaria de saber se o seguinte comentário utilizado na revista “Liturgia Diária” da Editora Paulus do dia 21 de maio deste ano está correta: “Toda boa ação, sem segundas intenções será sempre bem vinda, independente de onde vier. Os cristãos não detém o monopólio da verdade e do bem, pois Deus age livremente sobre a realidade humana”. Gostaria de saber se os cristãos e nós católicos realmente não possuímos o monopólio da verdade. Se não possuímos qual é a vantagem de anunciar o evangelho?

Prezado(a) Roseni

Agradecemos a sua visita ao site Veritatis Splendor e as suas perguntas.
O comentário:  “Toda boa ação, sem segundas intenções será sempre bem vinda, independente de onde vier. Os cristãos não detém o monopólio da verdade e do bem, pois Deus age livremente sobre a realidade humana” –  é de índole relativista, não reflete fielmente os ensinamentos do Concílio do Vaticano II sobre a relação entre o catolicismo e as outras religiões.

O bem autêntico está ligado à Verdade.

A Verdade, porém, não é algo subjetivo, incognoscível, inacessível, relativo, nem mesmo é o somatório dos ensinamentos de todas as religiões, crenças e filosofias de vida, como se Deus tivesse se relevado a todos os povos, raças e culturas. Não podemos cair no relativismo e considerar que todas as religiões, crenças e filosofias de vida têm o mesmo valor, a mesma importância, e são portadoras da mensagem de salvação, tal como a religião católica. Deus é a Verdade, e quis, em sua sabedoria, que esta fosse objetivamente revelada apenas a um único povo, o povo hebreu, do qual provém Jesus de Nazaré, o Filho de Deus, que é a palavra definitiva de Deus, a plenitude da Verdade, para toda a humanidade. Em Jesus Cristo (como Jesus de Nazaré é chamado após a Sua ressurreição) a Verdade de Deus se manifestou plenamente. Jesus disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai a não ser por mim. Se me conheceis, também conhecereis a meu Pai. Desde agora o conheceis e o vistes.” [Jo 14, 6,7].

Como saber onde está a Verdade, a revelação autêntica de Deus? O critério para sabermos onde está a Verdade, a verdadeira revelação de Deus, é o milagre. A ciência comprovou que os únicos milagres verdadeiros só ocorreram em ambientes do antigo judaismo (no povo hebreu, antes de Jesus Cristo), com Jesus Cristo, e após a ressurreição e ascenção de Jesus ao Céu, continuam a ocorrer apenas em ambiente católico.

Sobre a Revelação de Deus – a Verdade -, leiamos, a seguir, o que nos diz o Magistério da Igreja Católica:

I) A constituição dogmática Dei Verbum [sobre a Revelação Divina], do Concílio do Vaticano II, aprovada pelo papa Paulo VI, aos 18 de Novembro de 1965, em seu segundo parágrafo diz: “Aprouve a Deus. na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cfr. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr. Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele. Esta «economia» da revelação realiza-se por meio de ações e palavras ìntimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultâneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação” (2) [grifo nosso]

II) O Catecismo da Igreja Católica, edição típica vaticana, Edições Loyola, São Paulo, 2000, diz em seus parágrafos 65 a 75, o seguinte:

{“Jesus Cristo – «Mediador e plenitude de toda a Revelação»  (32)

NO SEU VERBO, DEUS DISSE TUDO

65. «Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais, pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos pelo seu Filho» (Heb 1, 1-2). Cristo, Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai.

N’Ele, o Pai disse tudo. Não haverá outra palavra além dessa. São João da Cruz, após tantos outros, exprime-o de modo luminoso, ao comentar Heb 1, 1-2:

«Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – (Deus) disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer. […] Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade» (33).

JÁ NÃO HAVERÁ OUTRA REVELAÇÃO

66. «Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e já não se há-de esperar nenhuma nova revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo»(34). No entanto, apesar de a Revelação já estar completa, ainda não está plenamente explicitada. E está reservado à fé cristã apreender gradualmente todo o seu alcance, no decorrer dos séculos.

67. No decurso dos séculos tem havido revelações ditas «privadas», algumas das quais foram reconhecidas pela autoridade da Igreja. Todavia, não pertencem ao depósito da fé. O seu papel não é «aperfeiçoar» ou «completar» a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a vivê-la mais plenamente, numa determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o sentir dos fiéis sabe discernir e guardar o que nestas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou dos seus santos à Igreja.

A fé cristã não pode aceitar «revelações» que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação de que Cristo é a plenitude. É o caso de certas religiões não-cristãs, e também de certas seitas recentes. fundadas sobre tais «revelações».

Resumindo os parágrados 65 a 67 acima:

68. Por amor, Deus revelou-Se e deu-Se ao homem. Dá assim uma resposta definitiva e superabundante às questões que o homem se põe a si próprio sobre o sentido e o fim da sua vida.

69. Deus revelou-Se ao homem, comunicando-lhe gradualmente o seu próprio mistério, por acções e por palavras.

70. Além do testemunho que dá de Si mesmo através das coisas criadas, Deus manifestou-Se a Si próprio aos nossos primeiros pais. Falou-lhes e, depois da queda, prometeu-lhes a salvação (35) e ofereceu-lhes a sua aliança.

71. Deus concluiu com Noé uma aliança eterna entre Si e todos os seres vivos (36). Essa aliança durará enquanto durar o mundo.

72. Deus escolheu Abraão e concluiu uma aliança com ele e os seus descendentes. Fez deles o seu povo, ao qual revelou a sua Lei por meio de Moisés. E preparou-o, pelos profetas, a acolher a salvação destinada a toda a humanidade.

73. Deus revelou-Se plenamente enviando o seu próprio Filho, no qual estabeleceu a sua aliança para sempre. O Filho é a Palavra definitiva do Pai, de modo que, depois d’Ele, não haverá outra Revelação.

A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

74. Deus «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4), quer dizer, de Cristo Jesus (37). Por isso, é preciso que Cristo seja anunciado a todos os povos e a todos os homens, e que, assim a Revelação chegue aos confins do mundo:

Deus dispôs amorosamente que permanecesse íntegro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos (38).

A Tradição apostólica

75. «Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma, tendo cumprido e promulgado pessoalmente o Evangelho antes prometido pelos profetas, mandou aos Apóstolos que o pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, comunicando-lhes assim os dons divinos» (39).“}

Sobre a necessidade da Igreja para a salvação, o Catecismo da Igreja Católica, edição típica vaticana, Edições Loyola, São Paulo, 2000, em seus parágrafos 846 a 848, diz o seguinte:

“{«FORA DA IGREJA NÃO HÁ SALVAÇÃO»

846. Como deve entender-se esta afirmação, tantas vezes repetida pelos Padres da Igreja? Formulada de modo positivo, significa que toda a salvação vem de Cristo-Cabeça pela Igreja que é o seu Corpo:

O santo Concílio «ensina, apoiado na Sagrada Escritura e na Tradição, que esta Igreja, peregrina na terra, é necessária à salvação. De facto, só Cristo é mediador e caminho de salvação. Ora, Ele torna-Se-nos presente no seu Corpo, que é a Igreja. Ao afirmar-nos expressamente a necessidade da fé e do Baptismo, Cristo confirma-nos, ao mesmo tempo, a necessidade da própria Igreja, na qual os homens entram pela porta do Baptismo. É por isso que não se podem salvar aqueles que, não ignorando que Deus, por Jesus Cristo, fundou a Igreja Católica como necessária, se recusam a entrar nela ou a nela perseverar» (341).

847. Esta afirmação não visa aqueles que, sem culpa da sua parte, ignoram Cristo e a sua igreja:

«Com efeito, também podem conseguir a salvação eterna aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo e a sua Igreja, no entanto procuram Deus com um coração sincero e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a sua vontade conhecida através do que a consciência lhes dita» (342).

848. «Muito embora Deus possa, por caminhos só d’Ele conhecidos, trazer à fé, «sem a qual é impossível agradar a Deus» (343), homens que, sem culpa sua, ignoram o Evangelho, a Igreja tem o dever e, ao mesmo tempo, o direito sagrado, de evangelizar» (344) todos os homens.“}

Leiamos abaixo o que nos ensina o Magistério da Igreja Católica sobre a ação de Deus na humanidade em geral:

A Igreja Católica na declaração Nostra Aetate [Sobre a Igreja e as religiões não-cristãs] do Concílio do Vaticano II, aprovado pelo papa Paulo VI, aos 28 de Outubro de 1965, diz:

No parágrafo primeiro: “… os homens constituem todos uma só comunidade; todos têm a mesma origem, pois foi Deus quem fez habitar em toda a terra o inteiro género humano (1); têm também todos um só fim último, Deus, que a todos estende a sua providência, seus testemunhos de bondade e seus desígnios de salvação (2) até que os eleitos se reunam na cidade santa, iluminada pela glória de Deus e onde todos os povos caminharão na sua luz (3)”.

No parágrafo segundo, em relação por exemplo ao Hinduísmo e ao Budismo: “A Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens. No entanto, ela anuncia, e tem mesmo obrigação de anunciar incessantemente Cristo, «caminho, verdade e vida» (Jo. 14,6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo todas as coisas ” (4).

Conclusão final:

Em relação às suas perguntas: “Gostaria de saber se os cristãos e nós católicos realmente não possuímos o monopólio da verdade. Se não possuímos qual é a vantagem de anunciar o evangelho?” – baseado no exposto acima, respondemos:

Só há uma Verdade, e o monopólio, a posse exclusiva, da Verdade está com Deus, que é a própria Verdade. O monopólio da Verdade, porém, foi revelado plenamente por Deus enviando o seu próprio Filho, Jesus Cristo, no qual estabeleceu a sua aliança para sempre. O Filho é a Palavra definitiva do Pai, de modo que, depois d’Ele, não haverá outra Revelação. A verdade profunda (“o monopólio da Verdade”) tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Jesus Cristo, que é, simultâneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação.

Jesus Cristo, o Filho de Deus, só confiou à Sua Igreja que é Una, Santa, Católica, Apostólica, por intermédio do Magistério da Igreja Católica (os bispos católicos em comunhão com o papa, sucessor do apóstolo Pedro) a tarefa de guardar, defender, interpretar sob a inspiração do Espírito Santo, e transmitir fielmente a todos os povos, o monopólio da Verdade, isto é, a “Verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens”.

Deus, que é a Verdade, age livremente sobre toda a realidade humana (entendido a realidade humana como todas as pessoas individualmente), estendendo a todos a sua providência, seus testemunhos de bondade e seus designios de salvação, como bem diz o documento Nostra Aetate acima citado, com o objetivo de chamar todos à conversão, à Verdade plena que é Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida.

A ação de Deus nas outras religiões, crenças, filosofias de vida, culturas, não é o mesmo que revelação. O que há de santo e verdadeiro nas outras religiões, crenças, filosofias de vida e culturas, reflete um pouco da Verdade que ilumina todos os homens, ensinada pela Igreja Católica, por desígnio de seu fundador – Jesus Cristo. A Igreja Católica detém o monopólio da Verdade, não por mérito próprio, mas por graça de Seu Fundador, que assim o quis para que todos tenham acesso à Verdade livre de erro.

Cabe também a nós cristãos católicos que não fazemos parte do Magistério da Igreja Católica, a obrigação de conhecermos a Verdade, tal como nos foi revelada por Jesus Cristo e ensinada pelo Magistério da Igreja Católica, e a transmiti-la a todos, mesmo àqueles que não são cristãos, porque embora as crenças dos não-cristãos “reflitam não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens“, nós cristãos “temos mesmo a obrigação de anunciar incessantemente Cristo, «caminho, verdade e vida» (Jo. 14,6), em quem os homens encontram a plenitude da vida religiosa e no qual Deus reconciliou consigo todas as coisas.”

Anunciar o Evangelho não é uma vantagem, é uma obrigação. Não esqueçamos a ordem de Jesus: “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra. 19. Ide, pois, e ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. 20. Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo.[Mt 28, 19, 20].

Espero que a resposta tenha sido útil.

Atenciosamente,

Renato Colonna Rosman

Veritatis Splendor: http://www.veritatis.com.br/

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Referências:

Constituição dogmática Dei Verbum:

(2). Cfr. Mt. 11,27; Jo. 1,14 e 17; 14,6; 17, 1-3; 2 Cor. 3,16 e 4,6; Ef. 1, 3-14.]

Catecismo da Igreja Católica:

– parágrafos 65 a 75:

32. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 2: AAS 58 (1966) 818.

33. São João da Cruz, Subida del monte Carmelo 2, 22, 3-5: Biblioteca Mística Carmelitana, v. 11, Burgos 1929. p. 184. [ID. Obras Completas (Paço de Arcos, Edições Carmelo 1986) p. 196 = Segunda leitura do Ofício de Leituras da Segunda-Feira da II Semana do Advento].

34. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 4: AAS 58 (1966) 819.

35. Cf. Gn 3, 15.

36. Cf. Gn 9, 16.

37. Cf. Jo 14, 6.

38. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 7: AAS 58 (1966) 820.

39. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Dei Verbum, 7: AAS 58 (1966) 820.

– parágrafos 846 a 848:

341. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 14: AAS 57 (1965) 18.

342. II Concílio do Vaticano, Const. dogm. Lumen Gentium, 16: AAS 57 (1965) 20; cf. Santo Ofício, Epistula ad Archiepiscopum Bostoniensem (8 de Agosto 1949): DS 3866-3872.

343. Cf. Heb 11, 6.

344. II Concílio do Vaticano, Decr. Ad gentes, 7: AAS 58 (1966) 955.

Declaração Nostra Aetate:

(1). Cfr. Act. 17,26.

(2). Cfr. Sab. 8,1; Act. 14,17; Rom. 2, 6-7;1 Tim. 2,4.

(3). Cfr. Apoc. 21, 23-24

(4). Cfr. 2 Cor. 5, 18-19.

 

Veja também  "são" joão xxiii?