Debates

Parte i

Sou um cristão protestante e fiquei indignado por você ter dito que nós estamos espalhando o erro.

    Compreendo o seu sentimento. Também me sinto assim quando dizem que os católicos adoram imagens, ou que dão mais importância a Maria do que a Deus, ou que o papa é o anti-cristo e outras coisas do tipo. Em minha página reconheço que existem muitos protestantes de boa vontade e boa fé; nunca neguei isso. Contudo – infelizmente – a maioria prefere repetir as idéias dos fundadores de suas igrejas – boa parte errada! – do que parar para pesquisar e conhecer a Verdade.

Ora, nós cremos no Senhor Jesus como o Único Mediador entre Deus e os homens, e é isso que levamos às pessoas: Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

    Nós, católicos romanos, nunca negamos essa verdade. Muito pelo contrário, sempre a defendemos. Somente Jesus é o Salvador da humanidade e pregamos essa boa nova por todo o mundo. Portanto, temos esse mesmo pensamento em comum!
Como você pode dizer que nos desviamos da Verdade????? Seria Jesus Cristo um erro???? Acho que você tem que tomar cuidado com o que diz, pois se você fizer um dos pequeninos do Senhor se desviar, Ele vai requerer isso de você.
    Jesus Cristo não é um erro. Ele é a própria Verdade! Mas existe a Verdade e as “verdades”. Veja: você não me disse a que denominação cristã pertence… diz apenas que é “um cristão protestante”, o que é muito genérico. Existem hoje, segundo um Instituto americano, 20.000 denominações cristãs (o dado é de 1996!) e são criadas a cada ano mais 270! É mais do que óbvio que espalham o erro: ora, mesmo que uma delas pregasse toda a Verdade, pelo menos 19.999 estariam erradas em algo (o que significa dizer que, hoje, apenas 0,00005% do universo do Protestantismo poderia estar correto…). Vem, então a pergunta: “Qual denominação protestante estaria 100% correta? Todas elas não usam a mesma Bíblia? Todas elas não se dizem divinamente orientadas pelo Espírito Santo?”… No que estariam erradas? Certamente que em pontos doutrinários, pois nenhuma pessoa em sã consciência fundaria uma igreja por não gostar da cara do pastor, ou por não se entender com algum outro fiel! Logo, cria-se uma igreja para atender um ponto que o seu fundador entende como fundamental para fé. O que vemos hoje é o que chamo de “supermercado da fé”: você escolhe – como numa grande prateleira – o produto (isto é, a fé) que melhor satisfaz a sua vontade; é mais do que óbvio, portanto, que há desvios da Verdade. “No que?” – você me pergunta. Eu poderia citar uma infinidade pois, como sabemos – e não há como negar – hoje o que não falta são igrejas que atendem o gosto do freguês, isto é, do fiel. Me limitarei a citar alguns:

  1. Algumas igrejas põem em dúvida a divindade de Cristo;
  2. Algumas igrejas afirmam que a Santíssima Trindade é uma fórmula pagã;
  3. Algumas igrejas dizem que Jesus é a única pessoa de Deus;
  4. Algumas igrejas pregam que só existem dois sacramentos: o batismo e a ceia do Senhor;
  5. Algumas igrejas dizem que não existem sacramentos, mas ordenanças;
  6. Algumas igrejas acreditam que Cristo reinará num milênio antes do juízo final;
  7. Algumas igrejas afirmam que o Inferno não existe como realidade;
  8. Algumas igrejas crêem que o Inferno não é eterno;
  9. Algumas igrejas defendem que o Batismo no Espírito Santo é conhecido unicamente pelo dom de línguas;
  10. Algumas igrejas acham que Maria teve outros filhos após Jesus;
  11. Algumas igrejas dizem que o batismo não é necessário para salvação, mas puro símbolo;
  12. Algumas igrejas não crêem que Jesus se encontre realmente na eucaristia;
  13. Algumas igrejas crêem numa terceira revelação, num terceiro testamento;
  14. Algumas igrejas afirmam que os grandes milagres pararam nos tempos pós-apostólicos;
  15. Algumas igrejas não aceitam o uso de imagens nem para fins pedagógicos;
  16. Algumas igrejas retiram livros do Antigo Testamento;
  17. Algumas igrejas não dão valor a alguns livros do Novo Testamento;
  18. Algumas igrejas não aceitam como válido o batismo de crianças;
  19. Algumas igrejas guardam o sábado como dia santo;
  20. Algumas igrejas dizem que podemos alcançar a salvação por nossos próprios méritos.

    etc, etc, etc… Observe que todas as inverdades citadas acima surgiu fortemente após o séc. XVI – coisa recente, não? Tudo surgiu em meios protestantes, que têm como única unidade entre si o mesmo fundamento sobre a “areia”: que o Espírito Santo guia cada crente na interpretação da Bíblia. Nada mais anti-bíblico do que isso… Não sabem que nada na Escritura é de particular interpretação, como exortou o Apóstolo Pedro em sua segunda epístola? Logo, a sua afirmação – que é verdadeira – de que não devemos desviar os pequeninos não é válida para mim, pois professo o mesmo que os cristãos professavam desde os primórdios. O problema é que os protestantes supõem que a Bíblia é a única autoridade para fé e não a Palavra de Deus. Querem limitar – como se isso fosse possível… – a Palavra de Deus a um livro chamado Bíblia; esquecem, porém, que foi a Igreja – com a autoridade dada por Jesus – que estabeleu, com a inspiração do Espírito Santo, o cânon bíblico no séc. IV d.C.!! Eu te pergunto: Quem é o fundamento e coluna da verdade? A Bíblia?? Não, embora a resposta esteja na Bíblia: é a Igreja!! Veja em 1Tm 3,15. Logo, caro irmão, a Palavra de Deus não está limitada à Bíblia; a Bíblia faz parte da Palavra de Deus, juntamente com a Tradição e o Magistério da Igreja.

Se você acha que estamos induzindo pessoas ao erro, prove biblicamente isso.

    Já falei sobre isso no parágrafo anterior. O erro está em limitar a Palavra de Deus à Bíblia. Quer a prova? Se a Bíblia é realmente a única fonte de fé e autoridade para o cristão, mostre-me a passagem onde ela mesma afirma isso. Prove-me, então, pela Bíblia, que a Bíblia é a única fonte da Palavra de Deus… Em ponto algum a Bíblia afirma isso; logo a famosa “sola scriptura”, ou seja, “somente a escritura” é algo anti-bíblico e, se é anti-bíblico, como pode ser defendido por todos os protestantes? Fácil: porque tal teoria tira a autoridade da Igreja e permite que uma outra teoria anti-bíblica, isto é, a da livre interpretação da Bíblia, se espalhe pelo mundo cristão. Ora, não é exatamente essa mesma livre interpretação da Bíblia que permite a criação infinita de denominações e seitas cristãs? Não é essa mais uma prova que “somente a Bíblia” é um erro? Se você afirmar que não, certamente não estará levando em conta as palavras de Jesus em Mt 12,25, de que “todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade, ou casa, dividida contra si mesma não subsistirá”… Parece que as pessoas – principalmente os fundadores de igreja – se esquecem que Jesus orou pela unidade. Não era a unidade o sinal distintivo do Reino de Deus?? Leia a oração de Jesus em Jo 17

Quanto às imagens: se vocês sabem que tem pessoas se ajoelhando perante elas, dirigindo pedidos e agradecimentos à elas, acendendo velas para elas, realizando cultos para elas, porque insistem em não ensinar a verdade em suas igrejas?? Vocês não consideram estes como atos de adoração???

    Mais uma vez as imagens… Eu acho incrível como os protestantes gostam de citar as imagens para justificar sua separação… Você já leu o que escrevi sobre elas na minha página? Se sim, peço para que releia novamente, com atenção. Lá eu digo: não confunda adoração – que é devida somente a Deus – com veneração – devida às pessoas que respeitamos. Quando um católico pede a intercessão de um santo ele bem sabe que quem lhe concede a graça é Deus, pois só Ele é o todo-poderoso. Eu é que pergunto: por que vocês, em suas igrejas, não explicam para os seus fiéis a diferença entre adoração e veneração? Você gosta dos seus pais?? Você os ama, tem carinho por eles? Segue seus bons exemplos e orientações? Pois muito bem, então você os venera da mesma forma como os católicos veneram os santos. Você teria coragem de rasgar uma fotografia da sua mãe na frente dela? Certamente que não, pois com certeza ela ficaria chateada, abalada, triste (mesmo sendo protestante). Então por que você fala [mal] dos santos, pessoas que seguiram fielmente a Palavra de Deus e estão juntos Dele? Hoje você cumpre a orientação do seu pastor; amanhã ele morre e, por acaso, deixou de ser bom exemplo para você? Hoje você passa por dificuldades e pede a oração de algum irmão, que vive como você e peca como você e eu; por acaso a oração dele é mais “poderosa” do que a oração daqueles que já encontraram a Vida Eterna, que são puros diante do Pai, e que continuam sendo nossos irmãos? Ou para você a morte marca o fim da vida?? Ou foi apenas o “bom ladrão” que teve o privilégio de se encontrar com Jesus após a morte? Caro irmão: é morrendo que vivemos para a vida eterna! A morte não é o fim, mas o começo! Hoje, os protestantes mais tradicionais como os luteranos, os presbiterianos, os anglicanos e os metodistas já encaram a comunhão dos santos como uma realidade. E a Igreja Católica professa isso desde o início. Glória seja dada ao Senhor! Outra coisa: não é porque nos ajoelhamos diante de uma imagem que estamos adorando-a; você também não fica de joelhos quando lê a Bíblia? Estaria você, por acaso, adorando a Bíblia? Lembre-se: o ato de se ajoelhar pode ser usado como postura na adoração mas nem todo ajoelhar-se é, definitivamente, um sinal de adoração!

Porque não as retiram, já que estão sendo pedra de tropeço para muitos????

    Caríssimo, a Igreja Católica jamais obrigou alguém a adorar uma imagem – ao contrário do que você possa pensar. Prova disso são os documentos editados nestes 2000 anos pelo Magistério da Igreja, bem como pelos Padres e Teólogos católicos. Há, assim, uma unânimidade entre a Bíblia, a Sagrada Tradição e o Magistério, o que bem demonstra o fiel cumprimento da Palavra de Deus. Aliás, é bom que se diga: a Igreja Católica sempre condenou, desde os tempos apostólicos, a adoração de imagens. O catecismo do Concílio de Trento, em 1566, disse: “a idolatria é cometida quando se adora ídolos e imagens como se fossem Deus, ou quando se acredita que elas possuem qualquer divindade ou virtude que autorizam sua adoração, orando para elas ou confiando nelas”. Também o novo Catecismo da Igreja Católica, fiel à Palavra de Deus, condena a adoração de imagens em seus parágrafos 2112 à 2114. Portanto, por que retirá-las – já que não são deuses – se elas ajudam mais do que atrapalham, principalmente no campo pedagógico? Se, para você, elas são “uma pedra de tropeço”, simplesmente não faça uso delas, porém, não as condene indiscriminadamente pois até Deus as mandou fazer (cf.: Ex 25,18-20; 1Cr 28,18-19; Ez 41,15; Nm 21,8-9; etc…). Não é porque os católicos têm estátuas nos templos e oram na frente delas que estão necessariamente violando o mandamento divino de Ex 20,4-5! Deus nunca condenou o uso de imagens; o que ele proibiu foi que adorássemos as imagens como, de fato, ocorreu com os hebreus que, verdadeiramente, adoraram um bezerro de ouro e, mais tarde, a própria serpente de bronze. Afirmo, mais uma vez: não use as imagens para justificar sua posição de irmão separado pois nem a própria Bíblia fornece subsídios suficientes para isso!

Meu amigo, não me leve a mal. Não quero ofendê-los com minhas palavras, mas se isso aconteceu, me perdoe. Só não podia deixar de escrever-te, e acho que usei de sinceridade.

    Caro irmão: também peço para que não me leve a mal. Gostaria de reafirmar que o meu desejo é a unidade, o mesmo desejo afirmado por Cristo. Se você leu a minha página introdutória, deve saber que já fui protestante e tomei contato com as mesmas idéias que as suas. Entretanto, procurando a Verdade, encontrei-a na Igreja Católica, da mesma forma como muitos protestantes de peso, no Brasil e no mundo. Verdade seja dita: se hoje muitos católicos abandonam sua Igreja, assim o fazem porque se acomodaram e aceitaram uma mensagem mais simples; contudo, os católicos que têm permanecido na Igreja, bem como aqueles que vêm convertidos de outras igrejas cristãs, acabam formando um valiosíssimo tesouro, pois buscaram conhecer a Verdade e – graças a Deus – encontraram, como testemunham suas obras. Pode estar certo – e o Senhor o fará perceber – que também usei da sinceridade para responder este e-mail!

Veja também  Ecclesia in america - parte vi