Respostas Católicas

Qual é o objetivo do movimento pró-eutanásia?

INTRODUÇÃO

A mentalidade utilitarista que trouxe a anticoncepção, a esterilização, os anticoncepcionais abortivos e o aborto quirúrgico apenas pode trazer este resultado final: uma vez que a sociedade compromete o supremo direito a vida; uma vez que declara que pode dispor de certas classes de seres humanos; e uma vez que calcula o valor de cada vida humana, a progressiva e mortal desumanização de outros seres humanos por parte daqueles que detêm o poder continuará vigente até que a sociedade se autodestrua ou regresse a uma ética de sacralidade da vida humana.

Os últimos passos no caminho “progressista” sempre foram os mais fáceis, como vimos que ocorreu com o aborto, a anticoncepção e o controle demográfico. Porém, o primeiro passo para o abismo escorregadio é o mais difícil: uma vez destruídas as defesas da sociedade, esta cairá bruscamente a tal velocidade, que será muito difícil detê-la ou fazê-la voltar atrás.

PASSO 1: “O TESTAMENTO DURANTE A VIDA”

O “testamento durante a vida” é um documento pelo qual o signatário autoriza que lhe seja praticada a eutanásia.

Muitos ativistas pró-eutanásia consideram o “testamento durante a vida” apenas como o primeiro passo no caminho para a aprovação da eutanásia involuntária, destinada àqueles que são considerados “inúteis para a sociedade”. Esses ativistas sabem que se conseguirem obter da sociedade este primeiro passo crítico, todos os passos seguintes (pouco importando quantos e quão largos sejam) serão bem mais fáceis de serem aprovados.

Como disse Derek Humphry, ativista pró-eutanásia e fundador da Sociedade Hemlock (Hemlock Society): “Precisamos avançar passo a passo com o testamento durante a vida, com o poder que é conferido ao advogado, com a retirada deste [ou daquele meio que lhe conserva a vida etc.]; temos que avançar passo a passo. Vosso lado [=o lado pró-vida] o denominará de ‘abismo escorregadio’ (…) Diríamos nós: ‘Procedam com cautela, vendo como manejar esta difícil situação no processo'”.

O título de um artigo do jornal USA Today, de 16 de agosto de 1985, que era um compêndio de entrevistas com ativistas pró-eutanásia, dizia tudo: “‘O primeiro passo é o testamento durante a vida’, diz grupo favorável à eutanásia”.

Uma vez aceita pela sociedade o “testamento durante a vida”, altera-se completamente a maneira de se medir o valor do homem.

A ética da “sacralidade da vida” sustenta que cada ser humano deriva seu valor do fato de ter sido criado à imagem e semelhança de Deus. Pelo simples fato de cada pessoa possuir uma alma imortal, todas devem ser tratadas de igual modo.

Em contraste, a ética da “qualidade de vida” muda o enfoque do espiritual para o material, do mental para o emocional. A utilidade de uma pessoa para a sociedade, para a sua família e, inclusive, para si mesma, é medida pelas condições de seu corpo ou de sua mente.

Ao contrário da ética da “sacralidade da vida”, a ética da “qualidade de vida” é o pior passo que um povo pode dar. Uma vez ocorrida esta transformação, esse povo pode justificar qualquer atrocidade, disfarçando-a sob a máscara de “compaixão” e “realidade”. Podemos dizer verdadeiramente que, uma vez aceito pela sociedade o “testamento durante a vida”, terá esta percorrido nove décimos do trajeto para a eutanásia involuntária.

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PASSO 2: ENTANÁSIA PASSIVA, SUICÍDIO ASSISTIDO E EUTANÁSIA ATIVA

O “testamento durante a vida” é tão somente o primeiro dos três grandes passos da estratégia em prol da eutanásia. O segundo é a eutanásia passiva, seguida do suicídio assistido e da eutanásia ativa voluntária. O terceiro passo é a eutanásia involuntária.

A eutanásia passiva voluntária (ou seja, a privação da pessoa da comida, água e oxigênio) é apenas um passo intermediário. As pessoas a quem se lhes negam as necessidades vitais morrem, em agonia, em um período que pode atingir duas semanas.

Os ativistas pró-eutanásia, como Jack Kevorkian, têm dito que fazer alguém morrer por inanição ou sede, como já ocorre [em alguns países], é uma barbaridade. No entanto, a Corte Suprema [dos Estados Unidos] tem considerado válida esta barbárie.

Os nazistas fizeram isso nos campos de concentração. Calculava-se que levava uma semana para fazer alguém morrer desta maneira. A pergunta é: pode-se imaginar que alguém não sofra apenas por se encontrar em estado de coma?

O lobby pró-eutanásia defende o suicídio assistido e a eutanásia direta, na qual o paciente morre em razão de uma injeção letal. Este tipo de morte direta foi proposta pela Iniciativa nº 119 do Estado de Washington (EUA) e os votantes a rejeitaram em novembro de 1990.

O dr. Jack Kevorkian conseguiu, porém, que o segundo passo acima mencionado se tornasse uma realidade. Este patólogo aposentado do Estado de Michigan (EUA) ajudou várias pessoas a cometer suicídio e deixou bem claro que pretende criar uma rede de clínicas de eutanásia (obitoriums) em todo o país (EUA). Outro dos líderes ativistas pró-eutanásia, o dr. Julius Hackethetal, afirmou que a meta final é alcançar “o direito universal a morte”. E acrescentou: “O Congresso da Sociedade Hemlock ajudará assim aos direitos evidentemente humanos da morte digna, para que se convertam em lei em todo o mundo”.

Lamentavelmente, semelhante “direito humano” sem dúvida alguma automaticamente causará com que todos possam, por si mesmos, determinar a hora e a forma como preferem morrer.

Um ponto crítico que deve ser enfatizado tem a ver com a Constituição e a Suprema Corte dos Estados Unidos. Com efeito, considerando que o dito Tribunal outorgou um “novo direito humano fundamental”, “condizente” com a Constituição dos Estados Unidos, a um grupo de pessoas, como o (falso) “direito” a anticoncepção e ao aborto, então agora, segundo esse equivocado critério, torna-se inconstitucional negá-lo a outro grupo. Isso significa que se os doentes incuráveis receberem o (também falso) “direito” a eutanásia, tornar-se-á inevitável que as Cortes estendam tal “direito” a todos os demais cidadãos dos Estados Unidos.

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Os ativistas anti-vida primeiro justificaram a anticoncepção e o (mal chamado) “direito” ao aborto apenas para os casos de estupro, incesto, má-formação fetal etc. (apenas para estes casos, sendo que nenhum outro caso seria justificado); porém, depois de cinco anos, este direito foi estendido, com máxima amplidão, para incluir qualquer outro motivo, em qualquer etapa da gravidez.

Com efeito, agora estão justificando a eutanásia para os casos mais difíceis de doentes terminais, pessoas em estado de coma ou aquelas pessoas que também sofrem dores insuportáveis; posteriormente, estenderão, sem dúvida, o (também falso) “direito” a eutanásia – como já fizeram com o aborto – para que qualquer pessoa de qualquer idade possa se matar com o “auxílio” de um “médico da morte”.

PASSO 3: EUTANÁSIA INVOLUNTÁRIA

Não resta dúvida alguma de que o objetivo final do movimento pró-eutanásia é a eutanásia involuntária ativa daquelas pessoas incapacitadas que não desejam morrer ou que são incapazes de se defenderem. Muitos grupos pró-eutanásia admitiram que buscam essa finalidade. Com efeito, George Grile, médico-chefe de cirurgia da Clínica de Cleveland (EUA), declarou: “Para ver o problema de saúde objetivamente, o que precisamos é de um conceito colonial de homem semelhante ao das abelhas e das formigas, as quais, igualmente como nós, são bastante especializadas e são tão dependentes umas das outras que nenhuma delas pode sobreviver sozinha por muito tempo. Nas colméias e formigueiros não dispensam cuidados especiais para com as incapazes e as idosas; estas são condenadas para o bem-estar geral da colônia”.

O dr. Mark Siegler, diretor do Centro Clínico de Ética da Universidade de Chicago (EUA), disse: “Iniciemos por despachar os doentes terminais e os que estão, sem esperança, em estado de coma. Logo, talvez, nossos projetos se dirigirão aos senis, aos bem idosos e decrépitos e – por que não? – também aos jovens e crianças profundamente retardadas”.

E o dr. William Gaylin, professor de psiquiatria e leis da Universidade de Columbia (EUA), disse: “Sempre foi fácil saber o que queríamos para os nossos filhos; agora, talvez o melhor para eles signifique decidir a quem devem matar. Sempre quisemos o melhor para os nossos avós; agora, isso talvez signifique matá-los”.

Finalmente, o dr. John Goundri descreve o principal propósito deste caminho: “Uma pílula mortal estará ao alcance de todos e talvez seja obrigatória até o final do século”.

Assim como os nazistas experimentaram e os médicos comunistas fizeram o mesmo com as suas vítimas, porque – diziam eles – de qualquer maneira iam mesmo morrer, assim também um certo número de promotores da eutanásia tem pedido para que se realizem experiências com pessoas em estado de coma.

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Um destes especialistas em bioética pró-eutanásia, William Gaylin, ex-presidente do Instituto Hastings, gostaria de ver pessoas em estado de coma (a quem chama de “neo-mortos”) disponibilizados em lugares especiais para “colher” órgãos e realizar experiências. “A idéia se baseia em redefinir o conceito de morte e manter bancos de corpos com um status de morte legal, porém com qualidades que hoje associamos aos vivos”, escreve Gaylin. “Os neo-mortos proporcionariam uma constante quantidade de medulas, cartílagos e pele. Também seria possível extrair hormônios, antitoxinas e anticorpos produzidos nos neo-mortos”, propõe Gaylin.

Vocábulos como “neo-mortos” são excelentes exemplos da macabra engenharia verbal empregada para promover a engenharia social, como já ocorreu com o aborto e a anticoncepção.

Devemos aprender a lição porque o movimento pró-eutanásia se desenvolve em muitos países ocidentais. Aqueles que estão combatendo a “cultura” da morte devem aprender com aqueles que cometeram erros graves no que se refere à vida humana. Devemos aprender uma lição com a experiência que tiveram em relação à eutanásia os alemães, os habitantes dos Países Baixos, os norte-americanos e os australianos, para que não repitamos sua macabra experiência.

O dr. Alexander, doutor em psiquiatria do Colégio Médico de Tufts, que atuou como conselheiro da Secretaria de Guerra e que esteve no staff do conselho principal que julgou os crimes de guerra em Nuremberg, disse: “Quaisquer que sejam as proporções dos crimes cometidos, ficou evidente para todos os que os investigaram, que estes crimes começaram pequenos. No princípio, tudo era um sutil desvio nas atitudes básicas dos médicos. Tudo começou porque se aceitou essa atitude básica no que se refere ao movimento pró-eutanásia; em síntese: pensou-se que a vida não valia a pena ser vivida. Esta atitude inicial teria a ver com os doentes graves e crônicos. Gradualmente, a esfera desta categoria se estendeu até abranger aqueles que não produziam na sociedade, as raças indesejadas e, finalmente, a todos os que não eram alemães. Porém, é importante dar-nos conta de que, por infinitamente pequena que seja esta corrente de pensamento, a ênfase é a atitude para com os enfermos que jamais poderão ser curados”.


Obs.: Este artigo é uma tradução resumida do capítulo intitulado “What Are the Ultimate Goals of the Pro-Euthanasia Movement?” (pp. 141-145), do livro “The Facts of Life”, de Brian Clowes, PhD, publicado em 1997 pela Human Life International (Front Royal, Virgínia, EUA). O dr. Clowes é diretor do Instituto de Capacitação Pró-Vida e Pró-Família da Human Life International. O livro pode ser adquirido no seguinte endereço: Vida Humana Internacional, 4345 S.W. 72 Avenue, Suite E, Miami, FL 33155, USA. Telefone: (305) 662-1467; Fax: (305) 662-1499; ou pelo site: http://www.vidahumana.org