Por Rafael Vitola Brodbeck
Proêmio "A ordenação sacerdotal, pela qual se
transmite a missão, que Cristo confiou aos seus Apóstolos, de ensinar,
santificar e governar os fiéis, foi na Igreja Católica, desde o início e
sempre, exclusivamente reservada aos homens." (João Paulo II. Carta
Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, 1) Há tempos caladas, tímidas ressurgem as vozes feministas,
bradando, qual satânico grito igualitário, pela ordenação das mulheres. Fugindo
completamente do que já definiu a Igreja, juntam-se a elas, infelizmente,
muitos sacerdotes e até Bispos que, esquecendo as mais básicas matérias da
Teologia, teimam em afrontar o que Cristo ensinou. Herdeiros de um recente passado revolucionário, e vivendo em um
presente que caminha para outras etapas de semelhante processo, estamos como
que colhendo frutos das várias transformações filosóficas sofridas pela
humanidade nos últimos séculos. Tais mudanças, que muitos têm por evolução,
mostram-se culpadas do atual declínio moral por que passa a sociedade
contemporânea. "Embora a doutrina sobre a ordenação
sacerdotal que deve reservar-se somente aos homens, se mantenha na Tradição
constante e universal da Igreja e seja firmemente ensinada pelo Magistério nos
documentos mais recentes, todavia atualmente em diversos lugares continua-se a
retê-la como discutível, ou atribui-se um valor meramente disciplinar à decisão
da Igreja de não admitir as mulheres à ordenação sacerdotal. Portanto, para que
seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à
própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de
confirmar os irmãos (cf. Lc 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente
a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que esta sentença
deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja." (João
Paulo II. Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, 4) Já definiu o Papa João Paulo II, com sua autoridade apostólica,
que a ordenação das mulheres não só é proibida como impossível. Veremos, no
decorrer deste artigo, que a decisão do Santo Padre não é injustificada, e sim
calcada na milenar doutrina da Igreja. Outrossim, não cabe ao Sumo Pontífice
inventar ou reformular a doutrina, como será, adiante explicado. Tampouco, a
negação da ordenação feminina é uma ofensa à dignidade da mulher ou um
preconceito. Tratar-se-ia de preconceito se não tivesse a Igreja Católica
uma posição amplamente favorável à mulher. E não poderia ser diferente, uma vez
que assim a razão nos ensina! Seria preconceituosa uma Igreja que tem, acima de todos os seus
santos, uma mulher como exemplo máximo de perfeição e a ela, Santíssima Virgem
Maria, lhe presta culto muito superior a qualquer outro, somente abaixo da
adoração a Deus devida? Sustentar que a visão da Igreja Católica no que concerne ao
sacramento da Ordem agride as mulheres, é desconhecer os capítulos
propedêuticos da sagrada doutrina, e demonstrar confusão histórica ou total
desonestidade intelectual. A Igreja sempre venerou as mulheres e, se lhes nega
a participação no sacerdócio ministerial no Corpo de Cristo não é por outra
razão senão a de respeitar o que o próprio Senhor assim revelou. O Papa e os
Bispos não criam a doutrina, e sim a preservam, fielmente, mesmo à custa das
novidades que o mundo apresenta, insaciável por pensamentos diferentes da sã
revelação, a qual não suportam visto que não se coaduna com sua visão de mundo
marcadamente influenciada pelas teses dominantes, conforme veremos infra. "Eu te conjuro em presença de Deus e de Jesus
Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, por sua aparição e por seu
Reino: prega a palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, ameaça,
exorta com toda paciência e empenho de instruir. Porque virá tempo em que os
homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias
paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajustarão mestres para si.
Apartarão os ouvidos da verdade e se atirarão às fábulas. Tu, porém, sê
prudente em tudo, paciente nos sofrimentos, cumpre a missão de pregador do Evangelho,
consagra-te ao teu ministério." (2 Tm 4,1-5) A Igreja Católica e Apostólica não muda. A Revelação foi toda
feita até a morte do último Apóstolo, São João. Nada mais é acrescentado ao
depósito da fé, que "a Igreja de Deus vivo, coluna e sustentáculo da
verdade" (1 Tm 3,15), sobre a qual "as portas do inferno não
prevalecerão" (Mt 16,18), fielmente preserva, conforme o mandamento de
São Paulo. "Guarda o precioso depósito, pela virtude do Espírito Santo
que habita em nós." (2 Tm 1,14) Se somos "concidadãos dos
santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos
apóstolos e profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus" (Ef
2,19-20), não nos é permitido apartar do conjunto das verdades reveladas
aquelas que nos parecem um tanto desinteressantes. À Igreja não cabe mudar sua
doutrina. Nós é que precisamos a ela nos submeter. "Portanto, nós submetemos ao rigoroso
interdito do anátema, se porventura qualquer um, ou nós mesmos, ou um outro,
tiver a presunção de introduzir qualquer novidade em oposição à Tradição
Evangélica, ou à integridade da Fé e da Religião, tentando mudar qualquer coisa
concernente à integridade da nossa Fé, ou consentindo a quem quer que seja que
pretendesse fazê-lo com ardil sacrílego." (Papa Santo Agatão. Juramento
Papal) Pensar diferente é aderir à heresia modernista, tão bem
explicada pelo Papa São Pio X, quando a condenou A doutrina católica sempre foi a mesma. É verdade que é
possível haver um sadio desenvolvimento doutrinário, e isso iremos tratar um
pouco mais adiante no presente ensaio. Todavia, só é verdadeiramente
doutrinário aquilo que se ajusta ao que já ensinava São Vicente de Lérins: "Além
disso, na própria Igreja Católica, todo o cuidado possível deve ser tomado,
para que mantenhamos a fé que foi crida em toda parte, sempre e por todos. Pois
isto é verdadeira e estritamente católico, e, como seu nome diz e a razão das
coisas declara, compreende toda a universalidade. Esta regra nós observaremos
se seguirmos a universalidade, a antigüidade e o consenso."
(Communitorium, 6) Evolução histórica do igualitarismo A raiz da causa pela ordenação feminina está na diabólica
doutrina do igualitarismo, em que os movimentos feministas são apenas uma
pequena peça no joguete subversivo, que pretende a tudo igualizar e, sem
respeitar as diferenças que constróem uma sociedade harmônica e cristã, colocar
abaixo todo o edifício da Criação e de suas leis. Ao primeiro casal, Satanás já convidava que tentassem ser
iguais a Deus (cf. Gn 3,5), lançando o tema que, mais tarde, seria largamente
utilizado por Marx para insuflar as massas em busca da injusta e artificial
igualdade entre as pessoas. Segundo a definição clássica, todos são iguais em
sua essência, diferentes nos acidentes. É o que ensina o Santo Padre Leão XIII:
"A igualdade dos diversos membros sociais consiste somente no fato de
todos os homens terem a sua origem Claro que a aludida doutrina igualitária não poderia sobreviver
muito tempo se de pronto fosse preconizada. Talvez fosse, até mesmo, rechaçada
de pronto, se divulgada sem maiores explicações. Em função de uma política estratégica, as hordas satânicas
estabelecem degraus para instilar seu fétido veneno no mundo e, por sucessivas
"descobertas" científicas e existenciais, sedimentam as bases de uma
cultura radicalmente separada de Deus, na qual o Evangelho não se torna apenas
uma das múltiplas formas válidas de culto e moral (o que é relativismo, e,
portanto, heresia!), como, em situações extremas, torna-se perseguido, ao menos
de maneira psicológica. Desde o clamor do monge Lutero, pregando uma igualdade
eclesial, os alicerces do edifício igualitário foram colocados nos seus devidos
lugares. Na doutrina protestante, todos são iguais para interpretar a Bíblia.
Não há necessidade de Papa nem de Magistério, pois o Espírito Santo a todos os
crentes capacita. Faz da Igreja um corpo homogêneo em que as pessoas podem ter
os mesmos poderes o que, por si só, gerou a espantosa divisão no seio das
comunidades protestantes. O clérigo, dizem os reformadores, não diferencia-se
do leigo. A ordenação não é um sacramento, não confere graça; é apenas uma
eleição da comunidade e uma entrega a Deus de um homem que tem por profissão ou
vocação o pregar da Palavra. A partir dessa igualdade religiosa, em que os padres são
equiparados aos simples fiéis, e o sacerdócio hierárquico confundido com o
sacerdócio comum de todos os batizados doutrina semelhante, aliás, é pregada
por muitos dos que hoje se dizem católicos, inclusive no meio de movimentos
apostólicos , o pensamento humanista estende suas portentosas garras, e alça sua
corrida até a etapa seguinte da Revolução. Não basta haver igualdade na religião, dizem os fautores do
Iluminismo. O caminho até o reinado do pleno igualitarismo requer avançar para
um segundo grau doutrinário: igualdade política. Duas cabeças surgem desse
monstro. De um lado, o monarca começa a agir longe da doutrina da Igreja,
afastando a coroa da Cruz, e eliminando os privilégios da nobreza alguns
justos, outros nem tanto; cria-se o absolutismo! Do outro, descontente com o
despotismo reinante criado pelo mesmo pensamento moderno em que se apóia,
numa demonstração inconteste de esquizofrenia intelectual , a burguesia une-se
à castrada nobreza; eis a Revolução Francesa! É dela que partirão os teóricos mais radicais, para começarem
suas campanhas de uma nova forma igualitária: o comunismo, igualitarismo
social. Proudhon escreve algumas teses. Marx e Engels promovem a codificação da
doutrina. Bakunin radicaliza. Lênin encontra um povo, o russo, disposto a não
mais aceitar alguns disparates é assim que consideram do czarismo. É feito
o derramamento do heróico sangue eslavo... 1917! Profunda é a ligação entre as três revoluções. Confirma-o o
Papa Leão XIII: "Daquela heresia (protestantismo) nasceu no século
passado o filosofismo, o chamado direito novo, a soberania popular, e
recentemente uma licença, incipiente e ignara, que muitos qualificam apenas de
liberdade; tudo isso trouxe essas pragas que não longe exercem seus estragos,
que se chamam comunismo, socialismo e nihilismo, tremendos monstros da sociedade
civil." (Encíclica Diuturnum, 25). Entrando numa nova etapa, em que socialistas não se dizem mais
tão claramente defensores da ditadura do proletariado, e fingindo uma divisão
na esquerda mundial, partidos centristas fazem o "meio de campo", e
ao lado de organizações eco-terroristas e de ONGs desarmamentistas ou
pró-homossexuais, inculcam na doentia mentalidade hodierna, a velha máxima de
que a verdade não é absoluta esquecendo-se de que essa máxima, para eles, é
uma verdade e que, para manter coerência, nem ela deveria ser, portanto,
absoluta. A História é distorcida, o passado heróico de um povo é negado, a
Igreja é tratada como representante de uma moral arcaica, muitos católicos
aderem a movimentos outrora condenados pelo Magistério, animais e plantas
assumem o mesmo grau de dignidade dos seres humanos, o Direito passa a regular
interesses socializantes, o primitivismo tribalista dos indígenas é tido como
louvável, e o atraso tecnológico é idolatrado porque "não serve aos
interesses capitalistas." No meio disso tudo, o igualitarismo penetra na
comunidade católica e, inclusive sob a forma do clamor pela ordenação de
mulheres, tenta destruir, intra muros Ecclesiae, o seu maior inimigo: a
Santa Igreja de Deus! "A sociedade humana, tal qual Deus a
estabeleceu, é formada de elementos desiguais, como desiguais são os membros do
corpo humano; torná-los todos iguais é impossível: resultaria disso a própria
destruição da sociedade humana." (Papa Leão XIII. Encíclica Quod
Apostolici Muneris) Querendo ser igual a Deus, Satanás busca destruir a sociedade
humana fazendo-a pensar que os homens são todos iguais. Não satisfeitos com
isso, tentarão um dia, equiparar-se ao próprio Deus, se é que ainda crerão
nEle. "Quando vier o Filho do homem, acaso achará fé sobre a
terra?" (Lc 18,8) Noções sobre desenvolvimento doutrinal Argumentam os opositores da tese oficialmente acatada pela
Santa Sé da negação da ordenação sacramental às mulheres , que a doutrina
pode evoluir, e o que hoje pensamos ser errado, mais tarde poderá ser certo.
Ora, isso é o cerne da heresia modernista, tão bem condenada pelos Papas. Outra forma de penetração do erro modernista é a substituição
dos termos tradicionais por outros, carregadas de forte conteúdo ideológico
anti-católico, ou a manutenção do dogma com outra explicação porém, num
ridículo e pernicioso evolucionismo doutrinário, já refutado pelo Papa Pio XII.
"No que se refere à teologia, alguns pretendem
reduzir, quanto podem, o significado do dogma e libertar este do modo de exprimir-se,
já desde muito usado na Igreja, e dos conceitos filosóficos em vigor entre os
doutores católicos, para voltar, na exposição da doutrina católica, às
expressões da Sagrada Escritura e dos Santos Padres. Assim esperam eles que o
dogma, despojado dos elementos que dizem extrínsecos à revelação divina, possa
ser proveitosamente comparado com as opiniões dogmáticas daqueles que se
separam da Igreja e deste modo se possa chegar pouco a pouco à assimilação
mútua do dogma católico e das opiniões dos dissidentes. Além disso, reduzida a
estes termos a doutrina católica, pensam eles que desembaraçam o caminho para,
com a satisfação dada às necessidades do mundo hodierno, poder exprimir o dogma
com as categorias da filosofia de nosso tempo, quer sejam do imanentismo, quer
sejam do idealismo, quer sejam do existencialismo ou de qualquer outro sistema.
E alguns mais audazes sustentam que isso se pode fazer e se deve fazer, porque
os mistérios da fé, afirmam os tais, não se podem exprimir por meio de
conceitos adequadamente verdadeiros, mas somente por meio de conceitos
aproximativos e sempre mutáveis, através dos quais a verdade se manifesta, sim,
mas ao mesmo tempo necessariamente se deforma. Daí que não crêem absurdo mas
absolutamente necessário que a teologia, segundo as várias filosofias de que se
sirva como de instrumentos no decurso dos tempos, substitua as noções antigas
por outras novas e assim, de maneiras diversas, e até sob certos aspectos
contrários, mas como dizem equivalentes, traduza em linguagem humana as
mesmas verdades divinas. Acrescentam que a história dos dogmas consiste em
apresentar as várias formas sucessivas de que se revestiu a verdade revelada,
segundo as diversas doutrinas e opiniões que no volver dos séculos foram
aparecendo. É claro, do que dissemos, que essas tendências não
somente levam ao relativismo dogmático, mas de fato já o contém. Relativismo
esse que é por demais favorecido pelo desprezo que mostram para com a doutrina
tradicional e para com os termos em que ele se exprime. Todos sabem que as
expressões desses conceitos, usadas tanto no ensino das aulas como no mesmo
Magistério da Igreja, podem ser melhoradas e aperfeiçoadas; é por outra parte
bem sabido que a Igreja nem sempre usou constantemente determinadas expressões;
é evidente também que a Igreja não pode estar ligada a um qualquer efêmero
sistema filosófico; mas tais noções e tais expressões que com geral consenso
foram através dos séculos encontrados e formuladas pelos doutores católicos
para chegar a algum maior conhecimento e inteligência do dogma, sem dúvida que
não se apóiam em um fundamento tão caduco. Apóiam-se, sim, em princípios e
noções deduzidas de um verdadeiro conhecimento das coisas criadas; e na dedução
de tais noções, a verdade, revelada como estrela, iluminou por meio da Igreja a
inteligência humana. Portanto não é de maravilhar que algumas dessas noções
tenham sido usadas Por esses motivos, ter em pouco caso ou rejeitar ou
privar do seu justo valor conceitos e expressões que foram encontradas e
aperfeiçoadas para exprimir com exatidão as verdades da fé, por pessoas de
inteligência e santidade nada vulgares, num trabalho muita vez plurissecular,
sob a vigilância do Magistério da Igreja, e não sem uma ilustração e direção do
Espírito Santo, e querer agora substituí-las por noções hipotéticas e por
certas expressões flutuantes e vagas da nova filosofia, que à semelhança da
flor dos campos hoje verdeja e amanhã já secou, é por certo uma grandíssima
imprudência. Seria reduzir o dogma à condição da cana agitada pelo vento. O
desprezo dos termos e das noções usadas pelos teólogos escolásticos por si
mesmo conduz ao enfraquecimento da teologia denominada especulativa, que tais
inovadores julgam, por se apoiar em razões teológicas, desprovidas de
verdadeira certeza." (Papa Pio XII. Encíclica Humani Generis, de 12 de
agosto de 1950; 14-16) Em outro campo, mas em íntima associação com essa idéia de
evolução do dogma, está a posição daqueles teólogos favoráveis à ordenação
feminina, que, dizendo-se, como a ortodoxia, inimigos do evolucionismo da
doutrina, entendem, todavia, ser aquela proposição válida, por se tratar de um
desenvolvimento natural do ensino católico, e não de uma mudança de essência
naquilo que é pregado. Seu erro está, contudo, em que a o sadio desenvolvimento
doutrinário não pode carregar em si contradições, de modo a percebermos um
nítido contraste entre o que sempre foi crido e aquilo que se propõe a crer.
Para haver desenvolvimento, deve existir a doutrina de sempre, ainda que, num
determinado e primitivo momento, apenas em germe. É o que veremos a seguir. Em sua magistral obra Essays on the Development of Christian
Doctrine, o Cardeal Jonh Newman, anglicano convertido ao grêmio da
verdadeira Igreja, sustenta que a doutrina cristã, como o título do livro bem
diz, sofreu um natural desenvolvimento. E essa é a fé da Igreja Católica. Como conciliar essa tese com o demonstrado anteriormente por
São Vicente de Lérins? Antes de mais nada, devemos ter em mente algo muito claro. A
verdade foi revelada de uma vez por todas à Igreja. Nada mais há a ser
acrescentado. Nem o Papa pode inventar uma nova doutrina. "Mas, ainda
que alguém nós ou um anjo baixado do céu vos anunciasse um evangelho
diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que
acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja
ele excomungado!" (Gl 1,8-9) Possuir uma única doutrina, imutável é garantia de que a Igreja
possui a verdade. Estaríamos sem segurança, levados por qualquer vento de
doutrina (cf. Ef 4,14), se não encontrássemos uma doutrina certa, definitiva e
totalmente revelada. A unidade de doutrina reflete a unidade da Igreja e "fora
dela não há salvação, nem remissão dos pecados" (Papa Bonifácio VIII. Bula
Unam Sanctam). Igualmente não podemos pertencer à Igreja Una se confessamos
doutrina diversa da revelada aos Apóstolos. Escreve São Cipriano, Bispo de Cartago: "A Esposa de
Cristo não pode tornar-se adúltera, ela é incorruptível e casta [Cf Ef
5,24-31]. Conhece só uma casa, observa, com delicado pudor, a inviolabilidade
de um só tálamo. É ela que nos guarda para Deus e torna partícipes do Reino os
filhos que gerou. Aquele que, afastando-se da Igreja, vai juntar-se a uma
adúltera, fica privado dos bens prometidos à Igreja. Quem abandona a Igreja de
Cristo não chegará aos prêmios de Cristo. Torna-se estranho, torna-se profano,
torna-se inimigo. Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Como
ninguém se pôde salvar fora da arca de Noé, assim ninguém se salva fora da
Igreja. O Senhor nos alerta e diz: "Quem não está comigo está contra mim,
quem comigo não recolhe, dissipa" (Mt 12,30). Quem rompe a paz e a concórdia
de Cristo trabalha contra Cristo. Quem faz colheita alhures, fora da Igreja,
esse dissipa a Igreja de Cristo. Diz ainda o Senhor: "Eu e o Pai somos
um" (Jo 10,30), e do Pai, do Filho e do Espírito Santo está escrito:
"Estes três são um" (1Jo 5,7). Como poderá alguém pensar que esta
unidade da Igreja, decorrente da própria firmeza da unidade divina, e tão
conforme com este celeste mistério, pode ser rompida e sacrificada ao arbítrio
de vontades opostas? Quem não observa esta unidade não observa a lei de Deus, não
observa a fé do Pai e do Filho, não possui nem a vida, nem a salvação." (A
unidade da Igreja Católica, VI) À gravidade do ensinamento apostólico, queremos aqui traçar
breves linhas sobre como se dá o desenvolvimento de que falávamos. Embora revelada de uma vez por todas, e presente na Igreja
desde os tempos apostólicos, a doutrina católica nem sempre foi compreendida de
forma perfeita por seus membros, ou explicitada pelos pastores legítima e
validamente constituídos. Aos meios que Deus usou para fazer Sua Revelação
chamamos Tradição Apostólica e Sagrada Escritura, quais sejam aquilo que foi
ensinado oralmente e o que nos foi registrado pela pena dos autores sagrados.
Coube ao Magistério dissipar as dúvidas, geralmente quando alguma heresia
surgia. "Esta Tradição, oriunda dos Apóstolos, progride na Igreja sob a
assistência do Espírito Santo. Cresce, com efeito, a compreensão tanto das
realidades como das palavras transmitidas, seja pela contemplação e estudo dos
que crêem, os quais as meditam em seu coração (cf. Lc 2,19.51), seja pela
íntima compreensão que desfrutam das coisas espirituais, seja pela pregação
daqueles que com a sucessão do episcopado receberam o carisma autêntico da
verdade. É que a Igreja, no decorrer dos séculos, tende continuamente para a plenitude
da verdade divina, até que se cumpram nelas as palavras de Deus."
(Concílio Ecumênico Vaticano II. Constituição Dogmática Dei Verbum, 8) "A Economia cristã, portanto, como aliança
nova e definitiva, jamais passará, e já não há que esperar nenhuma nova
revelação pública antes da gloriosa manifestação de Nosso Senhor Jesus Cristo.
(DV 2) Todavia, embora a Revelação esteja terminada, não está explicitada por
completo; caberá à fé cristã captar gradualmente todo o seu alcance ao longo
dos séculos." (Cat., 66) Em todas as épocas da Igreja, segundo o "Communitorium"
de São Vicente de Lérins, já aludido, se creu a mesma coisa e por todos. Tudo
que disso se afasta não pertence ao depósito da fé católica, e, portanto, não é
revelado por Deus. Contudo, não podemos dizer, simplesmente, que os primeiros
cristãos tinham a compreensão da doutrina que temos hoje, pois não dispunham
dos conceitos que a Teologia e a Filosofia católicas foram desenvolvendo,
assistidas prudencialmente pelo Espírito Santo. Bastaria perguntar, por
exemplo, a São Pedro se cria numa Trindade consubstancial, ou se defendia a
doutrina de que as Hipóstases se diferenciam apenas nas Suas missões próprias e
que essa diferenciação se dá por oposição de relações, que veríamos o santo
perdido em palavras e definições que não conhecia. A doutrina da Trindade e das missões hipostáticas, entretanto,
está lá, na Revelação divina, e obtém o amparo da Sagrada Escritura e da
Tradição Apostólica. É como uma semente que, dentro de si, esconde toda uma árvore.
A doutrina foi toda revelada, mas não nos termos como mais tarde a
compreenderíamos; o que cremos hoje pode ter estado em germe no ensino dos
primeiros Padres. Outro exemplo, que nos ajuda a entender melhor esse
desenvolvimento do dogma, refere-se ao perfeito entendimento de como está
presente Nosso Senhor na Eucaristia. A Bíblia oferece suporte para que creiamos
numa presença real. Contudo, como se dá essa realidade? Frente aos hereges que
negavam a presença real e aos que confundiam a essência com os elementos
acidentais em Cristo, teve a Igreja Católica que se pronunciar. E o fez a
partir do dado dos Padres Antigos do Oriente e do Ocidente, os quais,
interpretando a Sagrada Escritura, e tomando emprestado termos da filosofia
grega, puderam dar um primeiro embasamento para o que seria, mais tarde,
perfeitamente explicado por São Tomás de Aquino. Claro que o termo
"transubstanciação" e a fórmula que ele significa mudança da
sustância do pão e do vinho em Corpo e Sangue de Cristo, sem alteração da aparência
dos elementos não foram professados, nesses termos, pelos Apóstolos.
Entretanto, com termos um pouco diferentes digamos, primitivos cunharam as
bases para que a Igreja entendesse o que significa a presença eucarística de
Jesus na hóstia consagrada. Não houve ruptura, ou ensino novo, mas um
desenvolvimento de uma doutrina que estava toda revelada, mas em germe no
período apostólico e patrístico, e que cresceu em perfeita harmonia com o que
sempre se creu, em sintonia com o cânon de São Vicente de Lérins. Deve-se condenar o modernismo, segundo o qual a doutrina
evoluiu e os significados dos dogmas devem ser amoldados pelo tempo e pelas
circunstâncias é o terrível e herético progresso dogmático. Todavia, o sadio
desenvolvimento nunca evolução! realmente acontece, seja porque a Igreja,
com a ajuda do Espírito Santo compreendeu melhor determinado conceito que
pertence a doutrina já revelada de uma vez por todas no início da pregação do
Evangelho, seja porque, dadas as necessidades, viu-se diante de um novo
problema ou de uma questão com a qual não tinha se deparado antes. "Esta
tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo. Com
efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas,
quer mercê da reflexão e do estudo dos crentes , que as meditem no seu coração
(cf. Lc 2,19-51),quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas
espirituais, quer mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado,
receberam um carisma seguro de verdade." (Concílio Ecumênico Vaticano II.
Constituição Dogmática Dei Verbum, 7) Assim, a Igreja não cria doutrina nem muda o significado da
mesma. Porém, muitas vezes, explicita um pensamento contido na doutrina, ou
responde se certa matéria pertence ou não ao dado revelado. Sempre que essa
explicitação chega a uma formulação considerada perfeita pela Igreja, de modo
que não caiba mais dúvida de que a expressão reflete a pureza do que foi
revelado por Deus, estamos diante de um dogma. O dogma não é uma nova doutrina,
mas a explicitação de um ponto doutrinário que antes não era tão claro e que,
pelo desenvolvimento dos estudos teológicos, semânticos, filosóficos, jurídicos
ou oriundos de ciência diversa, encontra momento certo de ser declarado. Somente à autoridade da Igreja Católica, outrossim, é que
compete definir se determinado ponto dogmático é um justo, sadio e coerente
desenvolvimento doutrinário ou se não passa de uma perniciosa evolução, em que
muda-se a essência do dado revelado. "Todavia, já que o salutar decreto
dado pelo Concílio Tridentino sobre a interpretação da Sagrada Escritura para
corrigir espíritos petulantes é erradamente exposto por alguns, Nós, renovando
o mesmo decreto, declaramos que o seu sentido é que, nas coisas da fé e da moral,
pertencentes à estrutura da doutrina cristã, deve-se ter por verdadeiro sentido
da Sagrada Escritura aquele que foi e é mantido pela Santa Madre Igreja, a quem
compete decidir do verdadeiro sentido e da interpretação da Sagrada Escritura;
e que, por conseguinte, a ninguém é permitido interpretar a mesma Sagrada
Escritura contrariamente a este sentido ou também contra o consenso unânime dos
Santos Padres." (Concílio Ecumênico Vaticano I. Constituição Dogmática De
Fide Catholica, DS 1788) A missão própria da Igreja Católica, qual instituto fundado
pelo próprio Senhor, é a de assegurar a pregação e a demonstração da verdade
imutável através dos tempos, sempre procurando transmiti-la de um modo que o
maior número possível de pessoas a compreenda, sem contudo traí-la. "Por
conseqüência, tornamo-nos participantes de tal missão de Cristo profeta; e, em
virtude da mesma missão e juntamente com Ele, servimos a verdade divina na
Igreja. A responsabilidade por esta verdade implica também amá-la e procurar
obter a sua mais exata compreensão, de maneira a torná-la mais próxima de nós
mesmos e dos outros, com toda a sua força salvífica, com o seu esplendor e com
a sua profundidade e simplicidade a um tempo." (Papa João Paulo II.
Encíclica Redemptor Hominis, 19) Mesmo assim, uma nova explicitação ou uma formulação dogmática
não pode contradizer o ensino já explícito da Revelação, seja por constar de
suas fontes, a Tradição e a Bíblia, seja por ser definida pelo Magistério da
Igreja. O dogma obriga e é definitivo porque se trata de um juízo da Igreja de
que ele é coerente com sua doutrina sempre "crida em toda parte, sempre
e por todos." (São Vicente de Lérins. op. cit., 6) Quando proclamado o dogma, não há mais razão para debates
teológicos acerca do significado das questões doutrinárias dúbias que ele
dirimiu. A Igreja, o Papa e os Concílios Ecumênicos por ele aprovados são
infalíveis, conforme se extrai da decisão de um deles, o Primeiro do Vaticano: "Por
isso Nós, apegando-nos à Tradição recebida desde o início da fé cristã, para a
glória de Deus, nosso Salvador, para exaltação da religião católica, e para a
salvação dos povos cristãos, com a aprovação do Sagrado Concílio, ensinamos e
definimos como dogma divinamente revelado que o Romano Pontífice, quando fala
'ex cathedra', isto é, quando, no desempenho do ministério de pastor e doutor
de todos os cristãos, define com sua suprema autoridade apostólica alguma
doutrina referente à fé e à moral para toda a Igreja, em virtude da assistência
divina prometida a ele na pessoa de São Pedro, goza daquela infalibilidade com
a qual Cristo quis munir a sua Igreja quando define alguma doutrina sobre a fé
e a moral; e que, portanto, tais declarações do Romano Pontífice são por si
mesmas, e não apenas em virtude do consenso da Igreja, irreformáveis."
(Concílio Ecumênico Vaticano I. Constituição Dogmática Pastor Aeternus, DS
1839) De um lado, a Igreja Católica guarda e preserva o depósito
apostólico da doutrina que recebeu de Cristo e dos Apóstolos, o qual não muda,
não evolui; de outro, há um sadio desenvolvimento dessa doutrina, um melhor
entendimento, um clarear de idéias, sempre em consonância com o que já foi
explicitado e com o que não precisa sê-lo, pois claríssimo está na Escritura
e na Tradição , sem mudança na essência dogmática e guiada, evidentemente,
pelo Magistério Eclesiástico que é assistido pelo Espírito Santo. Apliquemos o que acabamos de dizer à análise da possibilidade
da ordenação feminina. Já transcrevemos alguns parágrafos de uma Carta
Apostólica do Papa João Paulo II, escrita a esse respeito. Repetimos o que
consideramos mais importante, para que o leitor perceba os termos que utiliza o
Santo Padre, configurando-se sua declaração numa autêntica explicitação da fé
católica uma vez revelada aos Apóstolos. "(...) declaro que a Igreja
não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às
mulheres, e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os
fiéis da Igreja." (Carta Apostólica Ordinatio Sacerdotalis, 4)" O poder de definir dogmas e de explicitar a doutrina revelada
para que tenhamos a segurança da fé não depende da santidade ou da dignidade
dos ministros que o detém. Trata-se de uma proteção para que a Igreja não
sofra, na doutrina, pelos abusos que poderiam surgir, e que a triste história
de alguns papas da Renascença infelizmente os confirmam. Dentre as Igrejas
diocesanas em comunhão com Roma, cabe principalmente a esta última, que está na
Cidade Eterna dos Apóstolos Pedro e Paulo, a defesa da fé, que se faz pela
explicitação de termos difíceis, pelo desenvolvimento doutrinário e pela
declaração dogmática. "A mesma Igreja Romana tem o supremo e pleno
primado e principado sobre toda a Igreja Católica, que verdadeira e
humildemente reconhece haver recebido com a plenitude do poder, das mãos do
próprio Senhor, na pessoa do Bem-aventurado Pedro, príncipe e cabeça dos
Apóstolos, e cujo sucessor é o Romano Pontífice. E como está obrigada mais do
que as demais a defender a verdade da fé, assim também, por seu juízo, devem
ser defendidas as questões que acerca da fé surgirem." (Concílio Ecumênico
de Lião II. Profissão de fé de Miguel Paleólogo) Como dissemos, a declaração do Papa foi definitiva, segundo
suas próprias palavras. E o foi por estar em íntima sintonia com tudo aquilo
que a Igreja sempre creu, por todos e em todos os lugares. Pelo artigo que ora
apresentamos, fornecemos as provas de que nunca, em tempo algum, a Igreja
Católica admitiu a hipótese de as mulheres receberem o sacramento da Ordem. Da
mesma forma, não há, nas palavras de Cristo nem em Seus atos, suporte algum
para que a errônea tese que o Sumo Pontífice condenou seja sustentada. Por fim,
à luz da Tradição, teremos aos nossos olhos que não é possível deduzir dos
escritos dos Padres a ordenação feminina tão defendida pelos modernistas
(porque crêem na evolução doutrinária) e pelos pregadores igualitários (que não
conseguem perceber que a harmônica desigualdade é querida por Deus, e pertence
à ordeira disposição da sociedade). Para que haja um sadio desenvolvimento
doutrinário, é preciso que encontremos na Bíblia e na Tradição, quiçá no
próprio Magistério, elementos que permitam crer que tal tese poderia ter sido
admitida anteriormente. Ora, o que se vê é justamente o contrário! Evolução supõe, já o dissemos, mudança de substância, ao passo
que desenvolvimento é uma mudança progressiva partindo de algo já existente e
que não muda, de per si. Um exemplo: os primeiros cristãos acreditavam
que a Santíssima Virgem tinha sido toda pura, kecharitomene, cheia de
graça, gratia plena; isso constitui uma base sólida e coerente com a
definição dogmática posterior da Imaculada Conceição. Outro exemplo: se Nossa
Senhora era a Mãe de Cristo, e os Padres definiram que n'Ele há duas naturezas,
mas uma só Pessoa, a divina, foi natural o desenvolvimento da doutrina de que
Maria era Theotokos para os gregos , Mater Dei para os
latinos , a Mãe de Deus. Ainda uma terceira ilustração: sempre se creu ser a
Igreja Católica a única fundada por Nosso Senhor e que fora não havia salvação;
o Concílio Vaticano II, ao contrário do que sustentam os modernistas, não
acabou com tal doutrina ao afirmar a necessidade do diálogo ecumênico, pois às
outras religiões cristãs Deus não permitiu que ficassem totalmente isoladas dos
meios de salvação; também nelas há elementos salvíficos, embora o sejam de
direito católicos; crer que fora da Igreja não há salvação não significa, nem
nunca significou, conforme entendemos da Carta do Santo Ofício ao Bispo de
Boston, redenção exclusivamente dentro dos limites visíveis da catolicidade; o
que o ecumenismo vem sustentar, quando bem entendido, é um legítimo
desenvolvimento do que Papas anteriores já falavam em relação aos cristãos
hereges: ordinariamente estão privados dos meios da salvação, mas, pela
pertença invisível à Igreja visível, podem vir a se salvar. Nada parecido
encontramos na história, quando estudamos a questão da ordenação feminina. O
testemunho unânime dos Padres, a voz dos Papas, o ensino da Escritura, a
pregação dos Santos, os cânones dos Concílios, dão claro eco ao que
sustentamos: não é possível ordenar-se validamente uma mulher. De outra sorte, não cabe alegar aqui, principalmente em face
dos motivos expostos, que a proibição da ordenação sacramental feminina pode
ser melhor entendida e que, consoante um desenvolvimento doutrinário, possa um
dia ser admitida. Isso seria confundir o desenvolvimento com a evolução
dogmática, esta sim, condenada pela Igreja, uma vez que a substância
doutrinária é alterada. Não pode uma explicitação derrogar algo definido anteriormente,
pois isso seria atacar, frontalmente, a segurança que depositamos na Igreja
como guardiã da verdade que vem de Deus. O desenvolvimento doutrinal acaba
quando o Magistério formula um dogma, perfeita definição do que devemos crer,
com as palavras mais seguras para expressar essa fé, e na certeza inabalável de
que a infalibilidade garantida pelo Espírito Santo ao Romano Pontífice e aos
Bispos em comunhão com ele, é manifesta quando da preservação do ensino bíblico
e tradicional. Por outro lado, se aceitássemos que o tema das ordenações possa
ser desenvolvido até que cheguemos a admitir mulheres ao sacramento da Ordem,
estaria tal ensino contrariando tudo o sempre foi crido pela Igreja; seria uma
ruptura, uma mudança de essência. E toda mudança essencial não é justo
desenvolvimento e sim evolução doutrinária, o que foi condenado pelos Papas,
principalmente através do Syllabus do Beato Pio IX, e da Pascendi
Dominici Gregis e do Lamentabili Sine Exitu de São Pio X. Também
Gregório XVI, em uma encíclica da qual abaixo transcrevemos uns trechos,
condena a mudança na essência da doutrina. "Reprovável seria, na verdade, e muito alheio
à veneração com que se devem acolher as leis da Igreja, condenar, somente por
néscio capricho de opinião, a doutrina que foi por ela sancionado, na qual
estão contidas a administração das coisas sagradas, a regra dos costumes e dos
direitos da Igreja, a ordem e a razão dos seus ministros, ou então acoimá-la de
oposicionista a certos princípios de direito natural, julgando-a deficiente e
imperfeita, ou ainda sujeitando-a à autoridade civil. Constando, com efeito,
como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento (Sess. 13, dec. de
Eucharistia in prom.), que a Igreja recebeu sua doutrina de Jesus Cristo e dos
seus Apóstolos, e que o Espírito Santo a está continuamente assistindo,
ensinando-lhe toda a verdade, é por demais absurdo e altamente injurioso dizer
que se faz necessária uma certa restauração ou regeneração, para fazê-la voltar
à sua primitiva incolumidade, dando-lhe novo vigor, como se fosse de crer que a
Igreja é passível de defeito, ignorância ou outra qualquer das imperfeições
humanas; com tudo isto pretendem os ímpios que, constituída de novo a Igreja
sobre fundamentos de instituição humana, venha a dar-se o que São Cipriano
tanto detestou: que a Igreja, coisa divina, se torne coisa humana (Ep. 52,
edit. Baluz.). Pensem, pois, os que tal supõem, que somente ao Romano Pontífice
como atesta São Leão, tem sido confiada a constituição dos cânones; e que
somente a ele, que não a outro, compete julgar dos antigos decretos dos
cânones, medir os preceitos dos seus antecessores para moderar, após diligente
consideração, aquelas coisas, cuja modificação é exigida pela necessidade dos
tempos (Ep. ad. episc. Lucaniae)." (Papa Gregório XVI. Encíclica Mirari
Vos, de 14 de agosto de 1832) Poderá uma doutrina como a ordenação de mulheres ser
validamente aprovada pelo Magistério da Igreja, se contraria a totalidade dos
escritos dos Doutores e dos Padres, não encontra guarida na Bíblia e, além
disso, já foi condenada, explícita e implicitamente, por vários Papas? É talvez aqui a ocasião de reafirmar o que sempre creu a
Igreja, com uma das proposições do, infelizmente não tão conhecido, Juramento
contra o Modernismo, de São Pio X: "...eu sinceramente mantenho que a
Doutrina da Fé nos foi trazida desde os Apóstolos pelos Padres ortodoxos com
exatamente o mesmo significado e sempre com o mesmo propósito. Assim sendo, eu
rejeito inteiramente a falsa representação herética de que os dogmas evoluem e
se modificam de um significado para outro diferente do que a Igreja antes
manteve. Condeno também todo erro segundo o qual, no lugar do divino Depósito
que foi confiado à esposa de Cristo para que ela o guardasse, há apenas uma
invenção filosófica ou produto de consciência humana que foi gradualmente
desenvolvida pelo esforço humano e continuará a se desenvolver
indefinidamente." (Papa Pio X. Juramento contra o Modernismo, a ser proferido por todos os
membros do clero, pastores, confessores, pregadores, superiores religiosos e
professores em seminários de filosofia e teologia; proposição quarta) Vocações e ministérios distintos "Porque, como o corpo é um todo tendo muitos
membros, e todos os membros do corpo, embora muitos, formam um só corpo, assim
também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados todos nós, para formar um só
corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos impregnados do mesmo
Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas Da passagem acima, captamos diversas mensagens que o Apóstolo
nos quis ensinar. A primeira é que a Igreja é una, e está unida a Jesus, qual
cabeça unida ao corpo. "Quanto a Jesus Cristo e à Igreja, parece-me que
são uma só coisa, e que não há questionamento sobre isto." (Santa Joana
dArc, Proc.) De Cristo, dizia São Paulo à Igreja de Colossos, "Ele
é a cabeça do corpo, da Igreja" (Cl 1,18) Todos somos um, quando unidos à Igreja e, por ela, a Nosso
Senhor. Esta é a segunda mensagem, e reza que não nos unimos apenas a Nosso
Senhor, mas entre nós mesmos: "Todos vós que fostes batizados em
Cristo, vos revestistes de Cristo. Já não há judeu nem grego, nem escravo nem
livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um Quanto à terceira mensagem, parece ser contrária à segunda, o
que veremos não proceder. Sim, por causa de Cristo somos iguais em nossa
substância e dignidade, eis que todos somos filhos de Deus, adotados no Batismo
e, antes disso, criaturas feitas à imagem e semelhança do mesmo Deus (cf. Gn
1,26-27). Entretanto, na mesma citação da Primeira Carta aos Coríntios, que
transcrevemos acima, percebemos a desigualdade acidental das pessoas. Somos
iguais na essência, mas desiguais no acidente, e essa desigualdade, em Deus, se
faz harmônica. Não prega o Evangelho, como pretendem os comunistas e teólogos
da libertação, a supressão das desigualdades sociais, econômicas, políticas, e sim
a harmonia entre os desiguais. Desagrada tanto a Deus quanto à Igreja, Seu Povo
(cf. Cat. 781-782), a brutal injustiça com que muitos pobres vivem, é verdade.
Todavia, também é injustiça e, por isso mesmo detestável por Deus e pela Santa
Igreja, o igualitarismo, em que todos os membros são tornados iguais também em
seus acidentes. Não é pelo marxismo e por quaisquer outras formas de socialismo
que as injustiças serão resolvidas, mas pela harmonização das desigualdades,
tal como na Idade Média, a qual o Papa Leão XIII elogiou publicamente,
defendendo a posição da Igreja: "Tempo houve em que a filosofia do
Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e
sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos,
todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião
instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que
lhe é devido, em toda parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à
proteção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam
ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons
ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a toda
expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em
inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou
obscurecer." (Encíclica Immortale Dei, de 1 de novembro de 1885) Somos iguais em essência, mas diferentes nos acidentes, e
exatamente por isso é que São Paulo compara a Igreja a um corpo. Com as nossas
diferenças, podemos fazer parte de único corpo, e termos uma função
insubstituível na realização do apostolado querido por Nosso Senhor. "Contudo,
desde a origem esta Igreja una se apresenta com uma grande diversidade, que
provém ao mesmo tempo da variedade dos dons de Deus e da multiplicidade das
pessoas que os recebem. Na unidade do Povo de Deus se congregam as diversidades
de dons, de encargos, de condições e de modos de vida." (Cat., 814)
Cada diferença só existe e é querida por Deus em vista da funcionalidade do
Corpo Místico que é a Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica. E na soma
dessas diferenças, compreendemos a grande sabedoria do Senhor em dispor-nos
qual riqueza una e diversa ao mesmo tempo. Todos têm sua função, seu carisma,
sua missão na obra apostólica da Igreja. Da mesma maneira que a alguns é dado um dom qualquer e a outros
não, em vista de certas habilidades naturais não dará o Senhor um chamado de
ser um eloqüente pregador a um surdo-mudo, por exemplo; ou de motorista do
Bispo a um tetraplégico; tampouco vocacionará alguém odiado por um certa
cultura, por exemplo, para que lhes pregue o Evangelho, sem prepará-los, sob
pena de a evangelização nem ser iniciada; ou a quem não sabe nem tem aptidão
para aprender línguas o chamado missionário além-fronteiras , podemos afirmar
que pertence à disposição de Deus estabelecer diferenças entre o homem e a
mulher. Fisicamente já percebemos as diferenças que existem entre os
dois sexos. Estudando a estrutura psicológica de ambos, percebemos outras
ainda, e que a observação empírica dos distintos comportamentos de um e outro
nos confirma. Além do mais, não há como negar que certas funcionalidades
biológicas caracterizam os diferenciais sexuais. Uma mulher pode dar à luz,
pode gestar uma outra vida em si, pois por Deus foi ordenada, naturalmente, e
nela foi criada, pela Providência, um aparelho próprio para tal tarefa. Mesmo
que queira, não é possível ao homem engravidar. Sua função é outra: impregnar a
mulher, comunicar-lhe o sêmen que, saindo de si, encontra o óvulo e o fecunda,
iniciando uma nova vida. "A maternidade comporta uma comunhão especial
com o mistério da vida, que amadurece no seio da mulher: a mãe admira este
mistério, com intuição singular 'compreende' o que se vai formando dentro de
si. A luz do 'princípio', a mãe aceita e ama o filho que traz no seio como uma
pessoa. Este modo único de contato com o novo homem que se está formando cria,
por sua vez, uma atitude tal para com o homem . não só para com o próprio
filho, mas para com o homem em geral . que caracteriza profundamente toda a
personalidade da mulher. Considera-se comumente que a mulher, mais do que o
homem, seja capaz de atenção à pessoa concreta, e que a maternidade desenvolva
ainda mais esta disposição. O homem . mesmo com toda a sua participação no ser
pai . encontra-se sempre ' fora' do processo da gestação e do nascimento da
criança e deve, sob tantos aspectos, aprender da mãe a sua própria
'paternidade'. Isto . pode-se dizer . faz parte do dinamismo humano normal do
ser genitores, também quando se trata das etapas sucessivas ao nascimento da
criança, especialmente no primeiro período. A educação do filho, globalmente
entendida, deveria conter em si a dúplice contribuição dos pais: a contribuição
materna e paterna. Todavia, a materna é decisiva para as bases de uma nova
personalidade humana." (Papa João Paulo II. Carta Apostólica Mulieris
Dignitatem, 18) Por essa razão, simples, é que o carisma de ser mãe é próprio
da mulher. Imaginaríamos o ridículo de um movimento machista, clamando pelo
direito dos homens de serem mães? É o mesmo que os grupos feministas instalados
em vários setores mais liberais da Igreja de Cristo querem, guardadas as
diferenças entre ser o dom da maternidade algo biológico, natural, e o dom do
sacramento da Ordem espiritual, sobrenatural. Ora, se ainda conservamos um
mínimo de fé católica ainda não contaminada por materialismo e racionalismo,
não nos é difícil rechaçar, de pronto, o argumento dos que propugnam, atacando
nossa explicação, serem as coisas biológicas determinadoras de certas
condições, negando às espirituais tal faculdade. Quem lhes deu autoridade para
assim decidirem, eis que, conforme o aforismo jurídico, o acessório segue o
principal? e o principal, no caso em tela, é o sobrenatural, ao qual segue o
biológico e o físico, àquele se subordinando. Muito acertadamente, o Código de Direito Canônico, chama a
atenção para a questão das vocações ordenadas sacramentalmente: "Só um
varão batizado pode receber validamente a ordenação sagrada." (cân. 1024,
CIC) Só uma mulher pode ser ordenada naturalmente para ser mãe. Só
um homem pode ser ordenado sobrenaturalmente para ser sacerdote, cuja teologia
própria iremos estudar logo a frente, a fim de que não mais restem dúvidas
sobre a razão da ensino católico quanto a esse aspecto. Não se trata,
ressalte-se, de proibir a ordenação feminina, mas de reconhecer sua nulidade e
inexistência. A Igreja não está negando às mulheres uma participação no
sacramento da Ordem, e sim proclamando que a doutrina que ela recebeu e não
que foi inventada por ela, ainda que tenha cabido a ela seu sadio
desenvolvimento é clara em estabelecer diferenças entre o homem e a mulher,
de modo que a esta caibam muitas coisas que àquele não é possível executar, e
que o inverso também é válido. Teologia do sacerdócio Impossível compreender a noção católica de sacerdócio baseada
na Revelação divina, e portanto, mais do que uma opinião teológica ou uma
teoria, é a doutrina do próprio Deus emanada , sem atentarmos para a missão
sacerdotal de Cristo: ser ponte, pontífice, por sobre o abismo do pecado, que
separa uma humanidade pecadora de um Deus santo. Jesus Cristo, Nosso Senhor e Redentor, oferece-se como vítima
na cruz, e morre em nosso lugar, como um legítimo sacrifício de odor suave e
agradável a Deus. Separado do Criador pelo pecado, livre e consciente, a
criatura não tem direito algum de ser perdoada por Deus ou reintegrada na Sua
paz. A obra da reconciliação não tem raízes na justiça divina apenas, senão em
Seu amor. No dizer de São Serafim de Sarov, monge russo e mestre espiritual,
não devemos, em certo sentido, falar que Deus é justo, pois dessa forma não
teria Ele mandado Jesus para morrer na cruz em nosso lugar. Não tem Deus o dever
de nos salvar. Se quisesse nos deixar todos à mercê de nossa sorte, e
condenados ao inferno, poderia tê-lo feito. Por não o fazer, é que concluímos
que a redenção, como a criação e todos os atos de Deus, foi proporcionada pelo
amor e pela misericórdia divinas. Se Deus nos salva é porque nos ama. Já os pagãos, que, por serem homens, apesar do pecado não
perderam o senso de que estão separados da divindade, seja ela qual for,
ofereciam sacrifícios para o perdão dos pecados e para aplacar a ira divina. Aproveitando-se desse sentimento religioso, comum a todos os
povos e culturas, Deus mostra ao Seu Povo Eleito, Israel, de onde deveria sair
o Messias, Jesus de Nazaré, um modo de oferecer tais sacrifícios, motivando-os
a, na oportunidade da vinda do Cristo, reconhecerem em sua religião mosaica um
símbolo e uma antecipação preparatória do único, suficiente e verdadeiro
sacrifício que seria oferecido por Ele na cruz. Jesus Cristo é Sacerdote, é
vítima, e Sua cruz é o altar onde Ele se oferece. "Tal é, com efeito, o
Pontífice que nos convinha: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores
e elevado além dos céus, que não tem necessidade, como os outros
sumos-sacerdotes, de oferecer todos os dias sacrifícios, primeiro pelos pecados
próprios, depois pelos do povo; pois isto o fez de uma só vez para sempre,
oferecendo-se a si mesmo." (Hb 7,26-27) Nosso Senhor é o Sumo-sacerdote por excelência, do qual os
antigos sacerdotes levíticos do Velho Testamento eram apenas sombras, sinais. A
Cruz de Cristo, Sua morte, Seu sacrifício pagou o preço de nossos pecados, e
pudemos, assim, ser reconciliados com Deus, tal é a obra de Jesus, grandiosa
missão! Todavia, o sacrifício de Jesus não é limitado ao tempo e ao
espaço. Como sinal de nossa salvação e ocasião em que se unem novamente os céus
e a terra, Deus faz o evento histórico da morte de Cristo perpetuar-se no tempo
e no espaço, atualizando tão terrível e grandioso acontecimento. "É um
evento real, acontecido na nossa história, mas é único: todos os outros eventos
da história acontecem uma vez e depois passam, engolidos pelo passado. O
mistério pascal de Cristo, ao contrário, não pode ficar somente no passado, já
que pela sua morte destruiu a morte, e tudo o que Cristo é, fez e sofreu por
todos os homens, participa da eternidade divina, e por isso abraça todos os
tempos e nele se mantém permanentemente presente. O evento da Cruz e da
Ressurreição permanece e atrai tudo para a Vida." (Cat., 1085) Dita
perpetuação do único e suficiente sacrifício, oferecido de modo definitivo, se
faz na Santa Missa. É ela a renovação do Calvário. Não um novo sacrifício, nem
mesmo uma mera representação piedosa do único sacrifício, mas este tornado
novamente presente, rompendo as barreiras espaço-temporais pelo poder do
Espírito Santo. E, assim como na Cruz foi Cristo quem se entregou por nós, na
Santa Missa, por ser o mesmo e único sacrifício perpetuado, é Ele quem continua
a se oferecer ao Pai pelo perdão de nossos pecados. Como, entretanto, Ele
continua essa obra? Pelo padre! O sacerdote católico só é sacerdote enquanto
unido ao único verdadeiro Sumo-sacerdote, Jesus Cristo, Nosso Rei e Salvador.
Os sacerdotes católicos são os membros ordenados da Igreja, aqueles que, pelo
sacramento da Ordem, estão de uma maneira muito íntima ligados a Cristo, de uma
forma mais excelente do que o laço que nos une todos a Ele pelo Batismo. E essa
união com Cristo se dá justamente em função de que o padre deve receber do
Sacerdócio de Jesus o seu próprio sacerdócio, e não pela santidade pessoal do
ministro. Ser sacerdote católico significa participar, sacramentalmente, do
Sacerdócio de Jesus Cristo, pois Ele é o único, verdadeiro, eterno e suficiente
Sacerdote da Nova Aliança. Quando Cristo chama sacerdotes para Sua Santíssima Igreja
Católica, Sua vontade é de associar homens a Si que possam manter a
continuidade do sacrifício da Cruz oferecido sob a forma da Santa Missa. O
padre católico está em função da Missa, da Eucaristia, do perdão dos pecados.
Esse é o seu sacerdócio. Da mesma forma como os sacerdotes das religiões pagãs
tentavam se unir à divindade, e semelhantemente aos sacerdotes do Antigo
Testamento que, por disposição de Deus, ofereciam um simbólico sacrifício pela
remissão dos pecados e como forma de preparar o único e suficiente sacrifício
que viria Para um maior entendimento do sacramento da Ordem, selecionamos
as seguintes passagens do Magistério Eclesiástico, auto-explicativas: "O sacrifício e o sacerdócio de tal modo estão
unidos por determinação de Deus, que tanto um como outro se encontram em cada
lei. Como, pois, no Novo Testamento, a Igreja Católica recebeu, por instituição
do Senhor, o santo e visível sacrifício da Eucaristia, devemos também confessar
que nele há um novo sacerdócio visível e exterior (cân. 1), para o qual o
antigo se transferiu (Heb 7, 12 ss). Este sacerdócio, como mostram as Sagradas
Escrituras, como ensinou sempre a Tradição da Igreja Católica, foi instituído
por nosso Salvador (cân. 3), o qual deu aos Apóstolos e seus sucessores no
sacerdócio o poder de consagrar, de oferecer e de ministrar o seu Corpo e
Sangue, bem como de perdoar e reter os pecados (cân. 1)." (Concílio
Ecumênico de Trento. Decreto sobre o Sacramento da Ordem, Sessão XXIII, 1. DS 957) "Sendo manifesto pelo testemunho da Escritura,
pela Tradição apostólica e pelo unânime consenso dos Padres, que pela sagrada
ordenação, ministrada com palavras e sinais exteriores, se confere a graça,
ninguém deve duvidar que a Ordem seja verdadeira e propriamente um dos sete
sacramentos da santa Igreja. O Apóstolo é quem o diz: Admoesto-te a que
ressuscites a graça que está em ti pela imposição das minhas mãos. Pois Deus
não nos concedeu o espirito de temor, mas de virtude, de amor e sobriedade (2 Tim
1,67; cfr. 1 Tim 4, 14)." (Concílio Ecumênico de Trento. Decreto sobre o
Sacramento da Ordem, Sessão XXIII, 3. DS 959) "Se alguém disser que no Novo Testamento não
há sacerdócio visível e externo, ou que não há poder algum de consagrar e
oferecer o verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor, bem como de perdoar e reter os
pecados, mas há apenas um simples ministério de pregar o Evangelho, ou que
aqueles que não pregam não são absolutamente sacerdotes seja
excomungado." (Concílio Ecumênico de Trento. Cânones sobre o Sacramento da
Ordem, Sessão XXIII, cân. 1. DS 961) "O presbítero, de fato, em virtude da
consagração que recebe pelo sacramento da Ordem, é enviado pelo Pai, através de
Jesus Cristo, ao qual como Cabeça e Pastor do seu povo é configurado de modo
especial para viver e atuar, na força do Espírito Santo, ao serviço da Igreja e
para a salvação do mundo." (Papa João Paulo II. Exortação Apostólica
Pastores Dabo Vobis, 12) Como um verdadeiro sacramento, isto é, sinal visível de uma
graça invisível, a Ordem tem um efeito sobre quem a recebe: tornar o sujeito um
outro Cristo, consagrando-o para exercer, não apenas em nome do Senhor, mas na
Pessoa mesmo dEle, o mesmo ministério na Cruz exercido. A Ordem é uma
participação do ordenando no único Sacerdócio de Cristo. Temos, pelo Batismo,
uma certa participação nesse aspecto da vida de Jesus: é o chamado sacerdócio
comum dos fiéis, pelo qual oferecemos a Deus um sacrifício espiritual pela
nossa vida de santidade. Difere-se esse sacerdócio comum do sacerdócio ordenado,
hierárquico, porque com este, o sacrifício oferecido não é apenas uma
demonstração de gratidão para com Deus, mas aquela oblação ofertada no altar do
Calvário, em que o Senhor clamou: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu
espírito." (Lc 23,46) O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio
hierárquico ordenado Todos fomos resgatados Quando aderimos à graça, correspondendo a ela pela fé e pelos
sacramentos, especialmente pelo Batismo, iniciamos o processo de justificação,
ao fim do qual, numa série de apelos de Deus e de livres respostas de nossa
parte, nos tornaremos perfeitos como Ele é perfeito. A justificação não é
apenas uma declaração forense, jurídica, de Deus de que somos considerados
justos, como sendo a graça um mero revestimento que esconderia nossa mais
íntima condição pecaminosa. Esse é o pensamento protestante. Pela graça,
tornamo-nos aptos a iniciar nossa caminhada de santificação, durante o qual
essa mesma graça nos encherá cada vez mais, de modo que sejamos justos de fato
e não somente de direito. A graça realmente transforma o coração do crente que
a ela corresponde. "Não vos conformeis com este mundo, mas
transformai-vos pela renovação do vosso espírito." (Rm 12,2) Os Padres
Gregos chamam esse aperfeiçoamento na santidade de divinização. A Teologia
medieval convencionou chamar de adoção, eis que é isso que Deus nos faz em
Cristo. "Mas um dia apareceu a bondade de Deus, nosso
Salvador, e o seu amor para com os homens. E, não por causa de obras de justiça
que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, ele
nos salvou mediante o batismo da regeneração e renovação, pelo Espírito Santo,
que nos foi concedido em profusão, por meio de Cristo, nosso Salvador, para que
a justificação obtida por sua graça nos torne, em esperança, herdeiros da vida
eterna." (Tt 3,4-7) Um dos efeitos do Batismo, conferido pela graça, vemos, é a
associação a Cristo, pois somente nEle temos como nos livrar da condenação
eterna. Não há outro caminho: ou estamos em Deus ou contra Ele. "Quem
não está comigo está contra mim;" disse Nosso Senhor, "e quem
não ajunta comigo, espalha." (Mt 12,30) A salvação não é nada mais
senão um tornar-se semelhante a Cristo, um realizar cotidiano da vontade de
Deus, "até que todos todos tenhamos chegado à unidade da fé e do
conhecimento do Filho de Deus, até atingirmos o estado de homem feito, a
estatura da maturidade de Cristo." (Ef 4,13) Cristo era Rei, Sacerdote e Profeta. Rei, pois da Casa de Davi,
conforme as profecias logo, Rei humano de Israel e, ao mesmo tempo, Deus
logo, Rei divino do universo. Sacerdote, pois se ofereceu no altar da cruz para
nossa salvação e perdão dos pecados. Profeta, pois era enviado do Pai, realizou
milagres e fez profecias. Nós, a Igreja Católica, somos chamados a ser um povo
de reis, sacerdotes e profetas. Ainda que não participemos, enquanto leigos, da função
sacerdotal por excelência de Cristo isso, só aqueles que receberam a
ordenação sacerdotal e, de uma certa maneira, ainda incompleta, a diaconal ,
recebemos, por nossa associação batismal a Nosso Senhor o sacerdócio comum dos
fiéis. Explica-nos tal doutrina o Concílio Vaticano II: "Cristo Senhor, Pontífice tomado dentro os
homens (cf. Hb 5,1-5), fez do novo povo um reino e sacerdotes para Deus Pai
(Ap 1,6; cf. 5,9-10). Pois os batizados, pela regeneração e unção do Espírito
Santo, são consagrados como casa espiritual e sacerdócio santo, para que por
todas as obras do homem cristã ofereçam sacrifícios espirituais e anunciem os
poderes dAquele que das trevas os chamou à sua admirável luz (cf. 1 Pe
2,4-10). Por isto todos os discípulos de Cristo, perseverando em oração e
louvando juntos a Deus (cf. At 2,42-47), ofereçam-se como hóstia viva, santa,
agradável a Deus (cf. Rm 12,1). Por toda parte dêem testemunho de Cristo. E aos
que o pedirem dêem as razões da sua esperança da vida eterna (cf. 1 Pe 3,15). O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio
ministerial ou hierárquico ordenam-se um ao outro, embora se diferenciem na
essência e não apenas Percebemos que o sacerdócio comum do qual todos participamos é
uma forma de oferecer-nos a nós mesmos a Deus. Unimos, pela nossa vida, em
virtude do Batismo, nosso sacrifício diário ao sacrifício de Cristo na Cruz.
"Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às
tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a
Igreja." (Cl 1,24) Deus, entretanto, não necessita de nossos
sacrifícios, nem mesmo para nos perdoar, eis que Jesus já ofereceu um único e
suficiente sacrifício para a remissão de nossas faltas diante do Altíssimo, e
esse é oferecido todos os dias, de modo diverso, e renovado Diz-nos o Vaticano II que os sacerdócio ordenado e comum dos
fiéis não se diferenciam apenas em grau, senão Entretanto, cabe a nós, batizados, leigos ou religiosos
não-sacerdotes, assumirmos os compromissos de nosso Batismo, e sermos, na
medida de nosso sacerdócio comum, ligados, em nossa forma característica, a
Cristo-Sacerdote, Nosso Rei, oferecendo nossa vida como prova de amor a Ele, em
constante oblação. Entre os não-ordenados, contam-se os religiosos e os leigos.
A esses últimos, cabe "buscar o Reino de Deus, tratando das coisas
temporais e orientando-as segundo o plano de Deus." (Concílio Ecumênico
Vaticano II. Constituição Dogmática Lumen Gentium, 31) Expressão típica do sacerdócio comum dos fiéis cristãos é
cotidiano labor em oferecimento a Deus, a vivência do estado pai, filho,
religioso, estudante, profissional e dos deveres a ele inerentes, a elevação
do pensamento ao Senhor no desempenhar das tarefas pela vida impostas, e a vida
apostólica na exata proporção dos dons e do chamado pelo Espírito Santo feito.
O mandato missionário é exemplo característico desse último aspecto do
leigo-sacerdote: "Os últimos Pontífices têm insistido bastante na
importância do papel dos leigos para a actividade missionária. Na Exortação
apostólica Christifideles laici, também eu tratei explicitamente da missão
permanente de levar o Evangelho a todos quantos e são milhões e milhões de
homens e de mulheres ainda não conhecem Cristo redentor do homem, e do
respectivo compromisso dos fiéis leigos. A missão é de todo o Povo de
Deus: se é verdade que a fundação de uma nova Igreja requer a Eucaristia, e,
por conseguinte, o ministério sacerdotal, todavia a missão, que comporta as
mais variadas formas, é tarefa de todos os fiéis. (...) Os sectores da presença
e da acção missionária dos leigos são muito amplos. O primeiro campo (...) é o
mundo vasto e complicado da política, da realidade social, da economia, no plano
local, nacional e internacional. No âmbito da Igreja, existem vários tipos de
serviços, funções, ministérios e formas de animação da vida cristã. Recordo,
como novidade surgida recentemente Pelo Batismo, todos os crentes participamos, de alguma maneira,
no sacerdócio único de Cristo Jesus, conforme ensina o Santo Padre João Paulo
II, em uma conhecida Exortação Apostólica. Nele encontramos como que uma
fórmula de melhor exercer o sacerdócio comum, que em nenhuma circunstância deve
ser confundido com o ordenado, este sim, sacerdócio intimamente ligado a Jesus
Cristo, enquanto instrumento do Espírito para tornar atuais os efeitos da
Redenção uma vez por todas operada. "Dirigindo-se aos baptizados como a crianças
recém-nascidas, o apóstolo Pedro escreve: Agarrando-vos a Ele pedra viva,
rejeitada pelos homens, mas escolhida e preciosa aos olhos de Deus, vós também,
quais pedras vivas, sois usados na construção de um edifício espiritual, por
meio de um sacerdócio santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais que
serão agradáveis a Deus, por Jesus Cristo... Vós, porém, sois a raça eleita, o
sacerdócio real, a nação santa, o povo que Deus adquiriu para anunciar as
maravilhas d'Aquele que vos chamou das trevas à Sua luz admirável ... (1 Ped
2, 4-5. 9). Eis um novo aspecto da graça e da dignidade
baptismal: os fiéis leigos participam, por sua vez, no tríplice múnus
sacerdotal, profético e real de Jesus Cristo. Trata-se de um aspecto que a
tradição viva da Igreja nunca esqueceu, como resulta, por exemplo, da
explicação que Santo Agostinho deu do Salmo 26. Escreve ele: David foi ungido
rei. Naquele tempo ungiam-se apenas o rei e o sacerdote. Nessas duas pessoas
prefigurava-se o futuro único rei e sacerdote, Cristo (daí que Cristo venha
de crisma). Não foi, porém, ungido apenas a nossa Cabeça, mas fomos ungidos
também nós, Seu corpo... Por isso, a unção diz respeito a todos os cristãos,
quando no tempo do Antigo Testamento pertencia apenas a duas pessoas. Deduz-se
claramente sermos nós o corpo de Cristo, do facto de sermos todos ungidos e de
todos sermos n'Ele cristos e Cristo, porque, de certa forma, a Cabeça e o
corpo formam o Cristo na sua integridade. Nas pisadas do Concílio Vaticano II, propus-me,
desde o início do meu serviço pastoral, exaltar a dignidade sacerdotal,
profética e real de todo o Povo de Deus, afirmando: Aquele que nasceu da
Virgem Maria, o Filho do carpinteiro como o julgavam o Filho do Deus vivo,
como confessou Pedro, veio para fazer de todos nós um reino de sacerdotes. O
Concílio Vaticano II recordou-nos o mistério deste poder e o facto de que a
missão de Cristo Sacerdote, Profeta-Mestre, Rei continua na Igreja. Todos,
todo o Povo de Deus participa nesta tríplice missão. Com esta Exortação mais uma vez convido os fiéis
leigos a reler, a meditar e a assimilar com inteligência e com amor a rica e
fecunda doutrina do Concílio sobre a sua participação no tríplice múnus de
Cristo. Eis agora em síntese os elementos essenciais dessa doutrina. Os fiéis leigos participam no múnus sacerdotal,
pelo qual Jesus se ofereceu a Si mesmo sobre a Cruz e continuamente Se oferece na
celebração da Eucaristia para glória do Pai e pela salvação da humanidade.
Incorporados A participação no múnus profético de Cristo, que,
pelo testemunho da vida e pela força da palavra, proclamou o Reino do Pai,
habilita e empenha os fiéis leigos a aceitar, na fé, o Evangelho e a anunciá-lo
com a palavra e com as obras, sem medo de denunciar corajosamente o mal. Unidos
a Cristo, o grande profeta (Lc 7, 16), e constituidos no Espírito
testemunhas de Cristo Ressuscitado, os fiéis leigos tornam-se participantes
quer do sentido de fé sobrenatural da Igreja que não pode errar no crer quer
da graça da palavra (cf. Act 2, 17-18; Ap 19,10); eles são igualmente chamados
a fazer brilhar a novidade e a força do Evangelho na sua vida quotidiana, familiar
e social, e a manifestar, com paciência e coragem, nas contradições da época
presente, a sua esperança na glória também por meio das estruturas da vida
secular. Ao pertencerem a Cristo Senhor e Rei do universo,
os fiéis leigos participam no Seu múnus real e por Ele são chamados para o
serviço do Reino de Deus e para a sua difusão na história. Vivem a realeza
cristã, sobretudo no combate espiritual para vencerem dentro de si o reino do
pecado (cf. Rom 6, 12), e depois, mediante o dom de si, para servirem, na
caridade e na justiça, o próprio Jesus presente em todos os seus irmãos,
sobretudo nos mais pequeninos (cf. Mt 25, 40). Mas os fiéis leigos são chamados de forma
particular a restituir à criação todo o seu valor originário. Ao ordenar as
coisas criadas para o verdadeiro bem do homem, com uma acção animada pela vida
da graça, os fiéis leigos participam no exercício do poder com que Jesus
Ressuscitado atrai a Si todas as coisas e as submete, com Ele mesmo, ao Pai,
por forma a que Deus seja tudo em todos (cf. 1 Cor 15, 28; Jo 12, 32). A participação dos fiéis leigos no tríplice múnus
de Cristo Sacerdote, Profeta e Rei encontra a sua raiz primeira na unção do
Batismo, o seu desenvolvimento na Confirmação e a sua perfeição e sustento
dinamico na Eucaristia. É uma participação que se oferece a cada um dos fiéis
leigos, mas enquanto formam o único corpo do Senhor. Com efeito, é a Igreja que
Jesus enriquece com os Seus dons, qual Seu Corpo e Sua Esposa. Assim, os
indivíduos participam no tríplice múnus de Cristo enquanto membros da Igreja,
como claramente ensina o apóstolo Pedro, que define os baptizados como raça
eleita, sacerdócio real, nação santa, povo que Deus adquiriu (1 Ped 2, 9).
Precisamente por derivar da comunhão eclesial, a participação dos fiéis leigos
no tríplice múnus de Cristo exige ser vivida e actuada na comunhão e para o
crescimento da mesma comunhão. Escrevia Santo Agostinho: Como chamamos a todos
cristãos em virtude do místico crisma, assim a todos chamamos sacerdotes porque
são membros do único Sacerdote." (Exortação Apostólica Christifideles
Laici, 14) Sacerdote: ícone de Cristo "Pela unção do Espírito Santo, constituístes
vosso Filho unigênito Pontífice da nova e eterna aliança. E estabelecestes que
seu único sacerdócio se perpetuasse na Igreja. Por isso, vosso Filho, Jesus
Cristo, enriqueceu a Igreja com um sacerdócio real. E, com bondade fraterna,
escolhe homens que, pela imposição das mãos, participem do seu ministério
sagrado. Em nome de Cristo, estes renovam para nós o banquete da Páscoa.
Presidindo o povo na caridade, eles o alimentam com vossa palavra e o restauram
com vossos sacramentos. Dando a vida por vós e pela salvação de todos, procuram
assemelhar-se cada vez mais ao próprio Cristo, testemunhando, constantes, a
fidelidade e o amor para convosco." (Missal Romano; Prefácio da Missa do
Crisma) Durante a Grande Entrada, a Divina Liturgia de São João
Crisóstomo, utilizada no rito bizantino, coloca na boca do sacerdote, a oração
a Cristo: "Ó vós que sois quem oferta e quem é oferecido!"
Jesus na Cruz se oferece é sacerdote e é oferecido é vítima. Por escolher
homens para o sagrado ministério sacerdotal, torna-os participantes dessa
oferta eterna que é perpetuada na Santa Missa. O Pai enviou Cristo, e Ele envia os sacerdotes. Há uma relação
entre esses dois envios. Da mesma forma, iremos relacionar dois simbolismos. Cristo é a
imagem do Pai, e os sacerdotes a imagem do Cristo. "Ele é a imagem do
Deus invisível." (Cl 1,15) Por fazerem, na Missa, o mesmo que Nosso
Senhor fez na Cruz, sendo, naquele momento preciso, o próprio Jesus
oferecendo-se ao Pai, podemos dizer que os padres são a imagem do Redentor,
verdadeiros ícones do Salvador do mundo. Quando olhamos para o padre celebrando
a Missa, é Cristo que vemos. De mãos levantadas, oferecendo a hóstia e o vinho
consagrados ao Pai, é o Senhor Jesus que se oferece como na Cruz,
utilizando-se, dessa vez, dos membros dos sacerdotes da Sua Católica Igreja.
Como ícones de Cristo, os sacerdotes refletem o próprio Jesus, como no dizer de
São Basílio Magno: "A honra manifestado ao ícone se refere a quem ele
significa." (Sobre o Espírito Santo, 18:45; PG 32:149C) Diz a Tradição da Igreja que o sacerdote é um vicarius
Christi, um substituto de Cristo, de onde vem o termo "vigário",
continuamente utilizado no Direito Canônico e no linguajar comum dos fiéis. "São
o Pai, o Filho e o Espírito Santo quem fazem tudo, mas o sacerdote
empresta-Lhes sua língua e fornece a Eles suas mãos." (São João
Crisóstomo. Homilia 77 sobre João 4; PG 59:472) Cristo é sacramento, sinal
do Pai, e dessa forma, como Ele envia Seus sacerdotes, Seus padres, mediante o
sacramento da Ordem, os incorpora a Si como o Pai e o Filho são um! , e os
faz Seus sacramentos, Seus sinais. Se Jesus é o único Sacerdote, pela Ordem os
padres são os Seus sacerdotes, participantes do Sacerdócio excelso, e só o são
porque fazem as vezes de Cristo na terra, são Seus substitutos. "Cristo a quem o Pai santificou e enviou ao
mundo (Jo 10,36), fez participar os bispos da sua consagração e da sua missão,
através dos apóstolos, aos quais eles sucedem; e os bispos confiaram
legitimamente o cargo do seu ministério, em grau diverso, a pessoas diversas na
Igreja. Assim, o ministério eclesiástico, de instituição divina, é exercido em
ordens diversas por aqueles que já antigamente eram chamados bispos,
presbíteros e diáconos. Ainda que não tenham sido elevados ao pontificado e
dependam dos bispos no exercício dos seus poderes, os presbíteros estão-lhes
unidos na dignidade sacerdotal comum e, pelo sacramento da ordem, ficam
consagrados para pregar o Evangelho, apascentar os fiéis e celebrar o culto
divino, coma verdadeiras sacerdotes do Novo Testamento, à imagem de Cristo,
sumo e eterno Sacerdote (Hb 5,1-10; 7, 24; 9,11-28). Participando, no grau próprio
do seu ministério, da função de Crista, Mediador único (lTm 2,6), anunciam a
todos a palavra de Deus. Exercem o seu ministério sagrado principalmente na
celebração da eucaristia; nela, agindo na pessoa de Cristo e proclamando o seu
mistério, juntam as orações dos fiéis ao sacrifício de Cristo, sua cabeça;
renovam e aplicam no sacrifício da missa, até à vinda do Senhor (cf. 1Cor
11,26) o único sacrifício do Novo Testamento, no qual Cristo, uma vez por
todas, se ofereceu ao Pai como hóstia imaculada (cf. Hb 9,11-28). E muito
especialmente exercem o ministério da reconciliação e do alívio, em favor dos
arrependidos e dos doentes, e apresentam a Deus-Pai as necessidades e as
orações dos fiéis (cf. Hb 5,1-4). Desempenhando, na medida da sua autoridade, a
função de Cristo, pastor e cabeça, congregam a família de Deus em fraternidade
a tender para a unidade, e conduzem-na por Cristo e no Espírito, até Deus-Pai.
No meio da própria grei, adoram-no em espírito e verdade (cf. Jo 4,24).
Finalmente, trabalham na pregação e no ensino (cf. lTm 5,17), acreditando no
que lerem quando meditarem na lei do Senhor; ensinando o que crerem e pondo em
prática aquilo que ensinarem." (Concílio Ecumênico Vaticano II.
Constituição Dogmática Lumen Gentium, 28) Em verdade, à luz principalmente dos Padres Gregos, considera a
Igreja o sacerdote mais do que um substituto, senão também um ícone de Cristo.
É verdade que o padre faz as vezes de Jesus e O substitui, agindo in persona
Christi na administração dos sacramentos, mas também O reflete. Quando
age por Cristo Sacerdote único, o sacerdote católico unido a Ele de onde tira
seu próprio sacerdócio , está querendo apontar, ser um sinal para o Senhor e
Rei Jesus. "Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, é Ele mesmo o
Sumo-sacerdote de Deus Pai", diz São Cipriano de Cartago; "Ele
se oferece a Si mesmo como um sacrifício ao Pai, e ordena que isto o façamos Entendendo a questão do sacerdote católico como um ícone do
Sacerdote Jesus Cristo, não devemos cair no erro de, ao interpretar a máxima de
que o presbítero é um alter Christus, confundirmos as pessoas humanas
que recebem o sacramento da Ordem com a Pessoa Divina do Salvador, e com Suas
duas naturezas, humana e divina. O ícone não é a pessoa representada por ele,
apenas uma imagem. Quando o sacerdote age in persona Christi, é Cristo
quem age e o padre se torna um alter Christus não por sua vontade,
dignidade e santidade próprias, senão pela graça; tampouco a pessoa do
sacerdote funde-se na de Cristo como se fossem uma só... Não! A participação do
padre no Sacerdócio de Nosso Senhor é de ordem sacramental, não natural. E
sacramento é aquilo que significa uma realidade invísvel: a graça. Atentemos
para o que nos ensina São Teodoro Estudita, teólogo oriental do século IX: "Estando
entre Deus e os homens, o sacerdote, em suas invocações sacerdotais, é uma
imitação de Cristo. Pois o Apóstolo diz: Há um só Deus, e um único mediador
entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus. Então, o sacerdote é um ícone de
Cristo." (Sete Capítulos contra os Iconoclastas, 4; PG 99:493C) Em sua resposta na famosa revista "Pergunte e
Responderemos", o monge Dom Estêvão Bettencourt, OSB, esclarece, após
diferenciar o sacerdócio comum dos fiéis daquele sacerdócio hierárquico dos
ordenados, que o padre só é ícone de Jesus Cristo por causa da vontade dEste!
Todos devem ser um outro Cristo, é verdade, mas compete ao padre obedecer a
Cristo nessa união mais íntima com Ele, de outra natureza, conferida pelo
sacramento da Ordem. "Essa comunhão faz que o padre participe do
sacerdócio de Cristo e se torne a mão estendida de Cristo para a salvação do
mundo. Foi o próprio Jesus quem o quis, ao dizer aos Apóstolos após a
consagração do pão e do vinho na última ceia: Fazei isto em memória de mim
(Lc 22,19); Jesus mandou converter o pão em seu corpo e o vinho em seu sangue.
Em Jo 6,53-56 o Senhor fez do sacramento do seu Corpo e Sangue condição para
que os fiéis tenham a vida." (Dom Estêvão Bettencourt, OSB. Há um outro
Cristo?, in Pergunte e Responderemos, 427) O sacerdote, por disposição do
próprio Cristo, é um instrumento de Deus para que os atos de Nosso Senhor (o
sacrifício na Cruz e o perdão dos pecados) se perpetuem. É nesse sentido que o
padre é um alter Christus. Só o é, aliás, para significar, simbolizar e apontar para o
Cristo mesmo. A função do ícone, ensinam os autores espirituais, é tornar
presente a realidade espiritual que ele evoca. Portanto, quando atua, o ícone é
um sinal do simbolizado. Se o presbítero só é sacerdote porque, participando do
único Sacerdócio de Nosso Redentor, atua in Persona Christi e age como alter
Christus, é porque deve, com tais ações, evocar a realidade que ele
significa enquanto ícone do Senhor. No entendimento do II Concílio Ecumênico de Nicéia, em 787, em
que foi reconhecida como autêntica, católica e ortodoxa a veneração dos ícones,
da qual foi incansável apóstolo São João Damasceno, a função da imagem é
despertar em quem a contempla um amor pelo que ela representa. Assim, ao vermos
uma imagem da Santíssima Virgem, é natural pensarmos Isso se dá, antes de tudo, porque reconhecemos uma imagem da
Virgem. É impossível que vejamos um quadro de São Pedro, por exemplo, e o
associemos ao de Maria! O símile procede quando damos ao sacerdote, qual ícone de
Cristo, um caráter todo próprio. Para melhor apontar para aquele que o ícone
representa, a semelhança deve ser visível. Ora, Cristo, enquanto Deus, não tem
sexo, pois é puro espírito. Ao se encarnar, porém, entrou num tempo, numa
cultura e numa região determinadas. Assumiu uma família, um ofício, um tipo
físico e biológico. Há 2000 anos, num povo semita, que vivia na Palestina,
dentro de uma família descendente de Davi e que morava em Nazaré da Galiléia,
trabalhando como carpinteiro em auxílio a São José, Seu pai adotivo, tendo os
traços e caracteres hebraicos, e, além de tudo isso, sendo do sexo masculino. Como ícone de Nosso Senhor Jesus Cristo, homem, o sacerdote
deve também ser homem, para melhor representar quem ele significa e para quem
aponta em seus atos sacramentais in Persona Christi. Ao olhar para o
padre, devemos ver Cristo, como quem olha para um ícone ou para uma imagem da
Virgem, os associa a ela. É imprescindível preservar a correspondência
simbólica que há entre Jesus, Sacerdote e Deus encarnado no sexo masculino, com
o sacerdote revestido da Ordem, ele mesmo também um homem, sob pena de
esvaziarmos não só o ícone como toda a concepção católica de sacerdócio. Quem
recebe o sacramento da Ordem, pelo qual alguém se incorpora de um modo mais
íntimo no Sumo-sacerdócio de Jesus Cristo, é um homem e não uma mulher; e isto
pelo fato de que, Cristo é um homem e não uma mulher. O ícone deve ser um
homem, pois Aquele que simboliza e para o qual aponta é também um homem, não
uma mulher. Pelo que vimos parágrafos acima, homens e mulheres são diferentes
em seus acidentes, e isso se dá justamente porque detém cada qual sua
identidade própria. As diferenças entre homens e mulheres se dão não só no
plano físico e sexual, mas também no psicológico e no espiritual. Apesar de
Cristo ter vindo salvar a todos, mulheres e homens, Ele se encarnou como homem,
como masculino, e isso revela a diferença dos chamados de Deus. Homem algum,
nem mesmo padre, poderia desempenhar o papel único que deteve uma mulher na
História de nossa Redenção: a Santíssima Virgem Maria. Às mulheres cabe a
execução de uma função toda própria, que nunca deve ser subtraída pelos homens.
No mesmo raciocínio, aos homens Deus destinou um ministério singular, de
representar Cristo e Ele se associar pelo sacramento da Ordem. Não por um sacramento, mas por uma graça conferida de maneira
ordinária (graças de estado) ou carismática (poder para o exercício de um
ministério profético, v.g.), as mulheres são vocacionadas por Deus para sua
tarefa única na Igreja e na humanidade. É o que veremos no capítulo seguinte. Ministérios exercidos por santas mulheres ao longo
da história Imitando Nossa Senhora, muitas santas mulheres, ao longo da
vida da Igreja quiseram fazer de suas vidas um ato perfeito de amor ao Senhor
Jesus. Dessa forma, já no ministério de Cristo, algumas O acompanhavam em sua
vida pública. Santa Maria Madelena, Santas Marta e Maria, Santa Maria de
Cléofas e outras tantas mulheres dedicaram-se a propagar os ensinamentos de
Cristo. Já no tempo de São Paulo, há uma recomendação sobre uma
diaconisa, Santa Febe que não se deve confundir com a ordem dos diáconos, e
sim entender como um ministério leigo exercido por piedosas mulheres. "Recomendo-vos
a nossa irmã Febe, que é diaconisa da igreja de Cêncris, para que a recebais no
Senhor, dum modo digno dos santos, e a ajudeis em qualquer coisa que vós venha
a precisar; porque ela tem ajudado a muitos e a mim também." (Rm 15,1-2)
Outras são as mulheres de destaque no Novo Testamento, que, desde os tempos
apostólicos, desempenharem papéis importantíssimos e exclusivos. "Saudai
aos irmãos de Laodicéia, como também a Ninfas e a igreja que está em sua
casa." (Cl 4,15) O Apóstolo segue nomeando seus colaboradores, dentre
os quais vemos muitas mulheres: "Saudai Prisca e Áquila, meus
cooperadores Por causa do amor de Cristo, e por também participarem da Igreja
Católica por Ele fundada sobre os Apóstolos, mulheres e moças se consagraram a
Deus e disso nasceu a espiritualidade que encontramos, um pouco mais tarde, das
bodas com Jesus. As religiosas, aquelas que fizeram votos de pobreza, castidade
e obediência, são esposas de Cristo, num sentido místico. É uma vocação toda
própria, e assim como só a um homem é dado o chamado de ser um ícone de Cristo,
só a uma mulher o Mestre presenteia com a possibilidade de ser Sua esposa. Tão logo Santo Antão se refugia no deserto do Egito, lançando
os fundamentos da vida monástica, santas mulheres seguem seu exemplo,
dedicando-se a Deus como eremitas ou unindo-se às nascentes formas cenobíticas.
Assim, Santa Maria Egipcíaca é modelo de penitente, daquela que abandona tudo
para seguir de maneira mais excelente o Cristo por quem se apaixonou. Com os
chamados Padres do Deserto, escritores espirituais que são tidos como
essenciais para a mística cristã, encontram-se também Mães do Deserto, Mães
Espirituais, como Santa Teodora, Santa Sarah e Santa Sinclética. Começa, aos poucos, a desenvolver-se a espiritualidade do
matrimônio místico com Nosso Senhor, e a religiosa, a virgem, a consagrada,
torna-se a noiva de Jesus Cristo. Durante a Idade Média, muitas serão as ordens
que reservarão um espaço para um ramo feminino. De São Francisco de Assis,
brota, sob a direção de Santa Clara, a Ordem das Clarissas. São Domingos,
fundador dos Pregadores, organiza o ramo feminino das dominicanas. A Ordem do
Carmo, cujas origens remontam ao profeta Santo Elias, terá também sua parcela
de mulheres, com monjas enclausuradas. Usando a Regra de Santo Agostinho -
santo aliás influenciado grandamente por sua mãe, Santa Mônica -, muitas
freiras se incorporam em uma ordem religiosa, fazendo solene profissão como
agostinianas, em suas variadas formas: calçadas, descalças, recolectas,
observantes. Ordens exclusivamente femininas também são fundadas e aprovadas,
como a Ordem da Visitação, de Santa Joana de Chantal, e a Ordem de Santa
Úrsula. Numerosos são os exemplos de mulheres que quiseram ser esposas
de Cristo, verdadeiros símbolos da Igreja - eis que esta é, biblicamente, a
esposa do Cordeiro. Virgens e viúvas, se consagraram a Deus, assumindo a vida
religiosa: Santa Teresinha do Menino Jesus, Santa Teresa de Ávila, Santa Clara
de Assis, Santa Isabel da Hungria, Santa Rita de Cássia, Santa Rosa de Lima,
Santa Mariana de Jesus, Santa Teresa Benedita da Cruz (judia convertida,
nascida com o nome de Edith Stein), Santa Joana de Chantal, Santa Edwiges,
Santa Ângela de Mérici, Santa Escolástica, Santa Francisca Romana, Santa Maria
Madalena de Pazzi, Santa Brígida, Santa Gertrudes, Santa Margarida Maria
Alacoque, Santa Xênia, Santa Catarina de Bolonha, Santa Catarina de Ricci,
Santa Rafaela Maria do Coração de Jesus, Santa Teresa dos Andes, Santa Paula de
Toscana, Santa Paula Frasinetti, Santa Bernadete Soubirous, Santa Paula Montal,
Santa Luísa de Marillac, Santa Catarina da Suécia. Outras, ainda que não
abraçando uma regra, foram verdadeiras apóstolas, provando que todos, homens e
mulheres, são chamados a exercerem liderança na Igreja Católica, e têm o dever
de evangelizar: Santa Clotilde, rainha dos francos e esposa de Clóvis,
evangelizadora da França, chamada "Primogênita da Igreja"; Santa
Margarida, rainha da Escócia; Santa Isabel, rainha de Portugal; Santa Olga,
rainha dos ucranianos, e esposa de São Vladimir; Santa Macrina, irmã e
catequista dos grandes São Basílio e São Gregório de Nissa; Santa Emélia, a mãe
desses santos; Santa Nona, mãe de São Gregório de Nazianzo; Santa Melania,
religiosa e diaconisa; Santa Teosébia, esposa do bispo São Gregório de Nissa,
que recebeu o ministério como diaconisa; Santa Gorgônia, igualmente uma
diaconisa e irmã do Nazianzeno; Santa Olímpia, amiga de São João Crisóstomo,
que a fez diaconisa; Santa Apolônia, diaconisa Entre as miríades de santas canonizadas, achamos inclusive
algumas agraciadas com o título - dado a poucos! - de "Doutora da
Igreja": Santa Teresa de Ávila, Santa Teresinha do Menino de Jesus, e
Santa Catarina de Sena. Muitíssimas, incluindo as mencionadas nos parágrafos
acima, receberam a graça de serem fundadoras e reformadoras de variadas ordens
e congregações religiosas. Não podemos nos esquecer das profetizas levantadas
por Deus para entregar ao mundo Sua mensagem: Santa Hildegarda, uma das maiores
santas da Alemanha; Santa Ângela de Foligno, viúva terceirista de São Francisco
e mística italiana; Santa Jacinta Mariscotti, religiosa franciscana que, após
sua conversão, buscou altos níveis de ascese espiritual; Santa Rosa de Viterbo,
pregadora que, com apenas doze anos, levantava a voz publicamente para que
todos fizessem penitência e renunciassem às heresias; Santa Matilde, grande
operadora de milagres e profetiza, de quem descendem a dinastia capetíngia da
França, e as famílias reais de Portugal e Brasil. Outro carisma tipicamente feminino é a educação cristã da
prole. Se bem que ambos os pais estejam chamados a educar os filhos da
verdadeira religião, é a mãe que, por seu convívio maior com a casa, e pelo
vínculo espiritual e natural que brota da maternidade, é a primeira e mais
perfeita apóstola do lar. Santa Valdetrudes e Santa Mônica são os exemplos
máximos da encarnação perfeita desse carisma. "Na história da Igreja, desde os primeiros
tempos existiam . ao lado dos homens . numerosas mulheres, para as quais a
resposta da Esposa ao amor redentor do Esposo adquiria plena força expressiva.
Como primeiras, vemos aquelas mulheres que pessoalmente tinham encontrado
Cristo, tinham-no seguido e, depois da sua partida, juntamente com os
apóstolos, 'eram assíduas na oração' no cenáculo de Jerusalém até ao dia do
Pentecostes. Naquele dia, o Espírito Santo falou por meio de « filhos e filhas
» do Povo de Deus, cumprindo o anúncio do profeta Joel (cf. At 2, 17). Aquelas
mulheres, e a seguir outras mais, tiveram parte ativa e importante na vida da
Igreja primitiva, na edificação desde os fundamentos da primeira comunidade
cristã . e das comunidades que se seguiram . mediante os próprios carismas e o
seu multiforme serviço. Os escritos apostólicos anotam os seus nomes, como
Febe, 'diaconisa da Igreja de Cêncreas' (cf. Rom 16, 1), Prisca com o marido
Áquila (cf. 2 Tim 4, 19), Evódia e Síntique (Flp 4, 2), Maria, Trifena,
Perside, Trifosa (Rom 16, 6. 12). O apóstolo fala de suas 'fadigas' por Cristo,
e estas indicam os vários campos de serviço apostólico da Igreja, a começar
pela « igreja doméstica ». Nesta, de fato, a « fé sincera » passa da mãe aos
filhos e netos, como realmente se verificou na casa de Timóteo (cf. 2 Tim 1,
5). O mesmo se repete no decorrer dos séculos, de
geração em geração, como demonstra a história da Igreja. A Igreja, com efeito,
defendendo a dignidade da mulher e a sua vocação, expressou honra e gratidão
por aquelas que . fiéis ao Evangelho . em todo o tempo participaram na missão
apostólica de todo o Povo de Deus. Trata-se de santas mártires, de virgens, de
mães de família, que corajosamente deram testemunho da sua fé e, educando os
próprios filhos no espírito do Evangelho, transmitiram a mesma fé e a tradição
da Igreja. Em cada época e em cada país encontramos numerosas
mulheres 'perfeitas' (cf. Prov 31, 10), que não obstante perseguições,
dificuldades e discriminações . participaram na missão da Igreja. Basta
mencionar aqui Mônica, mãe de Agostinho, Macrina, Olga de Kiev, Matilde de
Toscana, Edviges da Silésia e Edviges de Cracóvia, Elisabeth de Turíngia,
Brígida da Suécia, Joana d'Arc, Rosa de Lima, Elisabeth Seaton e Mary Ward. O testemunho e as obras de mulheres cristãs tiveram
um influxo significativo na vida da Igreja, como também na da sociedade. Mesmo
diante de graves discriminações sociais, as mulheres santas agiram de « modo
livre », fortalecidas pela sua união com Cristo. Semelhante união e liberdade
enraizadas em Deus explicam, por exemplo, a grande obra de Santa Catarina de
Sena na vida da Igreja e de Santa Teresa de Jesus na vida monástica. Também em nossos dias a Igreja não cessa de
enriquecer-se com o testemunho das numerosas mulheres que realizam a sua
vocação à santidade. As mulheres santas são uma personificação do ideal
feminino, mas são também um modelo para todos os cristãos, um modelo de
'sequela Christi', um exemplo de como a Esposa deve responder com amor ao amor
do Esposo." (Papa João Paulo II. Carta Apostólica Mulieris Dignitatem, 27) De posse de todos esses nomes de santas, que representam uma
ínfima parcela de toda uma gama de mulheres que dedicaram suas vidas a Deus e à
Igreja, podemos formular algumas conclusões. A primeira delas é que todos, homens e mulheres, são chamados a
ser santos na Igreja Católica. Além disso, são também vocacionados a exercerem
posições de liderança e não raro de verdadeiros profetas, não importando o
sexo. A instrução religiosa, o apostolado, a fundação de ordens e congregações,
o testemunho evangelizador, o martírio, são graças que Deus concede tanto aos
homens como também às mulheres. Não há dúvida de que, nesses aspectos, a
igualdade essencial e a chamada comum à santidade são preservados. Entretanto, não há como negar que, embora a lista de santas
seja enorme, nunca se verificou uma sacerdotisa cristã. Aliás, nem for a das
listas hagiográficas as teríamos encontrado, eis que a História Eclesiástica
testemunha que não houve nunca uma mulher que tivesse recebido o sacramento da
Ordem. Se alguns notam um aparente desequilíbrio entre os homens, que
poderiam receber todos os carismas, e as mulheres que não poderiam receber a
ordenação, oferecemos a seguinte explicação. Deus é soberano, e pode, conforme Sua vontade, estabelecer as
coisas do jeito que quiser, não obstante as feministas esbravejem e gritem que
isso é contra os direitos humanos. Se quisesse o Senhor, esse desequilíbrio
poderia haver e seria justo, pois decorreria da vontade divina. Mesmo assim, nem esse pretenso desequilíbrio existe. Se há um
carisma específico ao qual as mulheres não podem ascender - a ordenação
sacramental -, também existe um que, por sua natureza, não podem receber os
homens: o matrimônio espiritual com Cristo. É correto que existem também homens
religiosos, membros de ordens que não são sacerdotes - portanto não são ícones
de Cristo. Esses homens estão na mesma condição das freiras e monjas, das
religiosas que professam nas ordens e congregações existentes e aprovadas pela
Igreja. Contudo, um aspecto da espiritualidade das religiosas não é comum aos
religiosos homens. Enquanto ambos se caracterizam por um desprendimento radical
dos bens, fazendo votos de pobreza, castidade e obediência, e prometendo
observar determinada regra de vida, imitando algumas peculiaridades da
perfeição de Nosso Senhor, só às mulheres é dada a possibilidade de,
misticamente, se associarem a Cristo como a um Divino Esposo. A consagração das
virgens, tal como prevista nas rubricas do Pontifical Romano, quer parecer um
místico casamento, um sagrado esponsal, entre a noiva, a religiosa, e o Noivo,
Jesus Cristo, Nosso Rei e Salvador, que para ela se torna também o Esposo. O
homem, pelo sacramento da Ordem, se torna o ícone de Cristo. A mulher, pela
profissão religiosa, se torna Sua esposa. O testemunho da Escritura Os inimigos da justa disposição anti-igualitária de Deus, e até
mesmo alguns sinceros defensores da ordenação feminina que não pretendem travar
combate contra a Igreja, levantam a hipótese de Cristo, nas Escrituras, não ter
chamado mulheres para o apostolado e desse ministério é que descende a ordem
dos Bispos, dos presbíteros e dos diáconos, bem o sabemos , por respeitar as
convenções da época. Mal respondemos ao primeiro ataque, "Jesus não chamou
mulher alguma para estar com Ele como apóstola", e já rebatem com tal
argumento: Nosso Senhor teria sido submisso a uma tradição social, para não
chocar a cultura machista da época. Analisemos a proposição com honestidade. Em primeiro lugar, Jesus Cristo ainda que completa e
perfeitamente humano, é também divino. "Deus de Deus, luz da luz, Deus
verdadeiro de Deus verdadeiro", reza o Credo. Sendo Deus, Cristo era
perfeito, era a verdade. Claro, encarnou-se num dado tempo histórico, como bem
afirmamos acima, mas sem abdicar de sua natureza divina aliás, algo
impossível: como Deus deixaria de ser Deus? Precisamos atentar para o fato de que Jesus não era um mero
pregador religioso, ou um simples profeta poderoso, ou um reformador moral, um
mestre espiritual. Mais do que isso, Jesus de Nazaré era o próprio Deus feito
homem! "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o
Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele,
e sem ele nada foi feito. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e
vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça
e de verdade." (Jo 1,1-3.14) Ele veio ensinar a verdade, mesmo às custas de pactos sociais e
normas culturais. A verdade não pode se submeter aos padrões de cada época.
Havendo confronto entre o ensino de Cristo e a crença geral dos povos, é o
primeiro quem deve prevalecer. O fato de os judeus não tolerarem uma mulher
como sacerdotisa não influenciaria em Cristo, para que Ele deixasse de
ordená-las, se assim o desejasse. Por último, muitas provas por Ele mesmo foram dadas, quebrando
os padrões daqueles tempos. Contrariando a prática dos fariseus, proclamou-se "Senhor
do sábado"; comeu com pecadores públicos e mesmo com publicanos os
temidos coletores de impostos, tão desprezados pela sociedade quanto as
mulheres ; conversou com várias mulheres, inclusive com uma samaritana,
pertencente a um povo inimigo dos judeus mais uma evidência de que Jesus não
estava preso às convenções sociais e culturais. Cristo "em geral,
ignorou muitas regras normalmente observadas por um mestre judeu da época em
seu tratamento com o sexo feminino." (WARE, Bishop Kallitos. "Man, Woman
and the Priesthood of Christ"; in "Woman and the Priesthood",
edited by Thomas Hopko, St. Vladimir's Seminary Press, Crestwood, 1983, p. 16;
tradução livre) Em algumas passagens, é comum Nosso Senhor iniciar: "Ouvistes
o que foi dito aos antigos..." (Mt 5,21), logo em seguida
acrescentando: "Mas eu vos digo..." (v.22), e daí partindo
para um ensinamento que rompe com os costumes. "Cristo não era um pacifista conformista. É
evidente que Jesus Cristo quebrou muitas das convenções daquela época. Ele
purificou o templo da comercialização profana e revogou a conveniente prática
do divórcio, ( o que pode ser visto como regra n.1 do manual: 'Como se tornar
impopular'). Ele falava com samaritanos e mulheres ignorando o costume legal
dos fariseus. Portanto, Cristo sendo Deus, não se conformou ao tempo, mas
ordenou que o Seu tempo (como todas as eras) se conformasse a Ele. "
(VENNARI, Jonh. "Um Breve Catecismo sobre o Sacerdócio Feminino"; in
"Catholic Family News", fev. 2001, trad. por Gercione Lima) Por tudo isso, se Jesus quisesse realmente chamar mulheres para
o grupo dos apóstolos, e por isso, reconhecer que era da vontade divina a
ordenação sacramental feminina, Ele o teria feito. As convenções judaicas
contemporâneas de Jesus não foram respeitadas quando eram meros pretextos
humanos. Somente esse "machismo" seria? Das que não eram humanas, mas
derivavam do direito divino, então, nem falaremos, pois que em Deus não há nem
sombra de mudança ato puro, n'Ele não pode haver potência (que falta faz o estudo
de Santo Tomás nesses tempos conturbados pelos quais passamos!). "E o fato de que Ele não as escolheu como
apóstolas deve restar decisivo para nós hoje. Seremos nós a afirmar que o Verbo
e a Sabedoria de Deus encarnados estiveram enganados, e que nós, no fim do
século XX, iremos entender a verdade melhor do que Ele?" (WARE, Bishop
Kallistos. idem) Outro argumento constantemente utilizado pelos que consideram
arcaica essa doutrina contrária à ordenação de mulheres ao ministério, reside A Igreja Católica é "a Igreja de Deus vivo, coluna e
sustentáculo da verdade" (1 Tm 3,15) Não é uma agremiação religiosa
apenas, ou um "clube dos seguidores de Jesus". Mais do que uma
associação humana passível de falhas, a Igreja Católica é o próprio Corpo de
Cristo, a Esposa do Cordeiro, é o Templo do Espírito Santo, o Povo Eleito de
Deus Pai. "A santidade entitativa é própria à Igreja sob vários
prismas: enquanto a Igreja é o Corpo Místico de Cristo, é a Esposa de Cristo, é
santa em razão de seu Autor, em razão do Espírito Santo, que é sua quase-alma,
em razão de sua doutrina e suas leis, em razão do ministério sagrado, dos
sacramentos, máxime da Eucaristia, em razão do caráter sacramental de seus
membros. Esta santidade é a propriedade essencial da Igreja" (LERCHER, Pe.
Ludovico, S.J. "Institutiones Theologiae Dogmaticae, Vol.
I", editado por Feliciano Rauck, Innsbruck, 1927, p. 453) Muitos dos
seus membros podem errar, mas tais erros não são atribuídos à Igreja, pois ela
é santa, e não pecadora. Deve ela, isso sim, guiar seus filhos pelas sendas da
verdade, pois para isso foi constituída por Jesus Cristo, Nosso Senhor e
Redentor. Foi a Pedro, o primeiro Papa, que o Mestre prometeu: "Tu és
Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não
prevalecerão contra ela." (Mt 16,18) O erro, pois, não pode prevalecer
sobre a Igreja; o erro não faz parte da constituição da Igreja. Os erros não
podem ser computados "à constituição jurídica da Igreja, mas àquela
lamentável inclinação do homem para o mal, que seu divino fundador às vezes
permite até nos membros mais altos do seu Corpo Místico, para provar a virtude
das ovelhas e dos Pastores" (Papa Pio XII. Encíclica Mystici Corporis, 67)
Não pode ela errar. Como continuadora de Cristo e de Sua divina
missão, o que Ele fez, deve a Igreja fazer. Chamou Jesus mulheres para o
apostolado? Tampouco será Sua Igreja a inventar tal absurdo! Foi Jesus quem
vocacionou cada apóstolo: "Não fostes vós que me escolhestes, mas eu
vos escolhi..." (Jo 15,16) Poderia ter escolhido mulheres, e não o
fez. Prova de que não era de Sua vontade e se não era antes, não é agora
tampouco, pois Deus não muda nem se arrepende do que faz, é eterno, perfeito,
imutável e infinito. Respeito aos padrões sociais vigentes? Vimos que Ele
quebrou todos eles. Não seria um apenas, e que tanto debate vem rendendo, que
seria sacralizado sem motivo por Jesus. Mais coisas nos mostram a análise atenta do dado bíblico. Desde
quando iniciou a Revelação, Deus tem constituído sacerdotes para oferecem um
culto de preparação para o sacrifício verdadeiro de Cristo no Calvário, e,
depois, para continuarem a obra redentora da Cruz. Ambas as classes de
sacerdotes, do Antigo e do Novo Testamento, respectivamente, foram constituídas
exclusivamente por homens! A Sagrada Escritura nos informa apenas de homens
celebrando o sacrifício, realizando o papel de sacerdotes: Abel (cf. Gn 4,4),
Noé (cf. 8,15-22), Melquisedeque (cf. 14,17-24), Abraão (cf. 22,1-14). Depois,
em Aarão, Deus estabeleceu uma casta de sacerdotes e a Lei mosaica determinava
auxiliares, todos da tribo da Levi, e todos do sexo masculino. Nem no Novo Testamento, a dispensação em que estamos vivendo,
foi autorizado por Deus serem as ordens conferidas às mulheres. Desde os tempos
apostólicos, isso foi proibido: "Como em todas as igrejas dos santos,
as mulheres estejam caladas nas assembléias: não lhes é permitido falar, mas
devem estar submissas, como também ordena a lei. Se querem aprender alguma
coisa, perguntem-na em casa aos seus maridos, porque é inconveniente para uma
mulher falar na assembléia." (1 Co 14,34-35) "Não permito à mulher
que ensine nem que se arrogue autoridade sobre o homem, mas permaneça em
silêncio." (1 Tm 2,12) É bem certo que o mesmo São Paulo que acima proíbe a direção da
Santa Missa e das atividades litúrgicas oficiais às pessoas do sexo feminino,
numa outra ocasião diz expressamente: "Já não há judeu nem grego, nem
escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um A Bíblia não oferece suporte para a doutrina que pretende
dizer-se correta ao defender o sacramento da Ordem para as mulheres. O testemunho da Tradição Nunca os Padres da Igreja se defrontaram com o debate sobre tal
tema de modo tão acirrado. Pertence aos nossos tempos igualitários o clamor
pela total subversão da ordem, inclusive quanto às diferenças sexuais. Nesse pensamento, não encontraremos textos diretos dos antigos
e ortodoxos escritores eclesiásticos condenando explicitamente a ordenação
feminina. Era um problema que pouco se apresentava. O que temos de base tradicional é, então, o ensino unânime da
patrística acerca da teologia do sacerdócio, na qual a Igreja se baseia para
afirmar que não ser possível uma mulher agir como perfeito ícone de Cristo,
Sumo-sacerdote. Muitos de tais textos citamos no decorrer deste despretensioso ensaio.
Alguns outros iremos transcrever abaixo: "O Bispo preside como a imagem de Deus"
(Santo Inácio de Antioquia. Ad Magnesiam, 6,1) "O sacerdote deve ser um imitador de seu
Bispo, e ele, por seu turno, um imitador de Cristo, o Sumo-sacerdote."
(Antíoco, o Monge. Homilia 123, PG 89:1817C) "A honra manifestada ao ícone é devida ao que
protótipo." (São Basílio Magno. Sobre o Espírito Santo, 18:45, PG 32:149C) Ícone é o padre, e
protótipo é Cristo, a quem a imagem representa. Sabido é também que Santo Irineu de Lião e mesmo Tertuliano
antes de bandear-se para a heresia montanista combateram certas seitas que
pretendiam por ortodoxa a ordenação de mulheres. Em nenhum escrito ou outra fonte da Tradição iremos encontrar
base para a ordenação feminina. Nenhum Padre, nenhum livro notadamente
ortodoxo, nenhum Concílio, nenhum Papa, nenhum Santo, nenhum ensinamento,
confere o suporte necessário para crermos que tal doutrina pertence ao depósito
da Fé Católica. Aliás, não há suporte nem mesmo insuficiente: simplesmente ele
inexiste! Ainda que, numa desesperada tentativa de se apelar para a
Tradição, aleguem os defensores de tão pérfida heresia a existência, na
Antigüidade, das chamadas "diaconisas", poderemos responder que o
termo é verdadeiro mas o significado bem diverso do que se imagina. E a Igreja
entendeu por bem eliminá-lo para não dar margem à confusão. As diaconisas foram
mulheres santas, piedosas, instituídas diríamos hoje e não ordenadas
sacramentalmente , para um ministério da Igreja que nada tem a ver com o
sacramento da Ordem. O rito de instituição das diaconisas largamente
existente nos tempos antigos da Igreja bizantina e mesmo na Síria e no Egito
faz pressupor não um sacramento, senão a entrega de um mandato para determinado
serviço. Era semelhante aos atuais ritos de instituição do acólito, do leitor e
do ministro extraordinário da comunhão eucarística, ou às anteriores
"ordens menores" (acólito, leitor, ostiário, exorcista) e ao extinto
"subdiaconato". À pergunta sobre a realidade da existência das diaconisas,
responde um autor: "Mas a Igreja Primitiva não teve Diaconisas? Sim,
mas é consenso unânime nos documentos da Igreja Primitiva de que o termo
'diaconisas' não tem absolutamente nada a ver com o Sacramento das Sagradas
Ordens. Santo Epifânio dá um testemunho inquestionável a respeito da
não-ordenação de mulheres 'diaconisas'. Haviam apenas mulheres-anciãs e não
sacerdotizas no verdadeiro sentido da palavra, e sua missão era simplesmente
desempenhar funções de cuidados com outras mulheres [Haer. 1xxix. cap.
iii]." (VENNARI, Jonh. "Um Breve Catecismo sobre o Sacerdócio
Feminino"; in "Catholic Family News", fev. 2001, trad. por
Gercione Lima) Encontraremos farto material sobre as funções das antigas
diaconisas, que nenhum paralelo tinham com os homens ordenados a não ser o nome
diácono , em textos bastante antigos, dentre os quais destacam-se a
Didascália Siríaca e as Constituições Apostólicas, respectivamente do terceiro
e do quarto séculos. Conclusão Não há motivo para considerar injusta a negação da mulher à
Ordem. Pertence ao plano de Deus tal disposição, e foi manifestada
diversas vezes, no Antigo Testamento, Queira Deus abençoar este pequeno trabalho e, encontrando
alguém nele qualquer coisa que não seja digna da santidade da Igreja Católica
ou que com sua doutrina não se coadune, exorte-nos a que prontamente retiremos
tudo aquilo que a Deus não agrade. Submetemo-nos ao juízo infalível da Santa
Igreja, prometendo emenda do que não for ortodoxo e reto. Dedicamos esse artigo à Santíssima Virgem Maria,
prova viva e incontestável de que a Igreja não vê nas mulheres um ser inferior,
e que sua negação aos graus do sacramento da Ordem se dá por fidelidade a Deus
que ama a todos em suas diferenças. ADENDOS 1. O fundo da polêmica quanto à
ordenação feminina reside na concepção do que seja a Sagrada Ordem. Tendo-a
como sacramento, sinal visível de uma graça invisível, a Igreja Católica a
entende como algo que confere caráter indelével à alma. Ora, é preciso que haja
disposições exteriores e interiores para isso. E entre elas, no específico caso
da Ordem, que seja o ordenando do sexo masculino, por dois motivos: a) para
melhor personificar Cristo, de quem recebe o sacerdócio e a quem é intimamente
unido em virtude da ordenação, tornando-se um alter Christus, e um ícone
vivo de Nosso Senhor; b) para ser fiel à unânime Tradição e não contrariar a
disposição bíblica, segundo a qual Jesus chamou para o ministério apostólico,
de quem descendem os Bispos e seus cooperadores sacramentalmente ordenados,
somente homens. Crendo dessa maneira, está
refutada a idéia do sacerdócio feminino, somente concebível na visão
protestante, eis que para os reformadores todos os fiéis são igualmente
sacerdotes, não diferenciando, em sua teologia, o ordenado do comum fruto do
Batismo. O protestante pode, por
isso, assimilar muito mais facilmente a ordenação de mulheres, pois para ele
não se trata de um sacramento, e sim de um simples mandato conferido pela
igreja local a fim de que um dos seus lidere a comunidade, pregue a doutrina
que professam, e administre os ritos de uma maneira oficial. É o que
depreendemos de uma simples conferência ao pensamento luterano: "Enquanto
todos os cristãos têm parte igual nos tesouros da igreja, incluindo-se os
sacramentos, nem todos podem ser pastores, mestres ou conselheiros... Todo
cristão é ministro e tem o direito de pregar. Esse direito pode ser livremente
exercido se alguém estiver em meio a não-cristãos... Entretanto, numa
comunidade cristã, não se deve 'chamar atenção sobre si mesmo', assumindo tal
ofício por conta própria. Antes, deve-se 'deixar ser chamado e escolhido para
pregar e ensinar no lugar de outros e sob o comando deles'... 'O que lhe damos
hoje, podemos tirar amanhã.' O rito da ordenação não confere nenhum caráter
indelével à pessoa ordenada. É meramente a forma pública pela qual alguém é
comissionado mediante a oração, as Escrituras e a imposição de mãos, a fim de
servir à congregação... Lutero excluía mulheres, crianças e pessoas
incompetentes do ministério oficial da igreja, embora numa época de emergência
ele pudesse chamá-las a exercer tal ofício, em virtude de sua parcela no
sacerdócio de todos os cristãos." (GEORGE, Timothy. "Teologia dos
Reformadores", p. 97-98) Vê-se que a tentativa,
inútil é verdade, de introdução de uma classe ordenada de mulheres na Igreja, é
mais uma artimanha de protestantização da fé católica. Ordenar pessoas do sexo
feminino é romper com o ensino de que o padre é um legítimo sacerdote e que
está ligado a Cristo de uma maneira especial, pelo sacramento, a que nós,
leigos, muito embora pertencentes a Ele pelo sacerdócio comum dos fiéis, não
estamos. Sustentar a ordenação feminina é desacreditar que o padre católico não
é um mero representante oficial da Igreja, e sim um ícone de Jesus. Por fim, é
julgar-se mais sábio que o próprio Filho de Deus que, podendo escolher
mulheres, não o fez. "Cremos que a Missa,
celebrada pelo sacerdote, que representa a pessoa de Cristo, em virtude do
poder recebido no sacramento da Ordem, e oferecida por ele em nome de Cristo e
dos membros do seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário, que se
torna sacramentalmente presente em nossos altares." (Paulo VI. Credo do
Povo de Deus, 30) 2. No Rito da Ordenação,
encontram-se vários trechos que explicitamente expõem a doutrina católica do
sacrifício da Missa, da íntima união do ministro com Cristo Sumo-sacerdote, e
da pertença do ordenado a Ele tal como um ícone. Eis alguns exemplos, no rito
romano: À pergunta do Bispo
ordenante: "Queres unir-te cada vez mais ao Cristo, sumo sacerdote, que
se entregou ao Pai por nós, e ser com Ele consagrado a Deus a salvação dos
homens?" (Rito da Ordenação Presbiteral; Entrevista do Candidato) ,
responde o diácono que será ordenado sacerdote: "Quero, com a graça de
Deus." Também a oração própria da
ordenação liga o sagrado ministério ao sacerdócio do Antigo Testamento, que,
segundo São Paulo, oferecia um sacrifício simbólico e preparatório daquele que
Jesus iria oferecer no Novo, renovado, conforme o ensino de Trento, Mais explícita ainda, no que
se refere à disposição para o sacrifício de Cristo tornado novamente presente
na Missa, é a exortação do Bispo ao neo-sacerdote: "Nosso Senhor Jesus
Cristo, a quem o Pai ungiu com o Espírito Santo, e revestiu de poder, te guarde
para a santificação do povo fiel e para oferecer a Deus o santo
sacrifício." (Rito da Ordenação Presbiteral; Unção Crismal) O trabalho
do padre, na Missa, é ser continuador da Cruz: "Recebe a oferenda do
povo para apresentá-la a Deus. Toma consciência do que fazes e põe em prática o
que vais celebrar, conformando tua vida ao ministério da cruz do Senhor."
(Rito da Ordenação Presbiteral; Entrega das Oferendas) Haveria ainda muitos outros,
tirados dos ritos orientais e do próprio rito romano, além de textos de
liturgias ocidentais celebradas em locais particulares (rito moçárabe, rito
ambrosiano, rito bracarense). 3. Procurando preservar a
doutrina católica, da qual a Igreja não é dona, senão guardiã, a Sagrada
Congregação para a Doutrina da Fé lançou uma séria advertência, com ameaça de
excomunhão inclusive, para os participantes de uma simulação de ordenação de
mulheres ocorrida recentemente. Dizemos "simulação", pois o
sacramento da Ordem não pode ser conferido às mulheres, mesmo que todos os
ritos sejam seguidos fielmente. É uma questão de impedimento e não de simples
negação arbitrária de Roma. Abaixo o texto do Monitum do
Vaticano sobre o assunto: "MONITUM" VATICANO
SOBRE UMA ORDENAÇÃO SIMULADA DE SACERDOTISAS No dia 29 de junho passado,
Rômulo Antonio Braschi, fundador de uma comunidade cismática, pretendeu
conferir a ordenação sacerdotal às seguintes mulheres católicas: Christine
Mayr-Lumetzberger, Adelinde Theresia Roitinger, Gisela Forster, Iris Müller,
Ida Raming, Pia Brunner e Angela White. Com o objetivo de orientar a
consciência dos fiéis e dissipar qualquer dúvida sobre a matéria, a Congregação
para a Doutrina da Fé quer recordar que, segundo a Carta Apostólica
"Ordinatio Sacerdotalis", de João Paulo II, a Igreja "não tem, de
modo algum, a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e este
ditame deve ser considerado como definitivo por todos os fiéis da Igreja"
(nº 4). A "ordenação
sacerdotal" [ali] realizada não é senão a simulação de um sacramento e,
por isso, resulta inválida e nula, e constitui um grave delito contra a
constituição divina da Igreja. Já que o bispo "ordenante" pertence a
uma comunidade cismática, trata-se, ademais, de uma grave ofensa contra a
unidade da Igreja. Assim mesmo, o sucedido, ao invés de contribuir, prejudica a
uma autêntica promoção da mulher, a qual ocupa um lugar peculiar, específico e
insubstituível na Igreja e na sociedade. Com a presente, considerando
as declarações do Bispo de Linz e da Conferência Episcopal Austríaca a esse
respeito, adverte-se formalmente, conforme a norma do cânon 1.347, §1º, do
Código de Direito Canônico, às mulheres acima mencionadas, que incorrerão na
excomunhão reservada à Santa Sé se, antes de 22 de julho de 2002, não
reconhecerem, primeiro, a nulidade das "ordens" recebidas de um bispo
cismático e em contrariedade com a doutrina definitiva da Igreja, e, segundo,
não se declararem arrependidas e pedirem perdão pelo escândalo causado entre os
fiéis. Roma, da sede da Congregação
para a Doutrina da Fé, em 10 de julho de 2002. Joseph Card. Ratzinger Prefeito Tarcisio Bertone, S.D.B. Arcebispo emérito de
Vercelli, Secretário
Para citar este artigo:
BRODBECK, Rafael Vitola. Apostolado Veritatis Splendor: A MULHER E O SACRAMENTO DA ORDEM. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/3882. Desde 6/23/2006.